1.º Domingo da Quaresma

29 de Março de 2004



RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Vamos todos guiados pela esperança, F. da Silva, NRMS 14

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.


Não se diz o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


O tempo da Quaresma pretende, sobretudo através da recordação do Baptismo e pela Penitência, preparar os fieis para a celebração do mistério pascal. São quarenta dias de oração mais intensa e de penitência. Ouviremos com mais frequência a Palavra de Deus.

Que cheguemos todos à alegria da Páscoa com «maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho» (Colecta).


Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: A oferta das primícias dos frutos da terra, de que nos fala o livro do Deuteronómio, tem sentido de gratidão e de amor a Deus, que fez sair da escravidão do Egipto o povo de Israel, «com mão poderosa e braço estendido».


Deuteronómio 26, 4-10

Moisés falou ao povo, dizendo: 4»O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. 5E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. 6Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. 7Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, 8espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. 9Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. 10E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus».


A nossa leitura é tirada da parte final do chamado «Código Deuteronómico» (Dt 12 - 26) e contém a oração ritual a recitar no momento da oferta ao Santuário dos primeiros frutos da terra, as primícias. Esta oração contém o que Gerhard von Rad classificou de «Credo histórico», isto é um resumo do núcleo da fé de Israel, que é fundamentalmente uma confissão de fé nas intervenções salvadoras de Yahwéh na história deste povo, centradas na libertação da escravidão do Egipto e na instalação em Canaã, a terra prometida. Podem ver-se outras profissões de fé semelhantes em: Dt 6, 20-24; Jos 24, 1-13; Ne 9, 6-37; Jr 32, 17-25; Salm 136 (135).

5 «Um arameu errante». Trata-se de Jacob, que personifica a era dos patriarcas, assim chamado quer pelo facto de a migração de Abraão estar ligada com as movimentações de tribos de arameus na zona do Médio Oriente, mas também em razão de ter muitas relações de parentesco com a Mesopotâmia, onde vivia o seu tio Labão, o arameu (Gn 28,1-5), e onde passou longos anos em Aran com as suas mulheres (cf. Gn 29 - 30). Jacob, bem como Isaac e Abraão, levou uma vida semi-nómada, acabando por se estabelecer no Egipto «com uma família pouco numerosa», isto é, um grupo de 70 pessoas (Gn 46, 26-27; cf. Ex 1, 1-5).

9-10 «Deu-nos esta terra… E agora…». O gesto de oferecer as primícias tem esse sentido de gratidão de quem quer corresponder a tanto amor de Deus com a oferta simbólica, os primeiros frutos da terra. Por outro lado, era uma confissão fé em Jahwéh, o único que concede a fertilidade, e ao mesmo tempo uma forma de abjurar os sedutores cultos idolátricos da fertilidade, tão característicos de Canaã, da deusa Astarté. A oração também põe em evidência o forte contraste entre o pobre arameu errante, sem leira nem beira, e o agricultor a desfrutar livremente duma terra ideal – onde corre leite e mel – dada por Deus.


Salmo Responsorial Sl 90 (91), 1-2.10-15 (R. cf. 15b)


Monição: Este Salmo que vamos meditar está todo ele impregnado de gratidão a Deus por todas as graças recebidas e o reconhecimento das suas misericórdias.


Refrão: estai comigo, senhor, no meio da adversidade.


Tu que habitas soba a protecção do Altíssimo

e moras à sombra do Omnipotente,

diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela:

meu Deus, em Vós confio».


Nenhum mal te acontecerá

nem a desgraça se aproximará da tua tenda,

porque Ele mandará os seus Anjos

que te guardem em todos os teus caminhos.


Na palma das mãos te levarão,

para que não tropeces em alguma pedra.

Poderás andar sobre víboras e serpentes,

calcar aos pés o leão e o dragão.


Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo;

hei-de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.

Quando me invocar, hei-de atendê-lo,

estarei com ele na tribulação,

hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.


Segunda Leitura


Monição: S. Paulo mostra-nos que a salvação divina é uma realidade acessível a todos, sem distinção de raça ou de nação: todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.


Romanos 10, 8-13

Irmãos: 8Que diz a Escritura? «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração». Esta é a palavra da fé que nós pregamos. 9Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação. 11Na verdade, a Escritura diz: «Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido». 12Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. 13Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.


A citação do Deuteronómio com que começa o trecho da leitura, refere-se à proximidade da revelação da salvação de Deus (cf. Dt 30, 12-14), ao dizer que não é preciso cruzar os mares nem subir às alturas para a encontrar: para Israel ela estava encerrada na Thoráh; para os cristãos ela está patente na pregação apostólica da Igreja, e só nos resta aderir a ela interiormente e professá-la externamente. Mas S. Paulo vai mais longe, pois pretende mostrar que a salvação divina é uma realidade acessível a todos, sem distinção de raça ou nação, apenas se exige «crer» (e cita Is 28, 16) «e invocar o nome do Senhor» (cita Joel 3, 5), o Senhor, que é Jesus.

9 «Se confessares… que Jesus é o Senhor», isto é, que Jesus é Deus. Senhor – Kyrios – é a tradução dos LXX para o nome divino de Yahwéh; daí que aplicar este nome a Jesus é fazer uma profissão de fé na sua divindade. Note-se como, para ser salvo, se exige uma fé que não se reduz a uma mera confiança – fé fiducial – na obra salvadora de Jesus, pois implica crer naquilo que Ele é objectivamente: Ele salva pelo facto de que é Deus que vem, feito homem, para nos salvar. Doutra forma, a fé seria vazia, por carecer de um fundamento real sólido: que significado teria então aderir a Cristo sem ter a certeza daquilo que Ele é na realidade? Seria cair num fideísmo idealista e subjectivista, numa fé que não iria para além dum vago e instável sentimento religioso. S. Paulo fala de «crer com o coração» (v. 10), usando a palavra «coração» no sentido semítico, próprio da citação bíblica anterior (v. 8): é a interioridade do ser humano, a sua mente (inteligência e vontade).


Aclamação ao Evangelho Mt 4, 4b


Monição: Aclamemos o Senhor Jesus, vitorioso sobre as tentações.


Aleluia


Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.


Cântico: Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106



Evangelho


São Lucas 4, 1-13

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O diabo disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o demónio levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.


Uma consideração superficial desta narrativa poderia levar o leitor a cair numa de duas tentações de pólos opostos: ou a de ficar na literalidade do relato, que parece descrever umas tentações de gula, de ambição do poder, de vaidade e presunção, ou então a de não querer ver nada para além da teologia do evangelista. Quem olhar para o relato imbuído do preconceito de que não existe o diabo, nem a tentação diabólica, não terá mais remédio do que refugiar-se na solução fácil da negação do seu valor histórico, apelando para a teologia do evangelista, para o simbolismo e significado teológico destas tentações. Por outro lado, quem se aferrar a uma mentalidade fundamentalista para salvar a todo o custo o sentido histórico literal de cada pormenor da narrativa, partindo de que esta é uma crónica jornalística, adoptará uma posição redutora da riqueza teológica do texto e virá a cair em interpretações pueris e até incoerentes, como, por ex., a de imaginar Jesus a ser transportado pelo diabo para um ponto donde pudesse ver todos os reinos da terra (v. 4), como para o pináculo do Templo, onde «o colocou», segundo reza o texto (v. 9).

É indiscutível que Jesus foi sujeito à tentação (cf. Hbr 4, 15). Na Escritura a palavra «tentação» tem dois sentidos, tanto em grego, como em hebraico – peirasmós/massá –, a saber, o de «sedução» para praticar o mal e o de «provação» que põe à prova a virtude e a fidelidade da criatura a Deus. Aqui, Jesus aparece claramente a ser tentado pelo demónio; muitas vezes, especialmente na hora da sua Paixão, é sujeito à prova (cf. Lc 22, 28. 40-46; 23, 35.37.49, etc.). Não obsta à realidade da tentação, a que Jesus não foi poupado, o significado simbólico dos elementos da narrativa, como o número «40» (tempo prolongado: cf. 1 Re 19, 8; Ex 16, 35; 24, 18; 34, 28…) e o «deserto» (lugar de solidão, abandono e perigo e também de encontro com Deus). Alguém escreveu que este relato recapitula toda a oposição, exterior e interior, que Jesus teve de enfrentar para cumprir a sua missão de acordo com a vontade do Pai.

