A  abrir

O  DOM  DE  LÍNGUAS

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Uma observação interessante é a de que a maior parte das epístolas paulinas precedem a composição dos quatro Evangelhos. Habituados a ler primeiro os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos, somos levados, sem querer, a ver nas cartas de S. Paulo uma elaboração teológica posterior aos «Livros». Sem dúvida, o grande Apóstolo foi um privilegiado instrumento divino para a compreensão, aliás inesgotável, do anúncio evangélico, mas o que testemunham antes de mais as suas epístolas é, efectivamente, a existência de comunidades cristãs muito desenvolvidas ainda antes de correrem pelas igrejas os Sinópticos.

Passadas poucas décadas sobre a Ascensão, é impressionante verificar, por exemplo, como, na epístola a Timóteo, já se referem três gerações unidas pela fé - «que habitou primeiro em tua avó Loide e na tua mãe Eunice, e estou certo que habita também em ti» (2 Tim 1, 5). Comunidades cristãs de diferentes regiões e línguas, mas substancialmente idênticas e unidas entre si, e cujas problemáticas pastorais e sacramentais revelam já uma extraordinária maturidade. Extraordinária, diríamos, se nos ativéssemos à ideia de que foi ele o promotor de uma «igreja nova», «mais aberta» do que a «primitiva», o que ele próprio nega rotundamente e é manifesto nos Actos dos Apóstolos. Ele nada fez sem a aquiescência de Pedro e das «colunas» fundamentais da Igreja de Cristo.

A perfeita coerência doutrinal de S. Paulo com os restantes Apóstolos e Evangelistas, assim como o implícito conhecimento que revela dos fundamentos históricos só mais tarde relatados em livros, fazem-nos ver desde o princípio uma Igreja «primitiva» tão viva e orgânica como hoje e sempre. Desde o princípio «há um só Corpo e um só Espírito (…) uma só esperança (…) um só Senhor, uma só fé, um só baptismo» (Ef 4, 4-5). Não se descobre em todo o Novo Testamento nenhuma espécie de fractura doutrinal, moral ou disciplinar. Em diversos estilos, dirigidos a diversos públicos, em diversos tempos, tratando das mais diversas problemáticas, a sua harmonia de critérios é mais do que surpreendente; é sobrenatural. A assistência do Espírito Santo torna-se patente.

Embora tenha sido doloroso para os primeiros fiéis o desprendimento da «Lei» (cumprida e levada à perfeição em Jesus) e da expectativa de uma conversão geral do Povo escolhido - como é doloroso todo o parto -, o grande Apóstolo mostra-nos que a Igreja de Cristo foi sempre a mesma desde o seu nascimento pentecostal, e que assim rapidamente se expandiu, «cor unum et anima una», pelo inteiro orbe, do Oriente ao Ocidente.

Coube a S. Paulo primordialmente, é certo, a cristianização da cultura greco-romana, a inculturação que deu os mais abundantes frutos, mas todos os Apóstolos e discípulos tiveram de «inculturar» a fé por onde quer que fossem, com o «dom de línguas» que se manifestou logo na primeira hora da Igreja, e que não significou nem significará jamais qualquer tipo de divisão, mas, pelo contrário, a união das almas em Cristo, assim como a interpenetração e o enriquecimento de todas as culturas.

Como um dos fundadores da Europa e da chamada «civilização ocidental», o Apóstolo das Gentes continua, sem dúvida, a ser modelo de evangelização para todos os tempos. As diferenças de mentalidade e de costumes só lhe serviram para aprofundar mais na fé e aplicá-la com a maior pureza a todas as circunstâncias em que os cristãos estavam inseridos. 

 

                                                                                           

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial