ACONTECIMENTOS ECLESIAIS


COMENTÁRIO



O DIA EM O MUNDO CONHECEU JOÃO PAULO II


Passaram 29 anos sobre o dia 16 de Outubro de 1978, data em que o mundo ficou a conhecer João Paulo II, o Papa que vinha da Polónia e que fugia a todas as previsões para a sucessão de João Paulo I, após pouco mais de um mês de pontificado.


Logo nas primeiras palavras, uma mensagem de força e de confiança: «não tenhais medo». O Papa com o nome estranho (na multidão houve quem pensasse que seria um africano) fala na primeira pessoa do singular em vez do plural: esta afirmação de identidade vem acompanhada de uma experiência histórica notável, atravessando guerras mundiais e a vivência sob um regime comunista, que fala ao coração de milhões de pessoas.

Tendo-se formado num contexto diferente dos Papas anteriores, João Paulo II viria a imprimir na Igreja um novo dinamismo, impondo ao mesmo tempo um maior rigor teológico e disciplinar.

O Papa polaco foi uma das figuras mais marcantes da história recente, na Igreja e no mundo, deixando atrás de si a herança de um longo Pontificado de 26 anos e meio.


Homem de luta num mundo em mudança


O Papa que veio do Leste recebeu uma Igreja cujo governo atravessava uma certa crise, presa na tensão entre os avanços do Concílio e a perda de identidade perante a modernidade.

A enorme produção doutrinal do Papa deve, pois, ser lida à luz da necessidade de dar respostas pastorais a um mundo em mudança. João Paulo II sempre foi capaz de definir etapas mobilizadoras da Igreja e do mundo, na busca de uma identidade forte – visível na devoção mariana e na formulação de um todo doutrinal – que fosse capaz de sustentar o diálogo com outras confissões e religiões.

A sensibilidade para as implicações na sociedade da acção da Igreja não inviabilizou que o Pontificado tivesse dado prioridade à acção pastoral, mesmo sem secundarizar a política. A ideia, explícita logo desde a primeira encíclica, é recentrar a mensagem cristã em Jesus, que revela ao homem o seu destino e a sua dignidade.

A «Redemptor Hominis» de João Paulo II revela-o atento à necessidade não só do diálogo ecuménico com todas as Igrejas cristãs, mas também com todas as religiões. Neste Pontificado há uma grande novidade: o Papa sabe que o mundo não se tornará completamente cristão ou católico, sabe que é necessário viver com os demais, sejam judeus, muçulmanos ou ateus, e isto é radicalmente novo na concepção da Igreja.

Esta novidade representou um ponto fundamental deste Pontificado, a consciência de que a experiência católica tem de conviver com outras, e é pela qualidade desse convívio que ela pode evangelizar.

Muitos falaram de um «Papa político», alguém que lutou abertamente contra os regimes comunistas de Leste desde a sua primeira viagem à Polónia em 1979 e contra o capitalismo reinante na sociedade ocidental. A Igreja é desafiada a resistir, anunciar e mudar: os apelos do Papa em favor do Terceiro Mundo percebem melhor à luz destas premissas.

As profundas transformações ocorridas na Europa no final do segundo milénio e no início do terceiro tiveram em João Paulo II um dos principais protagonistas. No começo do pontificado de João Paulo II, a Europa, pelo Tratado de IALTA, continuava dividida em dois blocos por motivos ideológicos e geopolíticos. Começava a surgir, à época, o Sindicado Solidariedade, que ameaçava provocar instabilidade não só no interior da Polónia mas também em outros países do Leste Europeu.

O Papa apoiou e estimulou a chamada «Ostpolitik», conduzida pelo seu Secretário de Estado, o Cardeal Agostinho Casaroli, e continuada pelo seu sucessor, o Cardeal Angelo Sodano. O processo culminou, no período do Presidente Gorbachev, em Março de 1990, com o restabelecimento das relações oficiais entre o Vaticano e a ex-União Soviética.

João Paulo II era um ardoroso defensor da «Grande Europa», que se estende do Atlântico aos Urais. A «Grande Europa», segundo ele, deve respirar com os dois pulmões, alimentar-se com a riqueza das duas tradições: a cristã-ocidental e a eslavo-ortodoxa.

Menos unânimes, mas igualmente firmes, foram as posições do Papa sobre os temas do matrimónio, da família, da defesa da vida desde a sua concepção até ao momento da morte natural ou da moral sexual. Essa acção, mesmo se contestada, apresenta João Paulo II como uma consciência crítica, em referência constante ao Evangelho.

Com o final da guerra-fria, os medos da humanidade viraram-se para a guerra das civilizações, confrontos com motivações religiosas entre o mundo árabe e o Ocidente. O papel de João Paulo II, mesmo debilitado pela idade e a doença, voltou a ser fundamental. A campanha contra a guerra no Iraque foi o acto que simbolicamente congregou as iniciativas e apelos de paz de João Paulo II ao longo de 26 anos, nascidos da convicção de que o respeito pelos direitos humanos é o único caminho para os povos.


OCTÁVIO CARMO

Agência Ecclesia



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