TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A IMPORTÂNCIA DO CELIBATO SACERDOTAL





Cardeal Cláudio Hummes

Prefeito da Congregação para o Clero



Temos o gosto de oferecer aos nossos leitores a primeira parte das reflexões do Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, por ocasião do XL aniversário da Encíclica «Sacerdotalis caelibatus» do Papa Paulo VI (24-VI-1967), publicadas em «L’Osservatore Romano», ed. port, 24-II-2007.

O texto foi tomado do site na Internet da mesma Congregação vaticana: www.vatican.va.



Aproximando-se o XL aniversário da publicação da Encíclica Sacerdotalis caelibatus, de Sua Santidade Paulo VI, a Congregação para o Clero considerou oportuno recordar o ensinamento magisterial deste importante documento pontifício.

Verdadeiramente, o celibato sacerdotal é um dom precioso de Cristo à sua Igreja, um dom sobre o qual é sempre necessário meditar e fortalecer de novo, sobretudo no mundo de hoje profundamente secularizado.

De facto, os estudiosos afirmam que as origens do celibato sacerdotal nos fazem remontar aos tempos apostólicos. Ignace de la Potterie escreve: «Há uma geral sintonia entre os estudiosos para dizer que a obrigação do celibato ou pelo menos da continência se tornou lei canónica desde o século IV [...]. Mas é importante observar que os legisladores do IV e V séculos afirmavam que esta disposição canónica se baseava numa tradição apostólica. Dizia por exemplo o Concílio de Cartago (em 390): 'Convém que aqueles que estão ao serviço dos mistérios divinos sejam perfeitamente continentes (continentes esse in omnibus) para que aquilo que os apóstolos ensinaram e a própria antiguidade manteve, o observemos nós também'» 1. No mesmo sentido, A. M. Stickler fala de argumentos bíblicos em favor do celibato de inspiração apostólica 2.





Evolução histórica



O Magistério solene da Igreja repete ininterruptamente as disposições sobre o celibato eclesiástico. O Sínodo de Elvira (300-303?) prescreve no cânon 27: «Um Bispo, como qualquer outro clérigo, não deve ter consigo senão uma irmã ou uma virgem consagrada; ficou estabelecido que não deve ter consigo de modo algum uma estranha»; e no cânon 33: «Decidiu-se em geral a seguinte proibição aos Bispos, aos presbíteros e aos diáconos, assim como a todos os clérigos que exercem um ministério: que se abstenham das suas esposas e não gerem filhos; quem o fizer deverá ser afastado do estado clerical» 3.

O Papa Cirício (384-399), na carta ao Bispo Imério de Tarragona, de 10 de Fevereiro de 385, afirma: «O Senhor Jesus [...] queria que da figura da Igreja, da qual ele é o Esposo, emane o esplendor da castidade. [...] em virtude da lei indissolúvel destas disposições, todos nós sacerdotes estamos ligados [...] para que, desde o dia da nossa ordenação, entreguemos quer os nossos corações quer os nossos corpos à sobriedade e à castidade, para agradar ao Senhor nosso Deus nos sacrifícios que oferecemos todos os dias» 4.

No I Concílio Ecuménico Lateranense de 1123, no cânon 3, lemos: «Proibimos do modo mais absoluto aos sacerdotes, aos diáconos e aos subdiáconos, viver com as suas concubinas ou esposas e habitar com mulheres diversas das que o Concílio de Niceia (325) permitiu que se viva» 5. Igualmente, na sessão XXIV do Concílio de Trento, no cânon 9, recorda-se a absoluta impossibilidade de contrair matrimónio aos clérigos constituídos nas ordens sagradas ou aos religiosos que fizeram voto solene de castidade; e com ela a nulidade do próprio matrimónio, juntamente com o dever de pedir a Deus o dom da castidade com intenção recta 6.

Em tempos mais recentes o Concílio ecuménico Vaticano II recordou na declaração Presbyterorum ordinis 7 o vínculo estreito entre celibato e Reino de Deus, vendo no primeiro um sinal que anuncia de modo radioso o segundo, um início de vida nova, a cujo serviço o ministro da Igreja é consagrado.

Com a Encíclica de 24 de Junho de 1967, Paulo VI manteve uma promessa feita aos Padres conciliares dois anos antes. Ele examina as objecções apresentadas em relação à disciplina do celibato e, ressaltando os seus fundamentos cristológicos e fazendo apelo à história e ao que os documentos dos primeiros séculos nos ensinam a propósito das origens do celibato-continência, confirma plenamente o seu valor.

O Sínodo dos Bispos de 1971, quer no documento pré-sinodal Ministerium presbyterorum (15 de Fevereiro), quer no documento final Ultimis temporibus (30 de Novembro), afirma a necessidade de conservar o celibato na Igreja latina, explicando o seu fundamento, a convergência dos seus motivos e as condições que o favorecem 8.

A nova codificação da Igreja latina de 1983 reafirma a tradição de sempre: «Os clérigos têm obrigação de guardar continência perfeita e perpétua pelo Reino dos céus, e portanto estão obrigados ao celibato, que é um dom peculiar de Deus, graças ao qual os ministros sagrados com o coração indiviso mais facilmente podem aderir a Cristo e mais livremente conseguem dedicar-se ao serviço de Deus e dos homens» 9.

Na mesma linha se move o Sínodo de 1990, do qual surgiu a exortação apostólica do Servo de Deus o Papa João Paulo II Pastores dabo vobis, na qual o Sumo Pontífice apresenta o celibato como uma exigência de radicalismo evangélico, que favorece de modo especial o estilo de vida esponsal e que brota da configuração do sacerdote com Jesus Cristo, através do Sacramento da Ordem 10.

O Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992 e que recolhe os primeiros frutos do grande acontecimento do Concílio ecuménico Vaticano II, repete a mesma doutrina: «Todos os ministros ordenados da Igreja Latina, à excepção dos diáconos permanentes, são normalmente escolhidos entre homens crentes que vivem celibatários e têm vontade de guardar o celibato 'por amor do Reino dos Céus'» 11.

No mesmo recentíssimo Sínodo sobre a Eucaristia, segundo a publicação provisória, oficiosa e não oficial das suas proposições finais, autorizada pelo Papa Bento XVI, na proposição n. 11, sobre a escassez de clero em algumas partes do mundo e sobre a «fome eucarística» do povo de Deus, reconhece-se «a importância do dom inestimável do celibato eclesiástico na prática da Igreja latina». Com referência ao Magistério, particularmente ao Concílio ecuménico Vaticano II e aos últimos Sumos Pontífices, os padres pediram que fossem ilustradas de modo adequado as razões da relação entre celibato e ordenação sacerdotal, no pleno respeito da tradição das Igrejas Orientais. Alguns fizeram referência à questão dos viri probati, mas esta hipótese foi considerada como um caminho que não se deve percorrer.

Recentemente, no passado dia 16 de Novembro, o Papa Bento XVI presidiu no Palácio Apostólico a uma das reuniões habituais dos Chefes de Discatérios da Cúria Romana. Nessa ocasião, foi reafirmado o valor da opção do celibato dos sacerdotes, segundo a ininterrupta tradição católica, e foi reafirmada a exigência de uma sólida formação humana e cristã, quer para os seminaristas quer para os sacerdotes já ordenados.





As razões do celibato sagrado



Na Encíclica Sacerdotalis caelibatus, Paulo VI apresenta em primeiro lugar a situação em que se encontrava naquele tempo a questão do celibato dos sacerdotes, quer do ponto de vista do seu apreço quer das objecções que lhe faziam. As suas primeiras palavras são determinantes e ainda actuais: «O celibato sagrado, que a Igreja guarda desde há séculos como uma jóia esplêndida, conserva todo o seu valor mesmo no nosso tempo, caracterizado por uma transformação profunda na mentalidade e nas estruturas» 12. Paulo VI revela o que ele mesmo meditou, interrogando-se sobre este assunto, para poder responder às objecções, e conclui: «Pensamos portanto que a lei do celibato actualmente em vigor deve, também nos nossos dias e com firmeza, estar ligada ao ministério eclesiástico; ela deve amparar o ministro da Igreja na sua opção exclusiva, definitiva e total do amor único e supremo de Cristo, da dedicação ao culto de Deus e ao serviço da Igreja, e ela deve caracterizar o seu estado de vida, tanto na comunidade dos fiéis como na sociedade profana» 13.

