TEMPO MARIANO

 

O culto de Nossa Senhora ocupa um lugar de destaque no espaço abrangido pelo nº 5 de Celebração Litúrgica (Agosto e Setembro).

O calendário litúrgico de Portugal assinala as seguintes celebrações marianas:

Em Agosto:

2. Nossa Senhora dos Anjos (na Ordem Franciscana).

5. Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior (memória facultativa).

15. Assunção da Virgem Santa Maria (solenidade).

22. Virgem Santa Maria Rainha (memória obrigatória).

Em Setembro:

8. Natividade da Virgem santa Maria (festa).

12. Santíssimo Nome de Maria (memória facultativa).

15. Nossa Senhora das Dores (memória obrigatória).

 

Ficam ainda neste espaço litúrgico as celebrações de muitos santuários e capelas dedicados à Mãe de Deus e nossa Mãe.

Estamos, pois, nos meses de Agosto e Setembro, em verdadeiro tempo mariano. Como poderemos viver este tempo?

Podem ajudar-nos especialmente a fazê-lo, além de toda a experiência pessoal, três importantes documentos da Igreja: O capítulo VIII da Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II; a Exortação Apostólica de Paulo VI Marialis cultus; e a Encíclica de João Paulo II Redemptoris Mater.

 

Aprovada em 21 de Novembro de 1964, a Constituição dogmática sobre a Igreja consagra a Nossa Senhora o Capítulo VIII, último deste importante documento conciliar, com o título de A Bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja.

Dedica a IV e última parte ao culto da bem-aventurada Virgem Maria, começando por falar da natureza e fundamento deste culto.

Ao falar do espírito da pregação deste culto, diz: «Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos[1]

 

Paulo VI, na Exortação Apostólica Marialis cultus, de 2 de Fevereiro de 1974, em ordem a fomentar a renovação da piedade mariana, depois de algumas indicações de ordem doutrinal, dá orientações em ordem às duas devoções marianas tradicionais: o «Angelus Domini» (Ave-Marias) e o Santo Rosário.

Quanto ao Angelus Domini sublinha que permanece «imutado o valor da contemplação do mistério da Encarnação do Verbo, da saudação à Virgem Santíssima e do recurso à sua misericordiosa intercessão; e, não obstante terem mudado as condições dos tempos, permanecem invariados também, para a maior parte dos homens, aqueles momentos característicos do dia, amanhã, meio-dia e tarde, que assinalamos tempos da sua actividade e constituem um convite a uma pausa de oração.»

Falando sobre o Santo Rosário, diz o imortal Pontífice: «não será difícil reconhecer que o Rosário é um exercício de piedade que se harmoniza facilmente com a sagrada Liturgia. Como a Liturgia, efectivamente, também o mesmo Rosário tem uma índole comunitária, se nutre da Sagrada Escritura e gravita em torno do mistério de Cristo. Depois, muito embora em planos essencialmente diversos, a Liturgia e memória contemplativa no Rosário têm por objecto os mesmos eventos «salvíficos» realizados por Cristo.»

No entanto chama a atenção para um desvio neste exercício de piedade mariana: «É erro, todavia infelizmente, ainda a subsistir nalguns lugares, o recitar o Rosário durante a acção litúrgica.»

 

Recorrendo à tradição cristã, na fidelidade ao mais genuíno espírito do Concílio Vaticano II, encontramos muitas e boas expressões da devoção mariana. Recordemos algumas delas:

– As imagens e quadros de Nossa Senhora, como lembranças do seu carinho materno, para que nos possamos acolher a ele com frequência.

– As romarias e peregrinações a santuários marianos ou simples capelas e oratórios que encontramos põe todos os lugares. Há romarias multitudinárias e também quem prefira fazê-las a sós, ou com uma ou duas pessoas.

São, em qualquer dos casos, visitas às Casas da Mãe, na feliz expressão de João Paulo II.

– Os escapulários marianos. De entre estes, ganhou um lugar de destaque no coração dos cristãos o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, pelas graças que estão prometidas a quem o usa.

– As jaculatórias, como modo prático de conversar constantemente com Nossa Senhora, ao longo do nosso dia. Há muitas e belas jaculatórias que a tradição cristã soube conservar.

 

Em tempos pontuais há outros exercícios de piedade que vale a pena destacar:

– O mês de Maria, mês das flores e de tantas demonstrações de carinho para com a Mãe de Deus e nossa Mãe.

