Introdução

 

 

O ANO LITÚRGICO

 

O Ano Litúrgico está estruturado em dois grandes Ciclos: o Ciclo do Natal e o da Páscoa. Entre os dois, decorre o Tempo Comum: alguns Domingos entre o Ciclo do Natal e o da Quaresma, e desde o Domingo da Santíssima Trindade até à Solenidade de Cristo Rei.

Cada um destes Ciclos é integrado por um tempo de preparação, um tempo festivo e prolongamento desse mesmo tempo.

 

O CICLO PASCAL

 

Todo o calendário litúrgico nasceu e desenvolveu-se à volta do acontecimento da Páscoa.

Neste Ciclo temos:

Um tempo de preparação: a Quaresma;

Um tempo festivo: vai desde a Missa Vespertina da Ceia do Senhor (começo do Tríduo Pascal) até ao Domingo da Oitava da Páscoa (2º Domingo da Páscoa).

Um prolongamento: abarca todo o espaço que vai até às segundas Vésperas da Solenidade do Pentecostes.

 

TEMPO DA QUARESMA

 

Começa na Quarta-feira de Cinzas e termina em Quarta-feira Santa. São quarenta dias a lembrar e a acompanhar os quarenta dias passados por Jesus no monte da Quarentena, preparando, com a oração e o jejum, a Sua Vida Pública.

 

Origem da Quaresma

 

A Igreja procedia, desde o princípio, uma preparação cuidada de todas as pessoas que desejavam receber o Baptismo. Era um longo período de preparação, chamado Catecumenado, que oscilou, Segundo os tempos, entre os dois e os quatro anos.

Cerca de duzentos anos após o nascimento de Cristo, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350 d. C., a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias. Assim surgiu a Quaresma.

Quando o imperador romano Constantino Magno deu a paz à Igreja, em 313, pelo Edito de Milão, uma grande multidão de pessoas pediu o Baptismo e foi preciso fazer uma preparação abreviada.

Em breve se verificou que a Igreja estava cheia de «pagãos baptizados», isto é, pessoas que desejavam viver o cristianismo mas permaneciam na maior ignorância religiosa.

A Quaresma nasceu desta preocupação: aprofundar os conhecimentos e levar à prática da vida cristã todos os fiéis. É uma espécie de catecumenado annual. Depois da última Reforma Litúrgica estão previstas leituras para os diversos Domingos da Quaresma, para facilitar este «Catecumenado».

A Igreja publicou o RICA (Ritual para a Iniciação Cristã dos Adultos), no qual encontraremos directivas sobre a organização e o desenrolar um verdadeiro Catecumenado.

Os temas dos cinco domingos da Quaresma seguem ainda um esquema catecumenal, versando o stems fundamentais da fé.

 

Significado da Quaresma

 

A palavra Quaresma vem da língua latina – quadragésima – e é utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem a festa central do cristianismo: a Ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no Domingo de Páscoa. Esta prática vem do século IV.

Este período é reservado para a reflexão, a conversão espiritual. Ou seja, o católico deve se aproximar de Deus visando o crescimento espiritual. Os fiéis são convidados a fazerem uma comparação entre suas vidas e a mensagem cristã expressa nos Evangelhos. Esta comparação significa um recomeço, um renascimento para as questões espirituais e de crescimento pessoal. O cristão deve intensificar a prática dos princípios essenciais de sua fé com o objectivo de ser uma pessoa melhor e proporcionar o bem para os demais.

Essencialmente, a Quaresma é um retiro espiritual voltado para reflexão. Os cristãos são convidados a viver em recolhimento, oração e penitência para preparar o acolhimento de Cristo Vivo, Ressuscitado no Domingo de Páscoa. Assim, retomando questões espirituais, simbolicamente o cristão está ressuscitando, como Cristo.

 A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência.

 

Significado destes 40 dias

 

Na Bíblia, o número quatro simboliza o universo material. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades. Portanto, a duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia. Nela, é relatada as passagens dos quarenta dias do dilúvio, dos quarenta anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, dos quarenta dias de Moisés e de Elias na montanha, dos quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública, dos 400 anos que durou a estada dos judeus no Egipto, entre outras. Esses períodos vêm sempre antes de fatos importantes e se relacionam com a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo o coração para algo que vai acontecer.

