Natividade da Virgem Santa Maria

8 de Setembro de 2008

 

Festa

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Nasceu a Virgem Maria, F. da Silva, NCT 630

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, ao celebrar o nascimento da Virgem Santa Maria, da qual nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

Diz-se o Glória

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja celebra desde tempos imemoriais a Natividade da Virgem Santa Maria. Esta data foi marcada em consonância com a da Imaculada Conceição, nove meses antes da Natividade.

O nascimento de Nossa Senhora é motivo de grande alegria para todo o Povo de Deus, porque anuncia que a nossa Redenção está próxima, tal como o clarão da aurora anuncia o nascer do sol.

Alegremo-nos, pois, com o nascimento da Mãe de Deus e nossa Mãe e procuremos celebrá-lo com toda a alegria e generosidade.

 

Acto penitencial

 

Peçamos ao Senhor perdão, porque não temos dado a Nossa Senhora o lugar a que Ela tem direito em nossa vida. Passamos longos períodos de tempo sem lhe falarmos e, quando o fazemos, não afastamos as distracções com suficiente diligência.

Há também um contraste muito acentuado entre a fidelidade de Maria à vontade de Deus, desde o primeiro momento da sua Conceição, e as nossas infidelidades de cada dia.

Arrependamo-nos, peçamos humildemente perdão e prometamos, com a sua ajuda, emenda de vida.  

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

   Para as nossas distracções voluntárias na oração a Nossa Senhora,

     deixando que o nosso coração permaneça afastado muito d’Ela,

     Senhor, misericórdia!

 

     Senhor, misericórdia!

 

   Para a nossa devoção mariana, por vezes, mal esclarecida

     porque a separamos completamente da nossa vida de cristãos,

     Cristo, misericórdia!

 

     Cristo, misericórdia!

 

   Para a negligência em recorrermos prontamente a Nossa Senhora,

     quando o demónio nos tenta arrastar a desobedecer à Lei de Deus,

     Senhor, misericórdia!

 

     Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Dai, Senhor, aos vossos servos o dom da graça celeste e fazei que a festa do nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, cuja maternidade divina foi o princípio da nossa salvação, aumente em nós a unidade e a paz. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Povo de Deus, no século VIII antes de Cristo, vivia atormentado pela ameaça constante das invasões da Assíria. O profeta Miqueias chamo-o à esperança, anunciando quedepois desta ameaça virá uma era de restauração e de Deus.

Para nós, esta era de paz e alegria começa com o nascimento da Mãe de Deus, sinal luminoso que anuncia a chegada ao mundo do Redentor.

 

Miqueias 5, 1-4a

Eis o que diz o Senhor: 1«De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. 2Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. 3Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. 4aEle será a paz».

 

Em face da situação grave que pesava sobre o povo com as invasões assírias, no século VIII a. C., o Profeta tem palavras de esperança: após a ruína virá a restauração, que se fará por meio de um descendente de David. A profecia projecta-nos para um futuro de segurança e de paz, para os tempos messiânicos.

1 «De ti sairá aquele…» Tanto a tradição judaica como a cristã (cf. Rut 4, 11; 1 Sam 16, 1-13; 17, 12; Mt 2, 4-6; Jo 7, 42) entenderam esta profecia como referida ao lugar do nascimento de Cristo em Belém. «Beth-léhem» significa «casa do pão»; «Efratá» (fecunda) distingue-a duma outra Belém, na Galileia.

«Pequena entre as cidades…», à letra: «pequena para as que estão entre as milhares (ou famílias) de Judá». S. Mateus (Mt 2, 6) cita este texto fazendo dele uma leitura actualizada para mostrar que em Jesus se cumpre a profecia. Para isso serviu-se de dois recursos próprios da hermenêutica judaica. Por um lado, transforma a afirmação de Miqueias numa interrogação – «porventura és pequena…? –, o que lhe permite dizer que de modo nenhum é a mais pequena; por outro lado, com a técnica deráxica chamada al-tiqrey («não leias»), lê a palavra hebraica alfey («milhares») com outras vogais, a saber, al-lufey («as principais [príncipes] de»), tendo em conta que em hebraico não se escreviam as vogais, mas só as consoantes. É assim que Mateus pode dizer, não falseando o texto, mas interpretando-o: «não és de modo nenhum a menor entre as principais (cidades) de Judá».

