SÍNODO DOS BISPOS

AS PROPOSTAS DO SÍNODO

 

As sessões de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus na Sagrada Escritura concluíram no sábado 25 de Outubro passado com a aprovação de 55 propostas («propositiones») apresentadas a Bento XVI.

Por decisão do Papa, elas foram publicadas na versão italiana, provisória, no boletim do Sínodo dos Bispos. É a segunda vez que Bento XVI permite dar a conhecer as propostas do Sínodo; normalmente, seriam entregues ao Papa para que, com o restante material do Sínodo, possa preparar o documento pontifício pós-sinodal.

A lista final das propostas está estruturada em três partes.

Após uma introdução (nn. 1-2), a primeira parte tem como título «A Palavra de Deus na fé da Igreja» (nn. 3-13). A segunda parte trata da «Palavra de Deus na vida da Igreja» (nn. 14-37). A terceira parte refere-se à «Palavra de Deus na missão da Igreja» (nn. 38-54), terminando com a conclusão (n. 55) sobre Maria, Mãe de Deus e Mãe da fé.

Várias propostas falam da interpretação da Sagrada Escritura e de como ela ser Palavra de Deus actual para o fiel e para a Igreja – que foi o tema fundamental do Sínodo e motivou a intervenção do Santo Padre acima referida.

 

 

«A expressão Palavra de Deus é analógica. Refere-se antes de mais à Palavra de Deus em Pessoa que é o Filho Unigénito de Deus (…). A Palavra divina, já presente na criação do universo e em particular na do homem, revelou-se no decurso da história da salvação e é testemunhada por escrito no Antigo e no Novo Testamento. Esta Palavra de Deus transcende a Sagrada Escritura, embora esta a contenha de modo inteiramente singular. Sob a guia do Espírito, a Igreja guarda-a e conserva-a na sua Tradição viva e oferece-a à humanidade através da pregação, dos sacramentos e do testemunho de vida» (n. 3).

«No seu grande amor, Deus quis vir ao encontro da humanidade e tomou a iniciativa de falar aos homens chamando-os a partilhar a sua própria vida. A especificidade do cristianismo manifesta-se no evento Jesus Cristo, cume da Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o homem e Deus. (…) Para acolher a Revelação, o homem deve abrir a mente e o coração à acção do Espírito Santo que lhes faz compreender a Palavra de Deus presente nas Sagradas Escrituras. O homem responde a Deus em plena liberdade com a obediência da fé» (n. 4).

«As Sagradas Escrituras, sendo dom entregue pelo Espírito Santo à Igreja Esposa de Cristo, têm na Igreja o seu lugar hermenêutico próprio. O mesmo Espírito, que é Autor das Sagradas Escrituras, é também guia da sua recta interpretação na formação através dos tempos da fides Ecclesiae. O Sínodo recomenda aos pastores que recordem a todos os baptizados o papel do Espírito Santo na inspiração, na interpretação e na compreensão das Sagradas Escrituras» (n. 5).

«Para a interpretação do texto bíblico, não se deve descuidar a leitura patrística da Escritura, que distingue dois sentidos: literal e espiritual. O sentido literal é o significado pelas palavras da Escritura e encontrado mediante os instrumentos científicos da exegese crítica. O sentido espiritual diz respeito também à realidade dos eventos de que fala a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé, que implica a conexão intrínseca das verdades da fé entre si e na totalidade do desígnio da Revelação divina» (n. 6).

«Este Sínodo volta a propor com força a todos os fiéis o encontro com Jesus, Palavra de Deus feita carne, como evento de graça que volta a acontecer na leitura e na escuta das Sagradas Escrituras. Recorda S. Cipriano, que recolhe um pensamento compartilhado pelos Padres: 'Assiste com assiduidade à oração e à Lectio divina. Quando oras falas com Deus, quando lês é Deus que fala contigo'» (n. 9).

«Jesus orou com os Salmos e leu a Lei e os Profetas, citando-os na sua pregação e apresentando-se a si próprio como o cumprimento das Escrituras. O Novo Testamento extraiu constantemente do Antigo Testamento as palavras e as expressões que lhe permitem narrar e explicar a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Ao mesmo tempo, de resto, a sua morte e ressurreição 'deram a estes mesmos textos uma plenitude de significado antes inconcebível». Em consequência, a fé apostólica em Jesus é proclamada «segundo as Escrituras', e apresenta Jesus Cristo como o «sim» de Deus a todas as promessas. Por estas razões, o conhecimento do Antigo Testamento é indispensável para quem crê no Evangelho de Jesus Cristo, porque – segundo a palavra de Santo Agostinho – o Novo Testamento está escondido no Antigo e o Antigo está manifesto no Novo. Portanto, desejamos que, na pregação e na catequese, se tenham em devida conta as páginas do Antigo Testamento, explicando-as adequadamente no contexto da história da salvação, e se ajude o Povo de Deus a apreciá-las à luz da fé em Jesus o Senhor» (n. 10).

«O Sínodo propõe que a Congregação para a Doutrina da Fé esclareça os conceitos de inspiração e de verdade da Bíblia, assim como a sua recíproca relação, de modo que se compreenda melhor o ensinamento da Dei Verbum, 11. Em particular, é preciso pôr em relevo a originalidade da hermenêutica bíblica católica neste campo.» (n. 12).

