2.º Domingo da Quaresma

7 de Março de 2004



RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS 69

Salmo 26, 8-9

Antífona de entrada: Diz-me o coração: «Procurai a face do Senhor». A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto.


Ou

cf. Salmo 24, 6.3.22

Lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Não triunfe sobre nós o inimigo. Senhor, livrai-nos de todo o mal.


Não se diz o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


A Quaresma é um retiro aberto que a Igreja proporciona aos fiéis para reflectirem mais profundamente no mistério de Deus e nos apelos que Ele faz no interior de cada uma das nossas vidas. Parece-nos indispensável, nos tempos que correm, parar, ouvir, decidir caminhos até porque, no decurso da nossa vida diária, não temos «assento», disponibilidade para o fazer.

Assim sendo, a Quaresma torna-se tempo de enriquecimento: alimento a minha fé, faço progressos na caridade, domino-me mais, rezo melhor, colaboro na vida paroquial.


Oração colecta: Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: Abraão aparece-nos aqui como modelo de fé. O seu diálogo com Deus culmina na celebração da aliança. A fidelidade de Abraão ajudar-nos-á a viver a nossa aliança baptismal.


Génesis 15, 5-12.17-18

Naqueles dias, 5Deus levou Abraão para fora de casa e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar». E acrescentou: «Assim será a tua descendência». 6Abraão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído em conta de justiça. 7Disse-lhe Deus: «Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur dos caldeus, para te dar a posse desta terra». 8Abraão perguntou: «Senhor, meu Deus, como saberei que a vou possuir?» 9O Senhor respondeu-lhe: «Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho». 10Abraão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente da outra metade; mas não cortou as aves. 11Os abutres desceram sobre os cadáveres, mas Abraão pô-los em fuga. 12Ao pôr do sol, apoderou-se de Abraão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. 17Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, um brasido fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais cortados. 18Nesse dia, o Senhor estabeleceu com Abraão uma aliança, dizendo: «Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao grande rio Eufrates».


Num texto dotado de grande beleza, deixa-se-nos ver como é que a promessa divina de dar em posse a terra de Canaã à descendência da Abraão (Gn 12, 7) se haverá de cumprir, apesar de não ter filhos da sua esposa Sara (v. 3); aqui esta promessa aparece rubricada com um tradicional rito de aliança.

6 «Abrão acreditou». «A fé de Abraão é crer numa promessa humanamente irrealizável. Deus reconheceu-lhe o mérito deste acto (cf. Dt 24, 13; Salm 105, 31), o que lhe foi atribuído em conta de justiça, já que o é o homem a quem a sua rectidão e a sua submissão tornam agradável a Deus. S. Paulo utiliza este texto para provar que a justificação depende da fé e não das obras da Lei; mas a fé de Abraão determina a sua conduta, é princípio de acção, e S. Tiago pode invocar o mesmo texto para condenar a fé ‘morta’, sem as obras da fé» (Bíblia de Jerusalém); cf. Rom 4, 9-12 e Tg 2, 21-23. A fé de Abraão é posta em evidência não apenas aqui, mas também ao obedecer para deixar a sua terra (Gn 12, 4) e para sacrificar o seu filho Isaac (Gn 22, 1-4).

8-10 «Como saberei que a vou possuir?» O relato alcança uma extraordinária beleza e dramatismo. Com efeito, Abraão, apesar de não ter dúvidas (como se disse para a promessa da descendência: v. 6), pede um sinal a Deus. E Deus não se limita a dar-lhe um sinal, mas condescende até ao ponto de mandar dispor as coisas para a celebração de um rito de aliança segundo os costumes da época: manda-lhe esquartejar uma vitela, uma cabra e um carneiro. Então havia o costume de selar alianças com este rito, para nós estranho, mas muito significativo: aqueles que faziam um contrato passavam entre as metades a sangrar de animais esquartejados invocando sobre si a mesma sorte daqueles animais sacrificados, caso viessem a falhar ao contrato ou aliança (cf. Jer 34, 18-19).

11-12 «Os abutres desceram... Um sono profundo... um grande e escuro terror». Mais uma vez o relato apresenta Deus a pôr à prova Abraão, e precisamente na mesma ocasião em que lhe dava um sinal; com efeito, apesar de Abraão ter tudo preparado, Deus atrasa a sua manifestação (vv. 17-18); mas Abraão não desiste de esperar, enquanto ia afugentando as aves de rapina, até que o dia chega ao fim, o momento em que o Patriarca se sente exausto e sobretudo angustiado interiormente, a ponto de se interrogar: Não teria sido tudo isto uma ilusão? Matar todos aqueles animais não tinha sido uma loucura? Cai a noite – também os místicos falam da «noite escura» –, mas Abraão não arreda pé, porque está certo de que Deus não pode falhar.

