A PALAVRA DO PAPA

EXEGESE BÍBLICA E LECTIO DIVINA *

 

Caros irmãos e irmãs

 

Com a Celebração eucarística na Basílica de São Pedro concluiu esta manhã a XII Assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, que teve por tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Toda Assembleia sinodal é uma forte experiência de comunhão eclesial, mas esta ainda mais, porque no centro da atenção foi colocado aquilo que ilumina e guia a Igreja: a Palavra de Deus, que é Cristo em pessoa. E nós vivemos cada dia em religiosa escuta, advertindo toda a graça e a beleza de sermos seus discípulos e servidores. Segundo o significado originário do termo Igreja, experimentámos a alegria de sermos convocados pela Palavra e, especialmente na Liturgia, encontrámo-nos a caminho dentro dela, como na nossa terra prometida, que nos faz antegozar o Reino dos céus.

Um aspecto sobre o qual muito se reflectiu é a relação entre a Palavra e as palavras, isto é, entre o Verbo divino e as escrituras que o exprimem. Como ensina o Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum (n. 12), uma boa exegese bíblica exige tanto o método histórico-crítico como o teológico, porque a Sagrada Escritura é Palavra de Deus em palavras humanas. Isto implica que cada texto deve ser lido e interpretado tendo presente a unidade de toda a Escritura, a viva tradição da Igreja e a luz da fé. Se é verdade que a Bíblia é também uma obra literária, mais, o grande código da cultura universal, é também verdade que ela não está despojada do elemento divino, mas deve ser lida no mesmo Espírito em que foi composta. Exegese científica e lectio divina são, portanto, ambas necessárias e complementares para buscar, através do significado literal, o espiritual, que Deus nos quer comunicar hoje.

No termo da Assembleia sinodal, os Patriarcas das Igrejas Orientais lançaram um apelo, que faço meu, para chamar a atenção da comunidade internacional, dos líderes religiosos e de todos os homens e mulheres de boa vontade sobre a tragédia que está a consumar-se em alguns países do Oriente, onde os cristãos são vítimas de intolerância e de cruéis violências, assassinados, ameaçados e forçados a abandonar as suas casas e a vaguear em busca de refúgio. Penso neste momento, sobretudo, no Iraque e na Índia. Estou certo de que as antigas e nobres populações dessas Nações aprenderam, no curso dos séculos de respeitosa convivência, a apreciar o contributo que as pequenas, mas activas e qualificadas minorias cristãs dão ao desenvolvimento da pátria comum. Elas não exigem privilégios, mas desejam somente poder continuar a viver nos seus países e junto com os seus concidadãos, como sempre fizeram. Às autoridades civis e religiosas interessadas peço que não poupem esforços para que a legalidade e a convivência civil sejam rapidamente restabelecidas e os cidadãos honestos e leais saibam que podem contar com uma adequada protecção por parte das instituições do Estado. Desejo, pois, que os responsáveis civis e religiosos de todos os países, conscientes do seu papel de guia e de referência para as populações, tenham gestos significativos e explícitos de amizade e de consideração para com as minorias, cristãs ou de outras religiões, e façam da defesa de seus legítimos direitos uma questão de honra.

Estou contente, por outro lado, de dar a conhecer também a vós, aqui presentes, o que já anunciei um pouco antes, durante a Santa Missa: em Outubro do próximo ano realizar-se-á, em Roma, a II Assembleia Especial do Sínodo para a África. Antes disso, se Deus quiser, no mês de Março, é minha intenção ir à África, visitando primeiro os Camarões, onde entregarei aos Bispos do Continente o Instrumentum laboris do Sínodo, e depois Angola, por ocasião do 500.° aniversário da evangelização daquele país. Confiamos os sofrimentos antes recordados, como também as esperanças que todos temos no coração, em particular as perspectivas para o Sínodo da África, à intercessão de Maria Santíssima.

 

 

 



* Alocução antes da recitação do Angelus (26-X-08), no fim da Missa de encerramento do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus na Sagrada Escritura, realizado no Vaticano de 5 a 26 de Outubro passado. Título da Redacção da CL.


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