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O ÚNICO INIMIGO


Hugo de Azevedo


Não se pode falar dele, mas como entenderemos o nosso tempo, se estamos a passar por uma «cultura de morte»? Se é tão forte e evidente a presença do «príncipe deste mundo», aquele a quem Jesus chama também «o assassino desde o princípio», como lembra o Catecismo da Igreja Católica? A morte é a sua «especialidade». Foi ele que trouxe ao mundo o pecado, a mentira, a concupiscência, o sofrimento e a morte – a dupla morte, do corpo e da alma... É ele que a cultiva com sanha sobre-humana, tirando partido da nossa fraqueza, enfraquecendo-nos cada vez mais, e arrastando-nos para um vórtice de loucura e suicídio colectivos, sem fim à vista. Dele vem o ódio, a malvadez, e a cegueira moral. Ele é o nosso verdadeiro e único inimigo. De resto, somos irmãos, filhos queridos do nosso Pai que está nos céus. Se não fosse «o pai da mentira», ainda hoje nos compreendíamos e amávamos.

Não nos deixemos enganar: é ele quem semeia o joio no meio do nosso trigo; é ele, «o acusador dos nossos irmãos» (Ap 12, 10), que promove a divisão e nos desirmana. Dele procedem as leis que fomentam todas as liberdades para o mal, e sufocam a liberdade para o bem. É ele que perverte as artes, levando-as a exaltar as maiores baixezas morais e ridiculizar a elevação do homem pela religião e a virtude. Pelos «media» tenta esconder tudo o que se faz de positivo, suspeitar de tudo o que é generoso, e apagar os mínimos sinais da fé, fazendo-a ver como uma excentricidade paranóica. Pela ciência, foi ele quem conseguiu converter o homem em material de laboratório...

Ei-lo a atingir o alvo principal dos seus ataques: a vida. A Igreja será sempre um seu alvo preferido, sem dúvida, feita ré de todas as acusações históricas, sabendo ele, porém, que nunca a destruirá... Já tem longa experiência. Mas onde empenha sobretudo a sua fúria é no berço do amor e da vida: a família. Cada lar que desfaz é um núcleo atómico a explodir, arrasando tudo ao seu redor: a paz, o amor, a educação, a esperança, a alegria de viver. E a casa do homem, em vez de fonte de vida, transforma-se em manicómio e campo de extermínio.

E é tão horrível o que vemos... que deixamos de o ver. E acabamos por considerá-lo a normalidade da existência humana.

Mas Deus tudo vê, e vem em nossa defesa com uma arma insuperável: a humildade. A humildade é a arma que mais desconcerta o nosso inimigo, porque nem sabe o que isso é. Não percebe donde nasce, nem entende a sua lógica, o seu «mecanismo». E apavora-o mais do que tudo, porque lhe confunde a estratégia e desbarata as suas hostes. Onde topa com a humildade encontra uma resistência inaudita, e uma paz que ainda mais o desespera. Foge dela... «como o diabo da cruz», e nunca melhor dito. Do Presépio à Cruz a humildade ofusca-o. É-lhe insuportável.

Olhamos para o nosso mundo, e ecoam-nos as palavras do salmista: «Porque se revoltam as nações, e os povos fazem projectos insensatos? Pois, de facto, reuniram-se os poderosos deste mundo contra o Senhor e contra o seu Cristo: – Quebremos as suas cadeias, e lancemos para longe de nós o seu jugo! Mas Aquele que habita o céu rir-se-á deles» (Slm 2) O sorriso do Menino no Presépio...

Não é preciso fechar os olhos à realidade, que tem aspectos horríveis, dolorosos só de constatar. Maior realidade é esse sorriso divino. Ele não confunde as nossas maldades connosco mesmos. Não vem para o meio dos seus inimigos, mas dos seus irmãos, filhos, amigos. Só um inimigo tem: o nosso. E vem ensinar-nos como derrotá-lo e a não ter nenhum outro.








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