A  abrir

Apostas  e  desafios

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

É muito frequente, entre nós, o uso de expressões desportivas ou lúdicas que por si mesmas nos incitem a um apostolado animoso, que não se deixe vencer pelos inevitáveis obstáculos da «corrida» evangelizadora. Já S. Paulo as utilizava, exortando os fiéis a seguirem o exemplo dos atletas, capazes de deixarem tudo o que não é conveniente para a vitória final. Reparemos, porém, que a vitória de que fala é o próprio cumprimento da missão evangélica, obrigatória e acessível a todos os que entram nesta «corrida», e não o seu êxito humano. Isto é, não se refere aos «resultados» apostólicos, que dependem da graça de Deus e da correspondência dos homens. Refere-se à seriedade do empenho dos cristãos na sua santificação e na comunicação da fé aos outros, independentemente do sucesso numérico obtido.

É o espírito dos primeiros cristãos de Jerusalém, quando ouvem Pedro e João relatarem a proibição imposta pelos «príncipes dos sacerdotes e os anciãos» de ensinarem em nome de Jesus. Levantam, unânimes, a sua oração a Deus e o que Lhe pedem antes de mais é que conceda aos seus servos que com toda a confiança anunciem a sua Palavra. E o resultado foi imediato: «Ficaram todos cheios do Espírito Santo, e anunciavam com firmeza a palavra de Deus». Esta foi a sua grande vitória. Os resultados humanos foram diversos: não faltaram as conversões, mas os obstáculos, em vez de acabarem, foram crescendo de intensidade.

Por isso, quando falarmos de apostas e desafios, lembremo-nos de que as nossas «apostas» estão ganhas de antemão, e que os «desafios» que se nos apresentam já estão vencidos por Cristo. Como o cavaleiro do Apocalipse (6, 2), já saímos vitoriosos para vencer.

Paulo não olha a obstáculos, mas o primeiro obstáculo a que não olha são os seus próprios fracassos apostólicos. Não muda de «táctica», não faz novas «experiências», não se «adapta» às fraquezas humanas... Se muda, é para se confirmar ainda mais no cerne da evangelização, ainda que a Cruz de Cristo seja escândalo para uns e loucura para outros. Se se faz fraco com os fracos, e tudo para todos, é sempre para os elevar até à união plena com Cristo; não para atenuar as exigências da bem-aventurança evangélica. A paciência e a tolerância que usa com os discípulos não tem por fim mantê-los apenas dentro da Igreja, mas animá-los a avançar cada vez mais, começando e recomeçando quantas vezes for preciso. 

Chama-se a isto esperança cristã, que não consiste numa simples expectativa optimista de êxito, mas numa certeza absoluta de corredimir com Cristo, participando no «triunfo» da Cruz e na glória da sua Ressurreição. Daí que Paulo não se perturbasse com as tribulações, não desistisse de ninguém, e anunciasse o Evangelho em quaisquer circunstâncias e a quaisquer pessoas, inclusive aos que o julgavam e o condenariam. Todos tinham direito à verdade, a conhecer Cristo.

Não nos deixemos, pois, enganar pelas nossas próprias expressões, quando falamos de apostas e desafios pastorais, dando-lhes um sentido nobre, mas terreno, simplesmente humano, de cunho sociológico. Pela fé – donde procede a nossa esperança – uns «conquistaram reinos», outros «sofreram escárnios e açoites», como diz o autor da Carta aos Hebreus, mas todos venceram em Cristo, prometido ou já vindo. «Considerai, pois, Aquele que sofreu tal contradição dos pecadores (que somos todos), e não vos deixareis cair no desânimo».

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial