24º Domingo Comum

12 de Setembro de 2004



RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Dai a paz, Senhor, M. Faria, NRMS 23

cf. Sir 36, 18

Antífona de entrada: Dai a paz, Senhor, aos que em Vós esperam e confirmai a verdade dos vossos profetas. Escutai a prece dos vossos servos e abençoai o vosso povo.


Introdução ao espírito da Celebração


Uma das grandes dificuldades para conhecermos a Deus parte da nossa fonte de conhecimentos naturais. Conhecemos as pessoas com facilidade para a ira e com muita dificuldade em perdoar as ofensas.

Ao pensarmos em Deus, imaginamo-l'O à nossa imagem e semelhança quando, na verdade, o caminho da santidade não pode ser revesti-l'O com os nossos defeitos, como faziam os pagãos, mas revestirmo-nos com as Suas virtudes, tanto quanto nos for possível.

Peçamos humildemente perdão e misericórdia da dureza do nosso coração que se deixa possuir por tanta desconfiança de Deus e de dureza, quando se trata de perdoar aos irmãos.


Oração colecta: Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o Vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do Vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração. Por Nosso Senhor...



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: O Senhor quer que intercedamos uns pelos outros, para que sejam perdoados das suas traições à Aliança Baptismal.

Moisés intercede pelo Povo de Deus, depois da provocação do bezerro de ouro, e o Senhor abre-se em torrentes de misericórdia.


Êxodo 32, 7-11.13-14

Naqueles dias, 7o Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se. 8Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei. Fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: ‘Este é o teu Deus, Israel, que te fez sair da terra do Egipto’». 9O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. 10Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». 11Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? 13Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». 14Então o Senhor desistiu do mal com que tinha ameaçado o seu povo.


Este impressionante diálogo entre Deus e Moisés põe em evidência os elementos fundamentais da história da salvação, a saber, a aliança, o pecado, a fidelidade divina e a sua misericórdia.

11 «Moisés procurou aplacar o Senhor». É uma figura de Cristo Mediador, que também subia frequentemente ao monte para orar: Moisés intercede muitas vezes em favor do povo pecador: Ex 5, 22-23; 8, 4; 9, 28; 10, 17; Nm 11, 2; 14, 13-19; 18, 22; 21, 7. E Deus aceita esta oração que faz apelo à sua fidelidade à aliança e à sua misericórdia (v. 14).


Salmo Responsorial Sl 50 (51), 3-4.12-13.17.19 (R. Lc 15, 18)


Monição: O Senhor aceita generosamente a intercessão de Moisés pelo Seu Povo e, de algum modo, recomeça a Aliança do Sinai.

Ele nunca se fecha a um coração humilde, contrito e generoso, que reconhece com sinceridade a sua culpa e deseja recomeçar o caminho. Manifestemos esta certeza com o salmo responsorial


Refrão: Vou partir e vou ter com meu pai.


Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.


Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.


Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca anunciará o vosso louvor.

Sacrifício agradável a Deus é um espírito arrependido:

não desprezeis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.


Segunda Leitura


Monição: Paulo, depois de ter experimentado a misericórdia do Senhor para com ele, proclama, na primeira Carta ao discípulo Timóteo, que Jesus não veio ao mundo para nos condenar, mas para salvar, perdoando.


1 Timóteo 1, 12-17

Caríssimo: 12Dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao seu serviço, 13a mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, quando ainda era descrente. 14A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. 15É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. 16Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade, como exemplo para os que hão-de acreditar n’Ele, para a vida eterna. 17Ao Rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen.


Iniciamos hoje a leitura de textos respigados das chamadas Cartas Pastorais, escritos paulinos dirigidas a pessoas singulares, pastores da Igreja, com normas para a organização das comunidades de Éfeso (1 e 2 Tim) e de Creta (Tit). O texto desta leitura é um maravilhoso hino de acção de graças de Paulo pela sua vocação de Apóstolo, bem consciente da sua indignidade – «blasfemo, perseguidor, violento», embora de boa fé, «por ignorância» (v. 13) – e da grandeza do dom de Deus, uma «graça que superabundou» (v. 14). Esta acção de graças culmina numa doxologia final, de sabor litúrgico (v. 17).