«As suas origens remontam...» A expressão hebraica presta-se a designar uma origem anterior ao tempo, portanto, eterna e divina. Assim pensam muitos exegetas católicos, recorrendo à analogia com Is 9, 5.

2 «Aquela que há de ser mãe». Esta maneira de falar faz pensar a alguns comentadores numa alusão à célebre profecia da virgem que concebe de Isaías 7, 14, conhecida dos destinatários do oráculo, coisa aliás compreensível, uma vez que já teriam passado uns anos. Na leitura cristã deste texto é fácil de ver uma alusão à Mãe de Jesus, a razão da escolha deste texto para a Liturgia de hoje.

4 «Ele será a Paz». Em Ef 2, 14 parece haver uma citação desta passagem messiânica.

 

Em vez da leitura precedente, pode utilizar-se a seguinte:

 

Monição: Perante as dificuldades que os primeiros cristãos experimentam em Roma, S. Paulo conforta-os com a certeza da fé de que Deus fará que tudo concorra para o nosso bem, uma vez que somos filhos de Deus e Ele cuidará de nós.

O nascimento de Maria é um sinal desta bondade do Senhor para connosco e a certeza de que nunca estamos desamparados.

 

Romanos 8, 28-30

Irmãos: 28Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. 29Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. 30E àqueles que predestinou, também os chamou àqueles que chamou, também os justificou e àqueles que justificou, também os glorificou.

 

Estas breves e incisivas palavras são das mais belas sínteses paulinas e estão na linha dos ensinamentos centrais de Romanos: a confiança mais absoluta em Deus, que há-de levar a cabo a obra já começada de salvar os seus fiéis. É certo que S. Paulo admite noutras passagens a possibilidade de que estes não se venham a salvar; mas, se isso vier a suceder, não pode ser por uma falha de Deus, mas apenas por uma atitude plenamente deliberada do homem resgatado. A nossa esperança é firmíssima (cf. Rom 5, 5.10), porque temos dentro de nós o próprio Espírito que vem em ajuda da nossa fraqueza, intercedendo por nós com gemidos inefáveis (cf. Rom 8, 26), e Deus Pai ouve esta intercessão, porque está plenamente conforme com Ele mesmo (v. 27). Além disso, por uma Providência amorosíssima, «Deus concorre, em tudo para o bem daqueles que O amam» (v. 28).

29-30 O desígnio salvador de Deus é aqui explicitado em cinco etapas (já explicitadas noutras passagens): Deus «conheceu-nos de antemão» (olhou-nos com amor); «predestinou-nos para sermos conformes à imagem do seu Filho» (a sermos um só com Cristo); «chamou-nos»; «justificou-nos»; «glorificou-nos». É certo que a glória ainda não nos foi dada (cf. vv. 17-18), mas já a podemos considerar adquirida (daí o emprego do aoristo proléptico), dada a nossa íntima união a Cristo já glorificado.

 

Salmo Responsorial    Sl 12 (13), 6ab.6cd (R. Is 61,10)

 

Monição: O silêncio aparente de Deus perante as dificuldades que nos afligem é, por vezes, uma forte tentação contra a nossa confiança n’Ele.

O autor do salmo que a Liturgia nos propõe não duvida: confiou no amor de Deus e experimenta já a alegria da salvação. Por isso promete continuar a louvar ao Senhor toda a vida.

 

Refrão:         Exulto de alegria no Senhor.

 

Eu confiei na vossa bondade,

o meu coração alegra-se com a vossa salvação.

 

E cantarei ao Senhor

pelo bem que me fez.

 

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: A grandeza de Nossa Senhora está na eleição que d’Ela fez Deus para Mãe do Redentor. Mas Ela correspondeu com uma fidelidade constante à Sua vontade.

Aclamemos o Senhor que nos ilumina com estas verdades que nos guiam nos caminhos da vida.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia Gregoriano

 

Sois ditosa, ó Virgem Santa Maria, sois digníssima de todos os louvores,

porque de Vós nasceu o sol da justiça, Cristo, nosso Deus.

 

 

Evangelho *

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: São Mateus 1, 1-16.18-23;                          Forma breve: São Mateus 1, 18-23

 [1Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacob, Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara, Farés gerou Esrom Esrom gerou 4Arão, Arão gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson Naasson gerou Salmon. 5Salmon gerou, de Raab, Booz Booz gerou, de Rute, Obed, Obed gerou Jessé 6Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão, 7Salomão gerou Roboão, Roboão gerou Abias, Abias gerou Asa, 8Asa gerou Josafat, Josafat gerou Jorão, Jorão gerou Ozias, 9Ozias gerou Joatão, Joatão gerou Acaz, Acaz gerou Ezequias, 10Ezequias gerou Manasses, Manassés gerou Amon, Amon gerou Josias, 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, ao tempo do desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel, Salatiel gerou Zorobabel, 13Zorobabel gerou Abiud, Abiud gerou Eliacim, Eliacim gerou Azor, 14Azor gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquim, Aquim gerou Eliud, 15Eliud gerou Eleazar, Eleazar gerou Matã, Matã gerou Jacob. 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo.]

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’».

 

«Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David»: É este o cabeçalho da genealogia humana de Jesus com que se inicia o Evangelho de Mateus. Este título é para apresentar Jesus como o descendente por excelência de David, o Messias, segundo as promessas de Deus. São três grupos de 14 gerações, a partir de Abraão, o pai do povo eleito, com nomes tomados fundamentalmente de Crónicas ou Paralipómenos, até Zorobabel, ignorando-se quais as fontes para os restantes nomes, nomes que não coincidem com os de Crónicas, nem com os da tábua genealógica de Lucas. A genealogia obedece claramente a uma intencionalidade teológica. O número 14, três vezes repetido, uma cifra que não corresponde a todos os elos que ligam Jesus a Abraão, parece querer insinuar que não estamos perante uma casualidade, à maneira duma capicua, mas perante algo preestabelecido por Deus, um desígnio misterioso de Deus, que envia o seu Filho à terra «quando chegou a plenitude dos tempos» (Gal 4, 4); de facto, o número 14 é um símbolo de plenitude, pois equivale ao número perfeito, 7, multiplicado por dois.

16 «Gerou... Foi gerado.» Esta lista tripartida evidencia que S. José não é pai de Jesus segundo a carne, pois de cada uma daquelas pessoas da lista genealógica se diz «gerou» (egénesen), mas não se diz o mesmo de José relativamente a Jesus: «Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus». Este verbo, «nasceu», no original grego é uma forma passiva impessoal, «foi gerado» (egenêthe), correspondendo este passivo (passivum divinum) a uma forma corrente de se referir a Deus como sujeito duma acção, sem ter de pronunciar o seu nome inefável, dado o respeito que se Lhe deve. Sendo assim, a expressão «da qual foi gerado Jesus» é equivalente a esta: «da qual Deus gerou Jesus».

