ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

25 de Março de 2009

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Alegrai-vos, ó Virgem Maria, M. Luís, NCT 647

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Anunciação do Senhor marca o momento temporal para o qual se encaminhava toda a Historia humana, Antiga Aliança, e a partir do qual começa uma Humanidade renovada pela Aliança Nova com Deus. Maria colabora de modo singular na Encarnação de Jesus Cristo e na sua Obra Redentora e também nos somos chamados a colaborar na Missão do Redentor.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria, concedei-nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Profeta Isaías anuncia, movido pelo Espírito Santo, um Sinal de Deus, que só virá a acontecer séculos mais tarde: o Mistério da concepção virginal de Maria: e a Encarnação do Filho de Deus. O Mistério da Encarnação é a mais plena manifestação do Amor de Deus pelos homens.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11«Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (connosco Deus), um «menino» descrito com traços que, excedendo tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), lhe dão um carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, por mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente no mesmo momento) que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David, em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco). Ainda que, num primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele pode ser considerado como uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião); e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto! A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».

 

Salmo Responsorial     Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: O Salmo que iremos rezar é um salmo messiânico em que o autor oferece a Deus não um sacrifício de coisas materiais mas o sacrifício da própria obediência a Deus. Isto se aplica de modo eminente a Jesus Cristo, mas também deve poder dizer-se de cada um de nos

 

Refrão:         Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes–me os ouvidos;

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O autor da Carta aos Hebreus explica aos cristãos procedentes do judaísmo como todo o culto e os sacrifícios rituais da Antiga Lei eram preparação do único e verdadeiro Sacrifício Redentor oferecido por Jesus Cristo. Esse Sacrifício se torna presente em cada Eucaristia

 

Hebreus 10, 4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz (cf. Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Aclamação ao Evangelho         Jo 1, 14ab

 

Monição: Contemplemos com admiração e agradecimento a cena da Anunciação narrada por S. Lucas, e tornemo-nos mais conscientes de que também nos somos chamados a colaborar com Deus na Obra da Salvação

 

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

O Verbo fez–Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a Sua glória.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A narrativa da Anunciação reveste-se duma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias exigira (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e a expressão «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem mais um fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto grego admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus. Chamando-se «serva do Senhor», é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

Sugestões para a homilia

 

1. O Mistério da Encarnação, plenitude do tempo

2. O Mistério da Encarnação e a Eucaristia

3. O Mistério da Encarnação e a colaboração de Nossa Senhora

1.O Mistério da Encarnação, plenitude do tempo

A Igreja celebra na Solenidade da Anunciação do Senhor o acontecimento central da Historia humana. «Ao chegar a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher» (Gal 4, 4) escreve S. Paulo. E comenta o Papa João Paulo II: «A plenitude do tempo identifica-se com o mistério da Encarnação do Verbo, Filho consubstancial ao Pai, e com o mistério da Redenção do mundo» (Às portas do terceiro milénio, nº1).

É o mistério da Encarnação do Filho de Deus, o evento que leva o tempo à sua plenitude. Em Cristo a eternidade divina encarna no tempo humano e por isso Ele é o centro da Historia. Todo o passado está orientado para Ele; e todo o futuro, depois de Cristo, tem sentido e valor em referência a Ele. Alem disso, o tempo adquire, a partir da Encarnação, uma qualidade transcendente. Cada presente histórico não olha Cristo como um passado mas como um presente. Esta contemporaneidade de Cristo com todos os tempos históricos depois da Encarnação não é só de Cristo em si mesmo, glorioso, porque vive eternamente; é também contemporaneidade dos mistérios da sua Vida, Morte e Glorificação, verdadeiramente presentes em mistério (sacramentalmente) na vida da Igreja (cfr. F. Ocariz e A. Blanco, Revelación, Fe y Credibilidad, Palabra, pgs. 97-99).

É este o grande Sinal que profetiza Isaías, inspirado pelo Espírito Santo. O grande Sinal, a máxima expressão do Amor misericordioso de Deus pelos sus filhos, é que Deus está, agora, connosco, e a Criação e a Humanidade inteiras foram renovadas.

2. O Mistério da Encarnação e a Eucaristia

O autor da Carta aos Hebreus contempla o Mistério da Encarnação e a sua finalidade redentora. Também a Igreja contempla, diariamente, na oração do Angelus o Mistério da Encarnação, e todos nos maravilhamos da simplicidade com que se realiza o acontecimento mais grandioso e transcendente da Historia humana. Deus Amor infinito, humilha-Se, tomando natureza de criatura, e vem a habitar entre nos, nascendo como todos os homens. Desde o primeiro instante da Encarnação do Filho de Deus inicia-se também a obra da nossa Salvação. Toda a vida de Cristo é Redentora.

Os mistérios da Encarnação e da Redenção se tornam presentes no mistério do Sacrifício Eucarístico que agora celebramos. O Filho de Deus fez-Se «carne» para poder sofrer por nos e para que o seu corpo fosse alimento para as nossas almas. Jesus glorioso, de aqui a pouco presente sobre o altar, é também Jesus Vitima, oferecido e ressuscitado. Cada vez que é celebrada a Santa Missa a graça alcançada por Cristo na Redenção é comunicada a todos os cristãos, em graus diversos. Acontece algo semelhante à transmissão da energia produzida por uma potente central eléctrica. A electricidade percorre toda a rede comunicando-se a todos os receptores que a ela se encontram ligados. Para além de todos os aparelhos que aproveitam o fluido eléctrico, pode haver, também lâmpadas fundidas, interruptores desligados, aparelhos que precisam de conserto; alem disso os receptores mais próximos (nos que participamos estando presentes na celebração) recebem a energia eléctrica com maior intensidade, que outros mais distantes.