Neste caso concreto, convém advertir que as tentações de Jesus aqui descritas não são de modo algum uma tentação ocasional, nem sequer um ataque mais violento: foram um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Assim, estas tentações não vão dirigidas a fazer cair Jesus em meras faltas pessoais (gula, avareza, vaidade); mas são mesmo um ataque frontal, com o fito de fazer gorar toda a obra de Jesus. S. Lucas apresenta-nos o diabo a querer tirar a limpo até que ponto Jesus era o «Filho de Deus» (vv. 3 e 10), segundo lhe constaria da teofania do Jordão (cf. Lc 3, 23). Por outro lado, o maligno aparece a tentar Jesus precisamente no núcleo da sua missão messiânica, para tentar desviá-lo do plano divino para os seus planos diabólicos, de modo a que esta missão acabasse por vir a ser desvirtuada. Tentemos ver o alcance destas tentações:

3-4 Na primeira tentação, Jesus aparece tentado a enveredar pelo caminho da satisfação das esperanças materialistas do povo, que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-6 Na segunda tentação, Jesus é tentado a mover-se na linha das esperanças populares num messias político, vitorioso, dominador dos opressores romanos e senhor do mundo inteiro: trata-se da tentação que Jesus sente de se desviar do plano do Pai, a instauração do Reino de Deus, para se dedicar à instauração dum reino temporal, um plano aparentemente mais eficaz e mais sedutor.

9-12 Na terceira tentação, com aquele «atira-te daqui abaixo», é feito a Jesus um apelo diabólico a ir atrás da expectativa judaica, que pensava que o messias desceria espectacularmente do céu, à vista de todo o povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular e diz que não à proposta de uma actuação com base no triunfo pessoal, no mero êxito humano.

Não devemos estranhar que S. Lucas inverta a ordem de S. Mateus para as duas últimas tentações, o que em nada diminui o valor do relato. A fonte pode ser a mesma, mas parece que Lucas coloca a última tentação em Jerusalém devido ao alto valor simbólico que quer dar à Cidade Santa e ao Templo no seu Evangelho. Ninguém foi testemunha das tentações de Jesus, pois se trata de coisas que se passaram apenas no seu espírito; mas também é compreensível que Jesus abrisse o seu coração aos discípulos, quando lhes falava da natureza do Reino de Deus e lhes explicava em particular as parábolas (cf. Mc 4, 34: seorsum autem discipulis suis disserebat omnia). O que é certo é que, para além das hipóteses que possam formular os críticos, ninguém poderá provar que estamos em face de meras criações teológico-narrativas dos evangelistas.

O alcance teológico desta narrativa nos três Sinópticos (em Marcos há apenas uma brevíssima alusão: 1, 12-13) é grande. Com efeito, as grandes personagens bíblicas foram «tentadas» e também o povo de Israel, no seu conjunto, especialmente durante a sua peregrinação pelo deserto, a caminho da terra prometida. Ora, em Jesus cumpre-se tudo o que estava em toda a Escritura (cf. Lc 24, 44); por outro lado, a vida de Jesus torna-se também um modelo para os cristãos e para toda a Igreja, que virá a ser tentada pelos poderes diabólicos, que nunca deixarão de pôr à prova a sua fidelidade e de os seduzir para o mal; os caminhos da Igreja não podem ser nunca os da glória terrena e do êxito fácil, mas os da humildado e do sacrifício, os árduos e escondidos caminhos da santidade.

