DOCUMENTAÇÃO

 

PATRIARCA DE LISBOA

 

 

A LITURGIA

COMO VIVÊNCIA E EXPRESSÃO DO MISTÉRIO DE CRISTO

 

Excerto da Carta Pastoral à Igreja de Lisboa, do Cardeal Patriarca D. José da Cruz Policarpo (18-V-08)

 

 

14. A Liturgia é sempre a celebração, pela comunidade dos crentes, do mistério de Cristo Redentor. Ela deve exprimir esse mistério e envolver os participantes no seu carácter sagrado. O Santo Padre Bento XVI, na Carta que dirigiu aos Bispos de todo o mundo a propósito do Motu Próprio «Summorum Pontificum Cura», que define as condições em que se poderá celebrar a Sagrada Liturgia pelo Missal e Rituais anteriores à Reforma Litúrgica do Concílio Vaticano II, aponta como motivação para esse regressar aos antigos textos litúrgicos, os cristãos sentirem neles mais afirmada a sacralidade e o carácter transcendente do mistério que se celebra, e considera que isto pode alertar-nos para a maneira de celebrar a Liturgia segundo os actuais textos oficiais, também eles capazes e preparados para transmitir esse carácter sagrado dos sagrados mistérios.

Este é um desejo que não pode deixar de nos interpelar e levar-nos a não abrandar o esforço pela renovação da Liturgia. Identificamos facilmente aqueles elementos que empobrecem algumas das nossas celebrações, tornando-as demasiadamente acção humana e ofuscando o carácter de acção de Deus a favor do Seu Povo: má proclamação da Palavra de Deus; demasiados discursos durante a celebração, abundância de palavra humana que ofusca a Palavra de Deus; isto inclui, por vezes, a própria homilia, destinada a ajudar a escutar a Palavra do Deus vivo e a descobrir os caminhos de resposta, na fidelidade; má qualidade e a falta de mensagem religiosa dos cânticos, que deveriam ser uma expressão da oração e do louvor; a ausência quase total de silêncios; o exagero de gestos simbólicos de má qualidade, como é o caso de certos ofertórios; a introdução de textos profanos durante a própria acção litúrgica. Que os sacerdotes tenham consciência que aquele que preside à celebração é o principal responsável da sua qualidade.

 

15. A Liturgia é a oração da comunidade e, por isso mesmo, a principal escola de oração pessoal. Um dos elementos que nos permite aferir da qualidade da Liturgia que celebramos é verificar se ela é, em si mesma, momento de oração comunitária e se motiva os cristãos para a prática da oração pessoal. Uma Igreja onde os cristãos não rezam, não é a Igreja que Deus quer e torna-se incapaz de ser sinal de esperança no mundo de hoje. O Espírito fez surgir na Igreja de hoje um conjunto de dinamismos e movimentos que têm como carisma próprio a iniciação à oração e a prática da oração. É preciso garantir nessas pedagogias da oração a relação fundamental entre a oração pessoal e a oração litúrgica comunitária e de ambas com a Palavra de Deus.

Das tradicionais formas de oração pessoal a que melhor garante a relação entre a oração pessoal e a oração litúrgica comunitária é a adoração, sobretudo a adoração do Santíssimo Sacramento. Forma sacramental da presença real de Cristo vivo, ela prolonga a celebração eucarística, onde o Senhor se tornou realmente presente sob as espécies do pão e do vinho. Adorá-l’O é expressão espontânea da nossa fé na Sua presença real.

A adoração eucarística tem uma longa tradição na piedade do povo português. O ter caído em desuso ou diminuído em intensidade não foi, certamente, um resultado positivo da Reforma Litúrgica. Não hesitemos: a adoração eucarística ensina as pessoas e as comunidades a bem celebrarem a Eucaristia. É a forma de oração onde a dimensão pessoal e comunitária se cruzam espontaneamente.

 


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