Mas pode perguntar-se: então porque se põe José na ascendência de Jesus, não sendo pai no sentido biológico (cf. v. 18)? É que é pai de Jesus «por constituição de Deus» (A. Diez Macho): «trata-se duma paternidade que afecta o nascimento, mas não a geração»; é Deus que introduz José na família de Jesus levando-o a vencer o temor reverencial de receber Maria como esposa (v. 21) e encarrega-o de pôr o nome ao Menino, o que era uma função do pai (v. 24). Estamos assim perante uma verdadeira paternidade, superior à carnal, pois é estabelecida ou constituída por Deus. S. Mateus pretende demonstrar que Jesus é o Messias e, portanto, Filho de David, embora sem documentar que descenda biologicamente dele. Isto é realçado pelo emprego duma técnica deráxica (actualização de textos bíblicos anteriores), chamada «gematriá» (jogo de números a partir das letras correspondentes): nesta lista genealógica, aparece o número 14 repetido 3 vezes, um número sublinhado no v. 17; e tanto o número 14 como o nome David se escrevem com as mesmas consoantes hebraicas (DVD = 4+6+4).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…» Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou, uma vez que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias; em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»); e assim o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas da culpa. E aqui não as tinha. A sua serenidade e rectidão levam-no a não se precipitar. Ele conhece a virtude extraordinária de Maria e sabe que ela não podia ter falhado, não admitindo sequer a mais leve suspeita acerca dela. O que José pensaria é que estava perante algo sobrenatural, divino; ouvira talvez contar em família o que se passou na visita de Maria a Isabel, se é que ele não esteve mesmo ali; poderia mesmo ter tido uma iluminação acerca da profecia de Isaías que falava duma virgem que havia de dar à luz e ela mesma impor o nome ao seu filho, onde, portanto, não parecia haver lugar para homem algum. É então que José pensa deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que não lhe competia ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando cuidadosamente «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» («deigmatísai») o mistério messiânico.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo sabe que José não admite qualquer dúvida acerca da virtude de Maria, por isso, não diz: «não desconfies», mas: «não temas». José devia andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém usa o plural (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (a própria profecia de Isaías 7, 14, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até se prestava a significar que este não nasceria de germe paterno!). Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que o simples anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (o chamado deraxe), não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey (quer dizer, «não leias»), que consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular como os LXX traduziram: weqara’t «e tu chamarás»), mas trata-se de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – lembrar que em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: 'e (tu, José) o chamarás'».

 

Sugestões para a homilia

 

• Causa da nossa alegria

Deus nunca nos abandona

A salvação está próxima

Devemos e devemos confiar no Senhor

• Um convite à fidelidade

De Maria nos vem Jesus

Maria a-sempre-Virgem

Um convite à generosidade

Causa da nossa alegria

a) Deus nunca nos abandona. «Eis o que diz o Senhor: «De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel[...].»

Quando parecei que tudo estava irremediavelmente perdido, depois do pecado dos nossos primeiros pais, Deus promete-lhes um Redentor. Inseparavelmente unido a Ele está a Mulher do Apocalipse, Mãe da Nova Humanidade, em luta irreconciliável com a serpente.

Ao longo do Antigo Testamento, Nossa Senhora é anunciada em diversas figuras e profecias. Um delas é da profeta Miqueias: haverá um aparente abandono de Deus. O sinal de que se trata apenas de aparência é o nascimento de Maria, aquele que dará à luz o Redentor.

Se o nascimento de uma criança é alegremente festejado em qualquer família, quanto mais o deve ser o da Mãe de Deus e nossa Mãe! Ela proclama para nós a esperança na Redenção.

 

b) A salvação está próxima. «Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe

Maria aparece na Sagrada Escritura e na vida de cada pessoa como um sinal da proximidade de Deus. Ela é a celeste mensageira que vem à frente, a preparar cada um de nós para acolher a salvação de Deus.

Quando uma pessoa se encontra afastada dos caminhos da salvação e aceita o desafio de uma pequena devoção a Nossa Senhora, não está longe a sua conversão. Quantas pessoas poderiam confirmar isto com a sua história!

O mesmo acontece quando nos encontramos desalentados na vida espiritual e nos parece que tudo perdeu sentido. Se tivermos o cuidado de renovar a devoção a Nossa Senhora, ganharemos nova coragem para continuar nesta luta pela santidade pessoal.

