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A  CONVERSÃO

 

 

Hugo de Azevedo

 

A conversão de S. Paulo foi, simultânea e indistintamente, a conversão a Cristo e à Igreja: «Eu sou Jesus, a Quem tu persegues». Jesus identificou-se completamente com os seus discípulos, numa unidade pessoal, ou melhor, Pessoal, com maiúscula: na Pessoa do Verbo Encarnado. Esta foi a luz fulcral da «teologia» paulina, o Corpo Místico, com uma unidade «física», digamos, superior a qualquer tipo de união moral, por mais estreita que fosse: «Eu sou a cepa; vós os ramos». Uma unidade vital, indestrutível, temporal e eterna. Santa, portanto, visto que é animada pela própria Vida divina, unindo pela graça a multidão dos fiéis mortais aos bem-aventurados e aos que ainda se purificam dos seus pecados. Uma «árvore» santa, da raiz à copa, embora as raízes, na escuridão da terra, eventualmente se possam perder, secar, converter-se em miserável húmus, mas sempre chamadas a unir-se se novo às raízes vivas, e por elas ao tronco.

Em Paulo, o amor a Cristo e à Igreja é um só amor, uma paixão ardente, pela qual deu a vida, pondo ao serviço do Espírito Santo todas as suas faculdades para estendê-la o mais possível e para fazê-la crescer na alma de cada um dos cristãos, em união com Pedro.

A conversão de Saulo é modelo da conversão a que Jesus continua chamando-nos: «Convertei-vos, e acreditai no Evangelho». Não se trata apenas de anunciar a Redenção aos que a ignoram, mas também de uma «metanóia» constante dos que já crêem: «Aumenta-nos a fé!»; «Creio, Senhor, mas ajuda a minha incredulidade!» Faz-nos crer cada vez mais em Ti, e amar-te mais! Faz-nos crer cada vez mais na Igreja, e amá-la mais! Como Paulo, faz com que nunca te vejamos sem ela, como Salvador separado do Sacramento da Salvação… E faz com que nunca separemos o teu Corpo da sua Cabeça visível, cerne da sua unidade no mundo, e a quem deste o poder de «ligar e desligar»: o Romano Pontífice!

Que fizemos nós de um Concílio que se dedicou mais do que nenhum a contemplar e a aprofundar o mistério da Igreja, «Lumen Gentium»? Deixámo-nos guiar pelo que «o Espírito disse às Igrejas» ou pelo clima social de contestação geral que se lhe seguiu, pelo criticismo acerbo que invadiu a nossa cultura, pelo cinismo e pessimismo que deprimem a nossa sociedade?  Sem repararmos que só é possível criticá-la (e só pela contingente actuação histórica de alguns membros) segundo os critérios de valor que ela própria nos fornece… Pois que outras instâncias morais – credos, ideologias, filosofias, instituições – apresentam princípios mais elevados, do alto dos quais a ela nos sobreponhamos?

Não está de moda falar da Igreja com amor (como, aliás, não é de moda falar de ninguém e de coisa nenhuma com simpatia e confiança), mas, graças a Deus, ela continua a ser efectivamente amada, seguida, servida e anunciada – por jovens e velhos, clero e laicado – tanto nesta Europa senil como pelo mundo fora, onde cresce, impetuosa, em muitas nações asiáticas e africanas, no meio de perseguições e carências de todo o género. Compreendemos o que significam as multidões de jovens que seguem o Santo Padre aonde quer que vá? O entusiasmo que sentem por quem lhes fala de Cristo e da Igreja, e em seu nome, sem paliativos? A sua sede de verdade, de caridade e de esperança, que só na Igreja encontram? A perene juventude e a fascinante beleza da Esposa de Cristo.

 


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