Natividade da Virgem Santa Maria

8 de Setembro de 2007

 

Festa

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Nasceu a Virgem Maria, F. da Silva, NCT 630

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, ao celebrar o nascimento da Virgem Santa Maria, da qual nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

Diz-se o Glória

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A festa da Natividade da Virgem Santa Maria tem provavelmente a sua origem  em meados do século V, na cidade de Jerusalém. Há, junto às ruínas da Piscina Probática, a igreja de santa Ana, construída sobre uma casa onde, segundo a tradição, terá vindo à luz deste mundo a Mãe de Deus e na qual se venera uma imagem da Virgem Menina.

Se o nascimento duma criança é saudado com júbilo, o de Maria foi-o imensamente mais, porque é como o clarão da madrugada que anuncia o nascer do Sol divino, do Redentor, que iluminará todas as nações. 

 

A Natividade de Maria é, pois, a consoladora promessa de que a Redenção é generosamente oferecida por Deus a todos nós.

À generosidade do Senhor, que nos dá tão claros felizes sinais de que se aproxima a hora do nosso resgate, havemos de corresponder com o reconhecimento da nossa condição de pecadores, com o arrependimento e desejo sincero e operativo de emenda.  

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

   Para as muitas faltas e hesitações na virtude da fé,

     por soberba, ignorância procurada ou preguiça,

     Senhor, misericórdia!

 

     Senhor, misericórdia!

 

   Para as recusas de acolhimento à vida sob tantas formas,

     esquecendo que toda a vida humana é um dom de Deus,

     Cristo, misericórdia!

 

     Cristo, misericórdia!

 

   Para a nossa falta de luta interior pela santidade pessoal,

     em vez da imitação da vida generosa de Nossa Senhora,

     Senhor, misericórdia!

 

     Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Dai, Senhor, aos vossos servos o dom da graça celeste e fazei que a festa do nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, cuja maternidade divina foi o princípio da nossa salvação, aumente em nós a unidade e a paz. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: [Miqueias 5, 1-4a.] Na profecia sobre Belém (casa do pão) Efratá (fecunda), lugar do nascimento de Jesus, há uma alusão velada a Nossa Senhora: «até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe».

O nascimento de Maria dá início ao cumprimento desta promessa divina, feita depois da queda original dos nossos primeiros pais.

 

ou: [Romanos 8, 28-30.] S. Paulo, na Carta aos Romanos, ensina-nos uma das consequências da nossa filiação divina: tudo quanto nos acontece, se quisermos colaborar com Deus, acabará por se tornar num bem para nós.

 

 

Miqueias 5, 1-4a

Eis o que diz o Senhor: 1«De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. 2Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. 3Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. 4aEle será a paz».

 

Em face da situação grave que pesava sobre o povo com as invasões assírias, no século VIII a. C., o Profeta tem palavras de esperança: após a ruína virá a restauração, que se fará por meio de um descendente de David. A profecia projecta-nos para um futuro de segurança e de paz, para os tempos messiânicos.

1 «De ti sairá aquele…» Tanto a tradição judaica como a cristã (cf. Rut 4, 11; 1 Sam 16, 1-13; 17, 12; Mt 2, 4-6; Jo 7, 42) entenderam esta profecia como referida ao lugar do nascimento de Cristo em Belém. «Beth-léhem» significa «casa do pão»; «Efratá» (fecunda) distingue-a duma outra Belém, na Galileia.

«Pequena entre as cidades…», à letra: «pequena para as que estão entre as milhares (ou famílias) de Judá». S. Mateus (Mt 2, 6) cita este texto fazendo dele uma leitura actualizada para mostrar que em Jesus se cumpre a profecia. Para isso serviu-se de dois recursos próprios da hermenêutica judaica. Por um lado, transforma a afirmação de Miqueias numa interrogação – «porventura és pequena…? –, o que lhe permite dizer que de modo nenhum é a mais pequena; por outro lado, com a técnica deráxica chamada al-tiqrey («não leias»), lê a palavra hebraica alfey («milhares») com outras vogais, a saber, al-lufey («as principais [príncipes] de»), tendo em conta que em hebraico não se escreviam as vogais, mas só as consoantes. É assim que Mateus pode dizer, não falseando o texto, mas interpretando-o: «não és de modo nenhum a menor entre as principais (cidades) de Judá».

«As suas origens remontam...» A expressão hebraica presta-se a designar uma origem anterior ao tempo, portanto, eterna e divina. Assim pensam muitos exegetas católicos, recorrendo à analogia com Is 9, 5.

2 «Aquela que há de ser mãe». Esta maneira de falar faz pensar a alguns comentadores numa alusão à célebre profecia da virgem que concebe de Isaías 7, 14, conhecida dos destinatários do oráculo, coisa aliás compreensível, uma vez que já teriam passado uns anos. Na leitura cristã deste texto é fácil de ver uma alusão à Mãe de Jesus, a razão da escolha deste texto para a Liturgia de hoje.

4 «Ele será a Paz». Em Ef 2, 14 parece haver uma citação desta passagem messiânica.

 

Em vez da leitura precedente, pode utilizar-se a seguinte:

 

Romanos 8, 28-30

Irmãos: 28Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. 29Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. 30E àqueles que predestinou, também os chamou àqueles que chamou, também os justificou e àqueles que justificou, também os glorificou.

 

Estas breves e incisivas palavras são das mais belas sínteses paulinas e estão na linha dos ensinamentos centrais de Romanos: a confiança mais absoluta em Deus, que há-de levar a cabo a obra já começada de salvar os seus fiéis. É certo que S. Paulo admite noutras passagens a possibilidade de que estes não se venham a salvar; mas, se isso vier a suceder, não pode ser por uma falha de Deus, mas apenas por uma atitude plenamente deliberada do homem resgatado. A nossa esperança é firmíssima (cf. Rom 5, 5.10), porque temos dentro de nós o próprio Espírito que vem em ajuda da nossa fraqueza, intercedendo por nós com gemidos inefáveis (cf. Rom 8, 26), e Deus Pai ouve esta intercessão, porque está plenamente conforme com Ele mesmo (v. 27). Além disso, por uma Providência amorosíssima, «Deus concorre, em tudo para o bem daqueles que O amam» (v. 28).

29-30 O desígnio salvador de Deus é aqui explicitado em cinco etapas (já explicitadas noutras passagens): Deus «conheceu-nos de antemão» (olhou-nos com amor); «predestinou-nos para sermos conformes à imagem do seu Filho» (a sermos um só com Cristo); «chamou-nos»; «justificou-nos»; «glorificou-nos». É certo que a glória ainda não nos foi dada (cf. vv. 17-18), mas já a podemos considerar adquirida (daí o emprego do aoristo proléptico), dada a nossa íntima união a Cristo já glorificado.

 

Salmo Responsorial    Sl 12 (13), 6ab.6cd (R. Is 61,10)

 

Monição: O salmo 12 foi composto para uma oração rezar em hora dramática, por causa do aparente silêncio de Deus, perante a arrogância dos ímpios.

A Liturgia escolheu os versículos deste salmo que nos falam duma confiança ilimitada no Senhor, agora fortalecida pelo nascimento da Mãe de Deus.

 

Refrão:         Exulto de alegria no Senhor.

 

Eu confiei na vossa bondade,

o meu coração alegra-se com a vossa salvação.

 

E cantarei ao Senhor

pelo bem que me fez.

 

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: O Evangelho proclama o momento em que Maria, respondendo à mensagem do Arcanjo S. Gabriel, abre as portas ao mistério da Redenção.

Aclamemos a Boa Nova que rompe as trevas de tantos milhares de anos e faz brilhar para nós a luz da misericórdia divina.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia Gregoriano

 

Sois ditosa, ó Virgem Santa Maria, sois digníssima de todos os louvores,

porque de Vós nasceu o sol da justiça, Cristo, nosso Deus.

 

 

Evangelho *

* O texto que se encontra entre parêntesis pertence à forma longa e pode omitir-se.

 

Forma longa: São Mateus 1, 1-16.18-23;      forma breve: São Mateus 1, 18-23

 [1Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacob, Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara, Farés gerou Esrom Esrom gerou 4Arão, Arão gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson Naasson gerou Salmon. 5Salmon gerou, de Raab, Booz Booz gerou, de Rute, Obed, Obed gerou Jessé 6Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão, 7Salomão gerou Roboão, Roboão gerou Abias, Abias gerou Asa, 8Asa gerou Josafat, Josafat gerou Jorão, Jorão gerou Ozias, 9Ozias gerou Joatão, Joatão gerou Acaz, Acaz gerou Ezequias, 10Ezequias gerou Manasses, Manassés gerou Amon, Amon gerou Josias, 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, ao tempo do desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel, Salatiel gerou Zorobabel, 13Zorobabel gerou Abiud, Abiud gerou Eliacim, Eliacim gerou Azor, 14Azor gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquim, Aquim gerou Eliud, 15Eliud gerou Eleazar, Eleazar gerou Matã, Matã gerou Jacob. 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo.]