17 «Um brasido fumegante e um archote de fogo». Eis senão quando Deus se manifesta nestes dois símbolos que «passaram por entre os animais cortados»: assim Deus é apresentado a dizer-lhe veladamente, mas com a suficiente clareza para um homem de fé, que Ele mantinha firme a sua palavra, que a promessa não deixaria de vir a realizar-se! Note-se que este rito de aliança não é bilateral (como o do Sinai, em Ex 24, 6-8): para que se efective aquilo que é mera iniciativa divina, obra de Deus, basta a sua fidelidade; ao homem apenas compete dispor as coisas para que Deus actue – partir os animais – e não estorvar a acção divina – sacudir as aves de rapina. «A chama e o fumo simbolizam a Deus; a chama, por ser brilhante e quase imaterial e o fumo por ser impenetrável à vista, representavam a invisibilidade de Deus; cf. Ex 3, 2; 19, 18; 24, 17» (E. F. Sutcliffe). Os antigos semitas, como os árabes ainda hoje, utilizavam um forno portátil, com a forma de cone truncado, para cozer o pão: quando estava bem quente tiravam a lenha e introduziam a massa.

18 «Aos teus descendentes darei esta terra, desde a torrente do Egipto…», isto é, desde o wadi El-Arixe, que corre na época das chuvas do Sinai para o Mediterrâneo (não se trata do Nilo); nos tempos de Salomão o povo teve estes limites (cf. 1 Re 5, 1), uns limites ideais, «até ao Eufrates», no Iraque. Com estas palavras Deus aparece como o Senhor da Terra e o Senhor da História.


Salmo Responsorial Sl 26 (27), 1.7-8.9abc.13-14 (R. 1a)


Monição: O Senhor, é minha luz, e minha salvação. Este salmo coloca-nos dentro do ambiente deste Domingo. A luz, o rosto do Senhor, a busca de Deus, são expressões que nos orientam para Cristo transfigurado.


Refrão: O Senhor é a minha luz e a minha salvação.


O Senhor é minha luz e salvação:

a quem hei-de temer?

O Senhor é protector da minha vida:

de quem hei-de ter medo?


Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica,

tende compaixão de mim e atendei-me.

Diz-me o coração: «Procurai a sua face».

A vossa face, Senhor, eu procuro.


Não escondais de mim o vosso rosto,

nem afasteis com ira o vosso servo.

Não me rejeiteis nem me abandoneis,

meu Deus e meu Salvador.


Espero vir a contemplar a bondade do Senhor

na terra dos vivos.

Confia no Senhor, sê forte.

Tem coragem e confia no Senhor.


Segunda Leitura1


Monição: A nossa pátria está nos céus. Estamos orientados para a eternidade. Aqui somos peregrinos e estrangeiros. Mas tal não nos dispensa de nos preocuparmos com os problemas do mundo em que estamos inseridos.



Forma longa: Filipenses 3, 17 – 4,1 Forma breve: Filipenses 3, 20 – 4, 1

Irmãos: [17Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. 18Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo. 19O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas. 20Mas] a nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. 4,1Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor.


O Apóstolo incita os fiéis a viverem como «cidadãos do Céu» (v. 20), segundo o seu exemplo.

17 «Sede meus imitadores». S. Paulo tem a consciência plena de que, com todas as veras da sua alma, é um imitador de Cristo (1 Cor 11, 1), por isso é que se atreve a falar desta maneira tão arrojada (cf. 4, 9; 1 Cor 4, 16; 1 Tes 1, 6; 2 Tes 3, 7.9).

18-21 Os «inimigos da Cruz de Cristo», que «se orgulham da sua vergonha», devem ser, mais provavelmente, os judaizantes, a quem Paulo visa nesta parte da sua carta (cf. 3, 1b ss), os quais antepõem ao valor salvífico da Paixão do Senhor a prática do rito da circuncisão, orgulhando-se de um sinal no membro viril, que o pudor e a decência obriga a esconder, e dogmatizam as prescrições alimentares (o ventre), endeusando-as; também poderia ser uma censura dirigida a cristãos moralmente depravados, o que é menos provável, dado o contexto em que Paulo está a falar. Não é deste corpo miserável (com marcas, como as da circuncisão, e com tantas limitações e mazelas) que o cristão se deve orgulhar, mas da sua condição de ressuscitado com Cristo, que lhe garantirá um futuro corpo glorioso, que transcende o próprio «universo» (v. 21).