 

Um programa para a Quaresma

 

A Igreja católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de acção: a oração, a penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, a paz e o amor em toda a humanidade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão para se aproximar de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma consequência da penitência.

 

Ainda é costume jejuar durante este tempo

 

Sim, ainda é costume jejuar na Quaresma, ainda que ele seja válido em qualquer época do ano. A igreja propõe o jejum principalmente como forma de sacrifício, mas também como uma maneira de educar-se, de ir percebendo que, o que o ser humano mais necessita é de Deus. Desta forma se justificam as demais abstinências, porque elas têm a mesma função.

Oficialmente, o jejum deve ser feito pelos cristãos baptizados, na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa. Pela lei da igreja, o jejum é obrigatório nesses dois dias para pessoas entre 18 e 60 anos.

O jejum, assim como todas as penitências, é visto pela igreja como uma forma de educação no sentido de se privar de algo e reverte-lo em serviços de amor, em práticas de caridade. Os sacrifícios, que podem ser escolhidos livremente, por exemplo: um jovem deixa de mascar chicletes por um mês, e o valor que gastaria nos doces é usado para o bem de alguém necessitado.

 

O que é o contributo penitencial

 

É dentro deste espírito que se recolhe na igreja o contributo penitencial. Juntamos pequenas nunciosas voluntárias — um café, economia de gasolina, caminhando e oferecendo a importância não dispendida, não lanchar, uma refeição mais pobre são outras tantas formas de juntar pequenas migalhas para oferecer.

A finalidade do jejum não é económica, mas acritativa: renunciamos em ordem a disponibilizar para os mais carenciados alguns recursos. Nos primórdios da Igreja, os pobres eram chamados «altares de Deus:»

 

Jejum e abstinência

 

O jejum consiste em fazer uma só refeição forte ao dia. A abstinência consiste em não comer carne. A Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa são dias de abstinência e jejum. A abstinência é obrigatória a partir dos catorze anos e o jejum dos dezoito aos cinquenta e nove anos de idade.

Com estes sacrifícios, trata-se de que todo nosso ser (alma e corpo) participe em um ato onde reconheça a necessidade de fazer obras com as quais reparemos o dano causado com nossos pecados e para o bem da Igreja.

O jejum e a abstinência podem ser trocados por outros sacrifícios, dependendo do que ditem as Conferências Episcopais de cada país, pois elas têm autoridade para determinar as diversas formas de penitência cristã. Algumas indicam: participação na Celebração da Eucaristia, leitura da Sagrada Escritura durante cerca de meia hora, exercício da Via-Sacra, recitação do Rosário, contributo penitencial, etc.

O jejum e abstinência da Quarta-feira de Cinzas e de Sexta-feira Santa não se pode permutar por nenhum outro.

 

A razão do Jejum

 

É necessário dar uma profunda resposta a esta pergunta, para que fique clara a relação entre o jejum e a conversão, isto é, a transformação espiritual que aproxima o homem a Deus.

O abster-se de comida e bebida tem com como fim introduzir na existência do homem não somente o equilíbrio necessário, mas também o desprendimento do que se poderia definir como «atitude consumística».

Tal atitude veio a ser em nosso tempo uma das características da civilização ocidental. O homem, orientado aos bens materiais, muito frequentemente abusa deles. A civilização se mede então segundo quantidade e a qualidade das coisas que estão em condições de prover ao homem e não se mede com a medida adequada ao homem.

Esta civilização de consumo fornece os bens materiais não somente para que sirvam ao homem em ordem a desenvolver as actividades criativas e úteis, mas cada vez mais para satisfazer os sentidos, a excitação que deriva deles, o prazer, uma multiplicação de sensações cada vez maior.

O homem de hoje deve abster-se de muitos meios de consumo, de estímulos, de satisfação dos sentidos, jejuar significa abster-se de algo. O homem é ele mesmo quando consegue dizer a si mesmo: Não.

Não é uma renúncia pela renúncia: mas para melhor e mais equilibrado desenvolvimento de si mesmo, para viver melhor os valores superiores, para o domínio de si mesmo.