Demos graças a Deus constantemente pelo seu Amor paternal, mas de modo mais intenso e consciente quando participamos na Celebração Eucarística.

3. O Mistério da Encarnação e a colaboração de Nossa Senhora

O Mistério da Encarnação do Filho de Deus tornou-se possível mediante a colaboração rendida e plena da «humilde donzela de Nazaré» como gostava de chamar a Nossa Senhora S. Josemaria. A disponibilidade imediata de Maria para acolher os planos de Deus para a sua vida é um exemplo para nos. Em primeiro lugar não esqueçamos que cada vida humana é um dom de Deus, e todo filho deve ser acolhido pelos pais com alegria e agradecimento, pelo grande tesouro que Deus lhes confia. Mas todos, pais e filhos, devemos estar atentos a discernir o projecto global de Deus para nossa vida (vocação) e as concretizações praticas de esse projecto ao longo do tempo, para responder com um “faça-se”contínuo e agradecido.

Deus quer unir todos os homens ao seu Filho pela graça baptismal que nos torna filhos de Deus em Cristo e confere a nossa vida um sentido de missão. A Missão de Cristo, salvar todas as almas, é a nossa missão, é o verdadeiro fim e sentido da nossa vida. Vivendo como bons filhos de Deus já estamos a colaborar na Redenção de Cristo, mas não esqueçamos que Nosso Senhor nos enviou a todos os cristãos a anunciar Cristo e o Amor de Deus por nos, a todas as criaturas. É bom que nos perguntemos a quantas pessoas ao longo da nossa vida ajudamos já a aproximar-se mais de Deus, e a quem poderíamos ajudar agora. Nossa Senhora está sempre a nosso lado e nos alcança de Deus as graças necessárias para sermos eficazmente apostólicos junto de esses seus filhos mais necessitados.

 

 

Diz-se o Credo. Às palavras  e encarnou ..., ajoelha-se.

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos em Cristo

unidos pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas,

dizendo (ou cantando):

 

R. Pela Vossa Encarnação, ouvi-nos Senhor.

Ou: Interceda por nós a Virgem cheia de graça.

Ou: Interceda por nós a Mãe do Verbo Encarnado

 

1.  Para que a Igreja dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que o papa Bento XVI, os bispos, os presbíteros e os diáconos:

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que em Cristo, servo obediente,

que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, irmãos

 

4.  Para que aos pobres e a todos os que sofrem

seja feita justiça, não lhes falte o necessário

e se reconheça em eles o rosto de Cristo,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do “Emanuel”,

que nos foi dada por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que os cristãos de todas as igrejas,

particularmente da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, irmãos.

 

 

Infundi, Senhor a vossa graça em nossas almas,

para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Maria

nos levem a contemplar a vossa glória

Por Cristo, nosso Senhor

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Anjo do Senhor, M. Simões, NRMS 31

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Saudação da paz

 

Monição da Comunhão

 

Nossa Senhora foi concebida sem pecado para receber o Filho de Deus. Peçamos a sua ajuda para receber a Sagrada Comunhão com as melhores disposições; e se no estivermos em condições de comungar acudamos quanto antes ao sacramento da confissão

 

Cântico da Comunhão: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

Is 7,14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor fez em mim maravilhas, Az. Oliveira, NRMS 45

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado é o «Emanuel», Deus connosco. Reavivemos a consciência de que Jesus está em todas as circunstâncias junto de nos, e, com a sua ajuda, vivamos como bons filhos de Deus.

 

Cântico final: Avé Maria Senhora, F. da Silva, NRMS 81

 

 

Homilias Feriais

 

5ª Feira, 26-III: Os nossos intercessores junto do Pai.

Ex 32, 7-14 / Jo 5, 31-47

(Moisés): Deixai cair a vossa ardente indignação, renunciai ao castigo que quereis dar ao vosso povo.

Depois do povo ter adorado o bezerro de ouro, Moisés intercede junto de Deus para que desista do castigo (cf Leit).

No nosso caso o intercessor é Jesus. É o nosso Advogado: «Não penseis que vou acusar-vos ao Pai» (Ev). E, além disso, Ele oferece-se ao Pai como Vítima para apaziguar a sua indignação. «Ele quis deixar à Igreja um sacrifício visível, aplicando a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que nós cometemos cada dia» (CIC, 1366).

 

6ª Feira, 27-III: A cooperação na Paixão de Cristo.

Sab 2, 1. 12-22 / Jo 7, 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus, Deus estará a seu lado… condenemo-lo a morte infamante, pois ele diz que será socorrido.

Estes pensamentos dos ímpios (cf Leit) são uma profecia do que aconteceu a Cristo:

«Os judeus procuravam dar-lhe a morte» (Ev).

O Senhor aceitou livremente a sua Paixão e morte, por amor do Pai e dos homens, a quem o Pai quer salvar. E a todos nos quer associar a Ele: «De facto, quer associar ao seu sacrifício redentor aqueles mesmos que são os primeiros beneficiários. Isto realiza-se em sumo grau, em sua Mãe, associada mais intimamente do que ninguém, ao mistério do seu sofrimento redentor» (CIC, 618).

 

Sábado, 28-III: O Cordeiro pascal.

Jer 11, 18-20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura que teciam contra mim.

Foi João Baptista que aplicou a Jesus esta profecia do ‘Cordeiro de Deus’. «Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (cf Leit), sem abrir a boca, carregando os pecados das multidões, e o cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa» (CIC, 608).

Pensemos que «a morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal por meio do cordeiro que tira o pecado do mundo, e o sacrifício da nova Aliança, que restabelece a comunhão entre o homem e Deus» (CIC, 613).

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          Carlos Santamaria

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:                 Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial