TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

LIMITES E DETURPAÇÕES

NA CRISTOLOGIA CATÓLICA CONTEMPORÂNEA

 

 

Mons. Angelo Amato

Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos

 

 

Oferecemos extractos da conferência do arcebispo Ângelo Amato, na altura Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, nas Jornadas de questões pastorais do Centro Sacerdotal Montalegre, em Barcelona (Espanha), publicados na edição portuguesa de L’Osservatore Romano (1-III-08).

A sua leitura ajuda a tomar consciência do valor e limites da exegese católica contemporânea, baseada no método histórico-crítico, à qual procurou responder o «Jesus de Nazaré», de Joseph Ratzinger/Bento XVI.

 

 

Jesus Cristo constitui a identidade cristã no estado originário e a cristologia é a reflexão crente sobre este DNA do cristianismo. Concretamente, a tarefa da cristologia é anunciar e motivar hoje de novo a fé no mistério da encarnação salvífica, expressa no símbolo niceno-constantinopolitano de 381. (...) Diversamente da teologia ortodoxa, ancorada substancialmente na cristologia dos Padres da Igreja e dos primeiros sete Concílios ecuménicos, e diversamente da teologia protestante, com a abordagem típica da cristologia da cruz, a cristologia católica apresenta uma originalidade metodológica que tem uma tríplice referência: escuta fundada da Sagrada Escritura, como alma de cada discurso teológico; referência obrigatória à tradição da Igreja (Padres, grandes teólogos, liturgia, espiritualidade); e diálogo com a cultura. Portanto, a cristologia católica terá uma constante de conteúdo, ao repropor e motivar de novo o âmago essencial da cristologia (encarnação e redenção), e uma variante metodológica, dada ao diálogo com os vários contextos culturais: secularização, pluralismo religioso, pós-modernidade, relativismo, indiferentismo.

Se, falando teoricamente, a orientação católica parece a mais adequada e completa, porque compõe de modo harmonioso os pedidos de fidelidade à tradição da Igreja e de adesão ao texto bíblico com as solicitações e os desafios provenientes da cultura contemporânea, na realidade os resultados não parecem totalmente satisfatórios. Muitas vezes a cristologia parece redutora, minimalista, insuficiente, porque não acolhe o Mistério revelado na sua integridade. Isto deriva de uma certa concepção racionalista da fé e da revelação, de um humanismo imanentista aplicado a Jesus Cristo, da absolutização arbitrária do método histórico-crítico. Por outras palavras, muitas vezes os teólogos abandonam o que é especificamente cristão, como o valor definitivo e universal da revelação de Cristo, a sua condição de Filho do Deus vivo, a sua presença real na Igreja, a universalidade do seu sacrifício redentor.

Trata-se de uma situação crítica, de uma verdadeira emergência, certamente não fisiológica, mas antes patológica, que diz respeito a toda a Igreja e que necessita de uma imediata terapia de tratamento.

Uma investigação débil sobre Jesus

Não fazemos uma apreciação negativa da investigação histórico-crítica. Reconhecemos que se deve a ela um maior conhecimento do texto bíblico e do contexto social e religioso da Palestina do primeiro século da era cristã. Mas não podemos deixar de verificar que ela, com frequência, dividiu a imagem de Jesus em grande número de interpretações muitas vezes contraditórias e com frequência tendentes a diminuir o alcance universal salvífico do seu acontecimento.

Certamente, também a arte nos transmitiu uma riquíssima variedade de retratos: o Cristo transfigurado dos ícones bizantinos não é o Cristo morto de Mantegna, e o severo Juiz de Miguel Ângelo da Capela Sistina não é o Cristo humaníssimo e desfigurado de Rouault. Mas nestas imagens emergia, no fundo, uma identidade determinada: a do Filho de Deus encarnado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A criatividade artística respeitava substancialmente os cânones bíblicos, oferecendo, mesmo na diversidade das interpretações, as características essenciais para um reconhecimento imediato do rosto de Cristo.

O mesmo é válido para as grandes apresentações literárias de Jesus: diversas nos pontos de vista, mas convergentes nas linhas básicas. O Cristo «epifania de Deus» de Fiodor Dostoievski é diverso do Cristo «filho do homem» de Miguel de Unamuno, assim como o «Cristo da sagrada Agonia» de Georges Bernanos não coincide com o Cristo «revolucionário do amor» de Giovanni Papini ou com «o eterno companheiro do homem» de Shusaku Endo. Narrações literárias diferentes, mas o mesmo Cristo da tradição bíblica e eclesial.

A investigação contemporânea sobre o Jesus histórico, pelo contrário, parece ter perdido o rosto autêntico do Senhor, reduzindo-o a uma figura obscura do passado, do qual nada se poderia afirmar com certeza, a não ser que foi, no máximo, um moralista, um revolucionário ou um pregador.

Diversamente de todos os outros grandes personagens da antiguidade - Buda, Sócrates, Confúcio, Júlio César e outros -, dos quais não se contesta quase nada, em relação a Jesus há um verdadeira obstinação investigadora, que com frequência chega, se não a negar a própria existência histórica, certamente a dissolver o seu significado e valor, lançando a sombra da dúvida sobre tudo o que Ele disse e fez e que a Igreja transmitiu e viveu com fidelidade ao longo dos seus dois mil anos de existência. É uma verdadeira galeria de falsidades, na qual Jesus se perde num emaranhado de mitos e lendas, com base em exaltadas descobertas de novas fontes ou de assoladoras interpretações finalmente «verdadeiras» do fundador do Cristianismo.

Concordamos com quanto Klaus Berger, professor de Teologia do Novo Testamento na faculdade de teologia evangélica da universidade de Heidelberg e um dos mais conhecidos exegetas de língua alemã, afirma no seu recente livro dedicado a Jesus:

«Alguns estudiosos obtiveram a sua imagem de Jesus exclusivamente de uma parte dos primeiros três Evangelhos - Mateus, Lucas, Marcos -, sem considerarem o Evangelho de João. Contestaram depois a autenticidade de muitas outras palavras de Jesus. Sem muitas hesitações, declararam lenda textos que teriam podido pôr em dificuldade os iluminados contemporâneos, atribuindo à comunidade que se formou depois da Páscoa a responsabilidade pelo facto de que Jesus se tenha tornado uma espécie de Deus. Isto diminuiu Jesus, tornou-o uma pessoa qualquer, que disse e fez menos de quanto refere o Novo Testamento. As narrações sobre Jesus foram privadas do seu sal, tornando-se insípidas e sem sabor. E a própria pessoa de Jesus diminuiu» (Gesú, Brescia, Queriniana, 2006, pp. 9-10).

Esta redução hermenêutica de Jesus acaba por fazer desaparecer qualquer interesse por Ele e pelos seus ideais. Foi reduzido a sombra aquele que se definiu luz do mundo. Como se pode seguir e amar tal fantasma?

Uma história para conhecer

Mas tudo isto não é novidade. Para os estudiosos da investigação histórica sobre Jesus, trata-se de um filme já visto. De facto, hoje, parece termos voltado ao início da Leben-Jesu-Forschung dos séculos XVIII-XIX, quando, em plena euforia racionalista, Hermann Samuel Reimarus († 1768) rejeitou como fraudulenta a imagem neotestamentária de Jesus, morto e ressuscitado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Teve assim início o chamado «regresso ao autêntico Jesus da história», com as numerosas vidas racionalistas sobretudo protestantes, como por exemplo a de Heinrich E. G. Paulus, que aceita os milagres de Jesus, mas explicando-os de modo racional: as curas milagrosas seriam devidas à simples força psicológica de Jesus. Às vidas racionalistas seguiram-se as fantásticas, nas quais não a razão mas a fantasia era a chave interpretativa de Jesus: inventam-se personagens, narram-se episódios jamais registados pelos Evangelhos - Jesus que chora pela morte de Sócrates -, preferem-se os apócrifos aos Evangelhos canónicos. Estas vidas fantásticas, por exemplo, explicam os milagres recorrendo à Reiseapotheke - uma espécie de farmácia portátil -, que Jesus levava sempre consigo.  

A isto seguiram-se a interpretação mítica de David Friederich Strauss, a céptica de Bruno Bauer - que negou a própria existência histórica de Jesus -, a estética de Ernst Renan, a liberal de Alfred Loisy. Neste caleidoscópio interpretativo havia uma pré-compreensão de fundo: a rejeição apriorística do sobrenatural, a dúvida metódica sobre a validade testemunhal das fontes neotestamentárias e o reconhecimento apenas da mensagem moralista de Jesus.

A publicidade de hoje - filmes, documentários, romances, publicações de novos apócrifos, o Jesus Seminar - parece repropor o mesmo clima criado pela teoria da fraude de Reimarus, que considerava o cristianismo fruto do engano dos primeiros séculos. Volta portanto à actualidade o juízo do famoso estudioso protestante Joachim Jeremias, grande intérprete do Novo Testamento, que em 1973 definiu esta teoria «estulta e diletantista».

Evangelhos como «biografia»

Felizmente, outras abordagens não ideológicas tiraram a figura de Cristo do beco sem saída do preconceito racionalista e do minimalismo histórico, para a encaminhar pela via-mestra da investigação científica mais sólida e não condicionada a priori. Trata-se de um século de desenvolvimentos originais e positivos, que deram resultados convincentes.

De facto, ao racionalismo liberal opuseram-se com toda a força da sua competência e do seu prestígio os representantes da chamada teologia dialéctica que, com Rudolf Bultmann, mais do que apostar no Jesus da história, contaram com o Cristo do querigma. Mas, querendo também reconhecer o dado histórico, foram numerosos os estudiosos - entre os quais o já citado Jeremias, como também Ernst Kasemann, Günther Bornkamm, Heinz Conzelmann - que reapreciaram de modo substancial o Jesus da história como importante para a fé, a partir do momento em que a co­munidade cristã primitiva não pretendia deixar cair no mito a história e a pessoa do seu mestre.

Nesta linha de reapreciação da fiabilidade histórica dos Evangelhos, inserem-se estudiosos como Charles Harold Dodd, com a sua insuperável análise dos fundamentos históricos do quarto Evangelho; os representantes da escola escandinava, com o seu estudo sobre os meios e os controles da transmissão da tradição oral e escrita nos tempos de Jesus. A fase mais recente desta questão, chamada Third quest - depois da primeira racionalista e da segunda bultmanniana e pós-bultmanniana -, ressalta com inquestionáveis bases arqueológicas, papirológicas e histórico-documentárias - como a valorização de novas fontes não fictícias mas autênticas: Qumran, Nag Hammadi, literatura intertestamentária e helenística - a validade histórica dos Evangelhos, oferecendo a este propósito uma adequada cristologia. Coloca-se nesta linha o óptimo volume Jesus: Uma biografia, de Armand Puig I Tárrech.

A tudo isto deve-se acrescentar também uma grande multidão de estudiosos que, trabalhando sobre a literatura comparada, deram também uma resposta convincente à vexata quaestio de se os Evangelhos nos dão uma vida de Jesus ou são simplesmente fruto da experiência religiosa da primeira comunidade cristã. Infelizmente, uma atitude céptica, quer por parte da literatura académica quer da formação catequética, tende a subestimar ou rejeitar totalmente a finalidade biográfica dos Evangelhos.

Na realidade, começando por Clyde Weber Votaw, que situava os Evangelhos no âmbito da literatura biográfica greco-romana, e prosseguindo com Graham N. Stanton, Charles H. Talbert, Philip Shuler (que defende o carácter biográfico do Evangelho de Mateus), Hubert Cancik (que mostra a estrutura historiográfica de Marcos) e Klaus Berger, chega-se à síntese de Richard Burridge que, através da sua análise comparada das biografias helenistas greco-romanas, incluindo o Moisés de Filão de Alexandria, reafirma o carácter biográfico dos Evangelhos. Burridge mostra como o verdadeiro género literário dos Evangelhos é o bios. Como as biografias daquela época (bioi), de facto, também os Evangelhos têm uma extensão relativamente breve; têm um único protagonista (Jesus Cristo, e só Ele; os outros, inclusive a sua mãe e o próprio Pedro, têm um espaço mínimo); concentram-se, ao contrário das modernas biografias, sobre o período mais significativo da personagem biográfica: no nosso caso, sobre o ministério público de Jesus e o mistério pascal, com uma breve menção do seu nascimento.

Podemos, pois, resumir os resultados mais fidedignos da investigação sobre a vida de Jesus em três afirmações. Os dados cientificamente mais acreditados concordam com o testemunho da validade histórica dos Evangelhos. Os estudiosos reapreciam também a veracidade histórica do Evangelho de João, realçando a sua correspondência sociocultural, com os seus numerosos topoi, hoje arqueologicamente confirmados. Um estudo objectivo, sem preconceitos racionalistas, leva à conclusão de que os Evangelhos fazem parte do género literário bios: isto significa que as narrações evangélicas estão mais interessadas em transmitir as vicissitudes de Jesus do que em testemunhar somente a fé dos primeiros cristãos.

Os Evangelhos concentram-se sobre a pessoa, a mensagem, os comportamentos e as obras de Jesus, sobre a sua vida no seu momento mais decisivo. A experiência cristã, pelo contrário, foi-nos transmitida sobretudo pelo resto do Novo Testamento, pelos Actos dos Apóstolos, pelas diversas Cartas, pelo Apocalipse.

A Igreja antiga não teria produzido os Evangelhos como bioi se não se tivesse interessado pela pessoa de Jesus. O facto de os evangelistas terem escolhido expressar-se mediante o género literário Evangelho indica que há uma existência histórica concreta na base do seu testemunho: se a carne - conclui Burridge - tivesse sido irrelevante para o evangelista ou se o revelador não tivesse assumido de modo algum uma plena existência humana, por que motivo o evangelista teria escrito um Evangelho?

Legitimidade histórica dos Evangelhos e a sua qualidade biográfica restituem à teologia uma base insubstituível para a sua elaboração cristológica. (...)

Harmonia entre história e fé

O volume Jesus de Nazaré, de Joseph Ratzinger, insere-se neste contexto. Seguindo o decurso do tempo, situa-se no desenvolvimento mais harmonioso da investigação histórico-crítica contemporânea. O volume contém duas importantes premissas para o estudo da cristologia católica: uma premissa metodológica e outra a nível de conteúdo.

Metodologicamente falando, o Papa segue a linha interpretativa que reconhece quer o valor histórico-documental e biográfico das fontes bíblicas quer a harmonia entre o Jesus da história e o Cristo da fé, indicando, além disso, uma cristologia pré-pascal, testemunhada durante a sua existência terrena pelo próprio Jesus.

O Santo Padre tinha proporcionado uma preparação a este volume em Unterwegs zu Christus (2003), no qual o então Cardeal Ratzinger lamentava três limites na cristologia contemporânea. Antes de tudo, uma preocupante descristologização que reduz Cristo a uma simples personagem humana bastante condescendente, que nada exige e tudo aprova. Em segundo lugar, a rejeição da presença do sobrenatural na história que conduz a uma intencional interpretação «científica», que na realidade é ideológica, da sua figura. Em terceiro lugar, uma mal entendida actualização que se torna critério arbitrário de determinação da autenticidade ou não das palavras e das acções de Jesus, abandonando elementos centrais do mistério de Cristo e evidenciando apenas o que se pressupõe que seja actual. (…)

Em Jesus de Nazaré, o Papa relê a «história» na sua totalidade, isto é, no seu duplo valor de acontecimento espaço-temporal (Historie) e de acontecimento salvífico (Geschichte). (…) A originalidade do cristianismo reside precisamente na afirmação de que a história hospedou o acontecimento Cristo, dom de amor do Pai a toda a humanidade, o Verbo feito carne para adorar, o Redentor para amar, o Juiz escatológico para temer. Com isto afirma-se que a globalidade do seu acontecimento em cada um dos seus «mistérios» é história de salvação de Deus-Trindade para o homem. Em Cristo, a história humana tornou-se acontecimento salvífico. Portanto, não sola fides, porque fides sine historia não tem fundamento. Nem, muito menos, sola historia, porque historia sine fide é insuficiente para alcançar a verdade do Cristianismo, que é salvação na história e na fé. (…)

A segunda premissa, a do conteúdo, constitui o motivo dominante da obra e é a apresentação de Jesus como o novo Moisés profetizado pelas Escrituras. (…) Bento XVI vê realizada em Jesus, plenamente e sem limites, a promessa do novo profeta e do mediador da nova aliança. Esta é a chave para a recta compreensão de Jesus, cujo ensinamento de autoridade não provém de uma aprendizagem humana recebida numa escola, mas sim do contacto imediato com o Pai, que ele vê face a face e do qual é a Palavra: «A dimensão cristológica, isto é, o mistério do Filho como revelador do Pai, a «cristologia», está presente em todos os discursos e acções de Jesus». (…)

Uma correcção de rota

Foi dado grande espaço ao volume de Bento XVI, e isto com a convicção de que a obra constitui um verdadeiro turning point [momento de viragem] da cristologia católica contemporânea e, por conseguinte, um importante indicador na investigação, no ensino e na catequese. O Jesus de Nazaré ratzingeriano é o que nos foi entregue pela tradição bimilenária da Igreja, não como fruto da criatividade da comunidade cristã primitiva, nem como redutora reconstrução virtual da investigação histórico-crítica contemporânea, mas como manifestação autêntica e verdadeira da pessoa, das palavras, das atitudes e das obras de Jesus de Nazaré. A comunidade cristã não inventou, não desfigurou nem transfigurou, Jesus de Nazaré. Simplesmente testemunhou-o e anunciou-o com coerência. Por isso, o volume do Papa contém em si, implicitamente, um conjunto de orientações a níveis de conteúdo e de bibliografia não só para uma actualização de noções, mas sobretudo para uma significativa correcção de rota na hodierna navegação da cristologia católica.

 

 

 

 


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