A PALAVRA DO PAPA

O SENTIDO DA DOR NA NOSSA VIDA

 

 

Quase no final do período de repouso nas montanhas do Nordeste da Itália, Bento XVI encontrou-se no dia 25 de Julho passado com umas centenas de sacerdotes das dioceses de Belluno-Feltre e Treviso. Ao longo de quase duas horas, o Papa respondeu a dez perguntas que lhe foram colocadas sobre vários problemas.

Damos a seguir a resposta do Santo Padre sobre as inquietações da juventude de hoje.

 

 

Padre Alberto: Santo Padre, os jovens são o nosso futuro e a nossa esperança. Mas, por vezes, vêem a vida, não como uma oportunidade, mas como uma dificuldade; não um dom para si e para os outros, mas algo para consumir imediatamente; não um projecto para construir, mas um vaguear sem meta. A mentalidade de hoje impõe aos jovens que sejam sempre felizes e perfeitos, com a consequência de que qualquer pequeno fracasso e qualquer mínima dificuldade já não são vistos como motivo de crescimento, mas como uma derrota. Tudo isto leva-os com frequência a gestos irremediáveis, como o suicídio, que provocam uma dilaceração no coração de quantos os amam e de toda a sociedade. Que nos pode dizer a nós, educadores, que, com frequência, nos sentimos com as mãos atadas e sem respostas? Obrigado.

 

– Parece-me que Vossa Reverência fez uma descrição precisa de uma vida na qual Deus não aparece. Num primeiro momento, parece que não temos necessidade de Deus, ou até que, sem Deus, seríamos mais livres e o mundo seria mais amplo. Mas, depois de um certo tempo, nas nossas novas gerações, vê-se o que acontece quando Deus desaparece. Como disse Nietzsche, «A grande luz apagou-se, o sol apagou-se». Então, a vida é uma coisa de ocasião, torna-se uma coisa e devo procurar fazer o melhor com esta coisa e usar a vida como se fosse uma coisa para uma felicidade imediata, palpável e realizável. Mas o grande problema é que, se Deus não existe e não existe o Criador também da minha vida, na realidade a vida é uma simples parcela da evolução, e nada mais, não tem sentido em si. Mas, pelo contrário, eu devo procurar dar sentido a esta parcela de ser.

Vejo actualmente na Alemanha, mas também nos Estados Unidos, um debate bastante aceso entre o chamado criacionismo e o evolucionismo, apresentados como se fossem alternativas que se excluem: quem crê no Criador não poderia pensar em evolução e quem, pelo contrário, afirma a evolução deveria excluir Deus. Esta contraposição é um absurdo, porque por um lado há tantas provas científicas a favor de uma evolução que aparece como uma realidade que devemos ver e que enriquece o nosso conhecimento da vida e do ser como tal. Mas a doutrina da evolução não responde a todas as questões e sobretudo não responde à grande questão filosófica: de onde vem tudo? e como é que tudo toma um caminho que chega finalmente ao homem? Parece-me muito importante – também pretendia dizer isto na minha lição de Ratisbona – que a razão se abra mais, que veja sim estes dados, mas que veja também que não são suficientes para explicar toda a realidade. Não é suficiente, a nossa razão é mais ampla e pode ver também que a nossa razão no fundo não é algo de irracional, um produto da irracionalidade, mas que a razão precede tudo – a Razão criadora –, e que nós somos realmente o reflexo da Razão criadora. Somos pensados e queridos e, portanto, existe uma Ideia que me precede, um sentido que me precede e que devo descobrir, seguir e que dá finalmente significado à minha vida. Parece-me que este é o primeiro ponto: descobrir que realmente o meu ser é racional, é pensado, tem um sentido e a minha grande missão é descobrir este sentido, vivê-lo e dar assim um novo elemento à grande harmonia cósmica pensada pelo Criador *.

Se é assim, então também os momentos de dificuldade tornam-se momentos de maturidade, de processo e de progresso do meu próprio ser, que tem sentido desde a sua concepção até ao último momento de vida. Podemos conhecer esta realidade do sentido precedente a todos nós, podemos também redescobrir o sentido do sofrimento e da dor; certamente há um sofrimento que devemos evitar e que devemos afastar do mundo: tantas dores inúteis, provocadas pelas ditaduras, pelos sistemas errados, pelo ódio e pela violência. Mas há também na dor um sentido profundo e, só se pudermos dar sentido à dor e ao sofrimento, a nossa vida pode amadurecer. Diria, sobretudo, que não é possível o amor sem a dor, porque o amor implica sempre uma renúncia a mim, um abandonar-me, um aceitar o outro na sua alteridade, implica uma doação de mim e, portanto, um sair de mim próprio. Tudo isto é dor, sofrimento, mas precisamente neste sofrimento do perder-me pelo outro, pelo amado, e portanto por Deus, me torno grande e a minha vida encontra o amor e no amor o seu sentido. Também a inseparabilidade de amor e dor, de amor e Deus, são elementos que devem entrar na consciência moderna para nos ajudar a viver. Neste sentido, diria que é importante fazer com que os jovens descubram Deus, com que descubram o amor verdadeiro que precisamente na renúncia se torna grande e, assim, fazer com que descubram também a bondade interior do sofrimento, que me torna mais livre e maior. Naturalmente, para ajudar os jovens a encontrarem estes elementos, há sempre necessidade de companhia e de caminho, quer seja a paróquia ou a Acção Católica ou um Movimento, só em companhia com os outros poderemos também descobrir nas novas gerações esta grande dimensão do nosso ser.

 

 

 

 



* NR: As palavras de Bento XVI abrem perspectivas muito interessantes. Quem analisa a realidade unicamente com a sua razão, como supremo critério para medir o sentido de tudo, pondo de parte por isso a existência de Deus e o valor de certas normas morais porque a sua razão não as compreende, está convicto de que tudo quanto existe tem de ser entendido racionalmente, ou como os clássicos dizem, tem a sua razão de ser. Como essa pessoa que assim raciocina não duvida da sua existência, podia perguntar-se quem é que compreende racionalmente o sentido da sua vida, desde a concepção até à morte, e assim chegar Àquele por quem somos pensados e queridos, e através d’Ele descobrir o verdadeiro sentido da sua vida. (MF)   


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