 

c) Devemos e devemos confiar no Senhor. «Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz

É indispensável compreender a que paz se refere a Sagrada Escritura, quando nos promete que este será o grande dom de Deus. Não se limita ao silêncio das armas. Fala-nos de paz com Deus – pela fidelidade aos Seus Mandamentos –, paz connosco, – pela tranquilidade de consciência – e paz com os irmãos – por uma vida em comunhão e amor.

Maria alcança-nos o dom da paz na medida em que desejarmos receber esta verdadeira paz.

Por isso, a sua Natividade é também um apelo à conversão pessoal, a que trabalhemos na construção de uma verdadeira paz com esta tríplice dimensão.

Para a alcançarmos, podemos contar com Deus: Ele nunca nos pede algo que não nos ajude a alcançá-lo.

Um convite à fidelidade

a) De Maria nos vem Jesus. «Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão

O Evangelho não nos refere a genealogia de Nossa Senhora. Normalmente a Sagrada Escritura só faz alusão à mulher quando um dos personagens teve filhos de várias mulheres.

Mas Jesus não seria em realidade, mas só aparente e legalmente descendente de David, se assim não fosse.

É por Maria e em Maria que o Verbo se une para sempre à natureza humana, de tal modo que Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem e nosso irmão. No seio virginal da Serva do Senhor – Arca da Nova Aliança – dá-se esse encontro que une de uma vez para sempre a natureza humana à divindade.

Ela continua a sua missão, dando-nos Jesus, quer na Santíssima Eucaristia, quer levando-nos ao Seu encontro e convidando-nos, como em Caná da Galileia, a fazer tudo o que Ele nos disser.

 

b) Maria a-sempre-Virgem. «Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo

Duas são as vocações possíveis para toda a pessoa humana que vem à luz deste mundo: a maternidade-paternidade, numa vida limpa do matrimónio; e a virgindade por amor do Reino dos Céus. Numa delas se concretiza a vocação à santidade recebida na fonte do Baptismo.

Somente Nossa Senhora uniu em si as duas vocações: foi Mãe sempre Virgem, pela força do Espírito Santo.

Por isso, Ela apresenta-se na Igreja como modelo de todos os caminhos vocacionais que hão-de percorrer todas as pessoas.

O fundamental é que cada um de nós responda ao convite do Senhor como Ela: «Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra

Não se trata, portanto, de escolher a melhor vocação, mas de abraçar com alegre generosidade aquela que o Senhor escolheu para cada um de nós, desde toda a eternidade.

 

c) Um convite à generosidade. «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado 'Emanuel', que quer dizer 'Deus connosco'»

O nascimento de Maria é um hino à vida humana e divina e causa da nossa alegria, porque Ela é o clarão da Aurora que anuncia o nascimento do Salvador.

De algum modo, cada um de nós tem, na Igreja e no mundo, a mesma missão de Nossa Senhora: conceber Jesus na nossa vida diária, por uma fidelidade constante e dá-l’O à luz, isto é, manifestá-l’O aos homens pelo testemunho de vida e pela palavra oportuna de apostolado.

Para esta missão nos ilumina e robustece o Senhor na Celebração da Eucaristia.

Quando ela termina, vai continuar na vida família, de trabalho e de convívio amigo com as outras pessoas.

O que o sacerdote nos diz no final não é propriamente uma despedida, mas uma recomendação para que não esqueçamos este dever elementar de todo o cristão.

Connosco vai Maria para o mundo dos homens, ajudando-nos a encaminhá-los para Deus. 

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Apresentemos humildemente ao Senhor,

por mediação de Maria, Sua e nossa Mãe,

as intenções da santa Igreja e do mundo.

