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«NÃO  VOS  DEIXAREI  ÓRFÃOS»

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Quando Jesus lhes falava do Espírito Santo, os Apóstolos não prosseguiam a conversa, nem demonstravam curiosidade, pois sempre falava d’Ele a propósito da sua partida deste mundo. Mas quem a desejava? E quando lhes prometia o Consolador, que consolação podiam conceber? Quem os consolaria da separação do Mestre, em que nem gostavam sequer de pensar?...

Mas, uma vez que o Espírito Santo veio, enchendo-lhes de luz o entendimento e de fogo de amor o coração, que alegria a sua! Que ardor e anseio pela salvação das almas; que atenção contínua às suas inspirações; que segurança nas suas decisões; que firmeza na pregação e na conduta! Nunca, afinal, se haviam sentido tão junto do Mestre como desde o momento em que receberam o seu próprio Espírito! Nunca mais íntimos, nunca mais identificados com o Senhor!

A Igreja tornara-se uma realidade viva; não um mero e belo projecto, nem uma simples comunidade de crentes. A Igreja, afinal, era o mesmo Jesus neles, um verdadeiro Corpo, vivificado e guiado pelo Espírito Santo; não só uma assembleia moral de fé e de intenções, nem só uma unidade «à imagem» da Trindade, mas uma participação maravilhosa na própria Unidade divina! Em plena união com o Pai, no Filho, pelo Espírito Santo!

E que pressa de transmitir o Espírito de Deus a todos os crentes: - «Já recebestes o Espírito Santo?» - «Nós nem sabíamos que havia o Espírito Santo!...» Então como podiam seguir Cristo? Como poderiam compreender correctamente o seu exemplo e as suas palavras? Como saberiam orientar-se? Conhecer a vontade de Deus? A fé em Jesus e o empenho de segui-Lo não bastavam; não passariam de uma convicção e de um esforço humanos, sujeitos a todas as interpretações subjectivas e a uma fraqueza radical: a incapacidade do homem de transcender a sua natureza... Jesus teria vindo em vão.

«Não vos deixarei órfãos», prometera o Senhor. Que pena lhes davam aos Apóstolos os que amavam Cristo e estavam sós, fora do amparo humano e sobrenatural da Igreja! Sem o Espírito Santo, estavam realmente sem família, sem o vínculo nem a força dos Sacramentos, nem a luz certa de Cristo, Caminho, Verdade e Vida...

Que pena nos devem dar também hoje aqueles que, embora amando Cristo, perderam o sentido familiar da Igreja, e olham para Ela de fora, não como filhos mas como estranhos! Para quem Cristo morreu há dois mil anos, e só nos deixou uma recordação cada vez mais difusa na História! Como se o Pentecostes tivesse sido um fogo-fátuo... Não. Nosso Senhor cumpriu a sua promessa, e o Espírito Santo continua sendo a «alma da Igreja», sempre viva, e nossa verdadeira Mãe, imaculada e santa, «a pesar dos pesares», como dizia S. Josemaria: apesar dos nossos pecados, e precisamente por causa deles. Por causa da nossa fraqueza se entregou Jesus à morte, e ressuscitou, e nos enviou o seu Espírito. E não o fez só pelos que O seguiam então, mas também «por aqueles que hão-de crer por meio deles», por nós.

Quando um amigo sem fé quis convencer S. Josemaria do fracasso de Cristo, por tantos que não são cristãos, e por tantos cristãos órfãos de esperança, ele reagiu com fé: «Não! A Redenção continua a fazer-se!» A Igreja mantém-se viva e vivificante até ao fim dos tempos. Cristo continua a chamar-nos e a enviar-nos, com o Pai, o Espírito Santo. Somos, de facto, Família de Deus.

 

 

 

 

 

 

 


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