ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

31 de Março de 2008

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe, Virgem piedosa, M. Carneiro, NRMS 101

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz–se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos o encontro de Deus com o seu povo por um gesto de profunda misericórdia e salvação: a Encarnação do Filho de Deus.

Tal atitude de Deus, ao fazer-se Homem, revela a profundidade da sua doação que irá em crescendo até à doação pascal: morte, ressurreição e ascensão.

Aprendamos a acolher, a confiar e a comprometer a vida com Jesus Cristo.

Maria está no centro deste mistério que envolve Deus e a Humanidade. Aprendamos com Ela o que significa estar disponível e fazer-se servo.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria concedei–nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina.

Por Nosso Senhor...

 

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Séculos antes deste grande acontecimento que a liturgia celebra, o profeta Isaías, anuncia que a Virgem dará à luz um filho que será «Deus connosco».

É através desta maravilhosa Mulher, Maria de Nazaré, que Deus se fará presente na nossa Humanidade.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11«Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: «Aqui estou». Fazer-se doação ao plano de Deus é ter ouvido e comprometido a vida em projecto de salvação.

 

Refrão:         Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes-me os ouvidos

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Cristo foi fidelidade total e oblativa. O «eis-me aqui» continua a ser proclamação do Evangelho da Vida e proposta aos seus discípulos.

 

Hebreus 10, 4-10

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponte de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem, que diz também «eis aqui a serva do Senhor» (Lc 1, 38).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: O Evangelho leva-nos ao encontro com Maria.

Nossa Senhora é referência de cada discípulo de Cristo e sentido genuíno da Igreja.

No encontro com Cristo, Maria, é sinal e proposta de acolhimento e compromisso.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a sua glória.

 

 

Evangelho

 

Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A narrativa da Anunciação reveste-se de uma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.

 

Sugestões para a homilia

 

Ecce.

Fiat.

Magnificat.

Stabat.

Gloria.

 

Ecce.

As leituras desta celebração convidam-nos a uma atitude de acolhimento e disponibilidade.

Jesus Cristo é o centro desta palavra. Este acontecimento é único. O Verbo, Filho de Deus, coloca-se em disponibilidade total no seio da Trindade. Enviado pelo Pai, assume Humanidade, fazendo brilhar o rosto de misericórdia e de salvação. E toda a Sua vida será testemunho de entrega e fidelidade amorosa ao Pai. Ele faz-se servo e inteira disponibilidade para o cumprimento da vontade do Pai. Faz-se servo da Humanidade.

A virgem que conceberá e dará à luz um filho é o sinal de esperança que o profeta vislumbra. Essa visão ultrapassa a lógica imediata do profeta para se situar na Mulher simples e pobre, Maria de Nazaré, que Lucas faz cumprir.

Maria resplandece numa atitude verdadeiramente bela e cheia de santidade: por uma disponibilidade incondicional, e por colocar todo o seu ser em doação na realização do amor de Deus, vertido em abundância sobre a pobre humanidade.

O estar disponível supõe ser livre, responsável, verdadeiro, humilde. Tal atitude implica maturidade, supõe viver na escuta da palavra, na sua interiorização e no compromisso que a palavra exige. Significa ter penetrado na sabedoria da vida. Significa amar verdadeiramente e deixar-se conduzir.

Daí que brote dessa atitude uma confiança audaz, um abandonar-se, o desejo de se apagar e diminuir para que outros vivam e cresçam.

Este primeiro «ecce», que pronunciado, no compromisso pessoal, «eis a serva», gera Encarnação do Verbo, maternidade; torna-se depois, na cruz, um «ecce» de maternidade universal, pela vitalidade inesgotável desta Vida.

Fiat

O Filho de Deus encarna realizando o projecto do Pai. Vem para cumprir. Vem para levar até ao fim a visibilidade do amor e da misericórdia. A palavra que o Filho pronuncia é de faça-se. E na sua vida terrena, por palavras e sobretudo pela vida, proclamará o evangelho da doação, da entrega. Este faça-se aparece-nos tão palpável e visível na Sua Paixão Redentora. O Seu sofrimento torna visível o amor.

Maria torna-se serva, à maneira de seu filho. A escuta e o compromisso com a palavra, levam-n’A a compreender que o seu faça-se, na total doação da vida é sacrifício agradável a Deus e de corredenção em favor de todos.

Cada discípulo de Jesus Cristo, na referência a Maria, deve compreender que a doação de vida no compromisso com a Boa-Nova é consequência da relação pessoal com o Mestre.

