TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

MATRIMÓNIO E FAMÍLIA

ANTE A ACTUAL CRISE NA EUROPA

 

 

Fórum Católico-Ortodoxo Europeu

 

 

 

Realizou-se em Trento (Itália) de 11 a 14 de Dezembro passado o primeiro fórum católico-ortodoxo europeu sobre «A família: um bem para a humanidade». No encontro, promovido pelo Conselho das Conferências Episcopais Europeias, participaram 30 representantes da Igreja Católica e das Igrejas Ortodoxas da Europa. No final, foi concordada uma declaração da qual «L’Osservatore Romano» (ed. port., 3-I-09) publicou alguns trechos.

A declaração reflecte de modo incisivo as actuais dificuldades de compreensão do matrimónio e da família, apresentando claramente a doutrina cristã.

Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

 

O matrimónio e a família pertencem à ordem da criação e não são um produto da mera decisão humana. Inscrita na própria natureza do ser humano, que nos foi revelada na Bíblia, a família, fundada no matrimónio, foi estabelecida por Deus como uma união entre um homem e uma mulher. A Bíblia apresenta-nos uma visão da família vista como uma unidade de amor que doa a vida, uma relação indissolúvel, aberta à vida.

Depois de ter delineado alguns elementos do magistério das nossas Igrejas, também sublinhámos quanto temos em comum. O mandamento de Deus em relação à primeira família humana permanece pertinente para todas as famílias sucessivas: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra» (Gen 1, 28). Os católicos e os ortodoxos estão de acordo sobre o facto de que a família constitui o único ambiente moral onde o dom da vida humana deveria ser transmitido através do acto conjugal.

Maternidade e paternidade

O ser humano é o único ser criado à imagem e semelhança de Deus e este facto constitui a sua dignidade particular. Nós não damos a vida a nós mesmos, e os pais não constituem a única fonte da vida humana, dado que a intervenção divina é necessária. A sacralidade da vida humana desde a concepção até à morte natural deveria ser plenamente respeitada.

Reconhecemos os documentos internacionais construtivos que apoiam a família. Por exemplo, o artigo 16 da Declaração Universal dos Direitos do Homem afirma que «a partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião» e que «a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado». No passado, a família e o nascimento dos filhos foram vistos como algo sagrado. Todavia, nos últimos anos, estas noções foram colocadas em dúvida. Está a decorrer um ataque para modificar a linguagem e introduzir elementos de ambiguidade nos documentos internacionais mediante a introdução ideológica da teoria do género.

A visão laicista, prevalecente na sociedade moderna, frequentemente mina desde a base a noção de maternidade vista corno vocação pessoal. Esta por vezes é desvalorizada. Nós, ortodoxos e católicos, juntamente, insistimos na sacralidade da maternidade e sobre a necessidade, por parte da sociedade, de a respeitar. As mães que ficam em casa deveriam receber um apoio, quer no sentido moral quer no económico. A sua missão não é de modo algum menos importante do que a de outras profissões respeitáveis. A maternidade é uma missão e como tal merece apoio e respeito incondicionado. A ideia da paternidade também é fundamental na sociedade e também precisa de ser redescoberta pela sociedade contemporânea. É impossível falar de uma sociedade fraterna sem paternidade.

A educação dos filhos

«O direito-dever educativo dos pais qualifica-se como essencial, ligado como está à transmissão da vida humana; como original e primário, em relação ao dever de educar dos outros, pela unicidade da relação de amor que subsiste entre pais e filhos; como insubstituível e inalienável e, portanto, não delegável totalmente a outros ou por outros usurpável» (Familiaris consortio, 36). A educação integral no interior da família, não é limitada simplesmente ao desenvolvimento dos dons naturais e das capacidades do filho, mas refere-se também aos valores espirituais, em particular à transmissão da fé. Os pais devem ser as primeiras testemunhas do Evangelho. Na vida da família aprendemos o significado da fé como a verdadeira luz que guia a vida de uma pessoa.

O ambiente mais apto para o harmonioso desenvolvimento da criança é a família, composta por um pai, uma mãe, irmãos e irmãs. Os outros organismos que ajudam a família na educação dos próprios filhos devem agir em colaboração com os pais, propagando os princípios e os valores cuja transmissão permanece sempre responsabilidade primária dos pais. No contexto da educação, frequentemente ouve-se falar dos direitos dos menores. É uma boa coisa, mas tais direitos devem ser sempre considerados no contexto do ambiente familiar.

O tema da educação sexual merece uma atenção particular. Também neste caso, os pais são os primeiros professores. O objectivo principal deste ensinamento está orientado para a formação dos jovens para o significado da vida matrimonial: «A educação para o amor como dom de si constitui também a premissa indispensável para os pais chamados a oferecer aos filhos uma clara e delicada educação sexual» (ibid., 37). Na família, onde vivemos a nossa primeira experiência de comunhão pessoal, somos introduzidos no amor em todas as suas dimensões: a família é o primeiro lugar da socialização pessoal. Além disso, os pais devem oferecer informações proporcionais a cada fase do desenvolvimento individual dos próprios filhos. Outras entidades, como a escola, por exemplo, constituem, neste sentido, uma ajuda para os pais (...).

