Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

08 de Dezembro de 2007


Solenidade


RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Ditosa Virgem, cheia de graça, J. Santos, NRMS 75

Is 61, 10

Antífona de entrada: Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias.


Diz-se o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


Deus, autor de toda a criação, apresenta-nos Maria como a obra-prima de todo o Seu amor para com a Humanidade. Uma vez que as suas escolhas sempre estiveram de harmonia com o projecto de Deus, Ela é o triunfo sobre o mal, representado na imagem da «serpente». Assim como, em Maria, realizou grandes obras, de igual modo realizará o seu projecto de salvação também em nós. Por isso, somos chamados a pedir a Sua bênção, manifestando-Lhe confiança na realização do Seu sonho.

Devido à nossa insensatez e aos nossos caprichos, colocamos a «serpente» no lugar de Deus, julgando deste modo estabelecer sozinhos o que é bem e mal. Sentimos, por isso, a nossa «nudez» com toda a efémera debilidade que a acompanha. Pensando nesses momentos menos felizes da nossa vida, peçamos humildemente perdão ao Senhor, com propósito firme de emenda, a fim de melhor podermos participar nesta celebração festiva.


Oração colecta: Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes para o vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes de toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Por Nosso Senhor...



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: O homem, não aceitando a sua condição, por a considerar um limite, uma barreira à sua liberdade e ao seu conceito de felicidade, quis ultrapassá-la por conselho malévolo, resolvendo colocar-se no lugar de Deus. Esta insensatez falhou o objectivo e provocou a sua própria ruína. Assim, descobriu a sua «nudez», isto é, a sua natureza frágil, débil e efémera. Sentiu-se envergonhado e procurou esconder-se do Criador. Este, na Sua infinita misericórdia, anuncia-lhe a esperança na derrota da «serpente», através da acção de uma mulher, que a esmagará para sempre.


Génesis 3, 9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.


A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. (...) O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. (...) A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72), 9; Is 49, 23; Miq 7, 17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Neovulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se quisesse designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.


Salmo Responsorial Salmo 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. 1a)


Monição: Razão teremos nós para proclamar o salmo 97, como resposta à primeira leitura: «O Senhor operou maravilhas e os confins da terra puderam ver a salvação do nosso Deus».


Refrão: Cantai ao Senhor um cântico novo:

o Senhor fez maravilhas.


Cantai ao Senhor um cântico novo,

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.


O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.


Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.


Segunda Leitura


Monição: Deus manifestou-Se em Jesus Cristo, a fim de que todos os homens recebessem a sua vida divina e fossem introduzidos na sua família. Deste modo poderão ser felizes com Ele, pois a humanidade não está destinada à destruição, mas à alegria perene. É o que ouviremos confirmar nesta leitura de S. Paulo aos Efésios.


Efésios 1, 3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.


Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus; estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.


Aclamação ao Evangelho cf. Lc 1, 28


Monição: O nascimento de Jesus, o Messias, é intervenção de Deus e surge dentro da história de maneira totalmente nova. Por isso, Maria é proclamada «bendita entre todas as mulheres».


Aleluia


Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)


Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois Vós entre as mulheres.



Evangelho


São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».


A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).


Sugestões para a homilia


A fuga ao projecto de Deus

Maria, esperança para o Mundo

Mensagem de alegria

A fuga ao projecto de Deus

O trecho que nos é proposto na primeira leitura é uma profunda reflexão sobre a condição humana. O homem, não aceitando a própria condição de debilidade e fraqueza, pensou que seria plenamente feliz se estabelecesse sozinho o que é bem e mal. E, assim, na sua pretensa auto-suficiência quis sobrepor-se a Deus. Esta ilusão de querer poder fazer sozinho as suas arbitrárias e insensatas escolhas, é comparada nesta narração a uma serpente. Daí o ter-se entregue às próprias intuições, aos seus vãos pensamentos. E, quando dá conta da sua escolha enganosa, sente-se nu.

A nudez é aqui o símbolo da condição humana, que é encarada como um facto degradante perante Deus. Todo o homem equilibrado aceita com toda a serenidade e até com alegria a sua «nudez», isto é, a sua condição de criatura frágil, débil e efémera. Aceita-a com todas as suas consequências: fome, cansaço, ignorância, dor e morte. É depois da sua desobediência que a nudez não aceite começa a provocar a vergonha, a denunciar a sua derrota e a quebra da relação com o projecto do seu Criador e a confiança para com os outros. Assim, o homem construiu o seu próprio mundo, fechando-se no seu egoísmo.

Por isso, atirou as culpas e a responsabilidade do seu procedimento para os outros. Continua, ainda hoje, a proceder de igual modo, persistindo na sua desobediência aos planos do Criador, saindo derrotado.

