DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

O SACERDÓCIO COMO COMUNHÃO

 

 

Oferecemos a seguir uma resposta que o Santo Padre deu no diálogo com os sacerdotes da diocese de Bolzano-Bressanone (Itália), ocorrido na Catedral no passado dia 6 de Agosto, durante o seu período de descanso.

Perante as inquietações comuns, Bento XVI eleva-as à luz da fé.

Título da Redacção da CL.

 

 

- Santo Padre, chamo-me Franz Pixner e sou pároco de duas grandes paróquias. Eu mesmo, juntamente com muitos irmãos e também leigos, preocupamo-nos pela crescente responsabilidade no cuidado pastoral, por exemplo por causa das unidades pastorais que se estão a criar: a forte pressão do trabalho, a falta de reconhecimento, as dificuldades em relação ao Magistério, a solidão, a diminuição do número de sacerdotes, mas também das nossas comunidades de fiéis. Muitos perguntam o que Deus nos está a pedir nesta situação, e de que maneira o Espírito Santo nos quer encorajar. Neste contexto nascem interrogações, por exemplo a propósito do celibato dos sacerdotes, da ordenação de viri probati, do envolvimento dos carismas, de modo particular também dos carismas das mulheres na pastoral, do encargo a colaboradoras e colaboradores formados em teologia de conferir o baptismo e pronunciar homilias. Coloca-se também a pergunta sobre o modo como nós, presbíteros, diante dos novos desafios, podemos ajudar-nos uns aos outros numa comunidade fraterna, e isto nos vários níveis de diocese, decanato, unidade pastoral e paróquia.

Santo Padre, pedimos-lhe que nos dê um bom conselho a respeito de todas estas interrogações. Obrigado!

 

- Santo Padre: Caro Decano, o Padre abriu todo o leque de perguntas que ocupam e preocupam os pastores e todos nós nesta nossa época e, sem dúvida, sabe que não sou capaz de dar neste momento uma resposta a tudo. Imagino que terá a possibilidade de tratar reiteradamente de tudo isto também com o seu Bispo, e nós também falamos disto nos Sínodos dos Bispos. Julgo que todos nós temos necessidade deste diálogo entre nós, do diálogo da fé e da responsabilidade, para encontrarmos o recto caminho nesta época sob muitos aspectos difícil para a fé e cansativo para os sacerdotes. Ninguém dispõe de uma receita pronta, e todos nós a procuramos em conjunto.

Com esta reserva, ou seja, que juntamente com todos vós também eu estou no meio deste processo de canseira e de luta interior, tentarei dizer algumas palavras, precisamente como parte de um diálogo mais amplo.

Na minha resposta gostaria de considerar dois aspectos fundamentais. Por um lado, a insubstituibilidade do sacerdote, o significado e o modo do ministério presbiteral hoje; por outro lado – e hoje em dia isto chama mais a tenção –, a multiplicidade dos carismas e o facto de que todos juntos somos a Igreja, edificamos a Igreja, e por isso devemos empenhar-nos em despertar os carismas, devemos cuidar este conjunto vivo que depois sustém também o sacerdote. Ele sustém os outros, os outros sustêm-no a ele, e somente neste conjunto complexo e variado a Igreja pode crescer hoje e rumo ao futuro.

Por um lado, haverá sempre necessidade do sacerdote, completamente dedicado ao Senhor e por isso mesmo completamente dedicado ao homem. No Antigo Testamento existe o chamamento à santificação, que corresponde mais ou menos àquilo que nós entendemos com a consagração, também com a ordenação sacerdotal: existe algo que é consagrado a Deus e, por isso, é retirado da esfera do que é comum e entregue a Ele. Mas isto significa que agora está a disposição de todos. Porque foi retirado e entregue a Deus, precisamente por isso agora não está isolado, mas foi elevado no «per», no «por todos». Penso que isto se pode dizer também do sacerdócio da Igreja. Significa que, por um lado, somos entregues ao Senhor, retirados do comum, mas, por outro lado, somos entregues a Ele para que desta maneira possamos pertencer-Lhe totalmente e totalmente pertencer aos outros. Penso que deveríamos, de modo incessante, procurar mostrar isto aos jovens – a eles, que são idealistas, que desejam realizar algo para o conjunto –, mostrar que precisamente esta «extracção do comum» significa «entrega ao conjunto», e que isto é um modo importante, o modo mais importante de servir os irmãos. Além disso, disto faz parte também aquilo de se pôr à disposição do Senhor, verdadeiramente na totalidade do próprio ser, e de se encontrar portanto totalmente à disposição dos homens. Penso que o celibato é uma expressão fundamental desta totalidade e já por isso mesmo constitui um grande exemplo neste mundo, porque só tem sentido se acreditarmos verdadeiramente na vida eterna e se acreditarmos que Deus nos empenha e que nós podemos viver para Ele.

Portanto, o sacerdócio é insubstituível porque na Eucaristia ele, partindo de Deus, sempre edifica a Igreja, porque no Sacramento da Penitência sempre nos confere a purificação, porque no Sacramento o sacerdócio é, precisamente, um ser comprometido no «per» de Jesus Cristo. Mas eu bem sei como hoje é difícil – quando um sacerdote se encontra a orientar, já não apenas uma paróquia de fácil gestão, mas várias paróquias, unidades pastorais; quando deve estar à disposição para este conselho e aquele outro, e assim por diante –, como é difícil levar uma vida como esta. Julgo que nesta situação é importante ter a coragem de se limitar e a clarividência ao decidir as prioridades. Uma prioridade fundamental da existência sacerdotal consiste em estar com o Senhor e, portanto, ter tempo para a oração. São Carlos Borromeu dizia sempre: «Não poderás cuidar da alma dos outros, se deixas que a tua se debilite. No final, não farás nada nem sequer para os outros. Deves ter tempo também para estares com Deus». Portanto, gostaria de sublinhar: por mais empenhos que possam multiplicar-se, é uma verdadeira prioridade encontrar todos os dias, diria, uma hora de tempo para estar em silêncio para o Senhor e com o Senhor, como a Igreja nos propõe que façamos com o breviário, com as orações do dia, para deste modo podermos enriquecer-nos sempre de novo interiormente, para retornar – como dizia ao responder à primeira pergunta – ao raio do sopro do Espírito Santo. E a partir disto, ordenar depois as prioridades: devo aprender a ver o que é verdadeiramente essencial, onde é exigida de maneira absoluta a minha presença de sacerdote e não posso delegar em ninguém. E ao mesmo tempo devo aceitar humildemente, quando muitas coisas que teria de fazer e onde seria necessária a minha presença, não as posso realizar porque reconheço os meus limites. Julgo que tal humildade será compreendida pelas pessoas.

E agora, devo abordar outro aspecto: saber delegar, chamar as pessoas à colaboração. Tenho a impressão de que as pessoas compreendem isto e que também o apreciam, quando um sacerdote está com Deus, quando desempenha a sua missão de ser aquele que reza pelos outros: nós – dizem – não somos capazes de rezar tanto, tu deves fazê-lo por mim: afinal, é o teu encargo, ou seja, ser aquele que reza por nós. As pessoas querem um sacerdote que, honradamente, se empenhe a viver com o Senhor e, depois, esteja à disposição dos homens – os que sofrem, os moribundos, as crianças, os jovens (estas, diria, são as prioridades) –, mas que também saiba distinguir as coisas que os outros podem fazer melhor do que ele, dando assim espaço àqueles carismas. Penso nos movimentos e nas múltiplas outras formas de colaboração na paróquia. Sobre tudo isto se trata em conjunto também na própria Diocese, criam-se formas e promovem-se intercâmbios. Justamente o Padre disse que nisto é importante olhar para além da paróquia, para a comunidade da Diocese, mais, para a comunidade da Igreja universal que, por sua vez, deve a seguir dirigir o seu olhar para ver o que é que acontece na paróquia e quais são as consequências que disto derivam para cada um dos sacerdotes individualmente.

Além disso, o Padre referiu-se a mais uma questão, muito importante aos meus olhos: os sacerdotes, mesmo que vivam geograficamente mais distantes uns dos outros, constituem uma verdadeira comunidade de irmãos que devem sustentar-se e ajudar-se uns aos outros. Esta comunhão entre os sacerdotes é hoje mais importante do que nunca. Precisamente para não cair no isolamento, na solidão com as suas tristezas, é importante que possamos encontrar-nos de maneira regular. Será tarefa da Diocese estabelecer o modo como realizar da melhor forma os encontros entre os sacerdotes – hoje em dia dispomos do carro, que facilita os deslocamentos –, a fim de que, de algum modo, experimentemos sempre de novo o estarmos juntos, aprendamos uns dos outros, nos corrijamos reciprocamente e nos ajudemos mutuamente, para que nos animemos e nos consolemos, a fim de que nesta comunhão do presbitério, juntamente com o Bispo, possamos prestar o nosso serviço à Igreja local. Nomeadamente: nenhum sacerdote é sacerdote sozinho; nós somos um presbitério e só nesta comunhão com o Bispo cada um pode prestar o seu serviço. Pois bem, esta bela comunhão, por todos reconhecida a nível teológico, deve traduzir-se na prática nos modos determinados pela Igreja local. E deve ampliar-se, porque também nenhum Bispo é Bispo sozinho, mas somente Bispo no seio do Colégio, na grande comunhão dos Bispos. É em prol desta comunhão que desejamos sempre empenharmo-nos. E penso que este é um aspecto particularmente belo do catolicismo: através do Primado, que não é uma monarquia absoluta, mas um serviço de comunhão, nós podemos ter a certeza desta unidade, de tal forma que numa grande comunidade de muitas vozes, todos juntos fazemos ressoar a grande música da fé neste mundo.

Rezemos ao Senhor para que nos console sempre, quando pensamos que não aguentamos mais; sustentemo-nos uns aos outros, e então o Senhor ajudar-nos-á a encontrar em conjunto os caminhos rectos.

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial