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fÁTIMA,  A  RESPOSTA  DE  mARIA

 

Hugo de Azevedo

 

No seu excelente livro «Pastorinhos de Fátima», o Cón. Fernando Silva regista oportunamente o que, à distância dos anos, terá sido bastante esquecido: o recurso do povo português, angustiado mas confiante, à nossa Mãe do Céu, em 1916, contra a feroz perseguição à Igreja na primeira República. Como sucinta e belamente escreveu Costa Brochado, «graças à acção da Cruzada do Rosário, o mês de Maio de 1916 converteu-se, de norte ao sul do País, numa prece diária à Padroeira de Portugal, rogando-lhe a paz e a alegria de viver».

Que bem dito está! A alegria de viver! Como pode viver com alegria um povo cristão quando Nosso Senhor é tão maltratado publicamente como era em Portugal nessa altura, com o apoio do próprio Governo, e como desgraçadamente continua sendo-o de muitos modos?

«De todo o Portugal erguia-se um coro suplicante à Mãe de Deus, rezando o Terço em sua honra. A resposta do Céu não se fez esperar», acrescenta Fernando Silva. O próprio Anjo de Portugal desceu à Terra para preparar os três pastorinhos para uma vida de oração e penitência, «em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido», especialmente na Sagrada Eucaristia. – «Tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes, e consolai o vosso Deus».

Mas, se a resposta do Céu não se fez esperar, o ódio do Inimigo também redobrou de fúria. É impressionante a lista interminável de assaltos a Sacrários, a partir de Janeiro de 1917, que o autor reproduz! Citando ainda Costa Brochado, «para se fazer uma ideia do que foi, em todo o país, esta infâmia dos assaltos às igrejas (...), basta dizer que, na própria capital, sob os olhos da Polícia e do Governo da Nação, foram assaltadas e profanadas, desde 1910 até 1917, as seguintes capelas e igrejas: (...)» Segue-se um rol de 15 capelas, 25 igrejas e 2 ermidas. E conclui: «Quarenta e dois templos profanados só na capital do país!»

Não interessa recordar ódios passados para exacerbar amarguras presentes, mas para sacar lições de esperança: tudo tem remédio, se recorremos ao Céu. Os maiores atropelos legais e sociais, esta «cultura de morte» que se estende e nos dizima, esta obnubilação dos valores mais sagrados, esta espécie de rebelião colectiva contra Deus, tudo isto cairá como a muralha de Jericó ou o muro de Berlim. Embora a uns muros sucedam outros, é certo... Mas todos passam. Deus nunca se desilude do homem. Volta sempre a confiar.

Talvez sejamos nós a perder a esperança em nós mesmos, deixando-nos abater pelos aspectos negativos da vida pessoal e social: – «Como está o mundo! Aonde chegaremos?...»

Se é verdade que, se hoje se pretende viver «como se Deus não existisse», também é uma grande verdade que os mais assumidos ateus e agnósticos só conseguem viver... «como se Deus existisse». Pois quem consegue viver sem valores? E que valores há sem Deus? Justiça, dignidade, honradez, solidariedade, heroicidade, igualdade, etc., etc., etc., como se justificariam sem Deus, sem padrão supremo do bem e do mal, sem base transcendente, sem lei divina? Sem Ele, não há base possível para o amor nem para a indignação, para o trabalho nem para a festa... – para nada. A vida seria um absurdo, um caos, uma irracionalidade absoluta. Mas quem pode viver assim? Pode viver-se com fraquezas, mas não de contradições. No fundo de cada alma, a verdade é luz que não se apaga – nem se consegue ocultar. Quem não vive de fé em Deus, vive da fé dos outros em Deus. Vive de empréstimo racional e moral.

A paciência divina é fruto do seu infinito amor e do perfeitíssimo conhecimento que tem de nós. E Maria, nossa Mãe, a expressão mais doce desse amor e da confiança que continua a depositar em nós, apesar da nossa miséria, nunca deixa de nos responder.

 

 


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