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Ano da Eucaristia



Hugo de Azevedo


Durante a Santa Missa a que presidiu na basílica de S. João de Latrão por motivo da solenidade do Corpo de Deus, no dia 10 de Junho, o Papa anunciou que de Outubro de 2004 a Outubro de 2005 se celebrará um Ano da Eucaristia.

Comentando as palavras de São Paulo aos Coríntios «Cada vez que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que venha», João Paulo II disse na homilia que quem participa na Ceia do Senhor «se une ao mistério da sua morte; mais, converte-se em seu ‘arauto’. Dá-se, portanto, una íntima relação entre ‘celebrar a Eucaristia’ e anunciar Cristo. Entrar em comunhão com Ele, no memorial da Páscoa, significa ao mesmo tempo, converter-se em missionário do acontecimento que actualiza o rito; num certo sentido, significa fazê-lo contemporâneo a todos os tempos, até que o Senhor regresse».

O Papa assinalou que «Cristo, ‘pão vivo descido do céu’ é o único que pode saciar a fome do homem em qualquer tempo e em qualquer lugar da Terra. No entanto, não quer fazê-lo sozinho e deste modo, como na multiplicação dos pães, compromete os discípulos. (...) Este sinal prodigioso é uma imagem do maior mistério de amor que se renova todos os dias na Santa Missa: através dos ministros ordenados, Cristo entrega o seu Corpo e o seu Sangue pela vida da humanidade. E quantos se alimentam dignamente na sua mesa, convertem-se em instrumentos vivos da sua presença de amor, de misericórdia e de paz».

O começo deste Ano da Eucaristia entronca harmónica e sugestivamente com o último tramo do presente ano litúrgico, em direcção à solenidade final de Cristo Rei. É um novo impulso para a recristianização da Europa e a extensão da realeza de Cristo no mundo, pelo anúncio de Jesus ressuscitado e habitando entre nós. É verdade que vivemos num tempo marcado pelo desalento moral. Não dispomos sequer de projectos sociais estimulantes e convincentes. Foram-se apagando inclusive todas as ideologias. Num mundo violento e ameaçador, quase só nos resta o projecto de uma democracia formal, simples mecanismo político, sem valores perenes que a orientem, um projecto que nos entretém, sem nos entusiasmar nem iludir...

Pois neste nosso tempo «pós-moderno», sem esperança à vista, temos ainda mais obrigação de dar ao mundo a «razão da nossa esperança», como incitava Pedro os primeiros cristãos (1 Pe 3, 16), e volta a insistir o seu Sucessor, João Paulo II. Sabemos perfeitamente que o «mundo» não está «preparado» para esse anúncio. Nunca o esteve. O Evangelho sempre representou uma surpresa chocante. Como é possível acreditar que Deus se interesse verdadeiramente por nós? Por cada um de nós? Essa familiaridade divina que a Igreja proclama, especialmente na Eucaristia, soa aos ouvidos de muitos como um «antropomorfismo» risível. Mas, no fundo dos corações, há uma suspeita latente: – E se fosse verdade?... E se o ridículo «antropomorfismo» fosse o outro, o de imaginarmos Deus ao nosso modo terreno: como alguém tão «importante», que, fechado no seu gabinete, não dispusesse de tempo senão para atender uns poucos privilegiados?

De facto, os nossos sinais de grandeza e poder não passam de pungentes sinais da pequenez e da limitação humanas... Esse antropomorfismo é que é risível, absurdo, mas compreensível, porque nos roubaram a capacidade de assombro e contemplação, e o sentido do amor. Quem se habituou apenas a desejar coisas materiais e a satisfazer as suas paixões, fechou-se num casulo de egoísmo, e tornou-se incapaz de amar como homem; quanto mais de se aperceber do Amor divino!

No mais mesquinho coração, porém, continua a vibrar o anseio de Deus. Quando o cepticismo nos invade, e tudo nos parece fugaz, imperfeito, desprezível, não será porque tudo comparamos com Ele, com a Beleza infinita, a Bondade infinita, o Amor infinito..., a que no fundo aspiramos? Não prova isso claramente que temos fome e sede de Deus? Sim, Deus é o nosso Amor solapado, à espera da primeira ocasião de O descobrirmos e de O abraçarmos para sempre!

Anunciemos sem receio esta «loucura de amor», que é a Eucaristia, e veremos como brilhará em tantos olhos a alegria da grande descoberta, que dá sentido – e que maravilhoso sentido! – a tudo.



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