JOÃO pAULO ii

O VALOR DO SOFRIMENTO

 

 

Oferecemos a seguir uma resposta que o Santo Padre deu no diálogo com os sacerdotes da diocese de Bolzano-Bressanone (Itália), ocorrido na Catedral no passado dia 6 de Agosto, durante o seu período de descanso.

Título da Redacção da CL.

 

 

- Santo Padre, sou o Padre Willi Fusaro, tenho 42 anos de idade e estou doente desde o ano da minha ordenação sacerdotal. Fui ordenado em Junho de 1991; depois, em Setembro do mesmo ano, diagnosticaram-me esclerose múltipla. Sou cooperador paroquial na paróquia de Corpus Domini de Bolzano. Fiquei muito impressionado com a figura de João Paulo II, sobretudo no último período do seu pontificado, quando levava com coragem e humildade, diante do mundo inteiro, a sua debilidade humana.

Considerando a proximidade de Vossa Santidade ao seu amado predecessor, e com base na sua experiência pessoal, que palavras me pode dizer, bem como a todos nós, para ajudar verdadeiramente os sacerdotes anciãos e doentes a viverem bem e fecundamente o seu sacerdócio no presbitério e na comunidade cristã? Obrigado!

 

- Santo Padre: Obrigado, Reverendo Padre. Pois bem, também eu diria que para mim as duas partes do pontificado do Papa João Paulo II são igualmente importantes. A primeira parte, na qual o vimos como um gigante da fé: ele, com uma coragem incrível, com uma força extraordinária, com uma verdadeira alegria da fé, com uma grande lucidez, levou até aos confins da terra a mensagem do Evangelho. Falou com todos, abriu novas estradas com os Movimentos, com o diálogo inter-religioso, com os encontros ecuménicos, com o aprofundamento da escuta da Palavra Divina, com tudo... com o seu amor pela Sagrada Liturgia. Ele realmente - podemos dizê-lo - fez ruir, não os muros de Jericó, mas os muros entre dois mundos, precisamente com a força da sua fé, e este testemunho permanece inesquecível, permanece como uma luz para este novo milénio.

Mas devo dizer que, para mim, também os últimos anos do seu Pontificado não foram de menor importância, por causa desse testemunho humilde da sua paixão. Como carregou a Cruz do Senhor diante de nós e como pôs em prática a palavra do Senhor: «Segui-me, carregando a Cruz juntamente comigo»! Essa humildade, essa paciência com que aceitou praticamente a destruição do seu corpo, a crescente incapacidade de utilizar a palavra, ele que tinha sido um mestre da palavra. E assim indicou-nos - parece-me - visivelmente esta profunda verdade: que o Senhor nos redimiu com a sua Cruz, com a Paixão, como gesto extremo do seu amor. Mostrou-nos que o sofrimento não é apenas um não, algo de negativo, a falta de alguma coisa, mas é uma realidade positiva. Que o sofrimento aceite no amor a Cristo, no amor a Deus e aos outros, constitui uma força redentora, uma força do amor e não menos poderosa do que os grandes gestos que ele tinha realizado na primeira parte do seu pontificado. Ele ensinou-nos um novo amor por aqueles que sofrem, levando-nos a compreender o que significa dizer que «fomos salvos na Cruz e pela Cruz».

Também na vida do Senhor encontramos estes dois aspectos. A primeira parte, em que Ele ensina a alegria do Reino de Deus, transmite os seus dons aos homens; e, depois, na segunda parte, a imersão na Paixão, até ao último grito da Cruz. Foi precisamente assim que Ele nos ensinou que é Deus, que Deus é amor e que, ao identificar-se com o nosso sofrimento de seres humanos, nos toma nas suas mãos e nos mergulha no seu amor, e que somente o amor é o banho de redenção, de purificação e de renascimento.

Por isso, parece-me que todos nós - e sempre de novo num mundo que vive de activismo, de juventude, do facto de ser jovem, forte e belo, de conseguir fazer grandes coisas - temos que aprender a verdade do amor que se torna paixão e precisamente assim redime o homem, unindo-o ao Deus amor. Por conseguinte, gostaria de manifestar o meu agradecimento a todos aqueles que aceitam o sofrimento, que sofrem com o Senhor, e quereria encorajar todos nós a termos um coração aberto para com os que sofrem, os anciãos, e a compreendermos que precisamente a sua paixão constitui uma fonte de renovação para a humanidade e cria em nós o amor e nos une ao Senhor.

Contudo, afinal é sempre difícil sofrer. Lembro-me da irmã do Cardeal Mayer: estava muito doente e ele, quando perdia a paciência, dizia-lhe: «Mas, olha, tu estás agora com o Senhor!». E ela respondeu-lhe: «Para ti, é fácil dizer isto, porque estás bem; mas eu estou a viver a Paixão». É verdade, na Paixão verdadeira, torna-se sempre difícil unir-se realmente ao Senhor e permanecer nesta disposição de união com o Senhor que sofre. Portanto, oremos por todos aqueles que sofrem e façamos tudo o que pudermos para os ajudar, manifestemos a nossa gratidão pelo seu sofrimento e assistamo-los na medida das nossas possibilidades, com esse grande respeito pelo valor da vida humana, precisamente da vida de sofrimento até ao fim.

Trata-se de uma mensagem fundamental do cristianismo, que deriva da teologia da Cruz: o sofrimento, a paixão é presença do amor de Cristo, é um desafio para unirmo-nos mediante esta sua paixão. Devemos amar os que sofrem não apenas com as palavras, mas com toda a nossa acção e o nosso empenho. Parece-me que somente deste modo somos realmente cristãos. Escrevi na minha Encíclica Spe salvi que a capacidade de aceitar o sofrimento e os que sofrem é a medida da humanidade que possuímos. Onde falta esta capacidade, o homem permanece reduzido e redimensionado. Portanto, oremos ao Senhor para que nos ajude no nosso sofrimento e nos leve a permanecer próximos de todos aqueles que sofrem neste mundo.

 

 

 


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