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’».

 

«Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David»: É este o cabeçalho da genealogia humana de Jesus com que se inicia o Evangelho de Mateus. Este título é para apresentar Jesus como o descendente por excelência de David, o Messias, segundo as promessas de Deus. São três grupos de 14 gerações, a partir de Abraão, o pai do povo eleito, com nomes tomados fundamentalmente de Crónicas ou Paralipómenos, até Zorobabel, ignorando-se quais as fontes para os restantes nomes, nomes que não coincidem com os de Crónicas, nem com os da tábua genealógica de Lucas. A genealogia obedece claramente a uma intencionalidade teológica. O número 14, três vezes repetido, uma cifra que não corresponde a todos os elos que ligam Jesus a Abraão, parece querer insinuar que não estamos perante uma casualidade, à maneira duma capicua, mas perante algo preestabelecido por Deus, um desígnio misterioso de Deus, que envia o seu Filho à terra «quando chegou a plenitude dos tempos» (Gal 4, 4); de facto, o número 14 é um símbolo de plenitude, pois equivale ao número perfeito, 7, multiplicado por dois.

16 «Gerou... Foi gerado.» Esta lista tripartida evidencia que S. José não é pai de Jesus segundo a carne, pois de cada uma daquelas pessoas da lista genealógica se diz 'gerou' (egénesen), mas não se diz o mesmo de José relativamente a Jesus: «Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus». Este verbo, «nasceu», no original grego é uma forma passiva impessoal, «foi gerado» (egenêthe), correspondendo este passivo (passivum divinum) a uma forma corrente de se referir a Deus como sujeito duma acção, sem ter de pronunciar o seu nome inefável, dado o respeito que se Lhe deve. Sendo assim, a expressão «da qual foi gerado Jesus» é equivalente a esta: «da qual Deus gerou Jesus».

Mas pode perguntar-se: então porque se põe José na ascendência de Jesus, não sendo pai no sentido biológico (cf. v. 18)? É que é pai de Jesus «por constituição de Deus» (A. Diez Macho): «trata-se duma paternidade que afecta o nascimento, mas não a geração»; é Deus que introduz José na família de Jesus levando-o a vencer o temor reverencial de receber Maria como esposa (v. 21) e encarrega-o de pôr o nome ao Menino, o que era uma função do pai (v. 24). Estamos assim perante uma verdadeira paternidade, superior à carnal, pois é estabelecida ou constituída por Deus. S. Mateus pretende demonstrar que Jesus é o Messias e, portanto, Filho de David, embora sem documentar que descenda biologicamente dele. Isto é realçado pelo emprego duma técnica deráxica (actualização de textos bíblicos anteriores), chamada «gematriá» (jogo de números a partir das letras correspondentes): nesta lista genealógica, aparece o número 14 repetido 3 vezes, um número sublinhado no v. 17; e tanto o número 14 como o nome David se escrevem com as mesmas consoantes hebraicas (DVD = 4+6+4).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…» Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou, uma vez que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias; em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»); e assim o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas da culpa. E aqui não as tinha. A sua serenidade e rectidão levam-no a não se precipitar. Ele conhece a virtude extraordinária de Maria e sabe que ela não podia ter falhado, não admitindo sequer a mais leve suspeita acerca dela. O que José pensaria é que estava perante algo sobrenatural, divino; ouvira talvez contar em família o que se passou na visita de Maria a Isabel, se é que ele não esteve mesmo ali; poderia mesmo ter tido uma iluminação acerca da profecia de Isaías que falava duma virgem que havia de dar à luz e ela mesma impor o nome ao seu filho, onde, portanto, não parecia haver lugar para homem algum. É então que José pensa deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que não lhe competia ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando cuidadosamente «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» deigmatísai») o mistério messiânico.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo sabe que José não admite qualquer dúvida acerca da virtude de Maria, por isso, não diz: «não desconfies», mas: «não temas». José devia andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém usa o plural (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (a própria profecia de Isaías 7, 14, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até se prestava a significar que este não nasceria de germe paterno!). Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que o simples anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (o chamado deraxe), não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey (quer dizer, «não leias»), que consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular como os LXX traduziram: weqara’t «e tu chamarás»), mas trata-se de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – lembrar que em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

 

Sugestões para a homilia

 

– Maria, clarão da alvorada da Redenção

Deus elegeu Maria, desde toda a eternidade

Mãe do Redentor

Mãe da unidade dos povos

Nossa paz

– Maria, a maior bênção de Deus, depois de Jesus

Membro eminente da família humana.

Maria muda o rumo  da história da humanidade.

Ela mudará o rumo da nossa vida.

1. Maria, clarão da alvorada da Redenção

A Natividade de Nossa Senhora celebra-se com justificada alegria, porque o primeiro sinal claro de que está próxima a hora do nascimento do Salvador. «Hoje é o começo da salvação do mundo, porque na Santa Probática foi-nos gerada a Mãe de Deus através de quem o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, nos foi gerado» (S. João Damasceno, Homilia sobre a Natividade de Maria, 6 PG 96).

Deus prometeu um Redentor aos nossos primeiros pais, dissipando a noite cerrada e tenebrosa que se abateu sobre a terra, como consequência do pecado. Se por uma mulher – Eva – entrou a acção de Satanás no mundo. Uma outra Mulher inaugurará uma nova humanidade, ao conceber e dar à luz o Redentor.

O Senhor manteve acesa a luz desta esperança, pelos Patriarcas e Profetas, na vida do Povo de Deus.

Com a Natividade de Maria, chegou a hora de Deus e as maravilhas começaram a acontecer. 

 

a) Deus elegeu Maria, desde toda a eternidade. Referindo-se à escolha de Belém para lugar do nascimento de Jesus, o profeta Miqueias anuncia: «As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos».

Antes de escolher o lugar do nascimento, Deus escolheu, logicamente, Aquela que daria à luz o Filho de Deus. A expressão hebraica usada pelo profeta parece aludir à designação duma origem anterior ao tempo, portanto, eterna e divina.

Manifesta aos homens esta eleição, quando envia o Seu Embaixador – o Arcanjo S. Gabriel – para receber d’Ela a aceitação do Seu projecto de Salvação.

 

b) Mãe do Redentor. «Por isso, Deus os abandonará até à altura  em que der à luz  aquela que há-de ser mãe». Este abandono de Deus é apenas aparente. Espera apenas a hora própria para exercer a Sua misericórdia.

O mesmo Senhor pergunta: «Pode, acaso, uma mãe esquecer o próprio filhinho, não se enternecer pelo filho das suas entranhas? Pois bem; ainda que tais mulheres dele se esqueçam, eu, porém, não me esquecerei de ti». (Is 49, 15).

O Senhor preparou a humanidade no decurso do tempo que viu como necessário, para desencadear no mundo esta revolução de Amor.

O nascimento de Maria Santíssima, Mãe do Redentor, significa que chegou a hora das maravilhas que Ele quer operar no mundo.

 

c) Mãe da unidade dos povos. «Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos

O pecado causou feridas profundas e dolorosas nos homens. Uma vez cometido o pecado, são imprevisíveis as suas consequências.

Ele fere-nos naquilo que é essencial da nossa vocação cristã. Chamados à vida em comunhão com Deus e com os irmãos, nesta vida e na futura, encontramos, como consequência da ofensa a Deus a divisão, fruto da falta de Amor.

O nascimento de Maria é o primeiro gesto visível  de Deus com que desencadeia esta revolução de Amor. Um dos seus frutos imediatos será, com certeza, a unidade, como fruto do amor.

Não são as mães da terra o sinal e instrumento de unidade e comunhão dos filhos consigo mesma e entre eles?

 

d) Nossa paz. «Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz.» Maria aproxima-nos de Jesus. Por isso, recuperamos a paz e a alegria quando deixamos que Ela nos tome em seus braços. Basta, por vezes, um pouco de oração, num filial desabafo com Ela, para nos sentirmos mudados. Que o digam tantas pessoas que visitam um santuário mariano.

Dificilmente encontraremos um quadro mais belo do que o de uma criança adormecida placidamente nos braços da mãe, num abandono confiante.

Maria foi-nos dada como Mãe para que vivamos neste mesmo abandono que tem como primeiro fruto a paz.

