aCONTECIMENTOS eclesiais

RECORTE

 

 

O ROSTO DO PECADO

(à luz da Bíblia e da Mensagem de Fátima)

 

D. Augusto César

Bispo emérito de Portalegre-Castelo Branco

 

 

A origem do pecado vem narrada nas primeiras páginas do Génesis, ao jeito duma parábola. Mas, o seu realismo acentua a diferença, uma vez que contamina todas as pessoas e actividades humanas, acabando por se inculturar, ao longo dos séculos e através de novas modalidades. Assim, a literatura sapiencial vai fazendo a leitura dos caprichos humanos, em oposição à vontade de Deus; os profetas vão denunciando a infidelidade do Povo, diante da Aliança divina; e os escritos do Novo Testamento apresentam Jesus Cristo como o Salvador, que vem reconciliar o homem com Deus e os homens entre si, adoptando livremente o projecto divino que corrige a rebeldia de Adão. Também, os teólogos de hoje mencionam o pecado original como o «pecado do mundo», que se transmite à maneira de contexto geral ou forma comum de viver desviadamente. E todas estas reflexões se tornam necessárias, para perceber a gravidade do pecado. Mas é, sobretudo, à luz da paixão e morte de Jesus, que ele aparece carregado de tragédia e, simultaneamente, exposto à misericórdia de Deus, através da ressurreição.

O pecado original, com efeito, não é um simples acto externo de desobediência. Se assim fosse, a correcção seria visível. Mas apresenta-se como a atitude interior de alguém que afirma a sua auto-suficiência diante de Deus e se nega a manter-se na Sua dependência. Simplesmente, sendo criado «à imagem e semelhança de Deus», usufrui duma relação que não é apenas de dependência mas também de amizade. E, por isso, o pecado corrompe, no homem, a imagem de Deus, trocando o sabor gratuito da criação pelo gosto interesseiro de ser rival. Resultado: a ruptura que é da iniciativa do homem, compromete todos os membros da comunidade humana (interpessoal, familiar e social); e a sanção, que revela o poder de Deus, manifesta-se através do ditame da consciência. Depois, quebra-se sucessivamente aquela solidariedade que dava aroma ao «jardim» do Éden. Assim: «osso dos meus ossos e carne da minha carne» dá lugar à acusação mútua; a fraternidade dos dois irmãos cede lugar ao fratricídio; a corrupção generalizada ocasiona o dilúvio; o desafio da torre de Babel compromete as relações dos povos; e o mal vai transbordando – em consequência da malícia do pecado.

Todavia, a condição do homem pecador mantém-se, desde o princípio, sob a influência da esperança. Pois, o amor de Deus Criador superabunda, para além do mal, e garante a promessa da reconciliação. Sinais disso podem ver-se na preservação de Noé (e sua família), diante da corrupção ambiental e da imagem do dilúvio (Gen 6, 5-8); e na bênção de Abraão, expressa na vocação recebida: «Por ti serão abençoadas todas as nações da terra» (Gen 12, 3). Os profetas, mais tarde, continuarão a advertir o povo da malícia do pecado, uma vez que só o amor de Deus é fonte de vida. E o Novo Testamento, olhando para o Servo de Yavé (Is 53, 11), à luz do Calvário, concluirá que a libertação do pecado é obra do Filho de Deus. Daí, que a revelação mais surpreendente seja a da misericórdia de Deus feita por Jesus e expressa na Sua pregação, no acolhimento aos pobres e doentes, no perdão aos pecadores. E, ainda hoje, este modo de proceder perfuma de esperança o caminho, mas escandaliza os fariseus do tempo.

 

(Voz de Fátima)

 


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