A derrota do homem, porém, não é definitiva porque há um anúncio de esperança. A maldição da serpente e o seu destino perpetuar-se-á até ao fim do mundo, mas a descendência da mulher prevalecerá e esmagará a cabeça dessa «serpente».

Maria, esperança para o Mundo

Essa esperança concretiza-se em Maria. Ela é o sinal mais nítido do triunfo de Deus sobre o demónio, a «serpente». A Virgem Maria é imaculada na totalidade da sua existência. Nunca nela prevaleceu o mal, pois as suas escolhas estiveram sempre em sintonia com o projecto de Deus.

O Senhor serve-se d’Ela para realizar os seus projectos. Escolhe-a para n’Ela podermos contemplar «as grandes maravilhas» que n’Ela operou. Deus tornou-se presente, em Maria, como salvador do seu povo. Ao Senhor ela apenas podia oferecer a sua pobreza e simplicidade, que Ele enriqueceu com os seus dons; e a oferta da sua virgindade, desprezada no seu tempo pelo povo a que pertencia, é tornada fecunda para o nascimento do Messias, o Salvador. Quando S. Lucas afirma que pousou sobre Maria a sombra do Altíssimo, quer afirmar que nela se tornou presente o próprio Deus feito homem, pois «para Deus nada há impossível».

Ninguém até ali havia entendido o projecto de Deus. Todos lhe tinham contraposto os seus próprios sonhos, esperando d’Ele apenas a ajuda para os concretizar. Maria, pelo contrário, pergunta somente qual o papel que Ele lhe quer confiar e aceita docilmente a sua iniciativa e exclama: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra».

Mensagem de alegria

Por isso, num eloquente hino de bênção, S. Paulo apresenta a grande mensagem de alegria pelas maravilhas por Ele operadas em favor dos homens.

Deus, que realizou grandes obras em Maria, realizará os seus projectos de salvação também em nós, «pois nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados».

Devemos, pois, manifestar a nossa confiança na Sua providência, porque estamos certos da realização do seu sonho.


Fala o Santo Padre


«Maria é desde sempre a eleita para acolher Jesus, 'o amor encarnado de Deus'»


Queridos irmãos e irmãs!


Celebramos hoje uma das festas mais bonitas e populares da Bem-Aventurada Virgem: a Imaculada Conceição. Maria não só não cometeu pecado algum, mas foi preservada até da herança comum do género humano que é o pecado original. E isto devido à missão para a qual Deus a destinou desde o início: ser a Mãe do Redentor. Tudo isto está contido na verdade da fé da «Imaculada Conceição». O fundamento bíblico deste dogma encontra-se nas palavras que o Anjo dirigiu à jovem de Nazaré: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1, 28).

«Cheia de graça» no original grego kecharitoméne é o nome mais bonito de Maria, nome que lhe foi conferido pelo próprio Deus, para indicar que ela é desde sempre e para sempre a amada, a eleita, a predestinada para acolher o dom mais precioso, Jesus, «o amor encarnado de Deus» (Enc. Deus caritas est, 12).

Podemos perguntar: por que, entre todas as mulheres, Deus escolheu precisamente Maria de Nazaré? A resposta está escondida no mistério insondável da vontade divina. Contudo há uma razão que o Evangelho ressalta: a sua humildade. Ressalta isto muito bem Dante Alighieri no último Canto do Paraíso: «Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e alta mais do que criatura, / fim firme do conselho eterno» (Par. XXXIII, 1-3). A própria Virgem no «Magnificat», o seu cântico de louvor, diz isto: «A minha alma glorifica o Senhor... porque pôs os olhos na humildade da sua serva» (Lc 1, 46.48). Sim, Deus foi atraído pela humildade de Maria, porque achou graça diante dos olhos de Deus (cf. Lc 1, 30). Tornou-se assim a Mãe de Deus, imagem e modelo da Igreja, eleita entre os povos para receber a bênção do Senhor e difundi-la a toda a família humana. Esta «bênção» mais não é do que Jesus Cristo. É Ele a Fonte da graça, da qual Maria foi repleta desde o primeiro momento da sua existência. Acolheu Jesus com fé e com amor o deu ao mundo. Esta é também a nossa vocação e a missão da Igreja: acolher Cristo na nossa vida e doá-lo ao mundo, «para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,17).

