aCONTECIMENTOS eclesiais

COMENTÁRIO

 

 

CÉLULAS ESTAMINAIS,

UMA ALTERNATIVA EFICAZ

 

Prof. Daniel Serrão

Membro da Academia Pontifícia para a Vida

 

Uma Conferência Internacional sobre o uso de células estaminais no tratamento de doenças, realizada em Roma, no Vaticano*, sob o impulso da Academia Pontifícia para a Vida e da Federação Internacional das Associações de Médicos Católicos, merece um destaque especial. Tantas vezes a Igreja Católica e os cientistas católicos são acusados de serem inimigos da investigação científica na área da vida que, ao ver como logótipo deste Congresso, a imagem de um embrião in vitro de oito células, dador privilegiado de células estaminais para alguns, pressenti um sinal da atenção e rigor com os quais os dois organismos proponentes estudam e conhecem todos os aspectos científicos da embriologia humana para fundamentarem correctamente as suas posições éticas, deontológicas e morais.

 

 

Claro que o Congresso não foi sobre células estaminais obtidas a partir da destruição de embriões humanos. A posição negativa do pensamento católico em relação à destruição de embriões humanos, seja com que objectivos for, incluindo os que são apresentados como beneficentes para os seres humanos, é clara e tem uma rigorosa fundamentação ética – um ser humano não pode ser usado como coisa ou instrumento – , deontológica – o investigador científico, como ser humano que é, não pode, em nenhuma circunstância, dispor da vida de outro ser humano – e moral – a forma como uma sociedade de entes morais trata os seus membros mais vulneráveis, mede a sua vinculação ao respeito pela dignidade humana.

Tive oportunidade de participar em representação do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa que suportou os encargos inerentes.

As intervenções iniciais, protocolares, em especial a do Bispo E. Sgreccia, actual Presidente da Academia, explicaram bem que o tema era, de facto, a avaliação do uso das células estaminais não embrionárias que têm sido marginalizadas pelos media, em favor das embrionárias. Repetindo-se a afirmação de que as embrionárias são mais «plásticas» e por isso, mais prometedoras e eficazes, nos usos em terapêutica

Ora a realidade científica, como ficou exuberantemente demonstrado neste Congresso, é totalmente diferente. Estas células não embrionárias, que existem no sangue do cordão umbilical, no sangue circulante das pessoas e na medula óssea, por exemplo, são melhores para o tratamento das doenças do que as dos embriões. Vinte e uma comunicações de cientistas de todos os Continentes, com relevo para os USA e a Austrália, apresentaram os excelentes resultados já obtidos em aplicações clínicas. Entre elas, relevo as do investigador português Carlos Lima na melhoria das lesões da medula espinal, que provocam paralisias dos membros, usando células estaminais do tecido nervoso obtidas na mucosa olfactiva. A colheita destas células não levanta problemas ou objecções éticas, apenas se cumprindo as regras da investigação em seres humanos com menção especial ao consentimento das pessoas doentes após informação honesta e verdadeira prestada pelo investigador. Um investigador australiano, Mackay-Sim, do Instituto de Terapia Celular e Molecular, mostrou que na mucosa olfactiva há células nervosas, com características de função estaminal, que originam vários outros tecidos incluindo o tecido muscular, salientando a facilidade da sua colheita sem riscos nem incómodos especiais para os dadores e o seu uso na investigação em doenças genéticas.

De todos os resultados apresentados, os mais impressionantes são os relativos ao enfarte do miocárdio, obtidos por uma equipa alemã, liderada por B. E. Strauer da Universidade de Dusseldorf, usando células estaminais colhidas na medula óssea. A injecção destas células do próprio doente, na artéria coronária, em casos de enfarto agudo do miocárdio, melhorou a função ventricular aos três meses, mantida três anos depois. Estes trabalhos pioneiros de Staruer estão a ser reproduzidos em diversos outros países e estendidos para os casos de doença isquémica crónica, sem complicações nem efeitos negativos colaterais ligados à injecção intracoronária das células estaminais de medula óssea.

Investigadores do Imperial College de Londres apresentaram os resultados em cinco doentes com formas de cirrose que só podem ser tratadas com transplante, usando células de tipo estaminal colhidas na medula óssea. Este estudo-piloto deu bons resultados, particularmente em dois casos de colangite esclerosante primária, pelo que a Comissão de Ética autorizou o lançamento de uma investigação Fase I/II .

Foi ainda apresentado o trabalho dos investigadores japoneses liderados por K. Takahashi que conseguiram produzir células estaminais pluripotentes a partir de fibroblastos em cultura actuando sobre os determinantes genéticos da diferenciação que foram silenciados. Estes resultados dos investigadores da Universidade de Kyoto provam que é possível, embora seja tecnicamente ainda difícil, produzir células com características de células estaminais embrionárias sem uso de embriões.

O sucesso das aplicações das células estaminais não embrionárias no tratamento de doenças humanas, quando comparado com a ausência total de resultados clínicos usando células de embriões, mostra, claramente, que os investigadores e as fontes de financiamento já investem preferencialmente nas células não embrionárias. Alguns dos trabalhos apresentados eram já financiados por grandes empresas multinacionais, na linha dos resultados obtidos em doenças do sistema nervoso, coração e fígado. Por exemplo, um programa da Universidade de Newcastle, pelo seu Instituto de Células Estaminais, a funcionar num Centro de investigação de células do cordão umbilical, envolve uma verba de 150 milhões de Euros obtidos de um acordo entre Universidade, Saúde e Empresas.

Muito interessante e prometedor foi o uso da técnica de reactores de micro-gravidade desenvolvidos pela NASA., para conseguir que células estaminais «frescas» de sangue do cordão, que são pluripotentes como as embrionárias, produzissem tecido hepático a crescer em três dimensões e não apenas em placa como nas culturas habituais. Este resultado foi obtido com a colaboração do Centro de Newcastle com a Universidade de Minnesota e o apoio financeiro da BioE, Empresa de Biotecnologia que prevê para breve a apresentação de um «fígado» gerado por estas células estaminais, para diálise hepática extra-corporal, nos casos de necrose aguda do fígado a aguardar que haja um transplante

A mensagem dos cientistas presentes, do mais alto nível, foi bem clara: as células estaminais não embrionárias são superiores, na aplicação ao tratamento das doenças, às células resultantes da destruição de embriões.

Na sua sabedoria milenar a Igreja Católica já tinha pressentido que esta devia ser a verdade.

Cientistas independentes vieram a Roma confirmá-lo.

Vamos assistir nos próximos anos a um desenvolvimento espectacular de tratamentos com estas células estaminais não embrionárias. Que a posição dos católicos não seja esquecida.

 



* O Congresso Internacional «Células estaminais: que futuro terapêutico?», promovido pela Academia Pontifícia para a Vida (APV) e pela Federação Internacional das Associações dos Médicos Católicos (FIAMC), decorreu de 14 a 16 de Setembro passado, no Instituto Augustinianum, de Roma. Do comité científico do Congresso faziam parte, entre outros, Walter Osswald (FIAMC) e Daniel Serrão (APV), especialistas portugueses. Especialistas internacionais de Portugal, Alemanha, Reino Unido, Austrália, Itália e EUA debateram diversos aspectos científicos e problemáticas bioéticas da investigação com células estaminais (N.R.).

 


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