15 «É digna de fé…» Esta fórmula solene, própria das Cartas Pastorais (cf. 1 Tim 3, 1; 4, 9; 2 Tim 2, 11; Tit 3, 8), põe em relevo a importância doutrinal do que se diz neste versículo, um dos pontos centrais da fé cristã: a obra redentora de Cristo, que «por nós homens e pela nossa salvação desceu dos Céus…» (Credo de Niceia). A misericórdia que Deus mostrou para com Paulo é suficiente para inspirar confiança ao maior pecador, que queira arrepiar caminho.


Aclamação ao Evangelho 2 Cor 5, 19


Monição: Com estas parábolas da misericórdia, S. Lucas oferece-nos neste Evangelho uma radiografia do Coração de Deus Pai cheio de bondade para com os eus filhos.


Aleluia


Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo

e confiou-nos a palavra da reconciliação.


Cântico: M. Faria, NRMS 16



Evangelho *

Nota de rodapé

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.


Forma longa: São Lucas 15, 1-32; forma breve: São Lucas 15, 1-10

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 4«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? 5Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: 7Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. 8Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? 9Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. 10Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».

[Jesus disse-lhes ainda: 11»Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».]


A leitura de hoje, na sua forma longa, engloba todo o cap. 15 de S. Lucas, com as três parábolas da misericórdia divina; todas as três põem em evidência a alegria que Deus sente com o reencontro com o pecador, representado na ovelha perdida (vv. 4-7), na dracma perdida (8-10) e no filho perdido (11-32). Nas duas primeiras Deus é representado à procura do pecador; na terceira, no impressionante acolhimento que lhe presta. Estas parábolas são exclusivas do Evangelho de S. Lucas; a parábola da ovelha perdida também aparece em Mt 18, 10-14, mas num outro sentido: visa o cuidado que os chefes da Igreja devem pôr em não deixar que se perca nenhum dos pequeninos, isto é, aqueles fiéis que pela sua fragilidade correm mais risco de se perderem.

11-32 Alguém considerou a parábola do filho pródigo «o evangelho dos evangelhos». É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2, 25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. «Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corresponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado» (Encíclica Dives in misericordia, n.º 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, n.º 1439).

12 «Dá-me a parte da herança»: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss).

13 «Partiu…»: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 «Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. «Guardar porcos» era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As «alfarrobas»: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1, 25; 6, 6; Gal 5, 1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 «Então, caindo em si…» A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 «Vou-me embora»: A tradução latina (surgam) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – «levantar-me-ei» – é muito mais expressiva, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria.

«Pequei contra o Céu e contra ti»: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

«Trata-me como um dos teus trabalhadores»: é maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amar ao pai: o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro. Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: «já não mereço ser chamado teu filho».

20 «Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu». Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. «Encheu-se de compaixão»: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: «comoveram-se-lhe as entranhas» (tà splánkhna). «E correu…»: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o filho – «o arrependimento caminha; a misericórdia corre»; «cobrindo-o de beijos»: uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido!

21 «Pai, pequei». Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 «A melhor túnica, o anel, o calçado», são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 «Comamos e festejemos», a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 «O filho mais velho»: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre «o teu irmão» (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: «esse teu filho» (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho, que representa o papel dos «fariseus e os escribas», que censuravam o acolhimento que Jesus dava aos publicanos e pecadores (v. 2).


Sugestões para a homilia


O Senhor é lento para a ira e rico em misericórdia

A Sua maior alegria é perdoar.

O Senhor é lento para a ira e rico em misericórdia

Logo a seguir à Aliança no Sinai, o Povo de Deus fabricou um bezerro de ouro e adorou-o como deus. Cometeu, deste modo, um grave pecado, rasgando o seu compromisso de fidelidade, realizado pouco antes com toda a solenidade.