2. Maria, a maior bênção de Deus, depois de Jesus

Depois de Jesus, que se torna membro da família humana, pelo mistério da Redenção, Maria Santíssima é a maior bênção de Deus para todos nós.

 

a) Membro eminente da família humana. Os hebreus guardavam cuidadosamente a própria geneanologia – a linha dos seus ascendentes –, quer para saberem a que tribo pertenciam (cada filho de Jacob – Israel – à excepção de José, deu origem a uma –, quer porque Deus tinha prometido que o Messias havia de nascer do Povo de Deus, e era necessário manter uma atenção permanente nesta espera.

A linhagem era feita pelo nome dos homens, excepto quando algum tivesse filhos de várias mulheres. Tais foram os casos de Faré, de Zara; Salmon, de Raab; Booz, de Rute; e David, de Betsabé, mulher de Urias.

Na genealogia de Jesus de S. Mateus, José aparece para garantir legalmente que era descendente de David. Mas, de facto, a verdadeira ascendência vem-Lhe através de Maria.

S. Mateus usa uma forma engenhosa para nos insinuar a conceição virginal de Jesus por Maria: «José, Esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo». Na continuação, apresenta o testemunho do santo Patriarca sobre a virgindade perpétua de Nossa Senhora: Maria não concebeu o Filho pelo concurso de um homem, mas pelo poder do espírito Santo.

 

b) Maria muda o rumo  da história da humanidade. Houve, na História Sagrada, várias mulheres que mudaram o rumo dos acontecimentos. A primeira foi Eva (cf. Gen 3, 1  e ss). Introduziu no mundo o reino de Satanás, com todas as tristes consequências; Rebeca logrou que o direito de primogenitura recaísse em Jacob (Israel) e não sobre Esaú. Os dois eram gémeos, mas este tinha nascido em primeiro lugar. A mãe foi instrumento de Deus para que a Isaac sucedesse o de melhores sentimentos(cf. Gen 25, 16 e ss). Ester, com a oração e audácia, salva o Povo de Deus de morrer exterminado, durante o cativeiro de Babilónia (Estar, 4-6), Judite salva a cidade de Betúlia de ser exterminada por Holofernes, general de Nabucodonosor (cf. Judite 7-9).

Maria, a nova Eva, abre, com o seu fiat, as portas à entrada de Deus no mundo, para nos resgatar do pecado e encher de todas as bênçãos em Cristo. Pela sua intervenção, o Senhor ajudou radicalmente o rumo da história do mundo. «Em vez do fruto da árvore da morte, Ela apresenta aos homens o pão da vida; substitui aquele alimento amargo e envenenado pela doçura dum alimento eterno.» (S. Bernardo, Louvores da Virgem Maria, hom. II).

Há, pois, motivo para que todo o universo exulte de alegria com o seu nascimento: Ela é o clarão da madrugada que anuncia o Sol nascente que iluminará «os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos nos caminhos da paz.» (Lc  1, 79). 

 

c) Ela mudará o rumo da nossa vida. Maria congrega em si as duas vocações possíveis de um ser humano. Radicalmente, todos estão chamados a colaborar na obra de Deus sobre a terra, pela paternidade ou maternidade. Ambas contribuem para completar o mundo criado. Uns são chamados a vivê-la no caminho do matrimónio; outros, pelo da castidade virginal, por amor do Reino dos Céus. Maria reúne si – como privilégio único, as duas vocações possíveis: é sempre Virgem e Mãe.

Maria nasceu para ser a Mãe do Redentor e, portanto, para alcançar a felicidade de cada um de nós.

«Hoje a Liturgia recorda a Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria. Esta festa, muito sentida pela piedade popular, leva-nos a admirar em Maria Menina a aurora puríssima de Redenção. Contemplamos uma menina como todas as outras, e ao mesmo tempo única, a ‘bendita entre as mulheres’ (L–c 1, 42). Maria é a Imaculada ‘filha de Sião’, destinada a tornar-se a Mãe do Messias.» (João Paulo II, em 8-IX.2004).

Tem por vocação – por ser Mãe de Jesus – ser Mãe também de cada um de nós. É como a melhor das Mães que havemos de A contemplar, desde o instante do seu nascimento.

Ela vencerá o nosso Inimigo, também pela fidelidade ao Senhor de cada um de nós.