Hoje, encontramo-nos a enfrentar uma certa ideologia cultural que surgiu com a revolução sexual do século passado. Ela deu origem a uma profunda crise na visão do que deve ser considerado vida humana e familiar. Trata-se de um grande desafio em relação à evangelização das Igrejas Cristãs, que estão atentas às necessidades do coração do ser humano e da sua chamada para a vida plena em Cristo.

A crise europeia

Entre as profundas mudanças da sociedade, emergiu recentemente uma profunda crise económica. A crise no sector bancário, financeiro e económico de hoje, constitui um dos indicadores de uma grande viragem na nossa sociedade mundial e europeia. Estamos todos, justamente, preocupados. Todavia, outro elemento vital desta viragem é constituído pela crise que atinge a vida da família. As tendências demográficas na Europa constituem sinais claros de uma crise muito maior que a financeira. A família, nascida do matrimónio entre um homem e uma mulher, que gera os filhos e uma extensa rede de relações, precisa de ser redescoberta como capital social precioso. Dirigimos um apelo aos líderes políticos e sociais para que enfrentem esta temática social importante antes que seja demasiado tarde. Se não se presta atenção a esta temática, a falta de fundos financeiros perderá importância em relação à carência de recursos sociais humanos que a família leva consigo.

Juntos, todos nós, católicos e ortodoxos, oferecemos as seguintes recomendações e dirigimos um apelo a todas as pessoas de boa vontade na sociedade para agir juntamente com eles, nos seguintes pontos:

Apelos

I. Existe uma necessidade muito urgente de redescobrir a cultura da família e do matrimónio. Estamos convencidos de que uma das causas principais da actual crise demográfica e de todas as crises correlacionadas consiste na rejeição desta cultura. Uma grande quantidade de energia deve ser investida na promoção da vida da família. A família tem necessidade de ser redescoberta por aquilo que pode oferecer à sociedade. (...)

II. Afirmamos que é apenas na relação com Deus que todos os seres humanos florescem na sua plena humanidade. Seguindo esta linha, é nossa convicção que, promovendo a instituição da família baseada no matrimónio entre um homem e uma mulher, a Europa permitirá o progresso desta célula fundamental da sociedade, que leva consigo um papel vital de libertação, realização e iluminação da sociedade. Reconhecer isto é o começo de uma renovação da nossa cultura europeia, que está a tentar abrir-se um caminho neste tempo de profunda busca espiritual. O nosso apelo aos líderes políticos e sociais é o seguinte: a família não é uma noção obsoleta! Se redescoberta da maneira justa, representa o futuro. Sem o amor recíproco na família, a nossa sociedade morre.

III. Afirmamos que, desde o momento em que doaram a vida aos próprios filhos, os pais gozam do direito natural, primário e inalienável de os educar. Eles devem ser reconhecidos como os primeiros e principais educadores e geralmente os mais aptos dos próprios filhos. Dirigimos um apelo às instituições políticas para que garantam o direito dos pais a educarem os próprios filhos em conformidade com as suas convicções morais e religiosas, tendo em conta as tradições culturais próprias da família. Isto inclui o direito a escolher livremente as escolas ou os meios necessários para educar os próprios filhos de acordo com as próprias convicções. De modo particular, a educação sexual constitui um direito fundamental dos pais e deve ser sempre realizada em conformidade com as suas escolhas e sob a sua supervisão.

IV. Vemos um grande perigo na aparente subordinação das necessidades dos filhos e do bem estar da família aos interesses económicos.

V. Dirigimos um apelo às instituições públicas para que garantam que as políticas em matéria de remuneração de trabalho sejam coerentes com a construção e a manutenção de uma família na dignidade. Isto pode ser obtido através de normativas fiscais que reconheçam a contribuição indispensável da família à sociedade. Seria preciso fazer de maneira que não fosse necessário que ambos os pais fossem necessariamente obrigados a trabalhar a tempo inteiro fora de casa, em prejuízo da educação dos filhos. Dirigimos um apelo às instituições públicas para que reconheçam e respeitem o trabalho da mãe no interior da habitação familiar, pois constitui um valor para a família e para a sociedade. A questão da «custódia dos menores» necessita de uma maior consideração, no interesse precípuo do menor.

VI. Por fim, chamamos a atenção para a escolha moral da qual depende o futuro da inteira humanidade. A sua essência é expressa como um ponto central da Aliança que Deus estabeleceu com a humanidade, realizada em Cristo: «Vê, ofereço-te hoje, de um lado, a vida e o bem; de outro, a morte e o mal. Recomendo-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos Seus caminhos, que guardes os Seus preceitos (...). Se assim fizeres, viverás, engrandecer-te-ás e serás abençoado pelo Senhor, teu Deus (...). Coloco diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe a vida, e então viverás com toda a tua posteridade» (Deut 30, 15-19).

 

 


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