Todo o pecado, afinal, tem esta face: o fabrico de um falso deus – a sensualidade, o dinheiro, a gula, a exaltação soberba de si próprio – deixando o Senhor de lado.

Ao fim de cada dia, se nos examinarmos com cuidado, verificaremos, com surpresa, que repetimos este gesto louco muitas vezes.

O pecado vem a ser isto mesmo: voltamos as cotas ao Senhor e dobramos o joelho diante dum ídolo.

Deus faz conhecer a Moisés, para que o transmita ao povo, a grande desordem moral em que se deixou cair.

Exprime-se em termos que nos ajudam a compreender a gravidade deste pecado e como ele afecta radicalmente a Aliança realizada pouco antes.

Se não se emendarem – esta condição está sempre implícita nas admoestações do Senhor, terá de recomeçar tudo desde o princípio, como com Abraão, pondo de lado este povo.

Moisés sente o dever de interceder pelo seu Povo, não atenuando o mal cometido, mas apelando para a glória de Deus, perante as outras nações, que se manifesta quando perdoa ao Seu povo.

O Senhor gostou da oração do grande libertador do Egipto e recomeça de novo, perdoando uma ofensa tão grave.

Deixemo-nos de lamentações contra o mal que encontramos sobre a face da terra, porque de nada adiantam. Criam apenas um ambiente de pessimismo e a convicção de que o cristianismo é um barco que se está a afundar.

Desagravemos os pecados e peçamos pela conversão dos que perderam o sentido da vida. Foi este o exemplo que nos deram as pessoas de Deus, e o apelo que Nossa Senhora entregou aos Três Pastorinhos na Cova da Iria.

A Sua maior alegria é perdoar

Jesus veio para nos salvar. O Mestre afirmou muitas vezes no Evangelho que não Se tomou um de nós no seio virginal de Maria, para nos condenar, mas para nos salvar.

«Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho Unigénito, não para condenar o mundo, mas para que seja salvo por Ele».

S. Paulo recorda esta mesma doutrina ao discípulo Timóteo, na primeira carta. Exulta de júbilo, porque o Senhor confiou nele, a pesar dos seus pecados de outros tempos, e entregou-lhe o ministério da evangelização.

O perdão dos pecadores no Evangelho. Perdoou à pecadora que procurou encontrar-se com Ele, em casa de Simão o leproso, onde tinha ido para tomar parte num banquete; e defendeu esta mulher contra a agressividade dos outros convidados. Explicou a razão pela qual a mulher tinha razão para se manifestar tão agradecida: Muito lhe foi perdoado, porque muito amou.

Perdoou à mulher adúltera e defendeu-a da sanha desumana dos que, mal intencionados, a tinham levado à Sua presença – Mulher, ninguém te condenou? [...] Nem Eu te condeno. Vai em paz e não tornes a pecar.

Com divina pedagogia, soube conduzir a samaritana ao caminho da salvação e transformou-a em apóstola da cidade de Sicar.

As parábolas da misericórdia. Muitas páginas do Evangelho falam-nos da facilidade com que Nosso Senhor limpa uma vida cheia de crimes e pecados e dedica um amor infinito às pessoas a quem perdoou, como se nada de negativo se tivesse passado em suas vidas.

No Evangelho deste Domingo, S. Lucas – o Evangelista da misericórdia – recolhe as três parábolas do perdão incondicional.

Da ovelha tresmalhada que o Pastor, em vez de a punir pela complicação que introduzira na sua vida, põe-na aos ombros e, de coração em vez, trá-la aos ombros para o redil.

Da mulher que perdeu a dracma que, ao encontrá-la, em vez de a atirar, zangada, para o fundo da gaveta, é tal a alegria que a inunda que tem de partilhá-la com as vizinhas.

Do Pai do filho pródigo que deixa profundamente desorientados, não só os criados da casa. mas até o irmão mais velho.