13 «O diabo... retirou-se… até certo tempo». E foi no momento da Paixão de Jesus (sem podermos excluir outros) quando em força avançou o diabo, o poder das trevas: Lc 22, 53. E também foi então a grande derrota do demónio e a vitória definitiva do Senhor, que nos mereceu a graça de também podermos sair vitoriosos das nossas tentações. S. João Crisóstomo comenta: «uma vez que o Senhor tudo fazia e sofria para o nosso ensinamento, também quis ser conduzido ao deserto e ali travar combate contra o diabo, a fim de que os baptizados, se depois do Baptismo vierem a sofrer as piores tentações, não se perturbem com isso, como se se tratasse de uma coisa que não era de esperar. Não, não há que se perturbar com isso, mas sim permanecer firmes e suportá-lo generosamente como a coisa mais natural do mundo» (Homilia sobre S. Mateus, 13).


Sugestões para a homilia


As tentações de Jesus.

O que é a tentação.

As armas para vencer.

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As tentações de Jesus.

«Foi tentado pelo diabo» ( Evangelho).

O Evangelho de hoje fala de um tempo de solidão e recolhimento que Jesus passou no deserto, imediatamente depois de ter sido baptizado por João Baptista. Passado esse tempo, o diabo tentou-O por três vezes, procurando pôr em causa a sua atitude filial para com Deus; Jesus repele esses ataques, que recapitulam as tentações de Adão no paraíso e do povo de Israel no deserto.

Jesus é o novo Adão que se mantém fiel naquilo em que o primeiro sucumbiu. A vitória de Jesus sobre o tentador, no deserto, antecipa a vitória da Paixão, suprema obediência do seu amor filial ao Pai. As tentações de Jesus manifestam a maneira própria de o Filho de Deus ser Messias e Salvador, ao contrário da que Lhe propõe Satanás e que os homens desejam atribuir-Lhe.

Jesus venceu as tentações por nós: «Nós não temos um sumo-sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas; temos um que possui a experiência de todas as provações, tal com nós, com excepção do pecado» (Heb 4, 15).

Neste tempo da Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Cristo no deserto e recorda aos seus filhos que «através de toda a história humana se trava uma dura batalha contra o poder das trevas que, iniciada nas origens do mundo, durará...até ao dia final. Envolvido nesta peleja, o homem tem que lutar continuamente para manter-se no bem» (G. Spes, n. 37).


O que é a tentação.

A tentação é uma prova, é um convite e solicitação para pecar: «Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia; depois a concupiscência, quando concebe, dá à luz o pecado; e o pecado, quando tiver sido consumado, gera a morte» (Tgo 1, 14-15). A tentação, se não for vencida, conduz ao pecado e à morte. Aparentemente, o seu objecto é «bom, agradável à vista, precioso» (Gen 3, 6), mas, na realidade, o seu fruto é a morte.

Peçamos ao Senhor que não nos deixe cair na tentação, «mas que nos livre do mal» (Pai Nosso). A vitória sobre a tentação só é possível pela oração. Foi pela oração que Jesus venceu o tentador desde o princípio e no último combate da sua agonia no Horto das Oliveiras. «Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo» (2ª leitura).

Juntamente com a oração, a vigilância. Importa estar alerta, rezar e confiar sempre no Senhor e na sua bondade.Tentado pelo diabo, o homem deixou morrer no coração a confiança no seu Criador e na sua Bondade, preferiu-se a si próprio em vez de Deus, e por isso desprezou a Deus e confiou mais na palavra enganadora do diabo: «Dali em diante, todo o pecado será sempre uma desobediência a Deus e uma falta de confiança na Sua bondade» (Catec. I. Cat., 397).

«Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças; antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar» (1 Cor 10, 13). «Bem-aventurado o homem que sofre a tentação, porque, depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que O amam» (Tgo 1, 12).


As armas para vencer

Com que armas venceremos as tentações?

Como acabámos de afirmar, primeiro que tudo com a oração, a confiança absoluta em Deus e a vigilância: «Vigiai e orai para que não entreis em tentação» (Mc 14, 38). Há que fugir das ocasiões de pecado e das más companhias.

Depois, sinceridade e franqueza total com quem dirige a nossa alma: «tentação descoberta, tentação vencida».