Oremos (cantando):

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

1. Pelo Santo Padre, arauto da fé, da esperança e do Amor,

com o Colégio Episcopal em comunhão com a Sé de Pedro,

para que proclame ao mundo a santidade da vida humana,

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

2. Por todas as associações e grupos de fiéis da Igreja

que promovem a verdadeira devoção de Nossa Senhora,

para que não desfaleçam na sua missão generosa,

oremos, irmãos.

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

3. Pelas mães que acolhem com generosidade os filhos,

mesmo quando eles pesam mais pelas suas limitações,

para que nunca percam a esperança em dias melhores,

oremos, irmãos.

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

4. Pelas as instituições que se dedicam á defesa da vida

como um tesouro que o Senhor entrega em nossas mãos,

para que encontrem no seu trabalho compreensão e ajuda,

oremos, irmãos.

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

5. Pelos pais e mães enganados na violência contra vida,

que sofrem, depois, a amargura do mal que fizeram,

para que sejam fieis à sua missão de colabores de Deus,

oremos, irmãos.

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

6. Por todas as mães que esperam o nascimento de filhos

e sofrem com a incerteza da sua vinda à luz do mundo,

para que Nossa Senhora da Natividade  as abençoe,

oremos, irmãos.

 

Pela Natividade da Vossa Mãe,

ouvi-nos, Senhor!

 

Senhor, que nos alegrais com esta festividade

do nascimento da Vossa Mãe para a vida terrena:

concedei-nos que, pela sua protecção na terra,

alcancemos a felicidade eterna no Céu.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

O nascimento de Nossa Senhora tornou possível o mistério da Santíssima Eucaristia. Tudo o que Jesus tem de humano recebeu-o da Sua Mãe. A transubstanciação – todo o pão e todo o vinho se converte no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus tão real e perfeitamente como está no céu – é, também, um dom de Maria.

Peçamos-lhe ajuda para vivermos agora este grande mistério da nossa fé. 

 

Cântico do ofertório: Ó Santíssima, M. Faria, NRMS 33-34

 

Oração sobre as oblatas: Venha, Senhor, em nosso auxílio o vosso Filho feito homem: Ele, que ao nascer da Virgem Maria, não diminuiu, antes consagrou a integridade de sua Mãe, nos purifique das nossas culpas e Vos torne agradável a nossa oblação. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio de Nossa Senhora I [na natividade: p. 486 [644-756] ou II, p. 4 7

 

Santo: F. dos Santos, NCT 84

 

Saudação da Paz

 

O nascimento de Nossa Senhora anuncia para o mundo uma era de paz com Deus, connosco mesmos e com todas as pessoas.

Mas esta promessa está condicionada à nossa liberdade pessoal, na aceitação das propostas de Deus.

Manifestemos o desejo de as aceitar com toda a exigência que têm.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Maria Santíssima dá-nos Jesus Cristo – agora presente na Santíssima Eucaristia – e ajuda-nos a recebê-l’O com fé, amor e devoção.

A santa Igreja ensina-nos e recorda-nos constantemente as disposições com que havemos de comungar: com fé e atenção – sabendo e pensando no que vamos receber – na graça de Deus, e guardando o jejum indicado.

 

Cântico da Comunhão: Como é suave Senhor, M. Luis, NRMS 36

Is 7, 14; Mt 1, 21

Antífona da comunhão: A Virgem dará à luz um Filho, que salvará o povo dos seus pecados.

 

Cântico de acção de graças: Exulta de alegria no Senhor, M. Carneiro, NRMS 21

 

Oração depois da comunhão: Exulte a vossa Igreja, Senhor, alimentada por estes santos mistérios, na festa do nascimento da Virgem Santa Maria que foi para o mundo inteiro esperança e aurora da salvação. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Já pensamos o que seria a nossa vida na Igreja sem o nascimento da Virgem Santa Maria?

Aproximemos de Deus os nossos amigos, levando-os pelo caminho de uma devoção filial à Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela é o caminho mais seguro e mais fácil para Jesus Cristo.