«Certamente», acrescenta o Papa, «conforme declarou o segundo Concílio Vaticano, a virgindade não é exigida pela própria natureza do sacerdócio, como o mostra a prática da Igreja primitiva e a tradição das Igrejas Orientais (Presb. ord., 16), mas o mesmo Sagrado Concílio não hesitou em confirmar solenemente a lei antiga, santa e providencial do celibato sacerdotal, tal como existe actualmente, expondo também os motivos que a justificam aos olhos de quem sabe apreciar os dons divinos com espírito de fé e com o fervor íntimo da generosidade» 14.

É verdade. O celibato é um dom que Cristo oferece a quantos são chamados ao sacerdócio. Este dom deve ser acolhido com amor, alegria e gratidão. Assim, será fonte de felicidade e de santidade.

As razões do celibato sagrado, apresentadas por Paulo VI, são três: o seu significado cristológico, o seu significado eclesiológico e o seu significado escatológico.

Comecemos pelo significado cristológico. Cristo é novidade. Ele realiza uma nova criação. O seu sacerdócio é novo. Ele renova todas as coisas. Jesus, o Filho unigénito do Pai, enviado ao mundo, «fez-se homem para que a humanidade sujeita ao pecado e à morte, fosse regenerada e, por meio dum novo nascimento, entrasse no Reino dos céus. Consagrando-se inteiramente à vontade do Pai, Jesus realizou, por meio do seu mistério pascal, esta nova criação, introduzindo no tempo e no mundo uma forma nova, sublime e divina de vida, que transforma a própria condição terrena da humanidade» 15.

O próprio matrimónio natural, abençoado por Deus desde a criação, mas ferido pelo pecado, foi renovado por Cristo, que «o elevou à dignidade de sacramento e de sinal misterioso da sua própria união com a Igreja [...]. Mas Cristo, Mediador de uma Aliança mais excelente (cf. Heb 8, 6), abriu um novo caminho em que a criatura humana, unindo-se total e directamente ao Senhor, exclusivamente preocupada com Ele e com as coisas que Lhe dizem respeito, manifesta de maneira mais clara e mais completa a realidade profundamente inovadora da Nova Aliança» 16.

Esta novidade, este novo caminho é a vida na virgindade, que o próprio Jesus viveu, em harmonia com a sua natureza de Mediador entre o céu e a terra, entre o Pai e o género humano. «Em plena harmonia com esta missão, Cristo manteve-se toda a vida no estado de virgindade, o que significa a sua dedicação total ao serviço de Deus e dos homens» 17. Serviço de Deus e dos homens significa amor total e sem reservas, que marcou a vida de Jesus entre nós. Virgindade por amor do Reino de Deus!

Agora, Cristo, chamando os seus sacerdotes a serem ministros da salvação, isto é, da nova criação, chama-os a ser e a viver em novidade de vida, unidos e semelhantes a Ele na forma mais perfeita possível. Disto deriva o dom do celibato sagrado, como configuração mais plena com o Senhor Jesus e profecia da nova criação. Ele chamou aos seus apóstolos «amigos». Chamou-os a segui-lo muito de perto, em tudo, até à Cruz. E a Cruz levá-los-á à ressurreição, à nova criação realizada. Por isso sabemos que segui-lo com fidelidade na virgindade, que inclui um sacrifício, nos conduzirá à felicidade. Deus não chama ninguém à infelicidade, mas à felicidade. A felicidade, contudo, anda sempre a par com a fidelidade. Foi o que disse o saudoso Papa João Paulo II aos esposos reunidos com ele no II Encontro Mundial das Famílias, no Rio de Janeiro.

