DIREITO E PASTORAL

EUCARISTIA E MATRIMÓNIO

 

 

 

Cardeal Angelo Scola

 

 

Na sua Exortação Apostólica pós-sinodal «Sacramentum Caritatis», Bento XVI dedica um capítulo (nn. 27-29) à relação entre a Eucaristia e o Matrimónio, dando resposta às propostas do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia (Vaticano, 2 a 23 de Outubro de 2005), no seguimento do seu discurso à Rota Romana em 28-I-06 (cf. Celebração Litúrgica, 2005/06, 4, pp. 874-879).

Oferecemos aos leitores o comentário que sobre esse capítulo fez o Cardeal Ângelo Scola, Patriarca de Veneza e Relator-Geral do Sínodo, na conferência para a apresentação da Exortação, na manhã de 13 de Março passado.

 

De modo específico a Exortação Apostólica faz suas e aprofunda as reflexões sinodais relativas à relação entre a divina Eucaristia e o estado matrimonial. Bento XVI recorda que a Eucaristia, sacramento esponsal por excelência, «corrobora de forma inexaurível a unidade e o amor indissolúveis de cada matrimónio cristão. Neste, em virtude do sacramento, o vínculo conjugal está intrinsecamente ligado com a união eucarística entre Cristo esposo e a Igreja esposa» (n. 27). Compreende-se o grande encorajamento e a proximidade da Igreja a todas as famílias fundadas no sacramento do matrimónio, protagonistas da educação cristã dos filhos (cf. n. 9), assim como a solicitude que as comunidades cristãs devem prodigalizar para uma cuidadosa formação dos nubentes (cf. n. 29).

A partir do carácter nupcial da Eucaristia, Bento XVI relê o tema da unicidade do matrimónio cristão, fazendo referência à questão da poligamia (cf. n. 28), e à da indissolubilidade do vínculo conjugal (cf. n. 29). O texto contém importantes sugestões pastorais em relação àqueles baptizados que se encontram na dolorosa situação de ter celebrado o sacramento do matrimónio e de ter depois divorciado e contraído novas núpcias. A Exortação depois de recordar que eles, «não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude» (n. 29), enumera novas modalidades de participação na vida de comunidade destes fiéis que, mesmo sem receber a Comunhão, podem adoptar um estilo de vida cristão. Além disso, o Santo Padre reafirma a necessidade, quando surgem dúvidas legítimas, de verificar em tempos razoáveis a eventual nulidade matrimonial, mediante cuidadosas investigações dos tribunais eclesiásticos que devem ser realizadas com espírito autenticamente pastoral e, portanto, cheio de amor pela verdade. Por fim Bento XVI completa também as sugestões dos Padres sinodais sobre a situação dos que, tendo celebrado validamente o matrimónio, devido a condições objectivas se encontram sem poder desfazer os novos vínculos contraídos, propondo-lhes que se comprometam, com adequado apoio pastoral, «por viver a sua relação segundo as exigências da lei de Deus, como amigos, como irmão e irmã» (n. 29), isto é, transformando a sua união em amizade fraterna. Para além de fáceis preconceitos, esta sugestão configura uma proposta corajosa e realista. A experiência pastoral indica esta via como apropriada para retomar o próprio caminho de fé e o acesso aos sacramentos «com os cuidados previstos por uma comprovada prática eclesial» (n. 29). Estes fiéis poderão reordenar gradualmente no tempo os afectos segundo a perspectiva autêntica do amor, significado pelo sacramento do altar.

 

 

 

 

 


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