DOCUMENTAÇÃO

CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA

 

 

A PSICOLOGIA NO DISCERNIMENTO E NA FORMAÇÃO

DOS CANDIDATOS AO SACERDÓCIO

 

 

Em 30 de Outubro passado foi apresentado na Santa Sé um documento publicado com data de 29-VI-08 pela Congregação para a Educação Católica: «Orientações para o uso da psicologia na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio».

Damos a seguir um excerto que mostra a sua importância.

 

5. Como fruto de um particular dom de Deus, a vocação para o sacerdócio e o seu discernimento escapam à estrita competência da psicologia. Todavia, para uma apreciação mais segura da situação psíquica do candidato, das suas aptidões humanas para responder ao chamamento divino, e para um auxílio posterior no seu crescimento humano, nalguns casos pode ser útil o recurso a especialistas em ciências psicológicas. Estes podem oferecer aos formadores não só um parecer sobre o diagnóstico e a eventual terapêutica das perturbações psíquicas, mas também um contributo no apoio ao desenvolvimento das qualidades humanas, sobretudo requeridas pelo exercício do ministério [1], sugerindo itinerários aptos para favorecer uma resposta vocacional mais livre.

Também a formação para o sacerdócio deve ter em conta quer as múltiplas manifestações daquele desequilíbrio que está radicado no coração do homem [2] – e que tem uma particular manifestação nas contradições entre o ideal de oblação, ao qual o candidato conscientemente aspira, e a sua vida concreta –, quer as dificuldades próprias de um progressivo desenvolvimento das virtudes morais. O auxílio do director espiritual e do confessor é fundamental e imprescindível para superá-las com a graça de Deus. Nalguns casos, porém, o desenvolvimento dessas qualidades morais pode ser impedido por particulares feridas do passado, ainda não curadas.

De facto, aqueles que hoje pedem para entrar no Seminário reflectem, de modo mais ou menos acentuado, a dificuldade de uma mentalidade emergente caracterizada pelo consumismo, pela instabilidade nas relações familiares e sociais, pelo relativismo moral, por visões erradas da sexualidade, pela precariedade das opções, por uma sistemática negação dos valores, sobretudo por parte dos meios de comunicação sociais.

Entre os candidatos podem-se encontrar alguns que provêm de experiências particulares – humanas, familiares, profissionais, intelectuais, afectivas – que, de várias maneiras, deixaram feridas ainda não curadas e que provocam perturbações, desconhecidas no seu real alcance pelo próprio candidato e, frequentemente, por ele atribuídos erroneamente a causas externas a si, sem ter, portanto, a possibilidade de as enfrentar adequadamente [3].

É evidente que tudo isto pode condicionar a capacidade de progredir no caminho formativo para o sacerdócio.

«Si casus ferat» [4] – ou seja, nos casos excepcionais que apresentam dificuldades particulares –, o recurso a especialistas em ciências psicológicas, quer antes da admissão ao Seminário quer durante o caminho formativo, pode ajudar o candidato na superação daquelas feridas, em vista de uma cada vez mais estável e profunda interiorização do estilo de vida de Jesus Bom Pastor, Cabeça e Esposo da Igreja [5].

Para uma correcta apreciação da personalidade do candidato, o especialista poderá recorrer a entrevistas ou a testes, agindo sempre com o prévio, explícito, informado e livre consentimento do candidato [6].

Considerada a particular complexidade da questão, deverá ser evitado o uso de especializadas técnicas psicológicas ou psicoterapêuticas por parte dos formadores.

 

 

[1]  Cf. Optatam totius, n. 11: AAS 58 (1966), 720-721.

 

[2]  Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo actual (7 de Dezembro de 1965), n. 10: AAS 58 (1966), 1032-1033.

 

[3]  Para compreender melhor estas afirmações, é oportuno referir-se às seguintes afirmações de João Paulo II: «O homem, pois, traz em si o germe da vida eterna e a vocação em fazer seus os valores transcendentais; ele, porém, continua interiormente vulnerável e dramaticamente exposto ao risco de falhar na sua vocação, por causa de resistências e dificuldades que encontra no seu caminho existencial, no nível consciente, em que está envolvida a responsabilidade moral, e no nível subconsciente, e isso tanto na vida psíquica ordinária como naquela marcada por psicopatologias leves ou moderadas, que não influem substancialmente na liberdade da pessoa de tender a ideais transcendentes, escolhidos de modo responsável» (Alocução para a Rota Romana [25 de Janeiro de 1988]: AAS 80 [1988], 1181).

 

[4]  Cf. Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis, n. 39; Congregação para os Bispos, Directório para o Ministério Pastoral dos Bispos Apostolorum Successores (22 de Fevereiro de 2004), n. 88.

 

[5]  Cf. Pastores dabo vobis, n. 29d: AAS 84 (1992), 704.

 

[6]  Cf. S. Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares, Instrução sobre a actualização da formação para a vida religiosa (6 de Janeiro de 1969), n. 11 § III: AAS 61 (1969), 113.

 


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