 

O DESENROLAR DA Quaresma

 

Quarta-feira de Cinzas

 

Com a imposição das cinzas, inicia-se uma estação espiritual particularmente relevante para todo cristão que quer se preparar dignamente para viver o Mistério Pascal, quer dizer, a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus.

Este tempo vigoroso do Ano litúrgico se caracteriza pela mensagem bíblica que pode ser resumida em uma palavra: «Convertei-vos».

Este imperativo é proposto à mente dos fiéis mediante o austero rito da imposição das cinzas, o qual, com as palavras «Convertei-vos e crede no Evangelho» e com a expressão «Lembra-te de que és pó e para o pó voltarás», convida a todos a reflectir sobre o dever da conversão, recordando a inexorável caducidade e efémera fragilidade da vida humana, sujeita à morte.

A sugestiva cerimónia das cinzas eleva nossas mentes à realidade eterna que não passa jamais, a Deus. A conversão consiste em voltar para Deus, valorizando as realidades terrenas sob a luz da verdade. Uma valorização que implica uma consciência cada vez mais clara de que estamos de passagem na terra.

Sinónimo de «conversão», é também a palavra «penitência» … Penitência sugere-nos a mudança de mentalidade. Penitência exprime o livre esforço no seguimento de Cristo.

 

Indicações litúrgicas

 

– A cor dos paramentos é roxa, a não ser que ocorra uma solenidade. No 4º Domingo – Domingo Lætare – pode ser cor-de-rosa.

– Esta recomendada aos sacerdotes que celebram a santa Missa para o público a homilia diária.

– Os cânticos, devem ser totalmente distintos dos habituais e hão-de reflectir a espiritualidade penitencial, própria deste tempo.

– Não se canta nem reza a aclamação Aleluia na Missa ou no Ofício Divino. É substituída por uma outra aclamação que vem lá indicada.

Contudo, para sublinhar melhor a distinção entre as feiras e os dias festivos, acreditam melhor omitir sempre este canto nos dias feriais. Inclusive nos domingos, é melhor omitir esta aclamação que recitá-la sem canto.

– Excepto nos domingos e nas solenidades e festas que têm prefácio próprio, cada dia se diz qualquer dos cinco prefácios de Quaresma.

– Nos domingos se omite o hino do «Glória». Este hino, diz-se apenas nas solenidades e festas.

– Manda-se suprimir os adornos e flores da igreja, excepto o IV Domingo. (Domingo da alegria em nosso caminho para a Páscoa). Igualmente se suprime a música de instrumentos (excepto o IV Domingo), a não ser que sejam indispensáveis para acompanhar algum canto.

Nos domingos não se pode celebrar nenhuma outra missa que não seja a do dia. Nas feiras, assinalada-las no Calendário Litúrgico com a letra (D), existe a possibilidade de celebrar alguma missa distinta da do dia. Se nas feiras quer fazer a memória de algum santo, se substitui a colecta ferial pela do santo. Outros elementos devem ser feriais (inclusive a oração sobre as ofertas e depois da comunhão).

 

Estruturas do tempo de Quaresma

 

Para poder viver adequadamente a Quaresma é necessário esclarecer os diversos planos ou estruturas em que se move este tempo.

Em primeiro lugar, é preciso distinguir a «Quaresma dominical», com seu dinamismo próprio e independente, da «Quaresma das feiras».

 

A «Quaresma dominical»

 

Nela se distinguem diversos blocos de leituras. Além disso o conjunto dos cinco primeiros domingos, que formam como uma unidade, contrapõem-se ao último domingo – Domingo de Ramos na Paixão do Senhor –, que forma mas bem um todo com as feiras da Semana Santa, e inclusive com o Tríduo Pascal.

 

A «Quaresma ferial»

 

Cabe também assinalar nela dois blocos distintos:

– O das Feiras das quatro primeiras semanas, centradas sobre tudo na conversão e a penitência.

– E o das duas últimas semanas, no que, a ditos temas, sobrepõe-se, a contemplação da Paixão do Senhor, a qual se fará ainda mais intensa na Semana Santa.

Ao organizar, pois, as celebrações feriais, terá que distinguir estas duas etapas, sublinhando na primeira os aspectos de conversão (as orações, os prefácios, as preces e os cantos da missa ajudarão a isso).