 

Cântico final: Avé Maria, farol do mar, Az. Oliveira, NRMS 73-74

 

 

Homilias Feriais

 

23ª SEMANA

 

3ª Feira, 9-IX: Uma transformação espiritual

1 Cor 6, 1-11 / Lc 6, 12-19

Mas fostes purificados, fostes santificados pelo nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus.

A vida de muitos Coríntios era moralmente má, mas transformou-se graças à acção do Espírito Santo (cf Leit): «Curando as feridas do pecado, o Espírito Santo renova-nos interiormente por uma transformação espiritual, ilumina-nos e fortalece-nos para vivermos como filhos da luz, em toda a espécie de bondade, justiça e verdade» (CIC, 1695).

Jesus cura todos os que lhe apresentam. Recebermos igualmente a sua ajuda para a nossa transformação espiritual, se nos aproximarmos d’Ele (cf Ev).

 

4ª Feira, 10-IX: Os tipos de felicidade.

1 Cor 7, 25-31 / Lc 6, 20-26

Felizes de vós, os pobres… os que estais agora cheios de fome… os que agora chorais.

Ao falar das bem-aventuranças, Jesus ensina-nos que um homem, embora possua muitos bens da terra, pode ser infeliz. Pelo contrário, o homem que vive no meio da pobreza, da dor, do abandono, pode alcançar a felicidade eterna.

S. Paulo recorda que «o cenário deste mundo é passageiro» (Leit), isto é, a felicidade aqui na terra é sempre fugaz, não dura sempre. O importante é conseguir a felicidade eterna.

 

5ª Feira, 11-IX: Regra de ouro da caridade.

1 Cor 8, 1-7. 11-13 / Lc 6, 27-38  

Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperar em troca.

Tal como o Senhor indica, o preceito da caridade não se estende apenas àqueles que nos querem e tratam bem, mas a todos sem excepção. O pedido de Jesus exige não só um comportamento humano recto, mas também virtudes heróicas.

«A ciência cria presunção ao passo que a caridade edifica» (Leit). Ela é o vínculo da perfeição e a forma de todas as virtudes. Procuremos aplicar sempre a regra de ouro: «tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, fazei-lho igualmente vós também (Ev)» (CIC, 1789).

 

6ª Feira, 12-IX: Santíssimo Nome de Maria: Humildade e caridade.

1 Cor 9, 16-19. 22-27 / Lc 6, 39-42

Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirares o argueiro que o teu irmão tem na dele.

Diz S. Paulo: «Fiz-me tudo para todos a fim de ganhar alguns por todos os meios» (Leit). Podemos consegui-lo vivendo bem a virtude da humildade, que nos torna capazes de perdoar, de compreender e de ajudar; que nos leva a descobrir primeiro os erros e defeitos que há em nós próprios e que conduzem à compreensão pelos defeitos alheios (cf Ev).

Todos os filhos de Nossa Senhora invocam o seu Santíssimo Nome: Maria. E assim nos sentiremos mais irmãos uns dos outros e a querê-los mais.

 

Sábado, 13-IX: S. João Crisóstomo: Apoio na vontade de Deus.

1 Cor 10, 14-22 / Lc 6, 43-49

Vou mostrar-vos a quem se assemelha todo aquele que vem ter comigo, ouve as minhas palavras e as põe em prática.

Se queremos construir a nossa vida sobre um fundamento sólido devemos ouvir a palavra de Deus e pô-la em prática (cf Ev). Mas isso exige que estejamos sempre dispostos a cumprir a sua vontade: no cumprimento dos deveres quotidianos, na aceitação das contrariedades, etc.

O outro fundamento sólido é Eucaristia: «o pão que partimos não é a comunhão com Corpo de Cristo?» (Leit). S. João Crisóstomo utilizou abundantemente a palavra de Deus na sua exposição da doutrina católica.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:           Fernando Silva

Nota Exegética:                      Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:                 Duarte Nuno Rocha

 


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