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AS  COISAS  INVISÍVEIS

 

Hugo de Azevedo

 

 

«A fé é o fundamento das coisas que se esperam, e uma demonstração das que não se vêem» (Hebr 11, 1). A fé é um conhecimento certo, certíssimo, mais fiável do que nenhum outro, por se apoiar na palavra de Deus, que não se engana, nem nos engana. E tal conhecimento, por ser mais firme que nenhum, demonstra o que confessa: «um Reino eterno e universal, Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino de justiça, de amor e de paz», incoado na terra e no qual esperamos participar plenamente no céu, por Cristo, com Cristo e em Cristo. «Sim, o que presentemente é para nós uma tribulação momentânea e ligeira, prepara-nos para além de toda a medida, um peso eterno de glória, a quantos não olhamos às coisas visíveis, mas sim às invisíveis. Com efeito, as coisas que se vêem são passageiras; as invisíveis são eternas» (2 Cor 4, 17-18).

Mas, como hão-de crer aqueles – e tantos são – para quem o invisível significa... o nada? Com efeito, pensam muitos que o invisível, o insensível, ou não existe, ou só pode provocar uma convicção subjectiva, apenas partilhável com quem possua igual convicção. Ao certo, ao certo, só o que vemos e tocamos, só o que outros também podem experimentar através dos sentidos, só o que pode ser objecto da ciência física, é verdade incontestável. Tudo o mais entra no reino da fantasia ou, quando muito, da possibilidade...

Pensam... Dizem... Mas, se pensam ou dizem, é porque acreditam firmemente no invisível – nos conceitos, nas ideias, em si mesmos, nas outras pessoas, na razão, na verdade, na igualdade da natureza humana que permite a comunicação... Nada disso é material, sensível, objecto de experimentação científica, e, no entanto, ninguém duvida de que corresponde a convicções objectivas e universais, comuns a todos nós.

O materialismo que nos envolve não é simplesmente um erro metafísico; é um grosseiro disparate antropológico: as realidades espirituais «pesam» tanto ou mais na nossa vida quotidiana do que a realidade material. Não há palavra que digamos, gesto que façamos, gosto ou desgosto que sintamos, que não procedam dessa coisa invisível que é a alma: da inteligência e da vontade. A começar por este nosso «eu», que ninguém vê, porque só vê um corpo; o nosso «eu», que permanece através das mudanças corporais, e em que cremos mais do que no espelho; o nosso «eu», centro da nossa memória e da nossa imaginação, e cerne de todas as nossas angústias, alegrias, preferências, decisões... E os «outros»? Serão puras manchas de cor, bonecos de carne, fonte de ruídos – ou pessoas, como nós? E todas as coisas, em geral? Pelos sentidos nunca seríamos capazes de distingui-las por géneros e espécies, mas unicamente por formas confusas e mutáveis; e nós conseguimo-lo: referimo-nos a elas pelos nomes, isto é, pela sua «essência» universal, e assim nos entendemos perfeitamente...

A mera escolha de prato num restaurante revela e procede do «espírito»: nenhum determinismo corporal nos faz lançar-nos sobre o primeiro bife que olfactamos ou a primeira sopa que rescende; fazemos uma escolha, que é um acto livre, fruto da razão e vontade. E se um rosto nos atrai? Será meramente pelo feitio, pelo tom da pele, pela dentadura regular, pelos seus componentes químicos? Não conta para nada a sua expressão, essa manifestação de interioridade? E se de uns lábios de coral saísse um grunhido? Seria para nós um pormenor insignificante? Não é verdade que amamos pessoas, e não só corpos? E o que é uma pessoa, senão um outro «eu», um «tu», tão invisível como o nosso «eu», com quem podemos comunicar-nos através de palavras?... E as palavras? Serão simples fonemas, sons fisiológicos? Não contêm nada de racional, de espiritual, portanto? Não são elas a prova e a manifestação constante da alma?

A quem quiser persuadir-nos de que nada é certo fora a matéria – a mais frágil das realidades, em contínua degradação e mudança, escapando-nos mal deixamos de senti-la –, perguntemos-lhe: - Como tens a certeza científica de que existes? E de que existo eu? Por isso, muito bem respondia um antigo apologista a quem lhe exigia que lhe «mostrasse» Deus: - «Mostra-me o teu eu, e eu mostro-te o meu Deus».

Queiramos ou não, as nossas certezas quanto às realidades invisíveis são tanto ou mais firmes, em qualquer de nós, do que a respeito das sensíveis; e o amor, aos outros e até às coisas puramente materiais, é sempre e substancialmente espiritual, invisível, mas inegável. Somos feitos, de facto, à imagem de Deus. Que loucura seria tentar reduzir-nos a um punhado de células! Não só ficaríamos cegos para o Criador; nem sequer nos encontraríamos a nós mesmos! Todo o materialismo é uma simples e risível contradição, ele próprio fruto – excrescência – do espírito, e, como teoria, graças a Deus, impraticável. Mas, nublando a cultura geral, continua a ser um obstáculo à fé, impedindo muitas almas de receberem em toda a sua força a luz mais do que espiritual – sobrenatural – da Revelação divina.

Como dizia o Santo Padre na última festa da Assunção, o materialismo ambiente pode assustar-nos como o dragão do Apocalipse, «que queria devorar o Deus feito criança e a Mulher, a Igreja (...) Também hoje existe o dragão (...) na forma das ideologias materialistas. Para estas ideologias (...) só vale o consumo, o egoísmo, a diversão. E de novo parece absurdo, impossível, opor-se a esta mentalidade dominante, com toda a sua força mediática, propagandista (...) Não tenhais medo por este Deus aparentemente frágil. A luta já foi superada. Também hoje este Deus frágil é forte: é a verdadeira força».

 

 

 

 


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