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Amor  À  Eucaristia

 

Hugo de Azevedo

 

«Por intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, o Espírito Santo acenda em nós o mesmo ardor que experimentaram os discípulos de Emaús...» Com esse desejo termina o Santo Padre a Exortação Apostólica «Sacramento da Caridade».

A que ardor se refere? Não certamente a um fenómeno místico extraordinário, experimentado por muitos santos, e que talvez tenha acontecido também àqueles discípulos. Tanto mais que esses fenómenos são passageiros, e o Papa nos exorta a uma ardorosa devoção contínua, diária, persistente, ou «sustentável», como se usa hoje dizer em termos económicos.

A própria comoção, que muitas vezes nos enche a alma ao contemplarmos a «loucura de amor» da Sagrada Eucaristia, não consegue durar mais do que qualquer outra profunda comoção. Quer isto dizer que não conseguimos amar devidamente Nosso Senhor Sacramentado? De modo algum. Só que não havemos de confundir amor com determinado ou determinados sentimentos. Os sentimentos são afecções próprias do homem, composto de corpo e alma, em tal união que não há pensamento ou desejo em nós que não se converta em «paixão», que não afecte o corpo de alguma maneira. Não somos puros espíritos, como Deus, como os Anjos – como Ele, que é o Amor infinito; como eles, que são fornalhas, incêndios, astros de amor.

O amor sentimental é exclusivo do homem. Mas não é «um» sentimento; podem ser todos. Lope de Vega tem um belo soneto muito expressivo nesse sentido, em que mostra como o amor tanto dá origem à exultação como à melancolia; à audácia como à timidez; à ternura como à fúria; à humildade como à altivez; à voluntária cegueira como ao ciúme... Faltou-lhe dizer que o amor, no aspecto sentimental, as mais das vezes, é simplesmente um hábito adquirido, rotineiro, pouco emocional. Porque o que melhor define o amor é a «inseparabilidade». Pode o marido não ter conversa com a mulher, mas o que não pode dispensar é a sua companhia; talvez o filho rabuje constantemente com a mãe, mas afligia-se só de pensar que a perdia; dois amigos passam o tempo a discutir, mas que graça tinha o dia sem essas bravas discussões?...

É isso mesmo o que Lhe pedimos antes da sagrada Comunhão: «Conservai-me sempre fiel aos Vossos mandamentos, e não permitais que eu me separe de Vós!» Este é o «ardor» que Nosso Senhor, pela voz do Santo Padre, nos deseja. «Aparta, Senhor, de mim o que me aparte de Ti!», como exclamava Santa Teresa. Não só o pecado; mas o esquecimento da Tua presença em mim, em todos e em tudo!

E, para isso, como para qualquer convivência amorosa, familiar, ou de amizade, está o programa ou plano de vida: a oração ao levantar e ao deitar, a Santa Missa e a visita ao Santíssimo, o «Angelus», o Terço, a «leitura divina», a meditação, as jaculatórias...

«Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário... é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta amor» («Caminho», 77). É esse plano de vida que nos permite amar «com ardor» Nosso Senhor, presente no Sacrário, quando nos falta o ardor sentimental - que é a maior parte do tempo. Tal como os hábitos familiares e os horários de trabalho nos permitem amar a família e render na profissão sem necessidade de emotivos e esgotantes entusiasmos. O amor manifestar-se-á por toda a espécie de sentimentos, mas é algo diferente e muito superior a todos eles.

 

 

 

 

 

 


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