DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

VIAGEM APOSTÓLICA À BAVIERA

 

 

De 9 a 14 de Setembro passado, o Santo Padre realizou a sua segunda Viagem Apostólica à Alemanha, concretamente à Baviera, sua terra natal. Damos a conhecer o comentário que fez na audiência geral da quarta-feira, em 20-IX-05, onde não deixou de fazer referência à polémica ocasionada pelo discurso na Universidade de Ratisbona. Subtítulos da Redacção da CL.

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Gostaria hoje de voltar com o pensamento aos vários momentos da viagem pastoral que o Senhor me concedeu realizar, na semana passada, à Baviera. Ao partilhar convosco as emoções e os sentimentos vividos ao visitar de novo os lugares que me são queridos, sinto antes de tudo a necessidade de agradecer a Deus por ter tornado possível esta segunda visita à Alemanha e pela primeira vez à Baviera, minha terra de origem. Estou sinceramente grato também a quantos – Pastores, sacerdotes, agentes pastorais, autoridades públicas, organizadores, forças da ordem e voluntários – trabalharam com dedicação e paciência para que todos os acontecimentos se desenvolvessem no melhor dos modos. Como disse na chegada ao aeroporto de Munique, no sábado 9 de Setembro, a finalidade da minha viagem era, na recordação de quantos contribuíram para formar a minha personalidade, reafirmar e confirmar, como Sucessor do apóstolo Pedro, os vínculos estreitos que unem a Sé de Roma com a Igreja na Alemanha. Portanto, a viagem não foi um simples «regresso» ao passado, mas também uma ocasião providencial para olhar com esperança para o futuro. «Quem acredita nunca está sozinho»: o lema da visita queria ser um convite para reflectir sobre a pertença de cada baptizado à única Igreja de Cristo, no interior da qual nunca se está sozinho, mas em constante comunhão com Deus e com todos os irmãos.

Munique: «fortes na fé»

A primeira etapa foi a cidade de Munique, chamada «a Metrópole de coração» (Weltstadt mit Hertz). No seu centro histórico encontra-se a Marienplatz, a praça de Maria, na qual se eleva a «Mariensäule», a Coluna de Nossa Senhora, que tem no cimo uma imagem da Virgem Maria, em bronze dourado. Quis iniciar a minha estadia bávara com a homenagem à Padroeira da Baviera, que para mim tem um valor altamente significativo: ali, naquela praça e diante daquela imagem mariana, fui acolhido há cerca de trinta anos como Arcebispo e iniciei a minha missão episcopal com uma oração a Maria; voltei lá no final do meu mandato, antes de partir para Roma. Desta vez eu quis deter-me de novo aos pés da Mariensäule para implorar a intercessão e a bênção da Mãe de Deus, não só para a cidade de Munique e para a Baviera, mas para toda a Igreja e para o mundo inteiro.

No dia seguinte, domingo, celebrei a Eucaristia na esplanada da «Neue Messe» (Nova Feira) de Munique, entre os fiéis provenientes em grande número de várias partes: com base no trecho evangélico do dia, recordei a todos que existe uma «debilidade de ouvido» em relação a Deus, de que se sofre especialmente hoje. É tarefa nossa, dos cristãos num mundo secularizado, proclamar e testemunhar a todos a mensagem de esperança que a fé nos oferece: em Jesus crucificado, Deus, Pai misericordioso, chama-nos a ser seus filhos e a superar qualquer forma de ódio e de violência, a fim de contribuir para o triunfo definitivo do amor.

«Fortalece-nos na fé»: foi o tema do encontro da tarde de domingo com as crianças da primeira comunhão e com as suas jovens famílias, com os catequistas, os outros agentes pastorais e quantos cooperam na evangelização da diocese de Munique. Celebrámos juntos as Vésperas na histórica Catedral, conhecida como «Catedral de Nossa Senhora», onde estão guardadas as relíquias de São Beno, padroeiro da Cidade, e onde em 1977 fui ordenado Bispo. Recordei aos pequeninos e aos adultos que Deus não está longe de nós, num lugar inalcançável do universo; pelo contrário, em Jesus, Ele aproximou-se de nós para estabelecer com cada um uma relação de amizade. Todas as comunidades cristãs, e em particular a paróquia, graças ao empenho constante de cada um dos seus membros, está chamada a tornar-se uma grande família, capaz de avançar unida pelo caminho da vida verdadeira.

Altötting: devoção mariana

A segunda-feira, 11 de Setembro, foi em grande parte ocupada pela visita a Altötting, na diocese de Passau. Esta pequena cidade é conhecida como «Hertz Beyerns» (coração da Baviera), e nela está conservada «Nossa Senhora Negra», venerada na Gnadenkapelle (Capela das Graças), meta de numerosos peregrinos provenientes da Alemanha e das nações da Europa central. Nas proximidades, encontra-se o convento capuchinho de Santa Ana, onde viveu São Konrad Birndorfer, canonizado pelo meu venerado predecessor, o Papa Pio XI, no ano de 1934. Com os numerosos fiéis presentes na Santa Missa, celebrada na praça diante do Santuário, reflectimos juntos sobre o papel de Maria na obra da salvação, para aprender dela a bondade serviçal, a humildade e a aceitação generosa da vontade divina. Maria conduz-nos para Jesus: esta verdade tornou-se ainda mais visível, no final do sacrifício Divino, pela devota procissão na qual, levando connosco a imagem de Nossa Senhora, fomos à nova capela da Adoração eucarística (Anbetungskapelle), inaugurada para a ocasião. O dia foi encerrado com as solenes Vésperas marianas na Basílica de Santa Ana de Altötting, na presença de religiosos e seminaristas da Baviera juntamente com os membros da Obra das Vocações.