– O mês do Rosário. Desde antiga tradição dedica-se o mês de Outubro a cultivar um especial carinho por esta devoção mariana.

– A Novena da Imaculada Conceição, preprando esta solenidade da Bem-aventurada Virgem Santa Maria. A programação destes nove dias fica entrega à iniciativa de cada fiel.

 

Como fomento de uma genuína devoção a Nossa Senhora podemos ainda recordar a ajuda que nos prestam os bons livros. Não nos refirimos apenas a livros de piedade, mas aqueles que nos ajudam a conhecer melhor, para mais amar, a Santíssima Virgem.

Entre outros, recordo o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de S. Luís Maria de Monfort, companheiro inseparável de João Paulo II, desde que trabalhou nas minas de Solvay.

 

Fernando Silva

 

 

 

18º Domingo Comum

3 de Agosto de 2008

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Todos vós que tendes sede, J. Santos, NRMS 42

Salmo 69, 2.6

Antífona de entrada: Deus, vinde em meu auxílio, Senhor, socorrei-me e salvai-me. Sois o meu libertador e o meu refúgio: não tardeis, Senhor.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Todos andamos perturbados com a carência de alimento e com a insuficiência de água existentes no mundo. Na realidade, é um problema que afecta grande parte da humanidade.

Ora, a Liturgia da Palavra deste domingo leva-nos a reflectir com que iguarias procuramos nós satisfazer a nossa fome ou em que fonte matamos a nossa sede. Procura ainda levar-nos a pensar se nos sentimos satisfeitos ou desiludidos com o que descobrimos, ou se, pelo contrário, os nossos desejos mais profundos não se estão a realizar plenamente. O que falta a cada um de nós, para nos saciarmos?

Procuremos pensar naquilo que possuímos e nas graças que devemos dar a Deus por tudo isso, mas lembremo-nos também de pedir perdão pelas incoerências quotidianas que realizamos na nossa vida.

 

Oração colecta: Mostrai, Senhor, a vossa imensa bondade aos filhos que Vos imploram e dignai-Vos renovar e conservar os dons da vossa graça naqueles que se gloriam de Vos ter por seu criador e sua providência. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O profeta Isaías, nesta leitura, fala-nos da abundância do alimento material, mas tal fartura de alimento é já a preparação da riqueza dos tempos messiânicos e imagem de outro manjar que o Senhor vem trazer: a participação na vida divina que sacia os desejos mais profundos do homem.

 

Isaías 55, 1-3

1Eis o que diz o Senhor: «Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas. Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite. 2Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta e o vosso trabalho naquilo que não sacia? Se me escutais, haveis de comer do melhor e saborear pratos deliciosos. 3Prestais-Me atenção e vinde a Mim; escutai e a vossa alma viverá. Firmarei convosco uma aliança eterna, com as graças prometidas a David.

 

A leitura, tirado do final do 2º Isaías, o chamado «livro da consolação» (Is 40 – 55) contém um apelo aos exilados que se mostram renitentes em regressar à pátria, apelo que tem grande actualidade para a alma indecisa e apegada a tantas solicitações que a afastam do amor de Deus: somente a quem tem «sede» de Deus e não está desapegado do «dinheiro», isto é, dos bens efémeros, (v. 1) é que pode participar no «banquete messiânico», saboreando os bens da «aliança eterna», da graça da salvação (v. 3), simbolizados no «vinho e leite» (v. 1) e no «comer do melhor e saborear pratos deliciosos» (v. 2).

 

Salmo Responsorial    Salmo 144 (145), 8-9.15-16.17-18 (R. cf. 16)

 

Monição: Com este salmo de meditação, declaramos a generosidade de Deus, nosso Pai. Vamos repetindo, em ambiente de louvor e de admiração, que confiamos na palavra do Senhor e que aguardamos o cumprimento das suas promessas.

 

Refrão:         Abris, Senhor, as vossas mãos

                e saciais a nossa fome.

 

O Senhor é clemente e compassivo,

paciente e cheio de bondade.

O Senhor é bom para com todos

e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

 

Todos têm os olhos postos em Vós

e a seu tempo lhes dais o alimento.

Abris as vossas mãos

e todos saciais generosamente.

 

O Senhor é justo em todos os seus caminhos

e perfeito em todas as suas obras.