Magnificat

Uma vida entregue a Deus, e por Ele, aos irmãos é uma vida encantadora. Essa vida é mesmo um cântico de louvor e exaltação. É um hino de glória.

É provar que cumprir a vontade de Deus é ser feliz. A atitude de Cristo (novo Adão) e de Maria (nova Eva) contradiz a atitude dos nossos primeiros pais que seduzidos pela tentação desfiguraram a verdadeira imagem de Deus, passaram a vê-Lo como adversário.

Talvez ainda encontremos pessoas que pensem que viver no cumprimento da vontade de Deus é correr o risco de não ser feliz. Ainda se funciona com a imagem de um deus fora da incarnação e do que ela significa. Importa testemunhar que o verdadeiro Deus concorre no seu projecto de amor para a nossa autêntica felicidade e realização.

A alegria da vida e a esperança que sustentamos são um canto de louvor. E são sinal de que dispusemos do que temos e somos no compromisso com o Deus feito Homem, que ilumina o sentido da nossa caminhada e do nosso ser.

Significa ver o Acontecimento Jesus Cristo como algo maravilhoso, belo e encantador. Capaz de dinamizar o nosso ser numa alegria profunda e num estilo de vida próprio de quem se deixou contagiar por Ele.

Significa que damos razão da nossa fé, e que a celebramos, como expressão encantadora do amor, e não como peso ou frete. E revelamos que essa atitude entronca na estrutura do dar-se e fazer-se oblação na esperança mergulhada em tudo o que pertence à nossa dignidade humana.

Stabat

A anunciação do Senhor é também anunciação do seu mistério pascal. Esse Filho estabelecerá um Reino que não terá fim, e para isso há-de resgatar homens de toda a tribo, povos e línguas.

Maria de Nazaré sabe estar em atitude de disponibilidade, mesmo que sinta profundamente que a doação lhe exige a entrega total da sua vida.

Nas horas difíceis é presença fiel, amorosa e fecunda. Aprendeu com Jesus Cristo, Seu Filho, a saber estar em acolhimento, disponibilidade, intercessão, ajuda e confiança.

Talvez nestes tempos difíceis, e como paradoxo, tempos em que parece afrouxar a nossa relação pessoal e comunitária com Jesus Cristo, seja necessário contemplá-La e imitá-La mais sériamente.

Com Maria temos sempre de aprender que o importante é servir, amar, doar-se. Em Maria não há lugar para intrigas, quezílias, ciúmes, mentiras, comodismo e corridas pelos primeiros lugares. Há lugar para sacrifício constante, sinal de doação; de fé substancial para ver e interpretar os sinais de Deus e se comprometer; esperança para viver na lógica de Deus e amor incondicional para servir sem nada esperar em troca.

Gloria

Aquele que se fez Homem, que se despojou até se tornar homem, que se humilhou ainda mais morrendo na cruz, sobe também ao mais alto dos céus.

Por isso a festa de hoje é também anúncio de gloriosa ascensão. E é também esperança, para nós seus discípulos, que assumindo o seu mistério pascal na nossa vida estamos destinados à glória.

Constantemente Maria nos apela a vivermos em santidade e rectidão na presença do nosso Deus. Nos apela a não termos medo da autêntica conversão e da doação da nossa vida porque nos está reservado algo de maravilhoso.

Os pastorinhos de Fátima, quando A viram, queriam ir com ela. Sim, disse, ireis, mas deveis oferecer as vossas vidas.

A Encarnação do Filho de Deus, pelo Sim de Maria, é acontecimento a pedir-me docilidade, disponibilidade, serviço e entrega: santidade.

 

 

Diz-se o Credo.

Às palavras «e encarnou ...», ajoelha-se.

 

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos em Cristo:

Unidos, pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas,

dizendo (ou:  cantando):

 

R.   Pela Vossa Encarnação, ouvi-nos Senhor.

Ou: Interceda por nós a Virgem cheia de graça.

Ou: Interceda por nós a Mãe do Verbo Encarnado.

 

1.  Para que a Igreja, dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que o papa Bento XVI, os bispos,

os presbíteros e os diáconos,

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que em Cristo, servo obediente,

que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, irmãos.

 

4.  Para que aos pobres e a todos os que sofrem

seja feita justiça, não lhes falte o necessário

e se reconheça neles o rosto de Cristo,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do ‘Emanuel’,

que nos foi dado por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que os cristãos de todas as Igrejas,

particularmente os da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, irmãos.

 

 

Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas,

para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Santa Maria

nos levem a contemplar a vossa glória.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Comungar é viver a comunhão plena com Deus e com os irmãos.

