TEMAS LITÚRGICOS

 

EUCARISTIA, CORAÇÃO DO DOMINGO

 

 

Cardeal Francis Arinze

 

 

 Oferecemos aos leitores um comentário à Exortação Apostólica de Bento XVI «Sacramentum caritatis», da autoria do Cardeal Francis Arinze, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicado em «L’Osservatore Romano», ed. port., 26-V-2007).

 

 

Na rica e substanciosa Exortação pós-sinodal Sacramentum caritatis, centramos a nossa atenção especificamente sobre uma das suas pérolas mais preciosas: o papel-chave da Celebração Eucarística dominical. Em lugar de nos lamentarmos sobre a participação cada vez menor de algumas comunidades católicas na Missa dominical, reflictamos sobre o ensinamento de Bento XVI contido neste documento, que oferece um forte encorajamento ao povo sobre a importância e a impossibilidade de substituir a Missa no Dia do Senhor. Esta reflexão pretende mostrar como, sem a Missa do domingo, o cristão não é capaz de responder concretamente à própria vocação.

1. Um culto novo. Um novo modo de viver

A Celebração Eucarística é a fonte e o ápice da vida da Igreja, enquanto exprime ao mesmo tempo a origem e o cumprimento do novo e definitivo culto prestado a Deus. São Paulo exorta os Romanos a oferecer o próprio corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como culto espiritual (cf. Rom 12, 1). A Eucaristia transforma toda a nossa existência num culto espiritual agradável a Deus. Este novo culto, a Eucaristia, ou seja o sacrifício de Cristo, é também o sacrifício da Igreja e, portanto, de todos os fiéis.

O culto novo do cristianismo inclui e transfigura cada aspecto da vida: «Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus» (1 Cor 10, 31). O culto agradável a Deus torna-se um modo novo de viver toda a nossa vida como oferta a Deus, com Cristo, por Cristo e em Cristo.

2. Centralidade da Missa dominical

Santo Inácio de Antioquia vê os cristãos como comunidade que se reúne no primeiro dia depois do sábado para celebrar a ressurreição de Cristo, que vive «segundo o domingo». A Eucaristia dominical descreve a forma da vida renovada a partir do encontro com Cristo: «O domingo é o dia em que – diz o Santo Padre – o cristão reencontra a forma eucarística própria da sua existência, segundo a qual é chamado a viver constantemente» (n. 72).

Neste ponto é oportuno evocar a elevada consideração que o Concilio Vaticano II expressou para o sacrifício eucarístico, definindo este tesouro «fonte e ápice de toda a vida cristã» (Lumen gentium, 11). A Igreja não possui tesouro maior: «na Sagrada Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo» (Presbyterorum Ordinis, 5). A única coisa que a Igreja possui de grande como a Missa é outra Missa! E a celebração da Missa é o Coração do Dia do Senhor. O domingo sem a Missa é um domingo sem o seu maior e mais importante evento.

É de crucial importância que todos os membros da Igreja apreciem cada vez mais o tesouro que Cristo colocou nas mãos da sua esposa, a Igreja, dando-lhe este extraordinário sacrifício e sacramento. Diz ainda o Concilio Vaticano II: «Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de uma fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam como a seu fim todas as outras obras da Igreja» (Sacrosanctum Concilium, 10).

Quanto mais as pessoas estiverem convencidas deste tesouro, tanto mais sentirão a necessidade da Missa dominical, antes mesmo de ver tal participação como um preceito do Direito Canónico (cf. Dies Domini, 47). Por isso, a inteira vida cristã torna-se «Eucaristia», uma expressão da «novidade radical introduzida por Cristo» (n. 72).

3. Quando se dá pouca importância à Missa dominical

O Sínodo dos Bispos de 2005 «reafirmou a importância que tem, para todos os fiéis, o preceito dominical como fonte de liberdade autêntica, a fim de poderem viver cada um dos outros dias segundo o que celebraram no 'no dia do Senhor'» (n. 73).

O que acontece quando um católico perde a vontade de partilhar com os outros a Missa dominical, quando já não encontra o motivo pelo qual a sua participação na Celebração Eucarística é de muita importância para o seu ser cristão? Acontece que a sua vida de fé se revela prejudicada. A pessoa não dá suficiente importância ao facto de que o Domingo é comemoração da vitória pascal, que a participação na Missa dominical é exigência da nossa consciência de cristãos e que, ao mesmo tempo, ela forma esta consciência. A pessoa perde o sentido autêntico da liberdade cristã, da liberdade dos filhos de Deus.