Transpomos para o conhecimento de Deus o nosso modo de ser e as experiências dolorosas que temos vivido. Talvez por isso, quando encontramos uma pessoa desorientada somos inclinados a censurá-la e a deixar de comunicar com ela.

Também quando cometemos pecados, apetece-nos procurar um esconderijo, desaparecer da vista de Deus, em vez de nos lançarmos nos Seus braços.

A maior alegria de Deus é perdoar, porque nos ama com amor de pai e de mãe, e com a nossa busca do perdão, tornamos mais útil o Seu preciosíssimo Sangue derramado no Calvário.

Não contente com tudo isto, continua a Sua misericórdia, dando-Se-nos no Sacramento da Eucaristia e entrega-nos a Sua e nossa Mãe que nós invocamos como Mãe de misericórdia.


Fala o Santo Padre


«Deus ama-nos com um amor infinito»

1. «Dai-nos, Pai, a alegria do perdão» (cf. Salmo responsorial).

A alegria do perdão: eis a «boa nova» que a liturgia de hoje faz ressoar com vigor no meio de nós. O perdão é alegria de Deus, antes ainda de ser alegria do homem. Deus alegra-se ao receber o pecador arrependido; aliás, Ele mesmo, que é Pai de infinita misericórdia, «dives in misericórdia», suscita no coração humano a esperança do perdão e a alegria da reconciliação.[…]


2. «Deus é maior do que o nosso coração», assim cantámos na aclamação ao Evangelho. Se, na primeira Leitura, Moisés dá prova de conhecer o coração de Deus, invocando o seu perdão para o povo infiel (cf. Êx 32, 11-13), é porém a página do Evangelho de hoje que nos introduz plenamente no mistério da misericórdia de Deus: Jesus revela-nos a todos o rosto de Deus, fazendo-nos penetrar no seu coração de Pai, pronto a alegrar-se pela volta do filho perdido.

Testemunha privilegiada da divina misericórdia é também o Apóstolo Paulo que, como foi proclamado na segunda Leitura, escrevendo ao fiel colaborador Timóteo, apresenta a sua conversão como prova do facto de que Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores (cf. 1 Tm 1, 15-16).

Esta é a verdade que a Igreja não se cansa de proclamar: Deus ama-nos com um amor infinito. Ele deu à humanidade o seu próprio Filho unigénito, morto na Cruz para a remissão dos nossos pecados. Então, acreditar em Jesus significa reconhecer n'Ele o Salvador, a quem podemos dizer do profundo do coração: «Tu és a minha esperança» e, juntamente com todos os irmãos, «Tu és a nossa esperança».[…]


4. Neste nosso tempo, é urgente proclamar Cristo, Redentor do homem, para que o seu amor seja conhecido por todos e se difunda em todas as direcções. O Grande Jubileu do Ano 2000 foi um veículo providencial deste anúncio. Contudo, é necessário continuar a percorrer este caminho. Eis por que motivo, no encerramento do Ano Santo, voltei a lançar à Igreja e ao mundo inteiro o convite que Cristo dirigiu a Pedro: «Duc in altum! Faz-te ao largo!» (Lc 5, 4). […]

João Paulo II, em Frosinone, 16 de Setembro de 2001


Oração Universal


Oremos, irmãos, ao Senhor, rico em misericórdia,

sempre disponível para atender as nossas súplicas.

Apresentemos ao Pai necessidades dos homens,

por Jesus Cristo, nosso Redentor, no Espírito Santo.


1. Para que a Igreja, pelo Papa, os Bispos e Presbíteros,

continue a ser diante dos povos de todo o mundo,

instrumento do amor, da misericórdia e do perdão de Deus,

oremos, irmãos.


2. Para que todas as pessoas, amarguradas pelos pecados,

conheçam e meditem na parábola do filho pródigo

e não tenham qualquer receio de voltar à casa paterna,

oremos, irmãos.


3. Para que os sacerdotes, instrumentos da misericórdia,

facilitem a reconciliação das pessoas com o Senhor,

e se dediquem generosamente ao Sacramento da Reconciliação,

oremos, irmãos.