Comunhão frequente: «Em cada Eucaristia torna-se presente de novo a vitória e o triunfo de Cristo sobre o demónio, sobre o mal e sobre a morte» (S. Concilium, 6).

Confissão frequente. Aqueles que se aproximam do Sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão dos pecados e graça para lutarem contra as más inclinações e a fortaleza para resisitirem às investidas do diabo.

Devoção ao Anjo da Guarda: «Recorre ao teu Anjo na hora da provação e ele te há-de amparar contra o demónio e dar santas inspirações» (Cam. 567); «Ele mandou aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos» (Salmo 90).

Devoção a Nossa Senhora: «Antes, só, não podias...Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil!» (Cam. 513); «Mãe! – chama-A bem alto –. Ela, a tua Mãe Santa Maria, escuta-te, vê-te em perigo talvez, e oferece-te, com a graça do seu Filho, o consolo do seu regaço, a ternura das suas carícias. E encontrar-te-ás reconfortado para a nova luta» (Cam. 516).


Fala o Santo Padre


O Crucificado triunfará definitivamente sobre o mal, reconciliando o homem com Deus.


1. «Jesus... foi levado pelo Espírito ao deserto onde, esteve durante quarenta dias e foi tentado pelo diabo» (Lc 4, 1-2). Neste primeiro domingo da Quaresma, ouvimos a narração da luta de Jesus contra o diabo, no início da vida pública. Depois de ter sido reconhecido pelo Pai, no momento do Baptismo junto do rio Jordão, como «o Filho predilecto» (cf. Lc 3, 22), Jesus foi agora posto à prova na sua fidelidade a Deus. Porém, contrariamente a Adão e Eva no paraíso terrestre ( cf. Gn 3), e de modo diferente do povo de Deus no deserto (cf. Ex 16-17; Dt 8), ele resiste à tentação e triunfa sobre o maligno.

Nesta cena, entrevemos a luta de dimensão cósmica das forças do mal contra a realização do plano salvífico que o Filho de Deus veio proclamar e inaugurar na sua própria pessoa. Com Cristo, inicia-se, de facto, o tempo da nova criação; n'Ele se realiza a nova e perfeita Aliança entre Deus e a humanidade inteira. Este combate contra o Espírito do mal envolve cada um de nós, chamado a seguir o exemplo do divino Mestre.


2. «Tendo esgotado toda a espécie de tentação, o diabo retirou-se de junto d'Ele, até um certo tempo» (Lc 4, 13). O ataque do tentador contra Jesus, começado durante a sua permanência no deserto, atingirá o seu ponto culminante nos dias da paixão sobre o Calvário, quando o Crucificado triunfará definitivamente sobre o mal, reconciliando o homem com Deus. O evangelista Lucas conclui a narração de hoje das tentações com a referência a Jerusalém; diferente de Mateus, ele parece querer pôr em relevo desde o início que o triunfo de Cristo sobre a Cruz acontecerá na Cidade Santa, onde se realizará o Mistério pascal.

Na Mensagem para a Quaresma deste ano, escrevi que também aos homens e às mulheres de hoje Cristo dirige o convite a «subir a Jerusalém», isto é, a segui-Lo no caminho da Cruz. Sentimos este convite com forte eloquência hoje, enquanto damos os primeiros passos do tempo quaresmal, tempo favorável para a conversão e o retorno à plena comunhão com Deus. […]


6. «Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou de entre os mortos, serás salvo» (Rm 10, 9). Na quarta-feira passada iniciámos o itinerário quaresmal, caminho de ascese que deve conduzir-nos a um renovado encontro com Jesus, reconhecido como o «Senhor». É Ele que nos salva: professar a fé é, portanto, crer em Cristo e confiar-nos a Ele totalmente. Seremos salvos (cf. Rm 10, 10), se O acolhermos e às suas palavras de vida eterna.

A Virgem Maria, fiel discípula do Senhor, nos ensine a «crescer no conhecimento do mistério de Cristo» (Colecta); nos ajude a confessar com a boca que Jesus é o nosso Senhor e acreditar com o coração que Ele venceu a morte, abrindo as portas do Reino para toda a humanidade. Assim, dispomo-nos para saborear com todos os crentes, a alegria e o esplendor da Páscoa da ressurreição.


