TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A IMPORTÂNCIA DO CELIBATO SACERDOTAL

 

 

Cardeal Cláudio Hummes

Prefeito da Congregação para o Clero

 

 

Temos o gosto de oferecer aos nossos leitores a segunda parte das reflexões do Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, por ocasião do XL aniversário da Encíclica «Sacerdotalis caelibatus» do Papa Paulo VI (24-VI-1967), publicadas em «L’Osservatore Romano», ed. port, 24-II-2007.

O texto foi tomado do site na Internet da mesma Congregação vaticana: www.vatican.va

 

 

(continuação)

 

Valor da castidade e do celibato

O celibato, antes de ser uma disposição canónica, é um dom de Deus à sua Igreja, é uma questão ligada à dedicação total ao Senhor. Mesmo na distinção entre a disciplina do celibato do clero secular e a experiência religiosa da consagração e da emissão dos votos, não há nenhuma dúvida de que não existe outra interpretação e justificação do celibato eclesiástico para além da dedicação total ao Senhor, numa relação que seja, também sob o ponto de vista afectivo, exclusiva; isto pressupõe uma profunda relação pessoal e comunitária com Cristo, que transforma o coração dos seus discípulos.

A opção do celibato da Igreja Católica de rito latino desenvolveu-se, desde os tempos apostólicos, precisamente na linha da relação do sacerdote com o seu Senhor, tendo como grande ícone o «Amas-me mais do que estes?» [1] que Jesus Ressuscitado dirige a Pedro.

As razões cristológicas, eclesiológicas e escatológicas do celibato, todas radicadas na comunhão especial com Cristo à qual o sacerdote é chamado, podem portanto ser declináveis em diversos modos segundo quanto é afirmado expressamente pela Sacerdotalis caelibatus.

Antes de mais, o celibato é «sinal e estímulo da caridade pastoral» [2]. Esta é o critério supremo para julgar da vida cristã sob todos os seus aspectos; o celibato é um caminho de amor, mesmo se o próprio Jesus, como refere o Evangelho segundo Mateus, afirma que nem todos podem compreender esta realidade: «Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado» [3].

Esta caridade declina-se no duplo aspecto clássico de amor a Deus e aos irmãos: «Com a virgindade ou o celibato observado pelo Reino dos céus os presbíteros consagram-se a Deus com um novo e excelso título, aderem mais facilmente a Ele com coração indiviso» [4]. São Paulo, numa passagem à qual aqui se alude, apresenta o celibato e a virgindade como «meios para agradar a Deus» sem divisões [5]: por outras palavras, um «caminho do amor» que certamente pressupõe uma vocação particular, e neste sentido é um carisma, e que é em si mesmo excelente, quer para o cristão quer para o sacerdote.

O amor radical para com Deus torna-se através da caridade pastoral amor para com os irmãos. Na Presbyterorum ordinis, lemos que os sacerdotes «se dedicam mais livremente, n’Ele e por Ele, ao serviço de Deus e dos homens, servem com maior eficiência o seu Reino e a obra de regeneração divina e tornam-se mais aptos para receberem amplamente a paternidade em Cristo» [6]. A experiência comum confirma que é mais simples abrir o coração aos seus irmãos plenamente e sem reservas para quem não está ligado por outros laços afectivos, por muito legítimos ou santos que sejam, para além do de Cristo.

O celibato é o exemplo que o próprio Cristo nos deixou. Ele quis ser celibatário. A Encíclica explica ainda: «Cristo permaneceu toda a sua vida no estado de virgindade, o que significa a sua total dedicação ao serviço de Deus e dos homens. Esta profunda relação entre a virgindade e o sacerdócio de Cristo reflecte-se naqueles que Ele escolhe para participarem na dignidade da missão do Mediador e Sacerdote eterno, e esta participação será tanto mais perfeita, quanto mais o ministro sagrado estiver livre de todo o laço da carne e do sangue» [7].

A existência histórica de Jesus Cristo é o sinal mais evidente de que a castidade assumida de modo voluntário por Deus é uma vocação solidamente fundada quer no plano cristão quer no da razão humana.

Se a vida cristã comum não pode ser legitimamente considerada tal se exclui a dimensão da Cruz, a existência sacerdotal seria muito mais incompreensível se prescindisse da óptica do Crucificado. O sofrimento, e por vezes as dificuldades e até o fracasso, têm o seu lugar na existência de um sacerdote, mesmo que esta, em última análise, não seja por eles determinada. Escolhendo seguir Cristo desde o primeiro momento, compromete-se a ir com Ele até ao Calvário, consciente de que é a aceitação da própria cruz é o elemento que qualifica a radicalidade do seguimento.

Finalmente, como foi dito, o celibato é um sinal escatológico. Na Igreja, está presente desde agora o Reino futuro: ela não só o anuncia, mas realiza-o sacramentalmente contribuindo para a «criação nova», até que a Sua glória se manifeste plenamente.

Enquanto o sacramento do matrimónio enraíza a Igreja no presente, imergindo-a totalmente na ordem terrena, a qual se torna ela mesma possível lugar de santificação, a virgindade remete imediatamente para o futuro, à perfeição integral da criação que será levada a pleno cumprimento somente no final dos tempos.

Meios para ser fiéis ao celibato

A sabedoria bimilenária da Igreja, perita em humanidade, tem identificado constantemente ao longo dos tempos alguns elementos fundamentais e irrenunciáveis para favorecer a fidelidade dos seus filhos ao carisma sobrenatural do celibato.

Entre eles, sobressai, também no recente magistério, a importância da formação espiritual do sacerdote chamado a ser «testemunha do Absoluto». Afirma a Pastores dabo vobis: «Formar-se para o sacerdócio significa habituar-se a dar uma resposta pessoal à questão fundamental de Cristo: ‘Tu amas-me?’. A resposta, para o futuro sacerdote, não pode ser senão o dom total da sua própria vida» [8]. Neste sentido, são absolutamente fundamentais os anos da formação, quer a remota, vivida em família, quer a próxima, nos anos do Seminário, verdadeira escola de amor, na qual, como a comunidade apostólica, os jovens seminaristas se estreitam à volta de Jesus na expectativa do dom do Espírito para a missão. «A relação do sacerdote com Jesus Cristo e, n'Ele, com a Sua Igreja situa-se no próprio ser do presbítero, em virtude da sua consagração ou unção sacramental, e no seu agir, isto é, na sua missão ou ministério» [9]. O sacerdócio mais não é do que uma «vida intimamente unida a Jesus Cristo» [10], numa relação de íntima comunhão que é descrita «com o matiz da amizade» [11]. A vida do sacerdote é, no fundo, uma forma de existência que seria inconcebível se Cristo não existisse. É precisamente nisto que consiste a força do seu testemunho: a virgindade pelo Reino de Deus é um dado real, existe porque Cristo existe e a torna possível.

O amor ao Senhor é autêntico quando tende a ser total: amar a Cristo significa conhecê-lo profundamente, conviver com a Sua pessoa, compartilhar e assimilar o Seu pensamento e, finalmente, acolher sem reservas as exigências radicais do Evangelho. Só se pode ser testemunhas de Deus se se tiver uma experiência profunda de Cristo; da relação com o Senhor depende toda a existência sacerdotal, a qualidade da sua experiência de martyria, do seu testemunho.

Testemunha do Absoluto é unicamente aquele que tem de verdade Jesus como amigo e Senhor, aquele que goza da Sua comunhão. Cristo não é apenas objecto de reflexão, de tese teológica ou uma recordação histórica; Ele é o Senhor presente, está vivo porque ressuscitou, e nós estamos vivos só na medida em que participamos cada vez mais profundamente da Sua vida. É sobre esta fé explícita que se funda toda a existência sacerdotal. Por isso, a Encíclica diz: «O sacerdote aplique-se antes de mais a cultivar com todo o amor que a graça lhe inspira a sua intimidade com Cristo, aprofundando o seu mistério inesgotável e beatificante; adquira um sentido cada vez mais profundo do mistério da Igreja, fora do qual o seu estado de vida correria o risco de parecer inconsistente e incongruente» [12].

Além da formação e do amor a Cristo, elemento essencial para preservar o celibato é a paixão pelo Reino de Deus, que significa a capacidade de trabalhar activamente e sem poupar esforços para que Cristo seja conhecido, amado e seguido. Como o camponês que, tendo encontrado a pérola preciosa, vende tudo para comprar o campo, assim quem encontra Cristo e dedica toda a sua existência com Ele e para Ele, não pode deixar de viver trabalhando para que outros O possam encontrar.

Sem esta clara perspectiva, qualquer «impulso missionário» está destinado ao fracasso, as metodologias transformam-se em técnicas de conservação de um sistema, e até as orações poderão tornar-se técnicas de meditação e de contacto com o sagrado, nas quais se dissolvem quer o eu humano quer o Tu de Deus.

Uma ocupação fundamental e necessária do sacerdote, como exigência e como dever, é a oração que, com efeito, é insubstituível na vida cristã e, por conseguinte, na sacerdotal. A ela deve ser dedicada uma atenção particular: a celebração eucarística, o Ofício divino, a confissão frequente, a relação afectuosa com a Santíssima Virgem Maria, os Exercícios Espirituais, a recitação diária do Terço, são alguns dos sinais espirituais de um amor que, se faltasse, correria inexoravelmente o risco de ser substituído pelos sucedâneos, com frequência nefastos, da imagem, da carreira, do dinheiro, da sexualidade.