4. Para que os homens, dominados pela vingança e ambição,

em vez de se entregarem às guerras e acções terroristas,

saibam perdoar generosamente, buscando a verdadeira paz,

oremos, irmãos.


5. Para que todos nós, pedras vivas da Igreja de Deus,

aceitemos a responsabilidade de seguir o Divino Mestre

e saibamos perdoar como Ele perdoou na Cruz,

oremos, irmãos.


6. Para que os nossos irmãos defuntos que são purificados

das suas manchas,

por intercessão de Maria e pela misericórdia de Deus descansem,

para sempre, em paz dos justos no Céu,

oremos, irmãos.


Senhor, que nos encheis de confiança no Vosso Amor,

quando o peso dos nossos pecados nos oprime:

dai-nos a coragem de regressar prontamente cada dia,

dos nossos descaminhos e pecados cometidos.



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Que bom Senhor estar ao pé de Ti, M. Carneiro, NRMS 36


Oração sobre as oblatas: Ouvi, Senhor, com bondade as nossas súplicas e recebei estas ofertas dos vossos fiéis, para que os dons oferecidos por cada um de nós para glória do vosso nome sirvam para a salvação de todos. Por Nosso Senhor...


Santo: A. Cartageno, Suplemento CT


Saudação da paz


A nossa maior nobreza está em perdoar as ofensas recebidas, porque imitamos a misericórdia infinita de Deus.

Com o desejo de nos reconciliarmos com todas as pessoas,


Saudai-vos na paz de Cristo.


Monição da Comunhão


Nesta renovação do Sacrifício do Calvário, que é a Santa Missa em que estamos a participar, Jesus Cristo, depois de ter dado a vida por nós, entrega-Se-nos como alimento, se estivermos preparados para O receber.

Saibamos acolhê-l'O em nosso coração, com fé, pureza e devoção, à imitação de Nossa Senhora.


Cântico da Comunhão: Não fostes vós que me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

Sl 35, 8

Antífona da comunhão: Como é admirável, Senhor, a vossa bondade! Na sombra das vossas asas se refugiam os homens.

Ou: Sl 35, 8

O cálice de bênção é comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é comunhão no Corpo do Senhor.


Cântico de acção de graças: Louvai ao Senhor, com tudo, M. Simões, NRMS 2 (I)


Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, concedei que este sacramento celeste nos santifique totalmente a alma e o corpo, para que não sejamos conduzidos pelos nossos sentimentos mas pela virtude vivificante do vosso Espírito. Por Nosso Senhor...



Ritos Finais


Monição final


Proclamemos agora, na família, no ambiente de trabalho e em todas as encruzilhadas da vida, que o nosso Deus é o Senhor da misericórdia que a todos deseja acolher.


Cântico final: Vamos todos guiados pela esperança, F. da Silva, NRMS 14



Homilias Feriais


24ª SEMANA


2ª feira, 13-IX: Igreja edifica-se através da Comunhão sacramental.

1 Cor 11, 17-26 / Lc 7, 1-10

Sempre que comerdes este pão e beberdes esta taça, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

A Igreja vive da Eucaristia desde os primeiros tempos: «No Cenáculo, os Apóstolos, tendo aceite o convite de Jesus: ‘Tomai e comei’..., entraram pela primeira vez em comunhão sacramental com Ele. Desde então e até ao final dos séculos, a Igreja edifica-se através da Comunhão sacramental com o Filho de Deus imolado por nós: ‘Todas as vezes...? (Leit. do dia) » (Ig. da Eucaristia, 21).

Para recebermos o Senhor na Comunhão procuremos seguir o exemplo do centurião (cf. Ev.) que a Igreja nos propõe. Repitamos as suas palavras: «Senhor, eu não sou digno» e imitemos as suas disposições de fé, humildade e delicadeza.







Celebração e Homilia: Fernando Silva

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilia Ferial: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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