Queridos irmãos e irmãs, a hodierna festa da Imaculada ilumina como um farol o tempo do Advento, que é tempo de vigilante e confiante expectativa do Salvador. Enquanto nos encaminhamos ao encontro do Deus que vem, olhamos para Maria que «brilha como sinal de esperança segura e de consolação aos olhos do Povo de Deus peregrino» (Lumen gentium, 68). Com esta consciência convido-vos a unir-vos a mim quando, hoje à tarde, renovarei na Praça de Espanha o tradicional acto de homenagem a esta doce Mãe por graça e da graça. Dirijamo-nos agora a ela com a oração que recorda o anúncio do Anjo.

Bento XVI, Angelus, 8 de Dezembro de 2006


Oração Universal


Irmãos, oremos a Deus Pai de misericórdia,

e imploremos com humildade

que nos ajude a sermos fiéis ao seu projecto de salvação,

rezando (cantando):


Senhor, nós temos confiança em Vós.


1. Pela Santa Igreja:

para que, fiel ao projecto de Deus,

continue firme no ensino da doutrina Sagrada,

oremos, irmãos.


2. Pelos governantes das nações,

para que promulguem leis justas

que não se sobreponham aos desígnios de Deus,

oremos, irmãos.


3. Para que os excluídos,

se sintam os primeiros convidados

para a esperança e alegria de salvação

concretizada por Deus em Jesus,

através de Maria, a Virgem Imaculada,

oremos, irmãos.


4. Para que todos nós aqui presentes

saibamos manifestar a nossa confiança em Maria,

a fim de anunciarmos as maravilhas operadas por Deus,

oremos, irmãos.


5. Para que sabendo cultivar em nós

com sinceridade e alegria a própria «nudez»,

deixemos de nos sentir auto-suficientes

e de nos impormos aos demais,

oremos, irmãos.


Senhor nosso Deus e nosso Pai,

escutai a humilde oração do vosso povo,

para que, com a ajuda da Imaculada Conceição,

formemos uma só pessoa em Cristo,

a fim de alcançarmos a alegria que não tem fim.

Por nosso Senhor Jesus Cristo....



Liturgia Eucarística


Monição: Os dons da terra, que vamos oferecer sobre o altar, sejam penhor de que não queremos construir um mundo separados de Deus, mas a confirmação de que o Senhor é o Criador amigo em Quem podemos absolutamente confiar e para O qual tudo se dirige.


Cântico do ofertório: Ó Nuvens chovei o Justo, F. da Silva, NRMS 15


Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, o sacrifício de salvação que Vos oferecemos na solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e, assim como acreditamos que, por vossa graça, ela foi isenta de toda a mancha, sejamos nós, por sua intercessão, livres de toda a culpa. Por Nosso Senhor...


Prefácio


O mistério de Maria e da Igreja


V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.


V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.


V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.


Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos, bendizer-Vos e glorificar-Vos na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça, fosse a digna Mãe do vosso Filho. Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade. Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:


Santo, Santo, Santo.


Santo: M. Simões, NRMS 50-51


Abraço da paz


Monição: Aceitemos a escolha de Maria como uma honra, um sinal de valor, de dignidade e de grandeza. Deixemo-nos inebriar pelas «grandes coisas» que nela operou Aquele cujo «Santo é o seu nome». Sintamos que se assim realizou obra tão maravilhosa na sua «humilde serva», saberá também extrair da nossa miséria, da nossa baixeza e da nossa pobreza, a fecundidade para a nossa vida se, como Maria, respeitarmos a vontade de Deus. Deste modo, podermos sentir e desfrutar da sua paz.


Monição da Comunhão


Ao participarmos do banquete eucarístico ajudai-nos, Senhor, a relembrar os laços que nos unem a Deus nosso Pai, por meio de Jesus Cristo e da Imaculada Virgem Maria. Que esta união se manifeste no esforço por vivermos mais unidos uns com os outros e disponíveis para o seu serviço e para Deus.


Cântico da Comunhão: É celebrada a vossa glória, F. dos Santos, NCT 50


Antífona da comunhão: Grandes coisas se dizem de vós, ó Virgem Maria, porque de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.


Cântico de acção de graças: Cantai um cântico novo, J. Santos, NRMS 10 (II)


Oração depois da comunhão: O sacramento que recebemos, Senhor, cure em nós as feridas daquele pecado, do qual, por singular privilégio, preservastes a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Por Nosso Senhor...



Ritos Finais


Monição final


Servir e amar os outros há-de ser a manifestação de que participamos na Eucaristia e damos glória a Deus e louvamos a Imaculada Virgem Maria. Na humildade que instaura relações que constroem alegria e felicidade ponhamos fim à lógica do egoísmo, da competitividade e da ostentação, introduzindo no mundo a partilha gratuita dos dons de Deus e a submissão à sua santa vontade.


Cântico final: Gloriosa Mãe de Deus, M. Carneiro, NRMS 33-34








Celebração e Homilia: António Elísio Portela

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha



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