ACONTECIMENTOS ECLESIAIS


DA SANTA SÉ

CARDEAL COMENTA

USO DO MISSAL DE 1962


Em entrevista à revista italiana 30Giorni, o Cardeal colombiano Dario Castrillón, Presidente da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, instituída para a recepção na comunhão da Igreja católica dos lefebvrianos, comenta a autorização de Bento XVI para o uso do Missal anterior ao Concílio Vaticano II.


«Quando, após o Concílio Vaticano II, ocorreram mudanças na liturgia, grupos consistentes de fiéis leigos e também de eclesiásticos sentiram-se incomodados, porque tinham uma forte ligação com a liturgia que já vigorava havia séculos.»

«Houve um mal-estar em vários níveis. Para alguns, o problema era também de natureza teológica, pois consideravam que o rito antigo expressava o sentido do sacrifício melhor do que o rito que era introduzido. Outros, até por razões culturais, lembravam com saudade o gregoriano e as grandes polifonias, que eram uma riqueza da Igreja latina. Para agravar isso tudo, as pessoas que se sentiam incomodadas atribuíam as mudanças ao Concílio, quando, na realidade, o Concílio por si mesmo não havia nem pedido nem estabelecido os detalhes dessas mudanças. O Concílio não havia pedido a criação de um novo rito, mas um uso mais amplo da língua vernácula e uma maior participação dos fiéis».

João Paulo II já concedera em 1988 um indulto que permitia a celebração da Missa anterior mediante prévia autorização do Bispo local, mas viu que não fora suficiente. «Primeiro, porque alguns sacerdotes e bispos resistiam-se a aplicá-lo. Mas, sobretudo, porque os fiéis que desejam celebrar com o rito antigo não devem ser considerados de segunda categoria». Por isso, o Papa tinha em mente ampliar o uso do Missal de 1962: «nos encontros com os cardeais e com os chefes dos organismos vaticanos nos quais se discutiu sobre essa medida, as resistências foram realmente mínimas. O Papa Bento XVI, que acompanhou o processo desde o início, deu este passo importante que seu grande predecessor já havia imaginado. É uma medida petrina tomada por amor a um grande tesouro litúrgico, como a missa de São Pio V, e também pelo amor de um pastor por um considerável grupo de fiéis».


Pluralidade de ritos litúrgicos


O Cardeal não vê que haja risco de confusão litúrgica nas paróquias e nas dioceses com a introdução de duas formas no rito latino da Missa, se as coisas forem feitas com bom senso. «Além do mais, já há dioceses em que se celebram missas em vários ritos, uma vez que existem comunidades de fiéis latinos, greco-latinos ucranianos ou rutenos, maronitas, melquitas, siro-católicos, caldeus, etc. Penso, por exemplo, em algumas dioceses dos Estados Unidos, como Pittsburgh, que vivem essa legítima variedade litúrgica como uma riqueza, não como uma tragédia». Nunca houve um rito único para todos na Igreja latina. «Hoje, por exemplo, existem todos os ritos das Igrejas orientais em comunhão com Roma. E mesmo no rito latino existem outros ritos além do romano, como o ambrosiano ou o moçárabe. A própria missa de São Pio V, quando foi aprovada, não anulou todos os ritos anteriores, mas apenas aqueles que não contavam com pelo menos dois séculos de antiguidade».

Com o Novus Ordo não foi abolida a Missa de S. Pio V. «O Concílio Vaticano II não a aboliu, nem depois houve nunca nenhuma medida efectiva que estabelecesse sua abolição. Portanto, formalmente, a missa de São Pio V nunca foi abolida. De certa forma, é surpreendente que aqueles que se dizem intérpretes autênticos do Vaticano II dêem a ele uma interpretação, no campo litúrgico, tão restritiva e pouco respeitadora da liberdade dos fiéis, fazendo que esse Concílio, além de tudo, pareça mais coercivo ainda que o Concílio de Trento».



PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO

DE CARDEAL VIETNAMITA


No dia 17 de Setembro passado, o Cardeal Renato Martino, Presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz anunciou no Vaticano o início do processo de beatificação do Cardeal Francois Xavier Nguyen Van Thuan, anterior Presidente do mesmo Conselho Pontifício, falecido há cinco anos, que durante muito tempo fora perseguido pelo regime vietnamita.


O Cardeal Van Thuan – recordou depois o Santo Padre – era um homem de esperança, vivia de esperança e difundia-a entre todos aqueles que encontrava. Foi graças a esta energia espiritual que resistiu a todas as dificuldades físicas e morais, lembrou o Papa, com referência especial para os 13 anos que o Cardeal passou nas prisões vietnamitas.

Acolhi com íntima alegria – disse ainda Bento XVI – a notícia de que inicia a causa de beatificação deste profeta singular da esperança cristã



NOMEADOS PRÉMIOS NOBEL

PARA ACADEMIA PONTIFÍCIA


Bento XVI nomeou dois prémios Nobel como membros da Academia Pontifícia das Ciências, o físico alemão Klaus von Klitzing e o químico chinês Yuan Tseh-Lee.


Klaus von Klitzing, nascido em 1943, dirige, desde 1985, o Instituto Max Planck de Ciências de Stuttgart. Foi Prémio Nobel da Física em 1985, graças a uma importante descoberta no campo da electricidade, que permitiu a outros cientistas estudar, com enorme precisão, as propriedades de condução dos componentes eléctricos.

Yuan Tseh-Lee, nascido em 1936, é professor de química na Universidade de Berkeley (EUA). Em 1986, recebeu o Prémio Nobel da Química pelo desenvolvimento da dinâmica de processos químicos elementares. Desde 1994 é presidente da Academia Sinica, principal complexo de pesquisa científica e humanística da República da China (Taiwán).

A Pontifícia Academia das Ciências foi fundada em Roma, em 1603, com o nome de Academia dos Linces, da qual Galileu Galilei era membro, e é composta por oito dezenas de «académicos pontifícios», nomeados pelo Papa, a partir da proposta do Corpo Académico, sem discriminação de nenhum tipo (muitos deles não são católicos). É presidida, desde 1993, por Nicola Cabibbo, professor de Física na Universidade «La Sapienza» de Roma e ex-presidente do Instituto Nacional Italiano de Física Nuclear.

Neste momento reúne 82 cientistas de todo o mundo, um quarto dos quais distinguidos com o Prémio Nobel, promovendo investigação científica e examinando questões científicas de interesse para a Igreja.



23 NOVOS CARDEAIS


Bento XVI anunciou a realização do segundo Consistório do seu pontificado, no qual serão criados 23 novos Cardeais, 18 dos quais com direito a voto. A cerimónia terá lugar a 24 de Novembro, véspera da Solenidade de Cristo Rei.


Os 18 novos Cardeais eleitores irão somar-se a outros 103, totalizando 121 Cardeais num eventual conclave. Paulo VI fixara como número máximo de Cardeais eleitores o número de 120, prática que foi mantida por João Paulo II e Bento XVI.

Prestigiadas sedes episcopais como São Paulo, Paris, Bombaim ou Barcelona e titulares de cargos de destaque na Cúria Romana dominam as escolhas de Bento XVI.

Entre os cinco Cardeais não-eleitores por terem mais de 80 anos, estão o Patriarca de Babilónia dos Caldeus (Iraque) Emmanuel Delly, o Pe. Urbano Navarrete, S.I., antigo Reitor da Universidade Pontifícia Gregoriana e o Pe. Umberto Betti, O.F.M., antigo Reitor da Universidade Pontifícia Lateranense.

Bento XVI fez questão de sublinhar a «universalidade da Igreja» e a «multiplicidade de ministérios» presente nas suas escolhas. E admitiu que muitas pessoas «mereceriam ser elevadas à dignidade cardinalícia por causa da sua dedicação ao serviço da Igreja». «Espero ter, no futuro, a oportunidade de testemunhar, também deste modo, a eles a aos países a que pertencem a minha estima e o meu afecto».

No futuro Colégio Cardinalício, a Europa contará com 60 Cardeais eleitores, seguida pela América Latina (20), América do Norte (17), Ásia (13), África (9) e Oceânia (2). O país com mais Cardeais eleitores continua a ser a Itália (21), seguida dos EUA (13) e Espanha (7).



VISITA PASTORAL A NÁPOLES


Bento XVI lançou no domingo 21 de Outubro passado, em Nápoles, um apelo em favor da «luta contra todas as formas de violências». O Papa também denunciou a actuação, na cidade italiana, da «Camorra», como é conhecida a Máfia napolitana.


Perante milhares de fiéis, sob chuva e forte vento, o Papa reconheceu que em Nápoles a vida é bastante difícil, em virtude «da pobreza, da falta de habitação, do desemprego e da falta de perspectivas para o futuro».

«Não se trata apenas do número lamentável de crimes da 'Camorra', mas também do facto de a violência tender a tornar-se uma mentalidade difusa, que se insinua na trama da sociedade... particularmente entre a juventude», sublinhou na sua homilia.»

