SÍNODO DOS BISPOS

CRITÉRIOS PARA A EXEGESE BÍBLICA

 

Bento XVI

 

 

Durante as congregações gerais do Sínodo dos Bispos, que decorreu no Vaticano de 5 a 26 de Outubro passado (cf. a Secção «A Palavra do Papa»), o Santo Padre limitava-se a escutar as intervenções dos participantes. Porém, no dia 14 de Outubro, Bento XVI interveio para tratar dos critérios fundamentais da exegese bíblica e pedir que se supere o afastamento entre exegese e teologia, que por vezes tem levado a uma leitura da Bíblia desligada da fé. O Papa falou durante uns dez minutos, com base no seu caderno de notas pessoais. A sua intervenção, recebida com um aplauso, sintonizava com o que fora dito por vários Bispos nos primeiros dias do Sínodo.

 

 

Caros irmãos e irmãs

 

O trabalho para o meu livro sobre Jesus oferece amplamente a ocasião para ver todo o bem que nos provém da exegese moderna, mas também para reconhecer os seus problemas e riscos. A Dei Verbum, 12 oferece duas indicações metodológicas para um adequado trabalho exegético. Em primeiro lugar, confirma a necessidade do recurso ao método histórico-crítico, do qual descreve brevemente os elementos essenciais. Esta necessidade é a consequência do princípio cristão formulado em Jo 1, 14: Verbum caro factum est. O acontecimento histórico é uma dimensão constitutiva da fé cristã. A história da salvação não é uma mitologia, mas uma verdadeira história e, portanto, deve ser estudada com os métodos de uma séria investigação histórica.

Todavia, esta história possui uma outra dimensão, a da acção divina. Por conseguinte, a Dei Verbum fala de um segundo nível metodológico, necessário para uma interpretação correcta das palavras, que são ao mesmo tempo palavras humanas e Palavra divina. Seguindo uma regra fundamental de toda a interpretação de um texto literário, o Concílio afirma que a Escritura deve ser interpretada no mesmo espírito em que foi escrita e indica, em consequência, três elementos metodológicos fundamentais, com a finalidade de ter em consideração a dimensão divina, pneumatológica, da Bíblia; ou seja, deve-se: 1) interpretar o texto tendo presente a unidade de toda a Escritura; hoje em dia, isto chama-se exegese canónica; na época do Concílio, este termo ainda não tinha sido cunhado, mas o Concílio diz a mesma coisa: é necessário ter presente a unidade de toda a Escritura; 2) além disso, deve-se ter presente a tradição viva de toda a Igreja; e, finalmente, 3) é preciso observar a analogia da fé. Somente quando se observam os dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico, se pode falar de uma exegese teológica – de uma exegese adequada a este Livro. Enquanto, a respeito do primeiro nível, a actual exegese académica se realiza a um altíssimo nível, oferecendo-nos realmente ajuda, não se pode dizer a mesma coisa acerca do outro nível. Com frequência, este segundo nível, constituído pelos três elementos teológicos indicados pela Dei Verbum, parece quase ausente. E isto tem consequências bastante graves.

A primeira consequência da ausência deste segundo nível metodológico é que a Bíblia se torna um livro só do passado. Podem tirar-se dele consequências morais, pode-se aprender a história, mas o Livro como tal fala só do passado, e a exegese deixa de ser realmente teológica, mas torna-se simples historiografia, história da literatura. Esta é a primeira consequência: a Bíblia permanece no passado, fala só do passado. Há também uma segunda consequência, ainda mais grave: quando desaparece a hermenêutica da fé indicada pela Dei Verbum, surge necessariamente um outro tipo de hermenêutica, uma hermenêutica secularizada, positivista, cuja clave fundamental é a convicção de que o Divino não aparece na história humana. Segundo esta hermenêutica, quando parece que existe um elemento divino, deve-se explicar de onde provém tal impressão e reduzir tudo ao elemento humano. Consequentemente, propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinos. Hoje o chamado mainstream da exegese na Alemanha nega, por exemplo, que o Senhor tenha instituído a Sagrada Eucaristia, e afirma que o cadáver de Jesus teria ficado no túmulo. A Ressurreição não seria um acontecimento histórico, mas sim uma visão teológica. Isto acontece porque falta uma hermenêutica da fé: afirma-se então uma hermenêutica filosófica profana, que nega a possibilidade da entrada e da presença real do Divino na história. A consequência da ausência do segundo nível metodológico é que se criou um profundo fosso entre exegese científica e lectio divina. Precisamente daqui deriva, por vezes, uma forma de perplexidade também na preparação das homilias. Onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia deixa de ter o seu fundamento.

Por isso, para a vida e para a missão da Igreja, para o futuro da fé, é absolutamente necessário superar este dualismo entre exegese e teologia. A teologia bíblica e a teologia sistemática são duas dimensões de uma única realidade, que chamamos teologia. Por conseguinte, parece-me desejável que numa das proposições se fale da necessidade de ter presentes na exegese os dois níveis metodológicos indicados pela Dei Verbum 12, onde se fala da necessidade de desenvolver uma exegese não somente histórica, mas também teológica. Portanto, será necessário ampliar a formação dos futuros exegetas neste sentido, para abrir realmente os tesouros da Escritura ao mundo de hoje e a todos nós.

 


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