Assim emerge o tema do significado escatológico do celibato, enquanto sinal e profecia da nova criação, isto é, do Reino definitivo de Deus na Parusia, quando todos nós ressuscitarmos da morte.

«Deste Reino, a Igreja constitui na terra o germe e o início», como nos ensina o Concílio Vaticano II 18. Nestes 'últimos tempos', a virgindade, vivida por amor do Reino de Deus, constitui um sinal particular, porque o Senhor anunciou que «com a ressurreição, [...] não se tem nem esposa nem marido, mas são como anjos de Deus no céu» 19.

Num mundo como o nosso, mundo do espectáculo e dos prazeres fáceis, profundamente fascinado pelas coisas terrenas, em especial pelo progresso das ciências e das tecnologias – recordemos as ciências biológicas e as biotecnologias –, o anúncio de um além, isto é, de um mundo futuro, de uma parusia, como acontecimento definitivo de uma nova criação, é determinante e ao mesmo tempo liberta da ambiguidade das aporias, das vozearias, dos sofrimentos e das contradições, em proveito dos verdadeiros bens e aos novos e profundos conhecimentos que o progresso humano actual traz consigo.

Finalmente, o significado eclesiológico do celibato conduz-nos mais directamente à actividade pastoral do sacerdote.

Afirma a Encíclica: «A virgindade consagrada dos ministros sagrados manifesta, com efeito, o amor virginal de Cristo pela Igreja e a fecundidade virginal e sobrenatural desta união» 20. Semelhante a Cristo e em Cristo, o sacerdote desposa misticamente a Igreja, ama a Igreja com um amor exclusivo. Assim, dedicando-se totalmente às coisas de Cristo e do seu Corpo Místico, o sacerdote goza de uma ampla liberdade espiritual para estar ao serviço amoroso e total de todos os homens, sem distinção.

«Assim acontece com o sacerdote: morrendo cada dia a si mesmo, renunciando ao amor legítimo de uma família própria por amor do Senhor e do seu Reino, encontrará a glória de uma vida plena e fecunda em Cristo, porque, como Ele e n'Ele, ama todos os filhos de Deus e entrega-se a eles» 21.

A Encíclica acrescenta também que o celibato faça crescer a capacidade do sacerdote para escutar a Palavra de Deus e para orar, assim como lhe permite colocar no altar toda a sua vida, marcada pelos sinais do sacrifício 22.



(continua)























1Cf. I. de la Potterie, Il fondamento biblico del celibato sacerdotale, in Solo per amore. Riflessioni sul celibato sacerdotale, Cinisello Balsamo, 1993, pp. 14-15.

2Cf. A.M. Stickler, in Ch. Cochini, Origines apostoliques du Célibat sacerdotal, Préface, p. 6.

3Cf. H. Denzinger, Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum, ed. P. Hünermann., Bolonha, 1995, nn. 118-119, p. 61.

4Id., op. cit., n. 185, p. 103.

5Id., op. cit., n. 711, p. 405.

6Id., op. cit., n. 1809, p. 739.

7Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 16.

8Enchiridion do Sínodo dos Bispos, 1.1965-1988, ed. Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, Bolonha, 2005, nn. 755-855; 1068-1114, sobretudo nn. 1100-1105.

9Codex Iuris canonici, cân. 277, 1.

10João Paulo II, Exort. Apost. Pastores dabo vobis, 25 de Março de 1992, n. 44.



11Catecismo da Igreja Católica, n. 1579.

12Paulo VI, Carta Enc. Sacerdotalis caelibatus, n. 1.

13Ibid., n. 14.

14Ibid., n. 17.

15Ibid., n. 19.

16Ibid., n. 20.

17Ibid., n. 21.

18Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Lumen gentium, n. 5.

19Ibid.

20Paulo VI, Carta Enc. Sacerdotalis caelibatus, n. 26.

21Ibid., n. 30.

22Cf. ibid., nn. 27-29.


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