O Senhor está perto de quantos O invocam,

de quantos O invocam em verdade.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O trecho desta Carta de S. Paulo aos Romanos leva-nos a considerar o ideal dos verdadeiros seguidores de Cristo. Se pretendemos ser coerentes, nada deveria separar-nos d’Ele: nem as adversidades, nem as perseguições, nem o cansaço, nem a morte... É na resposta a esta exigência que demonstramos a verdade da nossa adesão a Cristo.

 

Romanos 8, 35.37-39

Irmãos: 35Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? 37Mas em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou. 38Na verdade, eu estou certo de que nem a morte nem a vida, nem os Anjos nem os Principados, nem o presente nem o futuro, nem as Potestades 39nem a altura nem a profundidade nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que se manifestou em Cristo Jesus, Nosso Senhor.

 

Neste Domingo acaba de se ler a última parte do texto do capítulo 8º de Romanos, um capítulo que constitui a parte central de todo o ensino doutrinal da epístola – um dos mais altos cumes do pensamento paulino –, desenvolvendo o tema do amor salvador de Deus antes proposto (em 5, 1-11). Neste capítulo é posto em relevo todo o alcance da nova realidade misteriosa que é o «estar em Cristo Jesus», fórmula com que se abre a secção (8, 1) e se encerra (8, 39). S. Paulo, depois de expor a realidade da nossa libertação em Cristo e da vida no Espírito (vv. 1-11), mostra como o dom do Espírito, que nos faz filhos adoptivos de Deus, é garantia de salvação universal (vv. 12-30); nos vv. 31-39, o Apóstolo irrompe num impressionante hino, um apaixonado e vibrante canto de vitória, em que volta ao tema, desenvolvendo-o em duas estrofes paralelas (vv. 31-34) e (vv. 35-39, a leitura de hoje), com uma argumentação cerrada e entusiástica: «se Deus é por nós, quem será contra nós?» (v. 31), «criatura alguma poderá separar-nos do amor-de-Deus-que-está-em-Cristo-Jesus-Senhor-Nosso». É esta realidade única e sublime – daí que a tenhamos ligado e transcrito com maiúsculas – que dá firmeza inabalável à esperança cristã, uma realidade posta em evidência com a pergunta retórica do início da 2ª estrofe deste hino (v. 35): «quem poderá separar-nos do amor de Cristo?». Não deixa de ser interessante a especificação enfática de que nem nada nem ninguém o poderá conseguir, a saber, nenhuma força terrena – «a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, ou a espada», isto é, a morte violenta (v.35) –, nem nenhuma força cósmica, por mais poderosa que seja (segundo as crenças populares da época, as mais fortes e hostis, mas Paulo não pretende especificar-lhes a natureza nem documentar a sua existência objectiva), como os «anjos, os principados, as potestades» (é mais provável tratar-se aqui de forças demoníacas ocultas: cfr Ef 6, 12), «a altura e a profundidade» (possível alusão a estrelas funestas, tanto mais maléficas, quanto mais no zénite ou na tangente da terra, ou então, segundo outros, umas potências malignas a pairar no ar, ou actuando nas profundezas da terra).

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: Os nossos desejos mais profundos não se satisfazem somente com o pão que mata a fome do corpo, apenas serão plenamente saciados com a Palavra de Deus, como nos diz a aclamação do Evangelho de hoje.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 4,F. Silva, NRMS 50-51

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 14, 13-21

Naquele tempo, 13quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto, retirou-Se num barco para um local deserto e afastado. Mas logo que as multidões o souberam, deixando as suas cidades, seguiram-n’O a pé. 14Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de compaixão, curou os seus doentes. 15Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Este local é deserto e a hora avançada. Manda embora toda esta gente, para que vá às aldeias comprar alimento». 16Mas Jesus respondeu-lhes: «Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer». 17Disseram-Lhe eles: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes». 18Disse Jesus: «Trazei-mos cá». 19Ordenou então à multidão que se sentasse na relva. Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção. Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos e os discípulos deram-nos à multidão. 20Todos comeram e ficaram saciados. E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos. 21Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

 

Nesta passagem, Mateus deixa-nos ver os sentimentos mais profundos do coração de Cristo, a sua grande dor pela morte cruel e injusta de João Baptista, e a sua misericórdia para com todos os que padecem necessidade: «cheio de compaixão» pelas multidões sofredoras e famintas (vv. 13-14).

13 «Jesus retirou-se…». Nada faz supor que se trata de uma retirada estratégica ditada pelo medo, mas podemos pensar em como o Evangelista quer sublinhar a desolação e a tristeza que Jesus sente pelo assassinato de João, que Herodes Antipas tinha acabado de mandar matar (vv. 3-12).

É interessante notar que o relato da multiplicação dos pães revela, em Mateus ainda mais do que em Marcos e Lucas, afinidades notáveis com os gestos de Jesus no relato da instituição da Eucaristia: «tomou», «recitou a bênção», «partiu», «deu» (cf. Mt 26, 26). Tratava-se de gestos bem gravados na tradição apostólica e na vida das primitivas comunidades, que desde a primeira hora celebravam a Eucaristia (cf. 1 Cor 11, 23ss; Act 2, 46; 20, 7). Parece que a própria celebração da Eucaristia veio a fornecer o cliché literário para os seis relatos da multiplicação dos pães, que temos nos quatro Evangelhos, pois aparecem como uma figura da Eucaristia. Já a releitura do Evangelista insinua a dimensão eucarística do relato da multiplicação dos pães, que a tradição cristã interpretou como uma figura da Sagrada Eucaristia, o autêntico banquete messiânico servido pelo próprio Deus ao seu povo, segundos os anúncios dos profetas (cf. 1ª leitura).

 

Sugestões para a homilia

 

A fome e a sede

A realização de uma profecia

As circunstâncias da vida

A fome e a sede

O profeta Isaías, na primeira leitura deste domingo, prometia aos israelitas que abandonassem o exílio da Babilónia, onde se encontravam, a obtenção sem custo, do alimento indispensável para as suas vidas, em vez de consumirem o que possuíam naquilo que não satisfazia. Porém, os regressados da terra de cativeiro nada disso descobriram. Pelo contrário, foram mal recebidos e suportaram imensas dificuldades na sua própria terra.

O mesmo acontece, ainda hoje. Certamente, o homem precisa de pão, precisa do alimento do corpo, mas no íntimo de si mesmo precisa sobretudo da Palavra, do Amor, do próprio Deus. Quem lhe der isto dá-lhe «vida em abundância». E deste modo liberta também as forças pelas quais ele pode sensatamente modelar a terra, pode encontrar para si e para os outros os bens, que podemos possuir apenas mutuamente, pois estudos efectuados demonstram que o problema da fome mundial está relacionado com a distribuição de alimentos e concentração de lucros e não com a escassez de produtos.

Infelizmente nem sempre o homem procura a resposta às suas inquietações onde realmente a pode encontrar. Muitas vezes ele gasta dinheiro naquilo que não é pão e naquilo que não satisfaz.

Mas, se a Palavra de Deus é actual, qual é a terra de cativeiro (ás vezes doce e deliciosa) que hoje somos solicitados a repudiar? Do que sentimos fome? Com que guloseimas enchemos a nossa miséria e abafamos a nossa sede?

O que falta para que neste mundo em que vivemos se possa realizar a profecia anunciada, uma vez que o Messias já veio há mais de 2000 anos? Quando e como se realizará, então, a profecia?

A realização de uma profecia

A resposta a esta pergunta podem encontrá-la no Evangelho que ouvimos proclamar.

Jesus, o novo Moisés que todos esperavam, realiza a profecia. É-nos mostrado com uma imensa multidão que o seguia em direcção ao deserto.

A vida no deserto servira para ensinar Israel pois, desprovido de qualquer segurança humana, aprendera a acreditar somente em Deus.

Foi por esta razão que Jesus os conduziu ao deserto. A multidão sentiu fome e os discípulos de Jesus aconselharam-n’O a afastar a multidão para que pudesse arranjar alimento. Como procedeu Jesus?

Sentiu compaixão perante as necessidades dos irmãos.

Sentir compaixão é a primeira circunstância para nos sentirmos motivados para a acção.

Depois, o Evangelho narra o que Ele começou a fazer: curou os doentes e, à tarde, satisfez a fome à multidão. Não se limitou a enunciar linguagem espiritual ou a fomentar orações; esforçou-Se de maneira concreta para resolver todos os reais problemas do homem. Não lançou sobre os outros a resolução do problema da fome: as pessoas que tinham fome não seriam expulsas, «os próprios discípulos deviam dar-lhes de comer».

Então, se queremos seguir Jesus, o que fazemos em concreto, individual ou colectivamente, para enfrentar os problemas que angustiam tantas pessoas?

Jesus não resolveu sozinho o problema da fome das multidões. Ele serviu-se daquilo que as pessoas colocaram à sua disposição: cinco pães e dois peixes, isto é, sete factores materiais. Em linguagem bíblica este número simbólico representa a universalidade. Daí que a mensagem de Jesus se torne clara: a comunidade deve criar em comum tudo o que possui para se poder realizar o «milagre» de proporcionar alimento para todos. Ora, a fome não é o resultado de uma produção agrícola insuficiente, mas sim um grave problema socioeconómico. Não reside na falta de tecnologia apropriada, mas na distribuição de rendimento e de alimento entre a população mundial.

Só quando todos os homens, onde nos incluímos, se dispuserem a pôr em comum tudo o que têm – aptidões, proveitos, tempo – é que se poderão resolver as gigantescas dificuldades dos irmãos, mais próximos ou mais afastados de nós.

Depois de a multidão ficar satisfeita (cinco mil homens, segundo o texto, o que indica a totalidade do povo israelita), sobejaram ainda doze cestos, número que anuncia o novo povo de Deus, caracterizado pelos doze apóstolos, isto é, a Igreja. A este povo jamais faltará o pão que é Cristo e haverá sempre um resto para reiniciar a partilha.

Alimentados pelo pão eucarístico, como centro da existência cristã, Deus dá-nos o maná que a humanidade aguarda, o verdadeiro «pão do céu», aquilo de que podemos no mais íntimo de nós mesmos viver como homens. Ao mesmo tempo a Eucaristia apresenta-nos o permanente encontro do homem com Deus, no qual o Senhor se dá a Si próprio, fortificando o espírito, a fim de que tenhamos força para lutarmos pelo alimento perecível, mas necessário para a subsistência corporal, nossa e dos nossos irmãos.

Quando alimentamos o irmão, quando resolvemos as suas carências materiais, tornamos presente Jesus que se desdobra para zelar pelo homem em todas as circunstâncias da vida.

As circunstâncias da vida

Na nossa vida, os eventos amargos, mas também o êxito e a fortuna, podem originar a tentação de dispensar Deus, porque já temos tudo o que ambicionamos. Porém, são sobretudo as adversidades que nos levam ao desalento e que procuram separar-nos do amor de Deus e de Cristo, conduzindo-nos a outra espécie de fome, a que alude S. Paulo na segunda leitura: «a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada».

Quem pode dizer que nunca se sentiu desalentado diante das próprias debilidades, ou diante de pressões que se criam na sociedade eclesial ou civil?

A todos acontece encarar circunstâncias difíceis na vida. Perante as contrariedades da situação social, económica e política em que muitos vivem é sempre iminente a tentação de preferir uma vida oposta aos princípios do Evangelho. Mas «nada nos pode separar do amor de Deus e de Cristo», diz-nos ainda S. Paulo.

Como estamos a viver a nossa existência cristã? Somos coerentes com a nossa fé? Não sentiremos outras fomes e outras sedes opostas à nossa condição de baptizados em Cristo? O que fazemos concretamente e que proveito auferimos da comunhão do verdadeiro «pão do céu» que nos é proporcionado?

É bom que pensemos seriamente nisto...

 

 

Oração Universal

 

Irmãos, oremos a Deus Pai de misericórdia,

por intermédio de Jesus Cristo,

verdadeiro «pão do céu»,

para que nos ajude a imitarmos a Sua «compaixão»,

rezando (cantando):

 

Senhor, nós vos rogamos, ouvi-nos.

 

1.  Pelo Santo Padre, o Papa,

pelos Bispos, Presbíteros e Diáconos,

para que, fiéis à compaixão demonstrada por Jesus,

saibam estar atentos às diversas «fomes» dos homens,

oremos, irmãos.

 

2.  Pelos cristãos de todo o mundo,

para que consigam ultrapassar

as dificuldades que possam surgir

sem experimentar o desânimo,

oremos, irmãos.

 

3.  Pelos governantes das nações,

para que sintam os anseios dos mais necessitados

e empreguem todos os esforços para os resolver justamente,

oremos, irmãos.

 

4. Por todos nós aqui presentes,

para que saibamos manifestar activamente

o nosso apoio aos irmãos mais necessitados,

oremos, irmãos.