– E, a partir da segunda-feira da V Semana, mudando um pouco o matiz, quer dizer, centrando mais a atenção na cruz e na morte do Senhor (sobre tudo as orações da missa e o prefácio I da Paixão do Senhor, tomam este novo matiz).

No fundo, há aqui uma visão teologicamente muito interessante: a conversão pessoal, que consiste no passado do pecado à graça (santidade), incorpora-se com um «crescendo» cada vez mais intenso, à Páscoa do Senhor: é só na pessoa do Senhor Jesus, nossa cabeça, onde a Igreja, seu corpo místico, passa da morte à vida.

Digamos finalmente que seria muito bom sublinhar com maior intensidade as feiras da última semana de Quaresma – a Semana Santa – nas que a contemplação da cruz do Senhor se faz quase exclusivamente (Prefácio II da Paixão do Senhor). Para isso, seria muito conveniente que, nesta última semana ficassem alguns sinais extraordinários que recalcassem a importância destes últimos dias. Embora as rubricas assinalam alguns destes sinais, como por exemplo o facto que nestes dias não se permite nenhuma celebração alheia (nem que se trate de solenidades); a estes sinais terá que somar alguns de mais fácil compreensão para os fiéis, para evidenciar assim o carácter de suma importância que têm estes dias: por exemplo o canto da aclamação do evangelho; a bênção solene diária ao final da missa (bênções solenes, formulário «Paixão do Senhor»); uso de vestimentas roxas mais vistosas, etc.

 

O lugar da celebração.

 

Deve-se procurar a maior austeridade possível, tanto para o altar, o presbitério, e outros lugares e elementos celebrativos. Unicamente se deve conservar o que for necessário para que o lugar seja acolhedor e ordenado. A austeridade dos elementos com que se apresenta nestes dias a igreja (o templo), contraposta à maneira festiva com que se celebrará a Páscoa e o tempo pascal, ajudará a captar o sentido de passagem» (páscoa = passagem) que têm as celebrações deste ciclo.

Durante a Quaresma há que suprimir as flores (as que podem ser substituídas por plantas ornamentais), os tapetes não necessários, a música instrumental, a não ser que seja de tudo imprescindível para um bom canto. O órgão somente deve ser tocado ao acompanhar o canto.

Uma prática que em algumas Igrejas poderia ser expressiva é a de cobrir o altar, fora da celebração eucarística, com um pano de tecido roxo.

 

Solenidades, festas e memórias durante a Quaresma

 

Outro ponto que deve cuidar-se é o das maneiras de celebrar as festas do Santoral durante a Quaresma. O factor fundamental consiste em procurar que a Quaresma não fique obscurecida por celebrações alheias à mesma. Precisamente para obter este fim, o Calendário romano procurou afastar deste tempo as celebrações dos Santos.

De facto durante todo o longo período quaresmal, só se celebram um máximo de quatro festividades (além de alguma solenidade ou festa dos calendários particulares): São Cirilo e São Metódio (14 de Fevereiro); a Cátedra de São Pedro (22 de Fevereiro); São José, casto esposo da Virgem Maria (19 de Março) e a Anunciação do Senhor (25 de Março). Em todo caso na maneira de celebrar estas festas não deverá dar a impressão de que se «interrompe a Quaresma», mas sim terá que inscrever estas festas na espiritualidade e a dinâmica deste tempo litúrgico.

Com respeito à memória dos Santos, terá que recordar que durante a Quaresma todas elas são livres e se se celebrarem, deve-se fazer com ornamentos roxos, e do modo como indicam as normas litúrgicas.

 

As leituras bíblicas da Quaresma

 

Visão de conjunto. Desde o primeiro momento é bom assinalar o fato de que neste tempo a temática dos diversos sistemas de leituras é muito mais variada que nos outros ciclos litúrgicos. Embora todos os leccionários deste tempo tenham uma cortina de fundo comum, a renovação da vida cristã pela conversão, esta temática se presente desde ópticas muito diversas, cada uma das quais tem seus matizes próprios e distintos. Se esta diversidade de enfoques se esquecer, se se unificar e reduz o conjunto a uma temática única, muitas das leituras litúrgicas passarão, virtualmente, desapercebidas; fenómeno este que infelizmente ocorre mais de uma vez.

