DOCUMENTAÇÃO

CARDEAL WALTER KASPER

 

ECUMENISMO,

OBRIGAÇÃO DE VERDADE E DE CARIDADE

 

 

Por ocasião do Consistório para a criação de novos Cardeais, Bento XVI reuniu no passado dia 23 de Novembro os Cardeais para um encontro de oração e de reflexão.

O tema escolhido pelo Papa para a reflexão foi: o diálogo ecuménico à luz da oração e do mandato do Senhor, «Ut unum sint», apresentado pelo Cardeal Walter Kasper, Presidente do Conselho Pontifício para a União dos Cristãos.

Damos a seguir a introdução do relatório do Cardeal Kasper.

 

 

Apresentar informações e reflexões sobre a situação ecuménica contemporânea no tempo à disposição, só será possível através de grandes linhas e infelizmente de forma incompleta. Todavia, espero que este meu relatório possa esclarecer a acção da providência divina, que conduz para a unidade os cristãos separados, com a finalidade de transformar o seu testemunho num sinal mais clarividente perante o mundo.

I

Começarei com uma primeira observação, que considero essencial. Aquilo que nós definimos como ecumenismo – que se deve distinguir do diálogo inter-religioso – encontra o seu fundamento no testamento que nos foi transmitido pelo próprio Jesus na vigília da sua morte: «Ut unum sint» (Jo 17, 21). O Concílio Ecuménico Vaticano II definiu a promoção da unidade dos cristãos como uma das suas principais intenções (cf. Unitatis redintegratio, 1) e como um impulso do Espírito Santo (cl. UR 1; 4). O Papa João Paulo II declarou que a busca ecuménica constitui um caminho irreversível (cf. Ut unum sint, 3), e o Papa Bento XVI, desde o primeiro dia do seu Pontificado, assumiu como compromisso primário trabalhar sem poupar energias em prol da reconstituição da unidade plena e visível de todos os seguidores de Jesus Cristo. Ele está consciente de que para isto não são suficientes as manifestações de bons sentimentos. São necessários gestos concretos que entrem nas almas e despertem as consciências, chamando todos àquela conversão interior que é o pressuposto de cada progresso ao longo do caminho do ecumenismo (cf. Homilia pronunciada diante do Colégio cardinalício, 20 de Abril de 2005). Por conseguinte, o ecumenismo não é uma opção preferencial, mas sim uma sagrada obrigação.

Naturalmente, ecumenismo não é sinónimo de humanismo afável, nem de relativismo eclesiológico. Ele fundamenta-se na firme consciência de que a Igreja católica tem de si mesma e nos princípios católicos, sobre os quais discorre o Decreto conciliar sobre o ecumenismo (UR, 2-4). Trata-se de um ecumenismo da verdade e da caridade; estas duas estão intimamente ligadas entre si e não podem substituir-se de forma recíproca. Em primeiro lugar, há que respeitar o diálogo da verdade. As normas concretas estão expostas de maneira vinculante no «Directório ecuménico» de 1993.

O resultado mais significativo do ecumenismo das últimas décadas – e inclusivamente o mais gratificante – não são os vários documentos, mas a fraternidade reencontrada, o facto de que conseguimos redescobrir-nos como irmãos e irmãs em Cristo, de que aprendemos a estimar-nos uns aos outros e de que, em conjunto, empreendemos o caminho rumo à plena unidade (cf. UUS, 42). Ao longo desta vereda, a Cátedra de Pedro tornou-se durante os últimos quarenta anos um ponto de referência cada vez mais importante para todas as Igrejas e para todas as comunidades eclesiais. Se o entusiasmo inicial foi substituído por uma atitude de maior sobriedade, isto demonstra que o ecumenismo se tornou mais maduro, mais adulto. O ecumenismo já constitui uma realidade quotidiana, sentida como uma normalidade na vida da Igreja. É com profunda gratidão que temos de reconhecer neste desenvolvimento a acção do Espírito Santo que orienta a Igreja.

De maneira mais específica, podemos distinguir três campos do ecumenismo. Antes de tudo, devem ser mencionadas as relações com as antigas Igrejas orientais e com as Igrejas ortodoxas do primeiro milénio, que nós reconhecemos como Igrejas enquanto, a nível eclesiológico, mantiveram como nós a fé e a sucessão dos Apóstolos. Em segundo lugar, recordamos as relações com as Comunidades eclesiais nascidas directa ou indirectamente – como as Igrejas livres – da Reforma do século XVI; elas desenvolveram uma sua eclesiologia, tomando como fundamento a Sagrada Escritura. Finalmente, a história recente do Cristianismo conheceu a chamada terceira onda, a do movimento carismático e do movimento pentecostal, nascidos no início do século XX e que se difundiram pelo mundo inteiro com um crescimento exponencial. Portanto, o ecumenismo deve fazer face a uma realidade variada e diversificada, caracterizada por fenómenos muito diferentes em conformidade com os contextos culturais e com as Igrejas locais.

 


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