»A nossa pátria está nossos Céus» (cf. Hbr 13, 14; 1 Pe 2, 11). A verdadeira pátria, da qual andamos como que desterrados, «os degredados filhos de Eva», é o Céu; mas, enquanto aqui «gememos» (cf. 2 Cor 5, 1-14), não estamos dispensados de cumprir os nossos deveres e exercer os nossos direitos de cidadãos da pátria terrestre; e, se os não cumprimos responsavelmente como cidadãos da pátria terrestre, também não podemos chegar à pátria celeste; por isso, nada é mais falso do que entender a fé cristã como ópio do povo.


Aclamação ao Evangelho


Monição: Escutai-O. Sempre que procuramos viver em conformidade com o Evangelho estamos a trabalhar na nossa transfiguração e na transfiguração do mundo.


Aleluia


No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».


Cântico: B. Salgado, NRMS 32



Evangelho


São Lucas 9, 28b-36

Naquele tempo, 28bJesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. 29Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. 30Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, 31que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. 33Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. 34Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. 35Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». 36Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.


Convém, antes de mais, notar um pormenor cronológico omitido na leitura litúrgica, mas nada despiciendo: «cerca de oito dias depois», em vez do habitual «naquele tempo». Com efeito, em todos os três Sinópticos, não é sem razão que se estabelece uma das raras ligações cronológicas entre este relato e o relato da confissão de fé de Pedro e do 1º anúncio da Paixão e Morte de Jesus. É uma ligação de grande alcance teológico: por um lado, a fé de Pedro é confirmada e ilustrada de forma singular com a glória divina que Jesus manifesta na sua Transfiguração; por outro, indica-se que a Cruz é o caminho da glória, como para Jesus, assim para os seus discípulos (per crucem ad lucem).

28 «Subiu ao monte para orar». O monte Tabor (562 m), na Galileia, segundo a tradição, ou, segundo muitos hoje pensam baseados em Mt 17, 1 e Mc 9, 2 que falam de «um monte elevado», o monte Hermon, sobranceiro a Cesareia de Filipe, no maciço central da Síria (o Antilíbano) com 2.759 metros, a região por onde Jesus então andava (cf. Mc 8, 27; 9, 1). S. Lucas é o único a notar que Jesus subiu ali para fazer oração; também não diz que se transfigurou, mas que «se alterou o aspecto do seu rosto…», certamente com a preocupação de que os seus primeiros leitores de ambientes greco-romanos não pensassem que se tratava de alguma metamorfose própria das religiões mistéricas. Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar para a nossa própria transfiguração pela graça do Espírito do Senhor, como diz S. Paulo em 2 Cor 3, 18: «todos nós…, que reflectimos como num espelho a glória do Senhor vamos sendo transformados na sua própria imagem, cada vez mais gloriosa…».

31 «Falavam da morte d’Ele». Também só o 3.° Evangelho diz o assunto da conversa de Jesus com Moisés e Elias. Falavam da «saída» de Jesus, como se expressa o original grego, que a nossa tradução interpretou como «a morte», mas que também se poderia referir à Ascensão (menos provável); de qualquer modo, o uso do termo grego êxodo pode aludir ao carácter libertador da morte de Jesus, numa alusão à libertação da escravidão do Egipto.

32-33 «Estavam a cair de sono; mas, despertando...». Este pormenor exclusivo de Lucas pressupõe que a Transfiguração se deu de noite, enquanto Jesus fazia oração, pois gostava de orar de noite (cf. Lc 6, 12; Mc 6, 46). A proposta de Pedro de construir «três tendas» (de ramos), tem na devida conta a diferente dignidade de cada um e pretende prolongar aquele êxtase feliz.

35 «Este é o meu Filho, o meu Eleito». A Transfiguração é um confirmar da fé daquele núcleo duro dos Doze, as «colunas» do Colégio Apostólico: o próprio Pai apresenta Jesus como o seu Filho. S. Lucas, em vez de «o Amado» (cf. Mt 17, 5; Mc 9, 7), diz: «o meu Eleito», que é mais uma forma (e mais clara) de O designar como o Messias (cf. Lc 23, 35; Is 42, 1). Comenta S. Tomás de Aquino: «Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa» (Sum. Th. 3, 45, 4, ad 2).

36 «Guardaram silêncio», por ordem de Jesus (Mc 9, 9-10) que pretende, a todo o custo, evitar a agitação popular à sua volta.


Sugestões para a homilia


Os três montes

O caminho da conversão


Os três montes

O segundo Domingo da Quaresma pode chamar-se o Domingo de Abraão e da Transfiguração pelo realce que lhes é dado na Liturgia da Palavra. Na primeira leitura temos o diálogo de Deus com Abraão onde lhe é garantido que a sua descendência será tão numerosa como as estrelas do céu. Garante-lhe que vai estabelecer uma aliança com ele. Abraão acredita prontamente. Mas esta aliança vai exigir-lhe sacrifícios, o maior dos quais será a imolação do seu único e queridíssimo filho Isaac no monte Moriá. É o primeiro monte.

Jesus encontra-se no monte Tabor onde a glória da sua divindade resplandece na sua humanidade e esta vive uma antecipação da futura ressurreição. É o segundo monte. A tradição cristã sempre viu em Jesus a realização do sacrifício de Isaac. Jesus é o Filho predilecto do Pai como Isaac o era para Abraão, o filho da promessa e da velhice, destinado ao sacrifício da sua vida. Como Isaac leva aos seus ombros a lenha do sacrifício, Jesus carrega o madeiro da cruz. E como Isaac, também Ele foi atado durante a Paixão. Cristo chegou à glória através do sofrimento.


O caminho da conversão

Na segunda leitura S. Paulo fala doutra «transfiguração». Jesus transformará o nosso corpo miserável para o tomar semelhante ao seu corpo glorioso. Somos cidadãos do céu. Pelo baptismo fomos destinados para sermos transformados até nos tomamos semelhantes a Ele. Esta transformação exige de nós uma conversão contínua. Estamos a subir o monte da Páscoa ao longo desta Quaresma. É o terceiro monte.

O caminho da conversão comporta uma morte verdadeira: deixar o pecado mortal ou venial; sair duma situação de pecado; renunciar à tibieza e à indiferença religiosa; pôr de lado uma vida onde caibam todas as desculpas e desleixos; talvez dar a Deus «algo», mesmo a nossa vida com seus planos e projectos, que Ele nos continua a pedir, mas não temos tido a generosidade de lhos dar.

Tudo isto implica morrer a nós mesmos. Mas vale a pena. Esta morte, sem dúvida dolorosa e árdua como todas as mortes, tem um epilogo glorioso: ser «outros», ser «criaturas novas» ao terminar a Quaresma.

Podíamos fazer estas perguntas:

Que fiz com o meu baptismo e o meu crisma?

É Cristo realmente o centro da minha vida?

A oração encontra espaço no meu dia-a-dia?

Vivo a vida como uma vocação e uma missão?


Fala o Santo Padre


A nossa transfiguração começa já nesta terra, com a ajuda da graça.


1. «O Senhor Jesus Cristo... transformará o nosso corpo miserável, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso» (Fl 3, 21). Estas palavras de São Paulo que acabamos de escutar na segunda leitura da liturgia de hoje, recordam-nos que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o Seu. O Apóstolo comenta assim o mistério da Transfiguração do Senhor que a Igreja proclama neste segundo domingo de Quaresma. De facto, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar. O que se realizou em Jesus, nossa Cabeça, também se deve completar em nós, que somos o seu Corpo.

Este é um grande mistério para a vida da Igreja, pois não se deve pensar que a transfiguração se realizará só no além, depois da morte. A vida dos santos e o testemunho dos mártires ensinam-nos que, se a transfiguração do corpo se realizará no final dos tempos com a ressurreição da carne, a do coração verifica-se agora nesta terra, com a ajuda da graça.

Podemos perguntar-nos: como são transfigurados os homens e as mulheres? A resposta é sublime: são os que seguem Cristo na sua vida e na sua morte, que se inspiram n'Ele e se deixam inundar pela graça que Ele nos dá; são aqueles, cujo alimento é cumprir a vontade do Pai; os que se deixam guiar pelo Espírito; os que nada antepõem ao Reino de Cristo; os que amam o próximo até derramar por ele o seu sangue; os que estão dispostos a oferecer tudo sem nada exigir em troca; os que em poucas palavras vivem amando e morrem perdoando. […]


6. Amados no Senhor, a voz do Pai também nos disse hoje no Evangelho: «Este é o meu Filho dilecto, escutai-O» (Lc 9, 35). Escutar Jesus é segui-Lo e imitá-Lo. A cruz ocupa um lugar muito especial neste caminho. Existe uma relação directa entre a cruz e a nossa transfiguração.