 

5. Por todos aqueles que têm bens de sobejo,

para que os consigam distribuir generosamente

pelos irmãos mais carecidos,

oremos, irmãos.

 

6.  Por todos aqueles que se sentem satisfeitos

com o alimento e os bens materiais,

para que sintam «fome» da Palavra de Deus,

a única que realmente equilibra todas as fomes,

oremos, irmãos.

 

Senhor,

ajuda-nos a saber mudar o nosso coração,

a fim de que saibamos partilhar o que possuímos

com os mais desprotegidos,

para que haja de tudo para todos.

Por nosso Senhor Jesus Cristo....

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Aceitai, Senhor, a nossa alegria, M. Carneiro, NRMS 73-74

 

Monição do ofertório

 

O pão e o vinho, frutos da terra e do esforço humano, que vamos colocar sobre o altar, façam experienciar em todos nós o esplendor da criação e motivem o amadurecimento e a abundância da vida divina nos nossos corações.

 

Oração sobre as oblatas: Santificai, Senhor, estes dons que Vos oferecemos como sacrifício espiritual, e fazei de nós mesmos uma oblação eterna para vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Que a comunhão eucarística de que vamos usufruir seja sinal sensível e activo da comum-união que teremos de manifestar para com todos os nossos irmãos mais carecidos. Que nos dê força para também lhes sabermos proporcionar o pão da Palavra, que sublima todas as fomes do mundo.

 

Cântico da Comunhão: Senhor, nada somos sem Ti, F. da Silva, NRMS 84

Sab l6,20

Antífona da comunhão: Saciastes o vosso povo com o pão dos Anjos, destes-nos, Senhor, o pão do Céu.

 

Ou

Jo 6,35

Eu sou o pão da vida, diz o Senhor. Quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem crê em Mim nunca mais terá sede.

 

Cântico de acção de graças: Bendiz, minha alma, M. Carneiro, NRMS 105

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos renovais com o pão do Céu, protegei-nos sempre com o vosso auxílio, fortalecei-nos todos os dias da nossa vida e tornai-nos dignos da redenção eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Depois de termos escutado e compreendido a lição que Jesus nos proporcionou, peçamos-Lhe que Ele nos ajude a mudar o nosso coração. Saibamos sentir, como nossas, as necessidades dos nossos irmãos e ajudemo-los a mitigar a fome de pão e da Palavra de Deus, a única que consegue saciar todas as fomes do homem.

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO COMUM

 

18ª SEMANA

 

2ª Feira, 4-VIII: S. João Mª Vianney: Contar sempre com Deus.

Jer 28, 1-17 / Mt 14, 13-21

Pegou nos cinco pães e dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou a bênção.

Este milagre é uma manifestação da misericórdia de Jesus para com aqueles que O seguiam (cf Ev), e uma figura da superabundância do pão eucarístico (cf CIC, 1335).

Ensina-nos a contar sempre com Deus. Da nossa parte fazemos tudo aquilo que podemos (os cinco pães e os dois peixes), e o resto é com Ele. Além disso, precisamos contar sempre com a Eucaristia. Peçamos abundantes vocações sacerdotais, pela intercessão de S. João Mª Vianney, para que nos dêem o pão-nosso de cada dia.

 

3ª Feira, 5-VIII: Dedicação Basílica Sª Mª Maior: Sob a protecção da estrela da Manhã.

Jer 30, 1-2. 12-15. 18-22 / Mt 14, 22-36

Mas (Pedro), ao notar a ventania, teve medo e, começando a afundar-se, lançou um grito: Salva-me, Senhor!

Pedro começou a afundar-se, porque reparou mais nas dificuldades que o rodeavam (a ventania), do que nas palavras do Senhor. Por isso, Jesus lhe chamou a atenção: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» (Ev).

Neste dia da Dedicação da Basílica de Sª Mª Maior, procuremos recorrer mais vezes à protecção de Nª Senhora. «Não afastes os olhos do resplendor desta Estrela (Estrela da Manhã), se não queres ser destruído pelas tempestades» (S. Bernardo).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:           António E. Portela

Nota Exegética:                      Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                   Nuno Romão

Sugestão Musical:                 Duarte Nuno Rocha

 



[1] Cfr. Conc. Niceno II, em 787: Mansi 13, 378-379: Denz. 302 (600-601) ; Conc. Trident., sess. 25: Mansi 33, 171-172.


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