«É necessária uma intervenção que envolva todos na luta contra toda e qualquer forma de violência, partindo da formação das consciências e transformando as mentalidades, as atitudes e os comportamentos quotidianos».

«A missão da Igreja – ressaltou o Papa – é nutrir sempre a fé e a esperança do povo cristão». Nesse contexto, sublinhou que a semente da esperança existe em Nápoles e pode germinar, apesar dos problemas e dificuldades.

A intervenção de Bento XVI foi um importante estímulo para a acção desempenhada pelo Arcebispo Crescenzio Sepe, antigo membro da Cúria Romana que o Papa decidiu enviar para a Arquidiocese italiana, em 2006, num sinal de que a Igreja não desistiu de Nápoles.



VATICANO INAUGURA

EXPOSIÇÃO SOBRE O APOCALIPSE


Numa mostra pouco habitual, os Museus do Vaticano reuniram 100 obras de arte inspiradas pelo Apocalipse de São João, o último livro do Novo Testamento. As pinturas, estátuas, jóias, gravuras e desenhos mostram várias cenas catastróficas, mas a intenção é centrar-se na vitória final do bem sobre o mal.


«Apocalipse: a revelação final» é o título da exposição, que decorrerá até 7 de Dezembro. A mostra foi organizada por iniciativa da Comissão St. Florian da arquidiocese de Udine (Itália).

Segundo o director dos Museus Vaticanos, Francesco Buranelli, «o Apocalipse é um dos livros mais complexos da Bíblia, um dos mais difíceis de compreender, pois trata-se de uma revelação; o Apóstolo João, em Patmos, foi inspirado e tornou-se o ícone desta revelação: O triunfo de Cristo sobre o mal».

As peças foram trazidas de alguns dos mais importantes museus da Europa e dos Estados Unidos da América. Entre os artistas cujas obras estão em exposição, constam Beato de Liébana, Pedro Berruguete, Guido Reni, Alonso Cano, Albrecht Dürer, El Greco, Francisco Zurbarán, Salvador Dali e Giorgio de Chirico.

A parte central da exposição é composta por obras importantes da história da representação artística do Apocalipse, incluindo uma série de 16 gravuras de Dürer ou o quadro de El Greco da «Imaculada Conceição», inspirada pela visão apocalíptica da mulher revestida com o sol.



VATICANO VAI RESPONDER A

CARTA DE INTELECTUAIS MUÇULMANOS


O Presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, Cardeal Jean-Louis Tauran, revelou que o Vaticano pretende responder em breve à missiva enviada ao Papa por 130 intelectuais muçulmanos, onde se lançava um apelo em nome da paz e da compreensão entre o Islão e o Cristianismo, afirmando que o futuro do mundo depende da paz entre muçulmanos e cristãos.


O Cardeal francês fez notar que a missiva apresenta novidades. «Quando se fala de Jesus, ele é apresentado através de citações do Novo Testamento e não do Alcorão. Além disso, o texto não é polémico e apresenta muitos aspectos positivos».

A carta fora enviada pelos intelectuais muçulmanos para marcar o fim do Ramadão e compara passagens da Bíblia e do Corão, referindo que os dois textos sagrados insistem sobre «a primazia do amor e a devoção a Deus».

A missiva, assinada por religiosos muçulmanos de vários países, xiitas e sunitas, foi igualmente dirigida ao Arcebispo da Cantuária, primaz da Igreja anglicana, e ao Patriarca ecuménico de Constantinopla, líder da Igreja Ortodoxa.



BEATIFICAÇÃO DE

498 MÁRTIRES ESPANHÓIS


Os mártires impulsionam-nos a actuar incansavelmente no sentido da misericórdia, da reconciliação e da convivência pacífica. Esta a mensagem de Bento XVI na oração do Angelus do passado Domingo 28 de Outubro, após a beatificação de 498 mártires espanhóis, vítimas de perseguição durante a Guerra Civil espanhola.


A celebração da beatificação teve lugar na Praça de São Pedro e foi presidida pelo Cardeal D. José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, sendo a Eucaristia concelebrada pelos bispos espanhóis presentes em Roma, pelos superiores gerais das ordens religiosas e por mais de mil sacerdotes diocesanos e religiosos, na presença de 2500 familiares dos mártires e dezenas de milhares de pessoas

A maioria dos sacerdotes concelebrantes procedia das dioceses, ordens e congregações de origem dos novos bem-aventurados.