Devemos, pois, sublinhar em primeiro lugar que a característica principal das leituras de Quaresma não estriba tanto na «novidade» de umas leituras que se vão descobrindo graças aos leccionários conciliares, quanto na abundância de linhas concomitantes que é preciso unir espiritualmente, de modo que cada uma delas contribua sua contribuição à renovação quaresmal de quem usa os citados leccionários.

A atitude fundamental frente às leituras quaresmais deve ser, sobre tudo, a de uma escuta repousada e penetrante que ajude a que o espírito se vá impregnando progressivamente dos critérios da fé, há vezes suficientemente conhecidos, mas não suficientemente interiorizados e feitos vida.

Não se trata de «meditações» mais ou menos intelectualizantes, como de uma contemplação «gozosa» do Plano de Deus sobre a pessoa humana e sua história, e de uma escuta atenta frente ao chamado de Deus a uma conversão que nos leve a paz e à felicidade.

No conjunto dos Leccionários quaresmais emergem com facilidade algumas linhas de força nas que deve centrar a conversão quaresmal. Esta conversão esta muito longe de limitar-se a um mero melhoramento moral. É mas bem uma conversão radical a Cristo, o Homem novo, para existir nele (ver Col 2, 7).

Está linhas de força são as seguintes:

 

a) A meditação na história da salvação: realizada Por Deus-Amor em favor da pessoa humana criada a sua imagem e semelhança. Devemos «nos converter» de uma vida egocêntrica, onde o ser humano vive encerrado em sua mentira existencial, a uma vida de comunhão com o Senhor, o Caminho, a Verdade e a Vida, que nos leva a Pai no Espírito Santo.

b) A vivência do mistério pascal como culminação desta história Santa: devemos «nos converter» da visão de um Deus comum a todo ser humano, à visão do Deus vivo e verdadeiro que se revelou plenamente em seu único Filho, Cristo Jesus e em sua vitória pascal presente nos sacramentos de sua Igreja: «Tanto amou Deus ao mundo que deu a seu Filho único, para que tudo o que nele crer não pereça, mas sim tenha vida eterna» (Jo 3, 16).

c) O combate espiritual, que exige a cooperação activa com a graça em ordem a morrer ao homem velho e ao próprio pecado para dar passo à realidade do homem novo em Cristo. Em outras palavras, a luta pela santidade, exigência que recebemos no santo Baptismo.

Estas três linhas devem propor-se todas em simultâneo. A primeira linha de força –a meditação da História da Salvação – temo-la principalmente nas leituras do Antigo Testamento dos domingos e nas leituras da Vigília Pascal. A segunda – a vivência do mistério pascal como culminação da história Santa –, nos evangelhos dos domingos III, IV e V (os sacramentais pascais) e, pelo menos em certa maneira, nos evangelhos feriais a partir da segunda-feira da semana IV (oposição de Jesus ao mal – «os judeus» – que termina com a vitória pascal de Jesus sobre a morte, mal supremo). A terceira linha – o combate espiritual, a vida em Cristo, a vida virtuosa e Santa – aparece particularmente nas leituras apostólicas dos domingos e no conjunto das leituras feriais da missa das três primeiras semanas.

Vale a pena sublinhar que as três linhas de força de que vamos falando se acham, com maior ou menor intensidade, ao alcance de todos os fiéis: dos que só participam da missa dominical aos que tomam parte além na eucaristia dos dias feriais. Com intensidades diversas mas com um conteúdo fundamentalmente idêntico, todos os fiéis bebem, através da liturgia quaresmal, em uma fonte que lhes convida à conversão sob todos seus aspectos.

 

Missas dominicais

 

As leituras dominicais de Quaresma têm uma organização unitária, que terá que ter presente na pregação.

As leituras do Antigo Testamento seguem sua própria linha, que não tem uma relação directa com os evangelhos, como o resto do ano. Uma linha importante para compreender a História da Salvação.

Os Evangelhos seguem também uma temática organizada e própria.