João Paulo II, na Paróquia Romana de Santo André Apóstolo, 4 de Março de 2001


Oração Universal


Irmãos e irmãs, oremos pela Igreja e pelo mundo

para que aprendam com Jesus

a resistir às tentações do demónio, dizendo com humildade:


R. Senhor, tende piedade de nós.


1. Pelo Papa, Bispos e Sacerdotes

para que através da união íntima com Jesus Cristo,

dêem testemunho de fé, de esperança e de caridade,

e chamem a todos à conversão,

oremos, irmãos.


2. Pelos governantes dos povos

para que no desempenho da sua missão sejam exemplares

e fujam à tentação do poder,

oremos, irmãos.


3. Pelos pecadores e por todos os que ofendem a Deus:

para que se arrependam dos seus pecados, pedindo perdão ao Senhor,

e assim recuperem a felicidade própria dos filhos de Deus,

oremos, irmãos.


4. Pelos fiéis da nossa comunidade (paroquial),

para que, ajudados pela graça do Espírito Santo,

dêem testemunho de fé em todas as circunstâncias da sua vida,

oremos, irmãos.


5. Para que todos nós aqui presentes

sejamos fiéis aos compromissos do nosso baptismo

e saibamos permanecer firmes na luta contra o mal,

oremos, irmãos.


6. Pelos nosso irmãos que morreram no Senhor,

para que Deus perdoe os seus pecados,

receba as suas almas e lhes conceda a luz e o descanso eterno,

oremos, irmãos.


Senhor:

escutai as preces que Vos dirigimos no início desta Quaresma,

concedei-nos todas as graças que mais necessitamos,

sobretudo um aumento de fé, de esperança e de caridade.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: A minha alma tem sede, M. Carneiro, NRMS 40


Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


Prefácio


As tentações do Senhor


V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.


V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.


V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.


Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:


Santo, Santo, Santo.


Santo: M. Simões, NRMS 50-51


Monição da Comunhão


A Comunhão aumenta a nossa união com Cristo, afasta-nos do pecado, torna-nos fortes contra as tentações. Uma vez que os laços da caridade entre os que comungam e Jesus Cristo são reforçados, a recepção deste Sacramento reforça também a unidade da Igreja, Corpo Místico de Cristo, e aumenta em nós todas as virtudes.

Peçamos a Deus que desperte e aumente em nós a fome deste Alimento celestial, verdadeiro Pão da Vida.


Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.


ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.


Cântico de acção de graças: Hóstia Santa, penhor de salvação, M. Simões, NRMS 6 (II)


Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Ritos Finais


Monição final


Alimentados com o pão celestial, voltamos às nossas casas muito mais fortalecidos e preparados para vencer as tentações, para perseverar na prática do bem e para evitar o pecado. A ajuda de Deus não nos faltará.


Cântico final: Troquemos o instante pelo eterno, M. Simões, NRMS 61



Homilias Feriais


1ª SEMANA DA QUARESMA


2ª feira, 1-III: O serviço aos pobres e aos doentes.

Lev 19, 1-2. 11-18 / Mt 25, 31-46

Vinde, benditos de meu Pai, recebei como herança o Reino, que vos está preparado desde a criação do mundo. É que eu tive fome...

Quem quiser receber a herança do Reino, há-de esforçar-se por cumprir os Mandamentos (cf. Leit.). «O Decálogo...'as dez palavras' indicam as condições duma vida, liberta da escravidão do pecado. O Decálogo é um caminho de vida» (CIC, 2057).

A segunda parte do Decálogo refere-se ao amor pelo próximo, concretizado nas obras de misericórdia (cf. Ev.). «Pede-se à Igreja inteira para dar novamente esperança aos pobres. Acolhê-los e servi-los significa, para ela, acolher e servir Cristo (cf. Ev. do dia) (INE, 86). E também o cuidado dos doentes deve merecer uma atenção especial (cf. INE, 88).


