A PALAVRA DO PAPA

A ESPERANÇA CRISTÃ

 

Homilia do Santo Padre na Celebração das Primeiras Vésperas do I Domingo do Advento (17-XII-07), na Basílica de São Pedro, durante a qual Bento XVI apresentou a sua segunda Encíclica.

As observações do Santo Padre continuam actuais neste tempo da Quaresma, tempo de esperança na conversão e na misericórdia de Deus.

Título e subtítulos da Redacção de CL.

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

O Advento é, por excelência, o tempo da esperança. Cada ano, esta atitude fundamental do espírito desperta no coração dos cristãos que, enquanto se preparam para celebrar a grande festa do nascimento de Cristo Salvador, reavivam a expectativa da sua vinda gloriosa no fim dos tempos. A primeira parte do Advento insiste precisamente sobre a parusia, sobre a última vinda do Senhor. As antífonas destas primeiras Vésperas estão todas orientadas, com diversos matizes, para essa perspectiva. A Leitura breve, tirada da primeira Carta aos Tessalonicenses (5, 23-24), faz referência explícita à vinda final de Cristo, usando precisamente o termo grego parusia (v. 23). O Apóstolo exorta os cristãos a conservarem-se irrepreensíveis, mas sobretudo encoraja-os a terem confiança em Deus, que «é fiel» (v. 24) e não deixará de realizar a santificação naqueles que corresponderem à sua graça.

Toda esta liturgia vespertina convida à esperança indicando, no horizonte da história, a luz do Salvador que vem: «Naquele brilhará uma grande luz» (2.ª Ant.); «O Senhor virá em toda a sua glória» (3.ª Ant.); «O seu esplendor enche o universo» (Antífonas ao Magnificat). Esta luz, que promana do futuro de Deus, já se manifestou na plenitude dos tempos; por isso, a nossa esperança não está desprovida de fundamento, mas apoia-se num acontecimento que se insere na história e, ao mesmo tempo, ultrapassa a história: trata-se do acontecimento constituído por Jesus de Nazaré. O evangelista João aplica a Jesus o título de «luz»: é um título que pertence a Deus. Com efeito, no Credo nós professamos que Jesus Cristo é «Deus de Deus, Luz de Luz».

Encíclica sobre a esperança

Ao tema da esperança desejei dedicar a minha segunda Encíclica, que foi ontem publicada. É-me grato oferecê-la idealmente a toda a Igreja neste primeiro Domingo de Advento, a fim de que, durante a preparação para o Santo Natal, as comunidades e cada um dos fiéis possam lê-la e meditá-la, para assim redescobrirem a beleza e a profundidade da esperança cristã. Com efeito, ela está ligada inseparavelmente ao conhecimento do rosto de Deus, aquele rosto que Jesus, o Filho Unigénito, nos revelou com a sua encarnação, com a sua vida terrena e a sua pregação e, sobretudo, com a sua morte e ressurreição. A esperança verdadeira e segura está fundada na fé em Deus Amor, Pai misericordioso, que «amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu único Filho» (Jo 3, 16), a fim de que os homens e, juntamente com eles, todas as criaturas, possam ter vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Por conseguinte, o Advento é um tempo favorável para a redescoberta de uma esperança não vaga nem ilusória, mas certa e fiável, porque está «ancorada» em Cristo, Deus feito homem, rochedo da nossa salvação.

Desde o início, como ressalta do Novo Testamento e em particular das Cartas dos Apóstolos, uma nova esperança distinguia os cristãos daqueles que viviam a religiosidade pagã. Escrevendo aos Efésios, São Paulo recorda-lhes que, antes de abraçarem a fé em Cristo, eles viviam «sem esperança e sem Deus neste mundo» (2, 12). Esta expressão parece mais actual do que nunca, por causa do paganismo dos nossos dias: podemos referi-la de modo particular ao niilismo contemporâneo, que corrói a esperança no coração do homem, induzindo-o a pensar que dentro dele e ao seu redor reina o vazio: nada antes do nascimento, nada depois da morte. Na realidade, quando falta Deus, falta a esperança. Tudo perde a sua «consistência». É como se viesse a faltar a dimensão da profundidade e todas as coisas permanecessem niveladas, desprovidas do seu relevo simbólico, da sua «saliência» em relação à simples materialidade. Está em jogo a relação entre a existência aqui e agora e aquilo que denominamos «o Além»: não se trata de um lugar aonde terminaremos depois da morte; pelo contrário, é a realidade de Deus, a plenitude da vida para a qual cada ser humano está, por assim dizer, orientado. A esta expectativa do homem, Deus respondeu em Cristo com o dom da esperança.

