TEMAS LITÚRGICOS

EUCARISTIA, MISTÉRIO CELEBRADO

 

 

Cardeal Angelo Scola

 

Oferecemos aos leitores um excerto da conferência do Cardeal Ângelo Scola, Patriarca de Veneza e Relator-Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia (realizado no Vaticano, de 2 a 23 de Outubro de 2005), na apresentação da Exortação Apostólica pós-sinodal de Bento XVI «Sacramentum Caritatis», na manhã de 13 de Março passado.

 

A Segunda Parte da Exortação (cf. nn. 34-69) ilustra o desenvolvimento da acção litúrgica na celebração indicando os elementos que merecem maior aprofundamento e oferecendo algumas sugestões pastorais de grande realce.

A bondade da renovação litúrgica

O ensinamento contido nesta segunda parte põe em evidência a bondade da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II. Algumas dificuldades e abusos «não podem ofuscar a excelência e a validade da referida renovação litúrgica, que contém riquezas ainda não plenamente exploradas» (n. 3).

Ir às fontes do rito eucarístico

Fiel ao princípio sobre o qual se funda todo o ensinamento proposto, a Exortação abre esta segunda parte reconhecendo que «a fonte da nossa fé e da liturgia eucarística é o próprio acontecimento: a doação que Cristo fez de Si próprio no mistério pascal» (n. 34). Eis por que é necessário reconhecer com vigor que «a liturgia eucarística é essencialmente acção de Deus (actio Dei) que nos envolve em Jesus por meio do Espírito» e que, precisamente desta forma, «a Igreja celebra o sacrifício eucarístico obedecendo ao mandato de Cristo, a partir da experiência do Ressuscitado e da efusão do Espírito Santo» (n. 37). Assim, o acontecimento pascal na acção eucarística coincide com o próprio rito entendido como raiz do culto espiritual que imprime à existência do cristão uma forma eucarística.

Daí provêm duas considerações de carácter ao mesmo tempo doutrinal e litúrgico que constituem um original contributo da Exortação.

A beleza litúrgica

Em primeiro lugar o ênfase da «beleza intrínseca da liturgia» (n. 36) que «não é mero esteticismo, mas como modalidade com que a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor» (n. 35). Sobre este princípio encontram fundamento as indicações do Papa em relação à riqueza dos sinais litúrgicos (silêncio, paramentos, gestos: estar em pé, de joelhos... cf. n. 40), à arte colocada ao serviço da celebração (cf. n. 41) – em relação a isto pode-se recordar também quanto é dito a propósito da colocação do tabernáculo nas Igrejas (cf. n. 69) – e ao canto litúrgico. Todos estes elementos são fundamentais para o desenvolvimento daquela catequese mistagógica que a Exortação, no seguimento de quanto foi afirmado pelos Padres sinodais, propôs como caminho «que leve os fiéis a penetrarem cada vez mais nos mistérios que são celebrados» (n. 64).

A relação ars celebrandiactuosa participatio: indicações práticas

A segunda consideração que constitui um notável contributo para o aprofundamento doutrinal-litúrgico da Eucaristia, refere-se à chamada ars celebrandi e à sua relação intrínseca com a actuosa participatio. Já nos detivemos sobre este tema tratado em particular no n. 38 da Sacramentum Caritatis. Pretendemos agora ressaltar algumas indicações da Exortação destinadas a favorecer esta participatio.

O Santo Padre afirma que «a participação activa desejada pelo Concílio deve ser entendida em termos mais substanciais, a partir de uma maior consciência do mistério que é celebrado e da sua relação com a vida quotidiana» (n. 52). Como se vê, a referência é de novo à unidade existente entre Mistério eucarístico, acção litúrgica e novo culto espiritual. A unidade dos três factores é evidente quando o Santo Padre descreve as condições pessoais para uma actuosa participatio (cf. n. 55).

Além disso, a participação activa será favorecida por uma inculturação ordenada, que deve ser realizada «segundo as necessidades reais da Igreja, a qual vive e celebra o mesmo mistério de Cristo em situações culturais diferentes» (n. 54). As Conferências Episcopais, de acordo com a Santa Sé, terão a preocupação desta tarefa decisiva.

Sempre para favorecer uma participação activa mais adequada, a Exortação detém-se sobre alguns aspectos pastorais particulares – o uso dos meios de comunicação (cf. n. 57); a atenção aos enfermos e aos deficientes (cf. n. 58), aos encarcerados (cf. n. 59) e aos migrantes (cf. n. 60); as grandes concelebrações (cf. n. 61) e as liturgias eucarísticas em pequenos grupos (cf. n. 63) – e propõe um recurso mais normal à língua latina, sobretudo nas grandes celebrações internacionais, sem descuidar a importância do canto gregoriano (cf. n. 62). Além disso, não faltam indicações claras em relação à participação nas celebrações eucarísticas por parte dos cristãos não católicos (cf. n. 56) e também de pessoas pertencentes a outras religiões ou não crentes (cf. n. 50).

Sobre quanto esta actuosa participatio se exprima sobretudo na adoração (cf. nn. 66-69), e sobre como «a ars celebrandi deve favorecer o sentido do sagrado e a utilização das formas exteriores que educam para tal sentido» (n. 40, já tivemos a ocasião de falar.

A estrutura da Celebração eucarística

A Segunda Parte da Exortação deseja oferecer também uma contribuição em relação à estrutura da celebração eucarística (cf. nn. 43-51). Sobressai mais uma vez a importante coincidência entre acção litúrgica e rito. Só uma adequada prática ritual exprime aquela ars celebrandi que torna possível a actuosa participatio. Antes de mais o Papa recorda a «unidade intrínseca do rito da santa Missa» (n. 44), que se deve exprimir também no modo como a liturgia da Palavra é preparada. De facto, «a palavra que anunciamos e ouvimos é o Verbo feito carne (cf. Jo 1, 14) e possui uma referência intrínseca à pessoa de Cristo e à modalidade sacramental da sua permanência» (n. 45). Também a homilia deve contribuir para mostrar a estreita relação da Palavra de Deus «com a celebração sacramental e com a vida da comunidade» (n. 46). Além disso, Bento XVI recorda o notável valor educativo para a vida da Igreja, sobretudo no actual momento histórico, da apresentação dos dons (cf. n. 47), da saudação da paz (cf. n. 49) e do Ite missa est (cf. n. 51). O Santo Padre confia o estudo de possíveis modificações destes dois últimos pontos às Congregações competentes. Por fim, Bento XVI ensina que «a espiritualidade eucarística e a reflexão teológica são iluminadas se se contempla a profunda unidade que existe, na anáfora, entre a invocação do Espírito Santo e a narração da instituição» (n. 48).

 

 


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