A PALAVRA DO PAPA

O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO,

MOTOR DA SANTIDADE *



Senhor Cardeal

Venerados Irmãos no Sacerdócio

Caríssimos Jovens!


1. Estou feliz por acolher todos os participantes no Curso sobre o Foro interno neste tempo santo da Quaresma, caminho da Igreja para a Páscoa no seguimento de Jesus Cristo. O Curso, promovido todos os anos pelo Tribunal da Penitenciaria Apostólica, é seguido com particular interesse não só pelos sacerdotes e confessores, mas também por seminaristas que pretendem preparar-se e exercer com generosidade e solicitude o ministério da Reconciliação, tão essencial para a vida da Igreja.

Antes de mais, saúdo o Senhor Cardeal James Francis Stafford que, como Penitenciário-Mor, acompanha pela primeira vez este distinto grupo de mestres e alunos, juntamente com os Oficiais do mesmo Tribunal. Vejo com alegria que estão presentes também os beneméritos Religiosos de diversas Ordens dedicados ao ministério da Penitência nas Basílicas patriarcais de Roma, em benefício dos fiéis da Urbe e do Orbe. Saúdo todos com afecto.


O actual Ritual da Penitência


2. Há trinta anos entrava em vigor na Itália o novo Ritual da Penitência, promulgado alguns meses antes pela Congregação para o Culto Divino. Parece-me justo recordar esta data que colocou nas mãos dos sacerdotes e dos fiéis um precioso instrumento de renovação da Confissão sacramental, quer pelos preâmbulos doutrinais quer pelas indicações para uma digna celebração litúrgica. Gostaria de chamar a atenção para a ampla seara de textos da Sagrada Escritura e de orações, que o novo Ritual apresenta, a fim de dar ao momento sacramental toda a beleza e a dignidade de uma confissão de fé e de louvor na presença de Deus.

Além disso, merece ser realçada a novidade da fórmula da absolvição sacramental, que esclarece a dimensão trinitária deste sacramento: a misericórdia do Pai, o mistério pascal da morte e da ressurreição do Filho, a efusão do Espírito Santo.


O sacramento da conversão e da santificação


3. Com o novo Ritual da Penitência, tão rico de sugestões bíblicas, teológicas e litúrgicas, a Igreja colocou nas nossas mãos uma ajuda oportuna para viver o Sacramento do perdão à luz de Cristo ressuscitado. No próprio dia da Páscoa, como recorda o evangelista, Jesus entrou no Cenáculo, estando as portas fechadas, soprou sobre os discípulos e disse: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos» (Jo 20, 22-23). Jesus comunica o seu Espírito, que é a «remissão de todos os pecados», como está escrito no Missal Romano (cf. sábado da VII semana da Páscoa, oração sobre as oblatas), a fim de que o penitente obtenha, pelo ministério dos presbíteros, a reconciliação e a paz.

Fruto deste sacramento não é só a remissão dos pecados, necessária para quem pecou. Ele «opera uma verdadeira ‘ressurreição espiritual’, restitui a dignidade e os bens próprios da vida dos filhos de Deus, dos quais o mais precioso é a amizade com Deus» (Catecismo da Igreja Católica, 1468). Seria ilusório querer alcançar a santidade, segundo a vocação que cada um recebeu de Deus, sem se aproximar com frequência e fervor deste sacramento da conversão e da santificação.

O horizonte da chamada universal à santidade, que propus como caminho pastoral da Igreja no início do terceiro milénio (cf. Novo millenio ineunte, 30), tem no Sacramento da reconciliação uma premissa decisiva (cf. ibid., 37). De facto, é o sacramento do perdão e da graça, do encontro que regenera e santifica, o sacramento que, juntamente com a Eucaristia, acompanha o caminho do cristão para a perfeição.


Purificação, iluminação, união com Cristo


4. Pela sua natureza, ele implica uma purificação, quer nos actos do penitente que põe a nu a sua consciência para a profunda necessidade de ser perdoado e regenerado, quer na efusão da graça sacramental que purifica e renova. Nunca seremos suficientemente santos a ponto de não precisar desta purificação sacramental:  a confissão humilde, feita com amor, suscita uma pureza cada vez mais delicada no serviço de Deus e nas motivações que o sustentam.

A Penitência é sacramento de iluminação. A palavra de Deus, a graça sacramental, as exortações cheias do Espírito Santo do confessor, verdadeiro «guia espiritual», a humilde reflexão do penitente iluminam a sua consciência, fazem-lhe entender o mal que cometeu e dispõem-no a empenhar-se novamente no bem. Quem se confessa com frequência, e o faz com o desejo de progredir, sabe que recebe no sacramento, com o perdão de Deus e a graça do Espírito, uma luz preciosa para o seu caminho de perfeição.

Enfim, o Sacramento da penitência realiza um encontro unitivo com Cristo. Progressivamente, de Confissão em Confissão, o fiel experimenta uma comunhão cada vez mais profunda com o Senhor misericordioso, até à plena identificação com Ele, que se tem naquela perfeita «vida em Cristo», na qual consiste a verdadeira santidade.

Visto como encontro com Deus Pai por Cristo no Espírito, o Sacramento da penitência revela assim não só a sua beleza, mas também a oportunidade da sua celebração assídua e fervorosa. Ele é um dom também para nós sacerdotes que, apesar de sermos chamados a exercer o ministério sacramental, temos também as nossas faltas para serem perdoadas. A alegria de perdoar e de ser perdoados caminham juntas.


Responsabilidade dos confessores


5. Grande responsabilidade de todos os confessores é exercer com bondade, sabedoria e coragem este ministério. A sua tarefa é tornar amável e desejável este encontro, que purifica e renova o caminho para a perfeição cristã e a peregrinação para a Pátria.

Enquanto desejo a todos vós, queridos confessores, que a graça do Senhor vos torne dignos ministros da «palavra da reconciliação» (cf. 2 Cor 5, 19), confio o vosso precioso serviço à Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe, que a Igreja neste tempo de Quaresma invoca, numa das Missas a ela dedicada, como «Mãe da Reconciliação».

Com estes sentimentos, concedo a todos com afecto a minha Bênção.


**Discuso aos participantes do curso promovido pelo Tribunal da Penitenciaria Apostólica (27-III-04). Título e subtítulos da Redacção da Celebração Litúrgica.


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