E as leituras que se fazem em segundo lugar, as apostólicas, estão pensadas como complementares das anteriores.

A primeira leitura tem neste tempo de Quaresma uma intenção clara: apresentar os grandes temas da História da Salvação, para preparar o grande acontecimento da Páscoa do Senhor:

– A criação e origem do mundo (primeiro domingo).

– Abraão, pai dos fiéis (segundo domingo).

– O Êxodo e Moisés (terceiro domingo).

– A história de Israel, centrada sobre tudo em Davi (quarto domingo).

– Os profetas e sua mensagem (quinto domingo).

– O Servo de Yahvé (domingo de Ramos).

Estas etapas se proclamam de modo mais directo no Ciclo A, em seus momentos culminantes.

No Ciclo B se centram sobre tudo no tema da Aliança (com o Noé, com o Abraão, com Israel, o exílio, o novo louvor anunciado por Jeremias).

No Ciclo C, as mesmas etapas se vêem mas bem do prisma do culto (oferendas de primícias, celebração da Páscoa, etc.).

No sexto domingo, ou domingo de Ramos na Paixão do Senhor, invariavelmente se proclama o canto do Servo de Yahvé, por Isaías.

Estas etapas representam uma volta à fonte: a história das actuações salvíficas de Deus, que preparam o acontecimento central: o mistério Pascal do Senhor Jesus. Na pregação terá que levar em conta esta progressão, para não perder de vista o caminho para a Páscoa.

A leitura Evangélica tem também sua coerência independente ao longo das seis semanas:

primeiro domingo: o tema das tentações de Jesus no deserto, lidas em cada ciclo segundo seu evangelista; o tema dos quarenta dias, o tema do combate espiritual.

segundo domingo: a Transfiguração, lida também em cada ciclo segundo o próprio evangelista; de novo o tema dos quarenta dias (Moisés, Elias, Cristo) e a preparação pascal; a luta e a tentação levam a vida.

terceiro domingo, quarto e quinto: apresentação dos temas catequéticos da iniciação cristã: a água, a luz, a vida.

No Ciclo A: os grandes temas baptismais de São João: a samaritana (água), o cego (luz), Lázaro (vida).

No Ciclo B: tema paralelos, também de São João: o Templo, a serpente e Jesus Servo.

No Ciclo C: temas de conversão e misericórdia: iniciação a outro Sacramento quaresmal-pascal: a Penitência.

Sexto domingo: a Paixão de Jesus, cada ano segundo seu evangelista (reservando a Paixão de São João para a Sexta-feira Santa).

O pregador deve levar em conta esta unidade e ajudar a que a comunidade vá desentranhando os diversos aspectos de sua marcha para a Páscoa, não ficando, por exemplo no tema da tentação ou da penitência, mas sim entrando também aos temas baptismais: Cristo e sua Páscoa são para nós a chave da água viva, da luz verdadeira e da nova vida.

A segunda leitura está pensada como complemento dos grandes temas da História da Salvação e da preparação evangélica à Páscoa. Temas espirituais, relativos ao processo de fé e conversão e a concretização moral dos temas quaresmais: a fé, a esperança, o amor, a vida espiritual, filhos da luz, etc.

 

Missas feriais

 

O actual leccionário ferial da missa divide a Quaresma em duas partes: por um lado, temos os dias que vão desde Quarta-feira de Cinzas até sábado da III semana; e por outro, as feiras que discorrem desde segunda-feira de IV semana até o começo do Tríduo Pascal.

 

Na primeira parte da Quaresma (Quarta-feira de Cinzas até na sábado de III semana), as leituras vão apresentando, positivamente, as atitudes fundamentais do viver cristão e, negativamente, a reforma dos defeitos que obscurecem nosso seguimento de Jesus.

Nestas feiras, ambas as leituras revistam ter unidade temática bastante marcada, que insiste em temas como a conversão, o sentido do tempo quaresmal, o amor ao próximo, a oração, a intercessão da Igreja pelos pecadores, o exame de conscientiza, etc.

Nas origens da organização da Quaresma, só havia missa (além disso do Domingo), os dias quarta-feira e sexta-feira. Por este motivo o leccionário de Quaresma privilegia as leituras destes dois dias com leituras de maior importância que as das restantes feiras. Tais leituras costumam ser relativas à paixão e à conversão.

Na segunda parte da Quaresma, (a partir da Segunda-feira da IV semana até o Tríduo Pascal), o leccionário mudar de perspectiva: oferece-se uma leitura contínua do evangelho segundo São João, escolhendo sobre tudo os fragmentos nos que se propõe a oposição crescente entre Jesus e os «judeus».

Esta meditação do Senhor enfrentando-se com o mal, personalizado por São João nos «judeus», está chamada a fortalecer a luta quaresmal não só em uma linha ascética, mas também principalmente no contexto da comunhão com Cristo, o único vencedor absoluto do mal.

Nestas feiras, as leituras não estão tão ligadas tematicamente uma em relação à outra, mas sim apresentam, de maneira independente, por um lado a figura do Servo do Senhor ou de outro personagem (Jeremias especialmente), que deve ser como imagem e profecia do Salvador crucificado; e, por outro, o desenvolvimento da trama que culminará na morte e vitória de Cristo.

Finalmente é bom indicar que a partir da segunda-feira da semana IV aparece um tema possivelmente não muito conhecido: o conjunto dinâmico que, partindo das «obras» e «palavras» do Senhor Jesus, chega até o acontecimento de sua «hora». Para não poucos pode ser aconselhável fazer um esforço de meditação continuada nestes evangelhos em sua trama progressiva. Este tema pode resultar muito enriquecedor. Embora se conheçam às vezes os textos, poucas vezes se descoberto o significado dinâmico que une o conjunto destas leituras, conjunto que desemboca na «hora» de Jesus, quer dizer em sua glorificação através da morte que celebramos no Tríduo pascal.

 

 

RECOMENDAÇÕES E SUGESTÕES.

 

Textos eucológicos.

 

A Quaresma é o tempo do ano que possui maior riqueza de textos eucológicos (conjunto de orações de um livro litúrgico ou de uma celebração). A missa não só tem própria a primeira oração de cada dia, mas também inclusive a oração sobre as ofertas e a oração depois da comunhão. Mas, além destes textos obrigatórios, sublinharíamos a importância de outros formulários que podem usar-se livremente:

 

O acto penitencial da missa.

 

Seria recomendável destacar, durante este tempo, esta parte da celebração. Poderiam, por exemplo, variar-se cada dia da semana as invocações (a nova edição do Missal Romano oferece para isso uma variedade de possibilidades), e cantar diariamente – não limitar-se a rezar – o «Senhor tenha piedade». É uma maneira singela de sublinhar o carácter penitencial destes dias.

 

Oração dos fiéis

 

Conviria empregar alguns formulários nos quais se atendesse o significado próprio deste tempo, e nos que se incluíram algumas solicite pelos pecadores, a teor do que se diz a respeito no Concílio Vaticano II (ver Sacrosanctum Concilium, N. 109). Do mesmo modo, e seguindo o pedido do Papa, podem-se incluir petições pela paz do mundo, pela família, pela defesa da vida, e pelas vocações.

 

Prefácios

 

No ano A, todos os domingos têm um prefácio próprio que glosa o evangelho do dia. Nos anos B e C, têm prefácio próprio os domingos I e II e no domingo de Ramos. Os restantes domingos, usa-se um dos prefácios comuns de Quaresma. O mais apropriado para no domingo IV é o prefácio I, por suas alusões à Páscoa que se aproxima. Em troca o prefácio IV por suas alusões ao jejum, não é apropriado para no domingo.

Para as feiras há cinco prefácios. Todos estes prefácios terá que distribui-los de maneira que nenhum deles fique esquecido. Por seu carácter penitencial, o IV está especialmente indicado para as sextas-feiras.

 

Programa de cantos.

 

a) Canto de entrada da missa. Este canto tem que dar a cor quaresmal ao conjunto da celebração eucarística. Deve ser penitencial ou, nos dias sexta-feira e nas duas últimas semanas, alusivos à cruz do Senhor. Portanto terá que pôr muito cuidado em sua escolha.