 

 

Oração Universal

 

Oremos, irmãos neste dia festivo, com toda a confiança,

apresentando ao Senhor, por Maria, as nossas preces.

Digamos com toda a confiança:

 

Pelo vosso nascimento, ó Maria,

rogai por nós ao Senhor.

 

1.  Por todos os pais de família que acolhem generosamente

cada um dos filhos que o Senhor confia aos seus cuidados,

para que sejam para eles uma fonte de alegria perene,

oremos, irmãos.

 

Pelo vosso nascimento, ó Maria,

rogai por nós ao Senhor.

 

2.  Por todas as pessoas que recebem a vocação à virgindade

por amor do Reino dos Céus, e ajuda aos mais carenciados,

para que encontrem nela a alegria de quem se dá ao Senhor,

oremos, irmãos.

 

Pelo vosso nascimento, ó Maria,

rogai por nós ao Senhor.

 

3.  Por todos casais que sofrem por causa da esterilidade,

e não recebem de Deus o suspirado dom dos filhos,

para que o Senhor os ajude a descobrir caminhos de entrega,

oremos, irmãos.

 

Pelo vosso nascimento, ó Maria,

rogai por nós ao Senhor.

 

4.  Por todas as crianças, especialmente as que vivem em perigo

e não encontram a ajuda e protecção de que necessitam,

para que Maria Menina seja o seu amparo de todas as horas,

oremos, irmãos.

 

Pelo vosso nascimento, ó Maria,

rogai por nós ao Senhor.

 

5.  Por todas as obras de protecção  às crianças e adolescentes

que procuram complementar ou substituir o amor da família,

para que o Senhor encha de bênção os que nelas trabalham,

oremos, irmãos.

 

Pelo vosso nascimento, ó Maria,

rogai por nós ao Senhor.

 

Senhor, que nos alegrais com a festa Natividade de Maria,

Vossa e nossa Mãe, e medianeira de todas as graças:

concedei-nos a graça de A honrarmos na vida presente,

para Vos contemplarmos na glória da Santíssima Trindade.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução à Liturgia Eucarística

 

Segundo os planos de Deus sobre a humanidade, Ele quis contar com Maria, para que vivêssemos a alegria desta hora.

Também pela generosidade da Sua e nossa Mãe se torna possível  a celebração desta Eucaristia, na qual receberemos o Corpo e Sangue de Jesus.

 

Saudação da Paz

 

Maria é a Mãe do Príncipe da Paz e quer que este dom reine em nossos corações e entre todas as pessoas.

Pedindo, por sua intercessão, esta graça,

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Cântico do ofertório: Ó Santíssima, M. Faria, NRMS 33-34

 

Oração sobre as oblatas: Venha, Senhor, em nosso auxílio o vosso Filho feito homem: Ele, que ao nascer da Virgem Maria, não diminuiu, antes consagrou a integridade de sua Mãe, nos purifique das nossas culpas e Vos torne agradável a nossa oblação. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio de Nossa Senhora I [na natividade : p. 486 [644-756] ou II, p. 4 7

 

Santo: F. dos Santos, NCT 84

 

Monição da Comunhão

 

Um poeta cantou, inspirado: «De ti nos veio, Maria, / Como a rosa da roseira, / Este Pão de cada dia / E na hora derradeira».

Peçamos a Nossa Senhora a sua ajuda materna para recebermos Jesus na Eucaristia com as devidas disposições.

 

Cântico da Comunhão: Como é suave Senhor, M. Luis, NRMS 36

Is 7, 14; Mt 1, 21

Antífona da comunhão: A Virgem dará à luz um Filho, que salvará o povo dos seus pecados.

 

Cântico de acção de graças: Exulta de alegria no Senhor, M. Carneiro, NRMS 21

 

Oração depois da comunhão: Exulte a vossa Igreja, Senhor, alimentada por estes santos mistérios, na festa do nascimento da Virgem Santa Maria que foi para o mundo inteiro esperança e aurora da salvação. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Com a generosidade na oração, no trabalho e no convívio fraterno, seguimos de perto a vida de Nossa Senhora.

Aproximemos de Deus os nossos irmãos, por uma verdadeira devoção a Maria Santíssima.

 

Cântico final: Avé Maria, farol do mar, Az. Oliveira, NRMS 73-74

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:    Fernando Silva

Nota Exegética:             Geraldo Morujão

Sugestão Musical:         Duarte Nuno Rocha

 


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