Ratisbona: uma citação mal entendida

No dia seguinte, terça-feira, em Ratisbona, diocese erigida por São Bonifácio em 739 e que tem como padroeiro o Bispo São Wolfgang, realizaram-se três encontros importantes. De manhã, a Santa Missa no Islinger Feld, durante a qual, retomando o tema da visita pastoral «Quem acredita nunca está sozinho», reflectimos sobre o conteúdo do Símbolo da fé. Deus, que é Pai, deseja reunir, mediante Jesus Cristo, toda a humanidade numa única família, a Igreja. Por isso, quem acredita nunca está sozinho; quem crê não deve temer de terminar num beco sem saída.

Depois, à tarde, estive na Catedral de Ratisbona, conhecida também pelo seu coro de vozes brancas, os «Domspatzen» (passarinhos da Catedral), que se orgulha dos seus mil anos de actividade e que durante trinta anos foi dirigido pelo meu irmão Georg. Ali realizou-se a celebração ecuménica das Vésperas, na qual participaram numerosos representantes de várias Igrejas e Comunidades eclesiais na Baviera e os membros da Comissão ecuménica da Conferência Episcopal Alemã. Foi uma ocasião providencial para rezar juntos, para que se apresse a plena unidade entre todos os discípulos de Cristo e para reafirmar o dever de proclamar a nossa fé em Jesus Cristo sem atenuações, mas de maneira integral e clara, e sobretudo para o nosso comportamento de amor sincero.

Uma experiência particularmente bela naquele dia foi para mim pronunciar um discurso perante um grande auditório de professores e de estudantes da Universidade de Ratisbona, onde durante muitos anos fui professor. Pude encontrar-me com alegria mais uma vez com o mundo universitário que, durante um longo período da minha vida, foi a minha pátria espiritual. Como tema tinha escolhido a questão da relação entre fé e razão. Para introduzir o auditório no carácter dramático e na actualidade do tema, citei algumas palavras de um diálogo cristão-islâmico do século XIV, com as quais o interlocutor cristão, o imperador bizantino Manuel II Paleólogo, – de maneira para nós incompreensivelmente brusca – apresentou ao interlocutor islâmico o problema da relação entre religião e violência. Esta citação, infelizmente, pôde prestar-se a ser mal entendida. Porém, para o leitor atento do meu texto, é claro que eu não pretendia de modo algum fazer minhas as palavras negativas pronunciadas pelo imperador medieval neste diálogo e que o seu conteúdo polémico não exprime a minha convicção pessoal. A minha intenção era muito diferente: partindo de quanto Manuel II diz a seguir de modo positivo, com uma palavra muito bela, acerca da racionalidade que deve guiar na transmissão da fé, queria explicar que não é a religião e a violência que caminham juntas, mas sim, a religião e a razão. O tema da minha conferência – respondendo à missão da Universidade – foi, portanto, a relação entre fé e razão: pretendia convidar ao diálogo da fé cristã com o mundo moderno e ao diálogo de todas as culturas e religiões. Espero que nas diversas ocasiões da minha visita – por exemplo, quando em Munique frisei como é importante respeitar aquilo que para os outros é sagrado – tenha ficado claro o meu profundo respeito pelas grandes religiões e, em particular, pelos muçulmanos, que «adoram o único Deus» e com os quais estamos empenhados em «defender e promover juntos, para todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade» (Nostra Aetate, 3). Por conseguinte, confio que, depois das reacções do primeiro momento, as minhas palavras na Universidade de Ratisbona possam constituir um estímulo e um encorajamento para um diálogo positivo, também autocrítico, quer entre as religiões quer entre a razão moderna e a fé dos cristãos.

Freising: encontro com os sacerdotes

Na manhã do dia seguinte, 13 de Setembro, na «Alte Kapelle» (Capela Antiga) de Ratisbona, na qual se guarda uma imagem milagrosa de Maria, pintada segundo a tradição local pelo evangelista Lucas, presidi a uma breve liturgia para a bênção do novo órgão. Inspirando-me na estrutura deste instrumento musical formado por muitos tubos de dimensões diferentes, mas todos bem harmonizados entre si, recordei aos presentes a necessidade de que os vários ministérios, dons e carismas activos na Comunidade eclesial convirjam todos, sob a guia do Espírito Santo, para formarem a única harmonia do louvor a Deus e do amor pelos irmãos.

Na quinta-feira, 14 de Setembro, a cidade de Freising constituiu a última etapa. Sinto-me particularmente ligado a ela porque fui ordenado sacerdote precisamente na sua catedral, dedicada a Maria Santíssima e a São Corbiniano, o evangelizador da Baviera. E precisamente na Catedral realizou-se o último encontro do programa, com os sacerdotes e os diáconos permanentes. Ao reviver as emoções da minha Ordenação sacerdotal, recordei aos presentes o dever de colaborar com o Senhor para suscitar novas vocações ao serviço da «messe» que também hoje é «grande», e exortei-os a cultivar a vida interior como prioridade pastoral, para não perder o contacto com Cristo, fonte de alegria no labor quotidiano do ministério.

Na cerimónia da despedida, ao agradecer mais uma vez a quantos tinham colaborado para a realização da visita, recordei de novo a sua finalidade principal: repropor aos meus concidadãos as verdades eternas do Evangelho e confirmar os crentes na adesão a Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado por nós. Ajude-nos Maria, Mãe da Igreja, a abrir o coração e a mente Àquele que é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14, 16). Por isto rezei e para isto convido todos vós, amados irmãos e irmãs, a continuar a rezar, agradecendo-vos cordialmente pelo afecto com que me acompanhais no meu ministério pastoral quotidiano. Obrigado a todos vós.


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