Durante o rito de beatificação o Cardeal arcebispo de Madrid, António Maria Rouco Varela, arquidiocese à qual pertence o maior número dos mártires, aproximou-se do altar acompanhado dos bispos das dioceses que foram responsáveis pela instrução das 23 causas de beatificação e pelos respectivos postuladores e, com breves palavras, solicitou que os nomes dos mártires fosse inscritos no «álbum dos bem-aventurados».

Depois, o Cardeal Saraiva Martins fez a leitura da carta apostólica de Bento XVI, de beatificação.

«Este tão numeroso grupo de bem-aventurados – sublinhou o Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos na homilia da Missa – manifestou até ao martírio o seu amor a Jesus Cristo, a sua fidelidade à Igreja Católica e a sua intercessão junto de Deus, por todo o mundo. Antes de morrer perdoaram aos que os perseguiram, mais ainda, rezaram por eles».

«Como afirma o Catecismo da Igreja Católica: ‘o martírio é o testemunho supremo prestado à verdade da fé’. Seguir Jesus significa, de facto, segui-lo mesmo na dor e aceitar as perseguições por amor do Evangelho».

«A vida cristã – destacou ainda o Cardeal português – não se reduz a uns actos de piedade individuais e isolados, mas há-de abarcar cada instante dos nossos dias na terra. Jesus Cristo há-de estar presente no fiel cumprimento dos deveres da nossa vida ordinária, tecida de pormenores aparentemente pequenos e sem importância, mas que assumem relevo e grandeza sobrenatural quando realizados com amor sobrenatural».



DE BEETHOVEN A DEUS


Bento XVI confessou no sábado dia 29 de Outubro a sua admiração pela Nona Sinfonia de Beethoven, criada «após anos de auto-isolamento e de vida retirada, com depressão e profunda amargura que ameaçavam sufocar a sua criatividade artística».


«O compositor, já totalmente surdo, surpreende o público com uma composição que rompe a forma tradicional da sinfonia e, na cooperação de orquestra, coro e solistas, se eleva com um extraordinário final de optimismo e de alegria», referiu após um concerto oferecido no Vaticano em sua honra pela Orquestra Sinfónica e o Coro da Rádio da Baviera, terra natal do Papa, em recordação da sua visita o ano passado.

A partir desta obra-prima, Bento XVI explicou que «às vezes, precisamente através de períodos de vazio e de isolamento internos, Deus quer tornar-nos atentos e capazes de sentir a sua presença silenciosa não só por cima do firmamento, mas também no íntimo da nossa alma».

«A solidão silenciosa tinha ensinado a Beethoven uma maneira nova de escutar que parece uma maneira nova de percepção, um dom a quem obtém de Deus a graça de uma libertação externa e interna», prosseguiu.

Segundo o Papa, para o grande compositor, afectado pelas doenças, «o sentimento irresistível de alegria transformado em música não é algo ligeiro e superficial: é um sentimento conquistado com fadiga, superando o vazio interior de quem fora impelido para o isolamento pela surdez».



OBJECÇÃO DE CONSCIÊNCIA

PARA FARMACÊUTICOS


O Papa Bento XVI afirmou no passado dia 29 de Outubro que a objecção de consciência é um direito que deve ser reconhecido também aos farmacêuticos nos casos do aborto e da eutanásia.


Recebendo no Vaticano os participantes do Congresso Mundial «As novas fronteiras do acto farmacêutico», o Papa pediu que estes profissionais possam ter a opção de «não colaborar directa ou indirectamente no fornecimento de produtos que têm como objectivo escolhas claramente imorais».

Entre as preocupações apontadas estão as substâncias que impedem «a nidificação de um embrião» (a chamada «pílula abortiva») e as que procuram «abreviar a vida de uma pessoa».

«A vida deve ser protegida desde a sua concepção até à sua morte natural», afirmou Bento XVI, pedindo aos farmacêuticos que desempenhem «um papel educativo com o paciente, para um justo uso dos cuidados médicos e, sobretudo, para dar a conhecer as implicações éticas da utilização de determinado fármaco».

Tendo em conta as implicações éticas destes temas, o Papa deixou votos em favor de uma mobilização dos que trabalham nas diferentes profissões ligadas à saúde, católicos e pessoas de boa vontade, para que se aprofunde a formação, não só no plano ético geral, mas também no que diz respeito às questões bioéticas. «O ser humano deve estar sempre no centro das opções biomédicas».

Bento XVI defendeu também «a solidariedade no domínio terapêutico, para permitir um acesso aos medicamentos de primeira necessidade de todas as camadas da população e em todos os países, nomeadamente para as pessoas mais pobres».



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