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O  MEDO  DE  AMAR

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Quando o Concílio nos previne contra os «falsos exageros» no culto de Maria (LG 60), não contesta o antigo brocardo «de Maria nunquam satis», mas tão só as ingénuas falsidades que se lhe atribuam, e que nada acrescentam à sua grandeza espiritual. A Igreja nunca receou nenhum «excesso de amor», pelo simples motivo de que esta expressão não tem nenhum sentido, seja aplicada a Deus, a Maria, a qualquer outra pessoa ou a alguma coisa. Nenhum amor honesto pode ser excessivo: que sentido teria dizer: amo excessivamente os meus pais, os meus irmãos, a minha pátria, a minha profissão, a arte, a ciência, o mundo?... Qualquer amor honesto pode crescer indefinidamente, e qualquer amor devido deve crescer constantemente, a começar pelo amor a Deus.

Nenhum amor honesto é excessivo. O receio de «excessos» só pode significar que não se respeita a «ordem» da justiça ou da caridade: não está certo amar mais a profissão do que a família, por exemplo. O remédio, porém, não está em perder gosto pelo trabalho, mas em cuidar mais do lar. Não está certo amar mais Nossa Senhora do que Deus, mas o remédio não consiste em amá-la menos... O coração não é uma caixa, que precise de ser «arrumada» para lá caberem novos afectos. O «coração» é justamente o conjunto de todos os afectos humanos; quantos mais, «maior» será ele. Amar a Deus «com todo o coração», significa amá-Lo com todos os nossos amores, e em todos os nossos amores. Só são de excluir os afectos incompatíveis com esse, isto é, os que não sejam honestos.

Há, contudo, muitas vezes, no fundo desse receio de «excessos», uma armadilha subtil, solapada ou até inconsciente: pura e simplesmente, o receio de amar.

É verdade: o amor mete-nos medo. Gostamos de ser amados, mas não tanto de amar. A experiência diz-nos que qualquer amor é «amor de perdição». É doação, serviço, submissão, sacrifício, responsabilização, disponibilidade... E a nossa poltrona, o nosso descanso, o nosso tempo, os nossos gostos? Que resta para nós? Pior do que isso: e as desilusões, as ingratidões, as incompreensões, as faltas de correspondência?... Não há amor que não traga sofrimentos!... (Basta pensar no futebol...) Por isso, consciente ou inconscientemente, defendemo-nos: «Amigos, poucos», dizemos. Porquê? Porque um amigo dá sempre trabalho, confessemos. Estraga os nossos planos... Obriga-nos a deixar o jornal ou a televisão quando menos se espera... Com a própria mulher ou o marido, com os próprios filhos - nada de «excessos», não vão dar-nos mais preocupações do que o previsto... Na profissão, para quê tanta diligência, se ninguém a aprecia? Se sobem os outros, e eu fico para trás?... E com Deus, Nosso Senhor, nada de excessos também: olhai para os santos, o que eles padeceram!

E assim se vai degradando a fé, a esperança, a caridade; assim se vão azedando a vida de família e o ambiente de trabalho; assim se vão rarefazendo as amizades; assim nos vamos tornando cada vez mais infelizes, e contagiando aos outros o nosso pessimismo e os nossos egoísmos... Cada vez se nos torna mais estranha a linguagem evangélica. Cada vez compreendemos menos os «excessos» de Cristo para nos salvar. Aliás, sem amor, toda a nossa vida vai perdendo sentido.

«Não tenhais medo», várias vezes avisou Nosso Senhor os seus discípulos. «Aí tens a tua Mãe»; acolhe-te a Ela, que nunca teve medo de amar.

 

 

 

 


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