3ª feira, 2-III: O perdão e a reconciliação dos filhos de Deus.

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

Se perdoardes aos homens as vossas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará.

Uma das petições que fazemos no Pai-nosso refere-se ao cumprimento da vontade de Deus (cf. Ev.). «O seu mandamento, que resume todos os outros e nos diz toda a sua vontade, é que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou» (CIC, 2822).

Para amar os outros como Cristo os ama, precisamos aprender a perdoar (cf. Ev.). «O perdão é o cume da oração cristã: o dom da oração só pode ser recebido em sintonia com a compaixão divina... O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com o seu Pai e dos homens entre si» (CIC, 2844).


4ª feira, 3-III: Revitalização do sacramento da Reconciliação.

Jon 3, 1-10 / Lc 11, 29-32

Os homens de Nínive ...fizeram penitência quando Jonas pregou, e aqui está quem é mais do que Jonas.

Os habitantes de Nínive aceitaram bem o pedido de penitência e conversão que lhes foi dirigido por Deus, através do profeta Isaías (cf. Leit. e Ev.).

O sacramento da Penitência renova ao apelo de Jesus à conversão: «É chamado o sacramento de conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai» (CIC, 1423). O Papa pede igualmente que se recupere a esperança através do sacramento da Reconciliação. «Perante a perda generalizada do pecado e uma mentalidade repleta de relativismo e subjectivismo no campo moral é necessária uma séria formação das consciências (cf. INE, 76)


5ª feira, 4-III: O nosso auxílio está em Deus.

Est 14, 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

(Ester): Senhor meu e Rei nosso... Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita.

A Rainha Ester é um belo exemplo da oração de petição (cf. Leit.). «É pela oração de petição que traduzimos a nossa consciência da nossa relação com Deus: enquanto criaturas não somos a nossa origem, nem donos das adversidades, nem somos o nosso fim último; mas também, sendo pecadores, sabemos como cristãos, que nos afastamos do nosso Pai. A petição é já um regresso a Deus» (CIC, 2629).

Jesus anima os discípulos a pedir: «Pedi e dar-vos-ão» (Ev.).O Papa pede à Igreja da Europa para ser uma comunidade que reza: «Ao rezar...adora, louva, agradece e também implora a vinda do Senhor... afirmando deste modo que só dele espera salvação» (INE, 66).


6ª feira, 5-III: Conversão pessoal e bem da sociedade.

Ez 18, 21-28 / Mt 5, 20-26

Se estiveres, pois, a apresentar a tua oferta ao altar e aí te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa aí a tua oferta... e vai reconciliar-te com o teu irmão.

A nossa conversão pessoal está intimamente relacionada com o esforço por melhorar o bem comum.

«Deve-se apelar para as capacidades espirituais e morais da pessoa e para a experiência permanente da sua conversão interior, para se conseguirem mudanças sociais que estejam realmente ao seu serviço. A prioridade reconhecida à conversão do coração não elimina de modo algum... a obrigação de introduzir nas instituições e nas condições de vida, quando induzem ao pecado, as correcções convenientes para que eles se conformem com as normas de justiça e favoreçam o bem, em vez de se lhe oporem» (CIC, 1888).


Sábado, 6-III: Uma nova forma de caridade.

Deut 26, 16-19 / Mt 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus.

Moisés lembrava ao povo que devia pôr em prática os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e toda a alma (cf. Leit.).

Jesus pede aos seus discípulos uma forma nova de viver a caridade: amar os inimigos e rezar por eles (cf. Ev.). Não é nada fácil e exige heroicidade. Mas foi isso que Ele próprio viveu: «No Sermão da Montanha, o Senhor lembra o preceito: ‘Não matarás’, e acrescenta-lhe a proibição da ira, do ódio e da vingança. Mais ainda: Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face, que ame os seus inimigos (cf. Ev. do dia). Ele próprio não se defendeu e disse a Pedro que deixasse a espada na bainha» (CIC, 2262).







Celebração e Homilia: Alfredo Almeida Melo

Comentários Bíblicos: Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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