ANO PAULINO

SÃO PAULO

NA PREGAÇÃO DE S. JOSEMARIA ESCRIVÁ

 

 

 

Jorge Margarido Correia *

 

* Excerto da homilia pronunciada na Igreja da Trindade (Porto), no dia 26 de Junho passado, na celebração festiva de S. Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei.

 

 

Como aconselhava o Padre António Vieira, no dia dos Santos, mais do falar deles, será bom falar como eles. E se isto se aplica a cada Santo do calendário litúrgico, muito mais se aplica ao Ano Paulino, que o Santo Padre estabeleceu na Igreja, a partir do dia 28 de Junho, Véspera da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo. Vamos pois recordar alguns ensinamentos de S. Josemaria em que ele deu a voz a S. Paulo.

1. Filiação divina

Para a mensagem espiritual do Fundador do Opus Dei, era essencial a consideração da filiação divina como resposta ao amor misericordioso de Deus Pai, ilustrado por Jesus na parábola do filho pródigo.

 

«Ainda estava longe - diz a Escritura - quando o pai o viu e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço cobrindo-o de beijos (Lc 15, 20). Estas são as palavras do livro sagrado: cobrindo-o de beijos! Pode-se falar mais humanamente? Pode-se descrever com mais vivacidade o amor paternal de Deus para com os homens?»

«Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos e dir-Lhe-emos com S. Paulo: Abba, Pater! Pai! Meu Pai! (cf. Rom 8, 15). Pois, sendo Ele o Criador do Universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que Lhe chamemos Pai, que saboreemos essa palavra, enchendo a alma de alegria» (Cristo que passa, 64).

 

Esta filiação divina vive-a o cristão no meio do mundo, sabendo que as realidades temporais podem ser bem ou mal vividas e usadas pelos homens. Daí o dever de santificar essas realidades, elevando-as à ordem da graça, sem querer afastar-se do mundo. 

 

«O sentido cristão autêntico – que professa a ressurreição de toda a carne – sempre combateu, como é lógico, a desencarnação, sem receio de ser julgado materialista. É lícito, portanto, falar de um materialismo cristão, que se opõe audazmente aos materialismos fechados ao espírito...»

«Compreende-se, meus filhos, que o Apóstolo pudesse escrever: todas as coisas são vossas; vós sois de Cristo e Cristo de Deus (1 Cor 3, 22-23). Trata-se de um movimento ascendente que o Espírito Santo, difundido nos nossos corações, quer provocar no mundo: da terra até à glória de Nosso Senhor. E para que ficasse claro que nesse movimento se incluía até o que parece mais prosaico, S. Paulo escreveu também: quer comais, quer bebais, fazei tudo para glória de Deus (1 Cor 10, 31)» (Temas actuais do Cristianismo, 115).

2. O trabalho dos filhos de Deus

Esta visão de vida cristã aplica-se, de um modo muito concreto ao trabalho humano: fazer tudo por Amor, com espírito de liberdade.

 

«E como é que vou conseguir - parece que me perguntas - actuar sempre com esse espírito, que me leve a concluir com perfeição o meu trabalho profissional? A resposta não é minha. Vem de S. Paulo: Trabalhai varonilmente, sede fortes. Que tudo, entre vós, se realize na caridade (1 Cor 16, 13-14)».     

«Sensibiliza bastante meditar calmamente o comportamento de S. Paulo: De facto, vós sabeis como deveis comportar-vos para nos imitardes, porquanto não fomos, entre vós, preguiçosos, nem foi a expensas alheias que comemos o pão, de quem quer que fosse, mas trabalhámos noite e dia, entre fadigas e privações, para não sermos pesados a nenhum de vós... Daí a razão por que, justamente quando nos encontrávamos entre vós, vos intimávamos que se alguém não quer trabalhar, abstenha-se também de comer (2 Tess 3, 7-10)» (Amigos de Deus, 68-69).

 

Para isso, não basta uma boa intenção, mas é preciso pôr em acção e desenvolver uma série de virtudes.

 

«Portanto, meus caríssimos irmãos – de novo a voz de S. Paulo –, permanecei firmes e inabaláveis, sempre generosos em trabalhar para o Senhor, sabendo que o vosso trabalho não fica sem recompensa de Deus» (1 Cor 15, 58).

«Vedes? É todo um conjunto de virtudes que pomos em jogo ao desempenhar a nossa profissão, com o propósito de a santificar: a fortaleza, para perseverarmos no nosso trabalho, apesar das naturais dificuldades, sem nos deixarmos vencer pelo abatimento; a temperança, para nos gastarmos sem reservas e para superarmos a comodidade e o egoísmo; a justiça, para cumprirmos os nossos deveres com Deus, com a sociedade, com a família, com os colegas; a prudência, para sabermos o que convém fazer em cada caso e lançarmo-nos à obra sem demora...»

«E tudo, insisto, por Amor, com o sentido vivo e imediato da responsabilidade do fruto do nosso trabalho e do seu alcance apostólico» (Amigos de Deus, 72).

3. A missão apostólica dos filhos de Deus

O trabalho é também apostolado, ocasião de entrega aos outros homens, para lhes revelar Cristo e levá-los até Deus Pai, consequência da caridade que o Espírito Santo derrama nas almas.

 

«Entre as indicações que S. Paulo dá aos de Éfeso sobre como deve manifestar-se a mudança que supôs neles a sua conversão, a sua vocação ao Cristianismo, encontra-se esta: o que furtava, não furte mais, mas trabalhe ocupando-se com as suas mãos nalguma tarefa honesta para ter com que ajudar a quem tenha necessidade (cf. Ef 4, 28)» (Cristo que passa, 49).

 

Este exemplo de naturalidade e de zelo não deixa de manifestar os seus frutos apostólicos.

 

«Admirai também o comportamento de S. Paulo: prisioneiro, por divulgar os ensinamentos de Cristo, não desaproveita ocasião alguma para difundir o Evangelho. Diante de Festo e Agripa, não duvida em declarar: Graças ao auxílio de Deus, perseverei até ao dia de hoje, dando testemunho da verdade a pequenos e grandes, não pregando senão o que Moisés e os profetas disseram que havia de suceder: que Cristo havia de padecer, e que seria o primeiro a ressuscitar dos mortos, e que anunciaria a luz a este povo e aos gentios.»

«O Apóstolo não se cala, não oculta a sua fé nem a actividade apostólica que tinha provocado o ódio dos seus perseguidores; continua a anunciar a salvação a toda a gente. E, com uma audácia maravilhosa, enfrenta-se com Agripa: Crês, ó rei Agripa, nos profetas? Eu sei que crês. Quando Agripa comenta: Por pouco não me persuades a fazer-me cristão, Paulo disse-lhe: Prouvera a Deus que, por pouco ou muito, não somente tu, mas também quantos me ouvem se fizessem hoje tais como eu sou, menos estas cadeias (Act 26, 22-27)» (Amigos de Deus, 270).

 

 



* Excerto da homilia pronunciada na Igreja da Trindade (Porto), no dia 26 de Junho passado, na celebração festiva de S. Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei.


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial