TEMAS LITÚRGICOS

A MÚSICA E O CANTO

AO SERVIÇO DO MISTÉRIO EUCARÍSTICO *

 

Prof. Cameron Upchurch

Johannesburg

 

 

(continuação)

 

 

«A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar» [1]. Em todos os sentidos, a música tradicional da Igreja romana, esta venerável arte, foi vítima da ignorância e da incompreensão nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Os tempos mais recentes viram ressurgir o interesse por ela e pela sua capacidade para fomentar a oração.

Possivelmente, a razão mais forte para a conservação e promoção do canto gregoriano na liturgia reside no facto de ele ser um exemplo destacado dos cinco modos, tratados previamente, em que a música pode estar ao serviço do mistério eucarístico.

O canto gregoriano é arte. Foi modelado ao longo dos séculos. Foi elaborado, codificado e executado por toda a Europa e levado a todas as partes da terra. Representa o esforço artístico de milhares de pessoas ao serviço da liturgia; foi estudado e interpretado ao longo dos tempos. Quando bem executado, possui uma beleza que é digna da sagrada liturgia. Está construído sobre uma teologia cristã da beleza, que teve as suas raízes na filosofia platónica e chegou até nós através de Santo Agostinho, uma teologia em que «o belo era um antecedente chave daquilo que podíamos chamar divino» [2].

O canto gregoriano respeita as diferenças. Ele define, mais do que qualquer outra forma de música sacra, as diferentes embora complementares funções daqueles que tomam parte no culto. As orações dos que presidem e as respostas da assembleia, que necessitam de ser claras, audíveis e fáceis de cantar, são compostas como fórmulas simples. Os cantos de meditação, como o Gradual, requerem cantores treinados, dando ao coro uma oportunidade para mostrar a sua capacidade ao serviço da comunidade cultual, que está sentada e escuta em silêncio reverente. Convém recordar que o coro faz parte da comunidade e é uma representação legítima dessa comunidade. Isto tem sido fundamental para o culto cristão ao longo dos séculos. Em conjunto, os vários tipos de canto criam um todo orgânico em que os que participam na liturgia o fazem tanto externamente como internamente.  

O canto gregoriano unifica. Foi desejo explícito do Concílio que «o tesouro da música sacra… seja preservado e desenvolvido com grande diligência» [3]. O canto gregoriano ainda é na Igreja aquilo que mais se assemelha a uma forma de música «universal» – tem sido e continua a ser visto como um elemento unificador. Paulo VI insistiu em que a renovação litúrgica «deve salvaguardar todos aqueles elementos que podem ser úteis para fortalecer e tornar mais claro para todos o vínculo entre os fiéis» e que, portanto, «o objectivo de incrementar o canto nas grandes assembleias de fiéis deve incluir a preocupação pelos cantos gregorianos em latim» [4].

O canto gregoriano é transcendente. O culto cristão é logocêntrico: «a fé que se faz música é parte do processo da Palavra que se faz carne» [5]. O canto gregoriano está entre os mais antigos exemplos deste processo na Cristandade ocidental. A sua execução está radicada num culto centrado no logos, no qual os seres humanos procuram elevar as suas mentes e corações até à origem do logos, o próprio Deus. Esta citação de Bento XVI (quando era o Cardeal Ratzinger) ajuda a explanar melhor este papel do canto. «Como resultado de contemplar o mysterium de uma liturgia cósmica, torna-se necessário descrever de uma forma visível e concreta o aspecto comunitário do culto, o facto de que é uma acção a ser realizada, a sua formulação em palavras… Assim, torna-se claro que a música litúrgica deve levar o fiel à glorificação de Deus, a um moderado êxtase da fé. A ênfase no canto gregoriano… ordena-se, portanto, imediatamente ao aspecto de ‘mistério’ da liturgia, ao seu carácter de logos e à sua ligação com a palavra na história. Essa ênfase deveria… sublinhar mais uma vez a autoridade do modelo patrístico para a música litúrgica, que alguns conceberam por vezes de uma forma exclusivamente histórica. Tal modelo autorizado, correctamente entendido, não significa exclusão de algo novo, mas são antes directrizes que guiam para espaços abertos. Aqui, torna-se possível o progresso na direcção de um novo território precisamente porque se encontrou o recto caminho» [6].

O canto gregoriano oferece um reflexo da liturgia celestial. Ele transcende as nossas culturas humanas e expressões locais. Não é a linguagem musical específica de determinado contexto étnico. Westermeyer afirma que, «a este respeito, o canto gregoriano sugere uma antecipada realidade escatológica. Essa realidade necessita de ser sustentada numa tensão incarnada com a pluralidade das nossas variadas respostas. Quando a execução prática na nossa assembleia é sã, manifesta-se essa tensão» [7].

Mas podemos nós na prática atingir este objectivo nas nossas assembleias? Sem dúvida que sim. Há muitos cânticos, particularmente para a Eucaristia, que são originariamente por natureza comunitários. Westermeyer afirma que «o canto monofónico sem acompanhamento instrumental é precisamente o que o povo normal em qualquer contexto étnico pode, de facto, cantar com maior facilidade; pode bem ser a sua função musical; e está de acordo com a palavra e a acção que acompanha» [8]. A assembleia pode dominar um grande número de cânticos para o Ordinário da Missa depois de ter tido oportunidade de aprender esta música. Isto requer tempo, dedicação, esforço, determinação e os esforços de pessoal suficientemente preparado.

 

Naturalmente, o uso do canto gregoriano significa o uso da língua latina. A continuação do seu uso na Igreja foi reafirmada pelo Concílio, em documentos sucessivos e por todos os Papas até ao dia de hoje [9]. Huels chama a atenção de que «o uso mais adequado do latim na Liturgia eucarística é no canto» [10]. Contudo, a realidade é que em muitas partes do mundo o seu uso na Liturgia raramente se vê. Há lugares onde cantar em latim até está proibido. Bento XVI comenta que, «depois do Concílio, surgiu um fanatismo pelo vernáculo, o que é de facto muito difícil de compreender numa sociedade multicultural, da mesma forma que numa sociedade em mutação não é muito lógico hipostasiar a assembleia» [11]. Um fomento equilibrado do vernáculo e do latim na Liturgia só pode ajudar a expressar a natureza simultaneamente universal e particular da Igreja através do mundo.

O Papa S. Pio X, ao dar ao canto gregoriano um lugar de destaque no seu motu proprio de 1903, estava a combater o que ele via como excessos modernistas numa Europa dominada pelo cenário da ópera, cuja influência dominava também nas igrejas. Segundo ele, a música sacra devia ter «santidade, beleza e universalidade» [12]. Os aspectos de beleza e universalidade já foram tratados, mas que dizer a respeito da santidade? A música não pode ser sagrada ou santa por si mesma, mas somente pela sua associação com a Liturgia. «Se a música sacra facilita a acção litúrgica, ela participa na santidade da liturgia; se a música sacra obscurece ou impede a acção litúrgica, ela é correspondentemente menos ‘santa’» [13].

Portanto, a sacralidade da música é determinada pela sua ligação ao culto. O canto gregoriano foi criado exclusivamente para uso no culto, não usando composições musicais e artísticas da época. A sua única finalidade é apoiar a palavra e a acção do rito. Por esta verdadeira razão, ocupa um lugar privilegiado entre todas as formas da música litúrgica. Cercados por um crescente consumismo individualista, forçados a seguir um ritmo que parece tornar-se cada vez mais acelerado, encontramo-nos hoje num paradigma muito mais diferente do que o de S. Pio X em 1903? O uso do canto no nosso culto, particularmente no mistério eucarístico, oferece-nos num instante um afastamento da aparente loucura do mundo de hoje para a profunda paz interior que se encontra no logos.   

 

 



* Videoconferência mundial organizada pela Congregação para o Clero sobre o tema A arquitectura, a arte e a música ao serviço da Liturgia, em 30-XI-05, tomada da página na Internet da Congregação: www.clerus.org.

Damos a primeira parte da conferência; a segunda parte será publicada no próximo número da CL.

[1] SC 116.

[2] E. FOLEY (1995), “From Displacement to Convergence”, Pastoral Music, 19 (3): 23.

[3] SC 114.

[4] Voluntatis obsequens, 1974.

[5] J. RATZINGER (1996), In the presence of the Angels I Will Sing Your Praise, edição on line.

[6] J. RATZINGER (1996).

[7] P. WESTERMEYER (2000), GIA Quarterly, Fall, edição on line.

[8] P. WESTERMEYER (2000).

[9] Cf. SC 36.

[10] J. HUELS, osm (1997), Canonical Opinion on the use of Latin in the Liturgy.

[11] J. RATZINGER (1996).

[12] Tra le sollicitudini (1903).

[13] M. JONCAS (1992), “Re-reading Musicam Sacram: Twenty-Five Years of Development in Roman Rite Liturgical Music”, Worship, 66 (3): 221.  


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