Além disso, a pessoa esquece as quatro dimensões da celebração cristã do Dia do Senhor, como foi explicada pelo Servo de Deus Papa João Paulo II, isto é: Dia do Senhor que é Criador, Dia de Cristo e da nova criação, Dia da Igreja que se reúne em adoração e louvor de Deus, e Dia do homem, ao qual Deus oferece alegria e consolação, chamando-o para a caridade fraterna (cf. Dies Domini). Deus é o nosso criador. Nós somos suas criaturas. Somos também comunidade remida por Cristo. Por conseguinte, reunimo-nos ao Domingo para adorar e louvar a Deus, para lhe dar graças, pedir perdão e invocá-lo pelas nossas carências espirituais e materiais. A Missa dominical é tudo isso. Porventura uma criança precisa de ser comandada pelos pais para entender a necessidade de sentar-se à mesa com a sua família e conversar? Se uma criança tem necessidade disso, há algum problema. Assim também o católico que não dá importância à Celebração Eucarística dominical.

4. Os desafios para a Eucaristia dominical

Uma reflexão sobre a Sacramentum caritatis leva-nos a enumerar alguns desafios para a Eucaristia dominical.

Antes de mais, há a crescente mentalidade que considera o domingo como parte do fim de semana. Além disso, o fim de semana está concebido como um período de dois dias durante o qual se suspende a habitual actividade de trabalho e se arranja o modo de se dedicar a outros compromissos para os quais não há tempo durante a semana, por exemplo, encontros de sociedade, actividade política, desportiva e recreativa ou compras.

Estas ou semelhantes actividades são boas em si mesmas. Têm valores positivos e podem tornar-se parte de uma observância do Dia do Senhor correctamente ordenada. «Infelizmente, quando o domingo perde o significado original e se reduz a puro 'fim-de-semana', pode acontecer que o homem permaneça cerrado num horizonte tão restrito, que já não lhe permite ver o 'céu'. Então, mesmo bem vestido, torna-se incapaz de 'festejar'» (Dies Domini, 4).

A razão fundamental subordinada a estes aspectos falsos é o erro de não ver o Domingo antes de mais como um dia reservado ao Senhor. O vírus da secularização infecta muitas sociedades modernas, levando as pessoas a viver como se Deus não existisse, como se o homem fosse o centro ao redor do qual as outras realidades devem rodar. O Cristianismo não pode aceitar este erro. Deus é o nosso criador. Nós devemos-Lhe adoração, louvor e acção de graças. A Missa dominical tem prioridade sobre tudo o que pensamos fazer no Dia do Senhor.

Além disso, há uma evolução negativa muito presente em alguns países cristãos, nos quais as lojas de bens que não são de primeira necessidade permanecem abertas ao domingo. A dimensão do repouso dominical ajuda o homem a dar também maior atenção a Deus, às leituras edificantes e à educação da fé.

5. Resposta aos desafios

A Sacramentum caritatis exorta a organizar o domingo ao redor da Missa com actividades como reuniões, projectos de formação cristã, peregrinações, obras de caridade e diversos momentos de oração (n. 73).

Onde não for possível haver Missa devido ao escasso número de sacerdotes, o fiel que possua meios de transporte poderia ser convidado a acompanhar os outros a comunidades onde a Missa é celebrada. Se as pessoas podem ir de carro vinte quilómetros para assistir a um desafio de futebol ou fazer compras, por que não poderiam até duplicar tal distância pela Santa Missa?

Os sacerdotes e os catequistas devem insistir a fim de suscitar no povo uma forte convicção para a importância da Eucaristia dominical. O Papa Bento XVI, no XXIV Congresso Eucarístico Nacional em Bari (Itália) a 29 de Maio de 2005, disse: «Por conseguinte, o preceito festivo não é um dever imposto do exterior, um peso sobre os nossos ombros. Pelo contrário, participar na Celebração dominical, alimentar-se do Pão eucarístico e experimentar a comunhão dos irmãos e irmãs em Cristo é uma necessidade para o cristão, é uma alegria, e assim podemos encontrar a energia necessária para o caminho que devemos percorrer todas as semanas» (L'Osservatore Romano, ed. port., de 4-VI-2005).

A Sacramentum caritatis ajuda-nos muitíssimo a crescer na nossa fé eucarística, a celebrar a Eucaristia e a vivê-la, considerando assim cada vez mais que ela constitui o coração do Domingo.

 

 

 


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