«A homilia faz que a Palavra proclamada se actualize: 'Hoje cumpriu-se esta Escritura que escutastes com os vossos ouvidos'. Ela conduz ao mistério que se celebra, convida à missão e partilha as alegrias e as dores, as esperanças e os temores dos fiéis, dispondo assim a assembleia quer à profissão de fé (Credo), quer à oração universal da Missa. Deveria haver uma homilia em todas as Missas cum populo, mesmo durante a semana. É preciso que os pregadores (bispos, sacerdotes, diáconos) se preparem na oração, para que preguem com convicção e paixão. Devem fazer a si três perguntas: - O que dizem as leituras proclamadas? – O que me dizem a mim pessoalmente? O que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta? O pregador deve sobretudo ser o primeiro a deixar-se interpelar pela Palavra de Deus que anuncia. A homilia deve ser alimentada pela doutrina e transmitir o ensinamento da Igreja para fortalecer a fé, chamar à conversão no marco da celebração e preparar para a actualização do mistério pascal eucarístico» (n. 15).

«Continua a ser de grande actualidade e eficácia a hermenêutica bíblica proposta na Dei Verbum 12 que, para um adequado trabalho exegético, prevê dois níveis metodológicos, diferentes e correlativos. O primeiro nível corresponde, de facto, ao chamado método histórico-crítico que, na investigação moderna e contemporânea, foi utilizado amiúde com fruto e que entrou no campo católico, sobretudo a partir da encíclica Divino Afflante Spiritu  do Servo de Deus Pio XII. Este método torna-se necessário pela própria natureza da história da salvação, que não é uma mitologia, mas uma verdadeira história com o seu ápice na encarnação do Verbo, divino e eterno, que vem habitar o tempo dos homens. A Bíblia e a história da salvação exigem, portanto, serem estudadas também com os métodos da séria investigação histórica. O segundo nível metodológico, necessário para uma interpretação justa das Sagradas Escrituras, corresponde à natureza também divina das palavras humanas bíblicas. O Concílio Ecuménico Vaticano II justamente recorda que a Bíblia deve ser interpretada com o auxílio do mesmo Espírito Santo que guiou a sua redacção. A hermenêutica bíblica não pode considerar-se cumprida se – junto ao estudo histórico dos textos – não procura também de maneira adequada a sua dimensão teológica. A Dei Verbum identifica e apresentas as três referências decisivas para chegar à dimensão divina e, portanto, ao sentido teológico das Sagradas Escrituras. Trata-se do conteúdo e da unidade de toda a Escritura, da tradição viva de toda a Igreja e, finalmente, da atenção à analogia da fé. 'Somente onde se observam os dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico, se pode falar de uma exegese teológica, uma exegese adequada a este livro' (Bento XVI, 14-X-08)» (n. 25).

«O fruto positivo aportado do uso da investigação histórico-crítica moderna é inegável; ao mesmo tempo, porém, é necessário olhar para o estado dos estudos exegéticos actuais com um olhar atento também às dificuldades. Enquanto a actual exegese académica, também a católica, trabalha a um altíssimo nível no que se refere à metodologia histórico-crítica, incluso com as suas felizes e mais recentes integrações, não se poderia dizer o mesmo acerca do estudo da dimensão teológica dos textos bíblicos. Infelizmente, o nível teológico indicado pelos três elementos da Dei Verbum 12 muito frequentemente se vê quase ausente. A primeira consequência de tal ausência é que a Bíblia se converte para os leitores actuais num mero livro do passado, incapaz já de falar ao nosso presente. Nestas condições, a exegese bíblica corre o risco de se converter em pura historiografia e história da literatura. A segunda consequência, talvez ainda mais grave, é o desaparecimento da hermenêutica da fé indicada na Dei Verbum. Em lugar da hermenêutica crente insinua-se então, de facto, uma hermenêutica positivista e secularista que nega a possibilidade da presença e do acesso do divino na história do homem. Os Padres sinodais, enquanto agradecem sinceramente aos muitos exegetas e teólogos, que deram e dão uma ajuda essencial na descoberta do sentido profundo das Escrituras, pedem a todos um acrescido empenho para que seja alcançado com mais força e claridade o nível teológico da interpretação bíblica. Para chegar verdadeiramente àquele acrescido amor pelas Escrituras, desejado pelo Concílio, tratar-se-á de aplicar com maior cuidado os princípios que a própria Dei Verbum indicou com exaustividade e claridade» (n. 26).

«Para a vida e a missão da Igreja e para o futuro da fé no interior das culturas contemporâneas, é necessário superar o dualismo entre exegese e teologia. Infelizmente, não poucas vezes uma improdutiva separação entre exegese e teologia dá-se também nos níveis académicos mais altos. Uma consequência preocupante é a incerteza e a pouca solidez no caminho formativo intelectual também de alguns futuros candidatos aos ministérios eclesiais. A teologia bíblica e a teologia sistemática são duas dimensões daquela realidade única que chamamos teologia. Por conseguinte, os Padres sinodais dirigem com estima um chamamento, quer aos teólogos quer aos exegetas, para que, com uma colaboração mais clara e em sintonia, não deixem que falte a força das Escrituras à teologia contemporânea e não reduzam o estudo das Escrituras só à relevância da dimensão historiográfica dos textos inspirados. 'Onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia deixa de ter o seu fundamento' (Bento XVI, 14-X-08)» (n. 27).

«Por vezes surgem dificuldades na leitura do Antigo Testamento por causa de textos que contêm elementos de violência, de injustiça, de imoralidade e de escassa exemplaridade, também por parte de figuras bíblicas importantes. Requer-se, por isso, uma preparação adequada dos fiéis para a leitura destas páginas e uma formação que leia os textos no seu contexto histórico e literário, de modo que se favoreça a leitura cristã. Esta tem como clave hermenêutica central o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo cumprido no mistério pascal. Portanto, recomenda-se não descuidar a leitura do Antigo Testamento que, apesar de algumas dificuldades, é essencial para a compreensão plena da história da salvação» (n. 29). 

 


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