Fazermo-nos semelhantes a Cristo na morte é o caminho que conduz à ressurreição dos mortos, ou seja, a nossa transformação n'Ele (cf. Fl 3, 10-11). Agora, ao celebrar a Eucaristia, Jesus dá-nos o seu corpo e o seu sangue, para que de certa forma possamos saborear aqui na terra a situação final, quando os nossos corpos mortais forem transfigurados à imagem do corpo glorioso de Cristo. […]


João Paulo II, Roma, 11 de Março de 2001


Oração Universal


Irmãos, oremos a Deus Todo-Poderoso

e imploremos a misericórdia d'Aquele que não deseja a morte do pecador

mas antes que se converta e viva.


1. Pela santa Igreja de Deus:

para que, fiel ao mandamento de Cristo,

continue firme no ensino da doutrina Sagrada e certa de que é depositária,

oremos, irmãos.


2. Pelos governantes das nações:

para que promulguem leis justas que respeitem os direitos de Deus e dos homens,

a começar pelo direito à vida e à família una, indissolúvel e fecunda,

oremos, irmãos.


3. Pelos doentes e por todos os que sofrem

pelos que não têm trabalho:

para que encontrem em nós justiça, compreensão e em Deus consolação e graça,

oremos, irmãos.


4. Pelos pecadores e negligentes:

para que, neste tempo de graça, se convertam a Deus,

oremos, irmãos.


5. Pelos jovens, especialmente pelos que se afastaram de Deus

para que reconsiderem o seu caminho e voltem aos braços do Pai,

oremos, irmãos.


6. Por todos nós que celebramos a Quaresma com fé e devoção:

para que cheguemos às festas pascais iluminados pelo Espírito Santo

e limpos de todo o pecado,

oremos, irmãos.


Atendei, Senhor, as nossas súplicas e perdoai os nossos pecados.

Por Nosso Senhor...



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Atei os meus braços, M. Faria, NRMS 9 (II)


Oração sobre as oblatas: Esta oblação, Senhor, lave os nossos pecados e santifique o corpo e o espírito dos vossos fiéis, para celebrarmos dignamente as festas pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


Prefácio


A transfiguração do Senhor


V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.


V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.


V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.


Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Depois de anunciar aos discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição.

Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz:


Santo, Santo, Santo.


Santo: F. dos Santos, NTC 201


Monição da Comunhão


Jesus que se revelou no Tabor, oculta-se agora na Eucaristia. Para nos ajudar na realização do projecto que Deus tem para cada uma das suas criaturas.


Cântico da Comunhão: Aproximai-vos do Senhor, F. da Silva, NCT 375

Mt 17, 5

Antífona da comunhão: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências. Escutai-O.


Cântico de acção de graças: Bendito sejas, sei que Tu pensas em mim, H. Faria, NRMS 2 (II)


Oração depois da comunhão: Alimentados nestes gloriosos mistérios, nós Vos damos graças, Senhor, porque, vivendo ainda na terra, nos fazeis participantes dos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Ritos Finais


Monição final


Estamos na Quaresma. Aprofundamento da fé, conversão de vida, tomar consciência de que somos Igreja e nela membros activos e responsáveis, eis o que se nos pede agora de um modo muito particular.


Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)



Homilias Feriais


2ª SEMANA DA QUARESMA


2ª feira, 8-III: As ofensas e a misericórdia.

Dan 9, 4-10 / Lc 6, 36-38

No Senhor, nosso Deus, se encontram misericórdia e perdão, pois nós nos revoltámos contra Ele.

Jesus indicará aos discípulos que procuram ser misericordiosos como Deus Pai (cf. Ev.). Para entrarmos por estes caminhos de misericórdia, precisamos primeiro reconhecer os nossos pecados: «Nós pecámos, cometemos acções injustas e perversas» (Cf. Leit: Oração de Daniel).

Como não é fácil perdoarmos as ofensas, precisamos da ajuda do Espírito Santo: «Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo muda a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão» (CIC, 2483).


3ª feira, 9-III: Necessidade de verdadeiros mestres.

Is 1, 10. 16-20 / Mt 23, 1-12

Na cadeira de Moisés, sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não procedais segundo as suas obras, pois eles dizem e não fazem.