O sacerdote é homem de Deus porque é chamado por Deus a sê-lo e vive esta identidade pessoal na pertença exclusiva ao seu Senhor, que se exprime também na opção do celibato. É um homem de Deus porque vive d'Ele, a Ele fala, com Ele resolve e decide, em obediência filial, os passos da sua existência cristã. Quanto mais os sacerdotes forem radicalmente homens de Deus, através de uma existência totalmente centrada em Deus, como sublinhou o Santo Padre Bento XVI nos votos de Natal à Cúria Romana no passado dia 22 de Dezembro, tanto mais eficaz e fecundo será o seu testemunho, e o seu ministério rico de frutos de conversão. Não há oposição entre a fidelidade a Deus e a fidelidade ao homem, antes, pelo contrário, a primeira é a condição que permite a segunda.

Conclusão: uma vocação santa

A Pastores dabo vobis, falando da vocação do sacerdote à santidade, depois de ter ressaltado a importância da relação pessoal com Cristo, exprime outra exigência: ao sacerdote, chamado à missão de anunciar, é confiada a Boa Nova para dela fazer um dom para todos. Contudo, ele é chamado a acolher o Evangelho antes de mais como dom oferecido à sua existência, à sua pessoa e como acontecimento salvífico que o compromete a uma vida santa.

Nesta perspectiva, João Paulo II falou do radicalismo evangélico que deve caracterizar a santidade do sacerdote; portanto, é possível indicar nos conselhos evangélicos tradicionalmente propostos pela Igreja e vividos nos estados de vida consagrada, os itinerários de um radicalismo vital ao qual também, a seu modo, o sacerdote é chamado a ser fiel.

A Exortação afirma: «Expressão privilegiada do radicalismo evangélico são os diversos ‘conselhos evangélicos’ que Jesus propõe no Sermão da Montanha. Entre estes conselhos, intimamente coordenados entre si, encontram-se a obediência, a castidade e a pobreza. O sacerdote é chamado a vivê-los segundo as modalidades, e mais ainda, segundo as finalidades e significado original, que derivam da identidade do presbítero e a exprimem» [13].

E ainda, retomando a dimensão ontológica sobre a qual o radicalismo evangélico se funda: «O Espírito, consagrando o sacerdote e configurando-o com Jesus Cristo, Cabeça e Pastor, cria uma união no próprio ser do sacerdote; esta união deve ser assumida e vivida de maneira pessoal, isto é, consciente e livre, mediante uma vida de comunhão e de amor cada vez mais rica e uma partilha cada vez mais ampla e radical dos sentimentos e das atitudes de Jesus Cristo. Nesta união entre o Senhor Jesus e o sacerdote, união ontológica e psicológica, sacramental e moral, está o fundamento e, ao mesmo tempo, a força necessária para aquela «vida segundo o Espírito» e aquele «radicalismo evangélico», ao qual é chamado todo o sacerdote, e que favorece a formação permanente no seu aspecto espiritual» [14].

O carácter nupcial do celibato eclesiástico, precisamente em razão da relação entre Cristo e a Igreja que o sacerdote é chamado a interpretar e a viver, deveria dilatar o seu espírito, iluminando a sua vida e inflamando o seu coração. O celibato deve ser uma oblação feliz, uma necessidade de viver com Cristo, para que Ele derrame no sacerdote as efusões da sua bondade e do seu amor que são inefavelmente plenas e perfeitas.

A este propósito, são iluminadoras as palavras do Santo Padre Bento XVI: «O verdadeiro fundamento do celibato não pode estar contido senão na frase: Dominus pars (mea) – Tu és a minha terra. Ele não pode deixar de ser teocêntrico. Não pode significar estar privados de amor, mas deve significar deixar-se tomar pela paixão por Deus, e aprender depois, graças a uma presença mais íntima ao Seu lado, a servir também os homens. O celibato deve ser um testemunho de fé: a fé em Deus torna-se concreta nessa forma de vida que tem sentido unicamente a partir de Deus. Colocar a sua vida n'Ele, renunciando ao matrimónio e à família, significa que acolho e experimento Deus como realidade e que, por isso, posso levá-lo aos homens» [15].

 



[1] Io 21, 15.

[2] Paulo VI, Carta Enc. Sacerdotalis caelibatus, n. 24.

[3] Mt 19, 11.

[4] Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 16.

[5] Cf. 1 Cor 7, 32-33.

[6] Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 16.

[7] Paulo VI, Carta Enc., Sacerdotalis caelibatus, n. 21.

[8] João Paulo II, Pastores dabo vobis, n.42.

[9] Ibid., n. 16.

[10] Ibid., n. 46.

[11] Ibidem.

[12] Paulo VI, Carta Enc., Sacerdotalis caelibatus, n. 75.

[13] João Paulo II, Pastores dabo vobis, n.27.

[14] Ibid., n. 72.

[15] Bento XVI, Discurso por ocasião da Audiência à Cúria Romana para a apresentação dos votos de Natal, 22 de Dezembro de 2006.


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