TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O SERVIÇO DA AUTORIDADE E A OBEDIÊNCIA

 

Mons. Gianfranco Gardin, O.F.M. Conv.

 

 

Por ocasião da 71.ª Assembleia semestral da União dos Superiores-Gerais (28 a 30 de Maio passado), foi apresentada a Instrução da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica «O serviço da autoridade e a obediência», assinada pelo Cardeal Franc Rodé, C.M., e por Mons. Gianfranco Gardin, O.F.M. Conv., respectivamente Prefeito e Secretário daquela Congregação vaticana.

Oferecemos aos leitores a entrevista a Mons. Gianfranco Gardin, que explica o sentido do documento sobre a obediência dos membros de vida consagrada.

 

 

– O título da nova Instrução não corre o risco de a confundir com mais um passo para «normalizar» religiosos e religiosas?

 

O título por si só está desprovido de relevos ou cores particulares. Diz apenas que a Instrução fala do exercício da autoridade e da obediência nos Institutos religiosos. Talvez o substantivo «serviço», ao referir-se à autoridade, exprime uma caracterização evangélica desta tarefa. Pode ser iluminador considerar o subtítulo latino, que retoma as primeiras palavras do documento: Faciem tuam, Domine, requiram «É a tua face, Senhor, que eu procuro» (Sl 26, 8). Poderíamos dizer que o documento apresenta a obediência com um olhar de amplo respiro, como fruto de uma apaixonada busca de Deus e da sua vontade (eis o sentido do subtítulo). Para esta obediência todos somos chamados, inclusive a autoridade, aliás, ela em primeiro lugar. Dentro deste grande tema, são oferecidas indicações para um exercício evangélico da autoridade. Mais que de normalização relativa à vida religiosa, trata-se de uma ajuda para viver com fidelidade evangélica mais intensa esta escolha de vida.

 

Que exigência a Instrução pretende satisfazer e como se chegou ao texto actual?

 

Autoridade e obediência receberam nestes anos a influência de mudanças culturais, quer positiva quer negativamente, e também de novas contribuições no âmbito eclesial e dentro da própria vida religiosa. Podemos pensar, por exemplo, na insistência sobre o respeito pela dignidade da pessoa, mas também na concepção às vezes exacerbada, da autonomia do indivíduo. E depois, na importância da «espiritualidade de comunhão» e, para os religiosos, da vida fraterna em comunidade. Desejou-se valorizar o melhor das mudanças recentes e da sensibilidade actual, conservando, ao mesmo tempo, os pontos fundamentais da vida religiosa, que a tornam em todos os tempos autêntico seguimento do Senhor. Assim explica o documento, que tem a sua origem numa «Plenária» da Congregação para a Vida Consagrada, e depois foi elaborado com a consulta dos membros do Dicastério e também dos Superiores e das Superioras Gerais.

 

- Que contribuição pode dar este documento para superar a crise na vida consagrada masculina e feminina?

 

- Creio que sobre o tema da «crise da vida consagrada» existem hoje muitas afirmações superficiais. De facto, tal crise é reconduzida com frequência à diminuição numérica; mas o número em si não significa automaticamente qualidade, nem se pode dizer que um Instituto é melhor do que outro só porque atrai mais vocações. João Paulo II escreveu que a verdadeira derrota da vida consagrada não está no declínio numérico, mas na falta de adesão espiritual ao Senhor. Com frequência, a crise da vida consagrada é o reflexo da crise da comunidade cristã, e só dentro dela encontra a sua colocação vital. Com este documento, o nosso Dicastério pretende simples e humildemente ajudar os consagrados a viver com consciência, mas também com alegria, a sua busca de Deus e a própria fidelidade a Ele.

 

- Os jovens, nos países de antiga cristandade, são menos atraídos pela escolha da vida consagrada e muitas instituições religiosas estão a declinar. O que conta uma percepção errada da obediência na diminuição das vocações no Ocidente?

 

- As razões pelas quais há menos ingressos na vida consagrada em vários países são diversas e, frequentemente, complexas, e não podem ser consideradas apressadamente como uma perda de atracção pela vida religiosa. De qualquer modo, é verdade que uma concepção errada da obediência, por exemplo de tipo militar ou absorvida por um vago «fraternalismo», como também um exercício não evangélico da autoridade, poderiam dissuadir alguém a entrar na vida religiosa.

 

- A introdução da objecção de consciência na vida consagrada não é um contra-senso?

 

- Seria, se a objecção de consciência fosse compreendida como uma espécie de mesquinha «esperteza» para evitar o dever da obediência. A menção a este tema no documento ajuda a entender que a obediência na vida religiosa não exige nem produz executores passivos, sem responsabilidade, mas pessoas às quais é pedida uma profunda maturidade moral que, como se sabe, inclui a capacidade de agir com uma consciência profundamente propensa à busca e actuação do verdadeiro bem. Sobre este tema, o documento valorizou um texto da Evangelica testificatio de Paulo VI, de 1971, mas ainda actual.

 

- O que se entende por «obediências difíceis» e «autoridades difíceis», de que fala o texto?

 

- Desejou-se realçar o facto de que quer a obediência quer o exercício da autoridade podem conter momentos difíceis e sofridos. Não é por acaso que uma expressão bíblica muitas vezes mencionada no texto é «aprendeu a obedecer, sofrendo», referindo-se a Cristo na Carta aos Hebreus (cf. 5, 8). Os Superiores, como também as normas que guiam a vida dos consagrados, são «mediações humanas» da vontade de Deus. Contudo, observa o texto, trata-se sempre de mediações precárias, falíveis, que podem dar lugar a cansaços, incertezas, questionamentos angustiados, quer em quem deve dar disposições quer em quem deve obedecer. São Bento já falava de uma possível obediência «muito grave, ou até impossível de executar»; e São Francisco de Assis considerava o caso em que o religioso «vê aspectos melhores e mais úteis para a sua alma do que os que lhe ordena o superior». Por conseguinte, é um tema «antigo», que requer compreensão e diálogo, mas também uma visão madura da fé.

 

- Pobreza, castidade e obediência são as três renúncias requeridas às mulheres e homens consagrados. Também hoje a obediência é a prova que mais preocupa?

 

- São três renúncias, mas na lógica do seguimento de Jesus, adquirem pelo contrário o carácter de escolhas para se conformar Àquele, cuja beleza nos conquistou. É difícil dizer se a obediência é a mais dura. Cada um tem a sua história, a sua sensibilidade, os seus pontos fracos e fortes.      

 

 


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