 

b) Salmo responsorial. Deve-se respeitar sempre na liturgia da Missa e não ser alegremente substituído por qualquer canto. Não nos cansaremos de dizer que o Salmo forma parte integral da Liturgia da Palavra; que é Palavra de Deus, e que a palavra divina nunca pode ser substituída pela palavra humana.

Na medida do possível se deve cantar. Mas se a assembleia não pode cantar a antífona própria do salmo da missa, podem-se procurar algumas antífonas aplicáveis a todas as missas, sempre e quanto estas antífonas respeitem o sentido do salmo.

Assim por exemplo se podem seleccionar antífonas penitenciais, quando o salmo for penitencial (por exemplo, «Perdão, Senhor, Perdão»; ou «Sim me levantarei»); ou aclamações que aludam à paixão do Senhor, quando o salmo sugira a oração de Cristo na cruz (por exemplo «me Proteja meu Deus»).

Em caso que isto tampouco se possa fazer é preferível ler o salmo, e a assembleia responder com a antífona indicada, a cantar uma resposta que não tenha o mesmo sentido do salmo.

c) Aclamação antes do evangelho. Podem fazer-se estas indicações:

– É melhor reservá-la unicamente para os dias mais solenes (domingos e três primeiras feiras de Semana Santa), e omiti-la nas feiras.

– Nunca a deve cantar um solista (não é um segundo salmo responsorial), mas sim a assembleia ou um coro. O melhor é que seja um canto vibrante e aclamação a Cristo que falará no santo evangelho.

 

d) Cantos de comunhão. Deverão ser evitados os que tiverem um matiz penitencial, pois a comunhão é sempre um momento festivo. No momento de comungar não se trata de criar um ambiente quaresmal, mas sim acompanhar festivamente a procissão eucarística. Por isso é bom para este momento da Santa Missa escolher cantos alusivos ao convite eucarístico.

 

Preparação dos cantos da Vigília e do Tempo pascal

 

Terá que dedicar durante a Quaresma um tempo cada semana para ensaiar cantos pascais. Isto não se situa somente na linha de uma necessidade prática com vistas às festas e ao tempo litúrgico que se aproximam, mas sim além disso contribuirá a viver a Quaresma como um caminho para a páscoa, criando o desejo de desejar sua celebração.

Nesta linha, tem tanta importância os ensaios em si como a explicação de alguns textos cantados. Nestes ensaios quaresmais deveria procurar-se que o repertório pascal progredisse de ano em ano, e, assim, os cantos pascais superassem os dos outros ciclos, como a Páscoa supera em solenidade as outras festas.

Como cantos mais importantes poderiam ser:

 

Um «Aleluia» vibrante (e possivelmente novo) que, bem ensaiado desde o começo da Quaresma, poderia-o saber bem toda a assembleia.

Um «Glória» solene e extraordinário, que poderia estrear-se na Noite Santa de Páscoa e converter-se no «Glória» próprio da cinquentena, ou pelo menos da Oitava de Páscoa. É bom recordar que o «Glória» que se escolha deve recolher em sua totalidade o texto litúrgico do Missal Romano.

Aquele que cantará o «Pregão Pascal» na Vigília Pascal, deverá praticá-lo com a suficiente antecipação e nunca deixar seu ensaio para o último momento.

 

Preparação do círio pascal.

 

O círio pascal é talvez o sinal mais próprio e expressivo das celebrações pascais. Por isso, não é suficiente comprá-lo (seria imperdoável usar o círio de outros anos, pois a Páscoa é a renovação de tudo), mas sim é necessário ambientar sua futura presença, e, obter que os fiéis o desejem, pois o representa ao Senhor glorificado.

Por isso sugerimos que se organize o IV Domingo de Quaresma uma colecta entre os fiéis para adquiri-lo. O IV Domingo de Quaresma, é no domingo da alegria no caminho penitencial para a Páscoa, e nos convida a pensar na Páscoa como uma celebração já muito próxima.

Com isso resultaria mais verdadeira a expressão que se cantará no pregão pascal: «Em esta noite de graça, aceita, Pai santo, este sacrifício vespertino de louvor que a Santa Igreja te oferece por meio de seus ministros na solene oferenda deste círio». É evidente que esta expressão perde todo seu sentido se se usar um círio que já foi, por dizê-lo assim, «devotado» anteriormente.

 

 


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