Jesus, Mestre divino, começou a fazer e depois a ensinar. Por isso, contrasta o seu modo de actuar com o dos escribas e fariseus.

O Papa diz que «a Europa exige evangelizadores credíveis, cuja vida, em sintonia com a cruz e a ressurreição de Cristo, irradie a beleza do Evangelho» (INE, 49); «O homem contemporâneo ‘escuta com maior benevolência as testemunhas do que mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas’»(Paulo VI, cit. em INE, 49). São cada vez mais necessários testemunhos fortes de vida nova em Cristo, a presença e os sinais de santidade (cf. INE, 49).


4ª feira, 10-III: Comunhão e solidariedade.

Jer 18, 18-20 / Mt 20, 17-28

Quem, entre vós, quiser tornar-se grande tem de ser vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro tem de ser vosso escravo.

Jesus é o verdadeiro modelo deste ensinamento, pois vem não para ser servido, mas para servir.

Todos somos chamados a prestar este serviço à sociedade: «as pessoas, as famílias e as comunidades vivam intensamente o Evangelho da caridade... as nossas comunidades eclesiais são chamadas a ser verdadeiras escolas de comunhão» (INE, 85).

E, fruto deste serviço à caridade, é o crescimento da «cultura da solidariedade, concorrendo assim para dar uma nova vida aos valores universais da convivência humana» (INE, 85).


5ª feira, 11-III: Vivência da solidariedade.

Jer 17, 5-10 / Lc 16, 19-31

Havia um homem rico, que...todos os dias tinha esplêndidas festas. Jazia ao seu portão, coberto de chagas, um pobre chamado Lázaro.

«Na multidão dos seres humanos sem pão, sem tecto, sem residência, como não reconhecer Lázaro, o mendigo esfomeado da parábola» (CIC, 2463). Continua a verificar-se que, em muitos casos, ainda se faz um indevido ou mau uso dos bens da terra (cf. INE, 89).

É pois preciso que se viva melhor a virtude da solidariedade: «A solidariedade manifesta-se, em primeiro lugar, na repartição dos bens, na remuneração do trabalho. Implica também o esforço por uma ordem social mais justa, em que as tensões possam ser resolvidas melhor e os conflitos encontrem mais facilmente uma saída negociada» (CIC, 1940).


6ª feira, 12-III: A nossa responsabilidade na paixão de Cristo.

Gen 37, 3-4. 12-13. 17-28 / Mt 21, 33-43. 45-46

(O proprietário): Por fim, mandou-lhes o próprio filho, dizendo consigo: Hão-de respeitar o meu filho.

«Entregando o seu próprio Filho pelos nossos pecados, Deus manifesta que o seu plano sobre nós é um desígnio de amor benevolente, e independente de qualquer mérito da nossa parte» (CIC, 604).

A parábola dos vinhateiros (cf. Ev.), bem como os maus tratos infligidos a José pelos irmãos (cf. Leit.), são um anúncio dos sofrimentos de Jesus na sua paixão, que culminaram na sua morte. Somos cada um de nós igualmente responsável pelo suplício de Jesus: «Não foram os demónios que O pregaram na cruz, mas tu com eles O crucificaste, e ainda agora o crucificas quando te deleitas nos vícios e pecados» (S. Francisco de Assis, cit. em CIC, 598).


Sábado, 13-III: A miséria e a misericórdia.

Miq 7, 14-15. 18-20 / Lc 15, 1-3. 11-32

Qual o deus semelhante a vós, que tira o pecado e perdoa o delito..., o deus que não mantém sempre a indignação, e se compraz em ser compassivo?

Este Deus misericordioso e compassivo é o que está retratado na parábola do filho pródigo (cf. Ev.). Na recitação do Pai-nosso pedimos a Deus para nos perdoar as nossas ofensas: «A nossa petição começa por uma ‘confissão’ na qual, ao mesmo tempo, confessamos a nossa miséria e a sua misericórdia» (CIC, 2839).

Em vez de ficarmos tristes e abatidos pelos nossos pecados, invoquemos a Deus: «quem se reconhece pecador e se entrega à misericórdia do Pai celeste, experimenta a alegria duma verdadeira libertação e pode prosseguir ao longo do caminho da vida sem se fechar na própria miséria» (INE; 76).

 

 

Celebração e Homilia: Armando A. Barreto Marques
Comentários Bíblicos: Geraldo Morujão
Homilias Feriais: Nuno Romão
Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

1O texto que está entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido


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