O encontro pessoal com Cristo, Filho de Deus, devem levar-me a fazer da minha vida um cântico de alegria e esperança.

Mas não devo esquecer que é participar no Seu mistério pascal a exigir de mim que assuma a mesma atitude de doação e entrega.

Que Maria, Mãe de Jesus, seja a referência do meu ser de discípulo.

 

Cântico da Comunhão: O meu espírito exulta, C. Silva, NRMS 38

Is 7, 14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: Minha Senhora e minha Mãe, H. Faria, NRMS 33-34

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A Encarnação do Verbo deve fazer de mim discípulo atento a todas as realidades humanas. Sou enviado em missão de um projecto pleno de humanidade: o Evangelho da Vida.

Sem medo de me assumir como discípulo de Cristo devo fazer da vida acolhimento, disponibilidade, doação. Devo afirmar e testemunhar a fé, a esperança e a caridade, estruturadas pelas virtudes humanas.

Maria, nossa Mãe querida está sempre acolhedora e disponível para todos.

 

Cântico final: Avé Maria Senhora, F. da Silva, NRMS 81

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

2ª SEMANA

 

4ª Feira, 2-IV: A Palavra de Deus não pode ficar encarcerada.

Act 5, 17-26 / Jo 3, 16-21

Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o homem que acredita n’Ele não se perca.

O Filho de Deus encarnou para que não esquecêssemos o amor que Deus tem por cada um de nós (cf.Ev).

E, ao mesmo tempo, Jesus é para nós o modelo de vida. Precisamos conhecer muito bem a sua vida e os seus ensinamentos, que devem ser anunciados e conhecidos por todos, pois são palavras de vida (cf. Leit). Na leitura meditada da Escritura encontraremos alimento e força para o cumprimento da nossa missão pessoal e também para a missão que temos que levar a cabo na sociedade, para torná-la mais justa.

 

5ª Feira, 3-IV: Fé e secularismo.

Act 5, 27-33 / Jo 3, 31-36

(O Sumo sacerdote): Já vos demos a ordem formal de não ensinar em nome de Jesus. E vós enchestes Jerusalém da nova doutrina.

Também hoje a cultura secularizada pretende impor-nos o mesmo silêncio. Quer construir uma ordem temporal sem Deus. E assim acaba-se por cair nas maiores aberrações e ataques à dignidade humana, como o aborto, o acasalamento de pessoas do mesmo sexo, etc.: «Quem se recusa a crer no Filho, não terá a vida» (Ev).

A nossa reacção há-de ser como a dos Apóstolos: «deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens» (Leit). Todas as situações têm que ver com Deus: o mundo do trabalho, da família, etc. Em todas elas não podemos prescindir da nossa fé.

 

6ª Feira, 4-IV: A energia para o cumprimento dos deveres.

Act 5, 34-42 / Jo 6, 1-15

Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos convivas. E fez o mesmo com os peixes, tantos quantos eles quiseram.

Jesus tem compaixão de uma enorme multidão que quer ouvir os seus ensinamentos. Está esfomeada e precisa de novas forças (cf. Ev).

Este milagre da multiplicação prefigura a superabundância do Pão eucarístico. A Eucaristia dar-nos-á forças para enfrentarmos as dificuldades do nosso dia, do mesmo modo que aos Apóstolos: aceitam os castigos, cheios de alegria (cf. Leit); ajudar-nos-á a melhorar a nossa vida cristã e a transformar a sociedade em que vivemos; ensinar-nos-á a contar sempre com a ajuda de Deus para a resolução dos nossos problemas.

 

Sábado, 5-IV: O Senhor é a nossa esperança.

Act 6, 1-7 / Jo 6, 16-21

Como soprava intensa ventania, o mar ia-se encrespando… Mas Jesus disse-lhes: Sou eu, não temais.

Embora tivessem visto muitos milagres, realizados pelo Senhor, a fé dos Apóstolos fraqueja diante de uma pequena tempestade no lago (cf. Ev). Quando a fé diminui, as dificuldades agigantam-se: juntam-se as tempestades da nossa alma com as do ambiente.

Mas o Senhor não deixará de nos proteger. Ele fez a promessa de estar sempre connosco, como esteve com os Apóstolos no barco. A confiança aumentará se nos dedicarmos à meditação da sua palavra: «vamos dedicar-nos à oração e ao serviço da palavra» (Leit).

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:                     Armando Rodrigues Dias

Nota Exegética:       Geraldo Morujão

Homilias Feriais:      Nuno Romão

Sugestão Musical:    Duarte Nuno Rocha

 


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