Corresponder à expectativa de Deus

O homem é a única criatura livre de dizer «sim» ou «não» à eternidade, ou seja, a Deus. O ser humano pode apagar em si mesmo a esperança, eliminando Deus da sua própria vida. Como pode acontecer isto? Como pode acontecer que a criatura «feita por Deus», intimamente orientada para Ele, a mais próxima do Eterno, possa privar-se desta riqueza? Deus conhece o coração do homem. Sabe que quem O rejeita não conheceu o seu verdadeiro rosto, e por isso não cessa de bater à nossa porta, como peregrino humilde em busca de acolhimento. Eis por que motivo o Senhor concede um novo tempo à humanidade: a fim de que todos possam chegar a conhecê-lo! Este é também o sentido de um novo ano litúrgico que começa: é uma dádiva de Deus, que deseja novamente revelar-se no mistério de Cristo, mediante a Palavra e os Sacramentos. Através da Igreja, deseja falar à humanidade e salvar os homens de hoje. E fá-lo indo ao seu encontro, para «procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19, 10). Nesta perspectiva, a celebração do Advento é a resposta da Igreja Esposa à iniciativa sempre nova de Deus Esposo, «que é, que era e que há-de vir» (Apoc 1, 8). À humanidade que já não tem tempo para Ele, Deus oferece mais um tempo, um novo espaço para que volte a entrar em si mesma, a fim de que se ponha novamente a caminho, para reencontrar o sentido da esperança.

Eis, então, a descoberta surpreendente: a minha, a nossa esperança é precedida pela expectativa que Deus cultiva a nosso respeito! Sim, Deus ama-nos e precisamente por este motivo espera que nós voltemos para Ele, que abramos o nosso coração ao seu amor, que coloquemos a nossa mão na sua e nos recordemos que somos seus filhos. Esta expectativa de Deus precede sempre a nossa esperança, exactamente como o seu amor nos alcança sempre primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Neste sentido, a esperança cristã diz-se «teologal»: Deus é a sua fonte, o seu apoio e o seu termo. Que grande consolação há neste mistério! O meu Criador colocou no meu espírito um reflexo do seu desejo de vida para todos. Cada homem é chamado a esperar, correspondendo à expectativa que Deus tem acerca dele. De resto, a experiência demonstra-nos que é precisamente assim. O que é que faz progredir o mundo, a não ser a confiança que Deus tem no homem? É uma confiança que encontra o seu reflexo nos corações dos pequeninos, dos humildes, quando, através das dificuldades e das fadigas, se empenham todos os dias a fazer o melhor que podem, a realizar aquele pouco de bem que, contudo, aos olhos de Deus é muito: na família, no lugar de trabalho, na escola e nos vários âmbitos da sociedade. No coração do homem a esperança está inscrita de maneira indelével, porque Deus nosso Pai é vida, e é para a vida eterna e bem-aventurada que nós fomos criados.

Cada criança que nasce é sinal da confiança de Deus no homem e é uma confirmação, pelo menos implícita, da esperança que o homem nutre por um futuro aberto à eternidade de Deus. A esta esperança do homem, Deus respondeu nascendo no tempo como pequeno ser humano. Santo Agostinho escreveu: «Poderíamos pensar que a vossa Palavra se tinha afastado do contacto com o homem e desesperado de nos salvar, se esta Palavra não se tivesse feito homem e habitado entre nós» (Conf. X, 43, 69, cit. in Spe salvi, 29). Então, deixemo-nos orientar por Aquela que trouxe no coração e no seio o Verbo encarnado. Ó Maria, Virgem da expectativa e Mãe da esperança, reaviva em toda a Igreja o espírito do Advento, para que a humanidade inteira volte a pôr-se a caminho para Belém, onde veio e onde virá de novo para nos visitar o Sol que nasce do alto (cf. Lc 1, 78), Cristo nosso Deus. Amém.

 

 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial