3º Domingo Comum

21 de Janeiro de 2007

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Aproximai-Vos do Senhor, F. da Silva, NCT 375

Salmo 95, 1.6

Antífona de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira. Glória e poder na sua presença, esplendor e majestade no seu templo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Estamos a iniciar o tempo comum e é hoje que começamos a leitura continuada de trechos seleccionados do Evangelho segundo S. Lucas. Disponhamo-nos a ouvir a palavra da salvação, como se fôssemos os primeiros ouvintes de Jesus, despidos de preconceitos, sabendo que, passados tantos anos, o Evangelho encerra uma novidade que nunca se esgota. Iluminados pela palavra da verdade, recolhidos em ambiente de oração, disponhamo-nos a entrar no interior do mistério da Eucaristia: Jesus que torna presente no altar a oferta da sua vida por nós na Cruz.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso e eterno, dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade, para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Como a comunidade de Israel escutou a proclamação da Lei de Moisés feita por Esdras, escutemos nós o que o Senhor tem para nos dizer.

 

Neemias 8, 2-4a.5-6.8-10

Naqueles dias, 2o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3Desde a aurora até ao meio dia, fez a Leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a Leitura do Livro da Lei. 4aO escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, 5Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. 6Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todos responderam, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. 8Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. 9Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. 10Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».

 

Estamos num dos momentos mais expressivos da vida do povo eleito, após o desterro de Babilónia, um verdadeiro marco miliário da sua história: marca a reconstrução da vida da nação, a instauração oficial do judaísmo propriamente dito, em que o acento já não se põe tanto no Templo, mas na Lei, por isso a sua leitura não aparece feita no lugar sagrado, mas «no largo situado diante da Porta das Águas» (v. 3).

2 «Esdras», o grande organizador do Povo de Deus após o desterro, em pleno séc. V a. C., como comunidade judaica, uma fraternidade religiosa, uma verdadeira «igreja» estruturada na Lei de Moisés. «O primeiro dia sétimo mês, isto é, do mês correspondente a Setembro-Outubro, chamado «Tisri»; este dia correspondia ao início dos sete dias da festa dos Tabernáculos (parece que coincidia com a festa do Ano Novo), que o capítulo 9 deixa ver como anterior à festa da Expiação, um artifício para mostrar como a leitura da Lei levou à penitência, ligada ao Yôm Kippur (cf. Lv 23, 26-32).

9 «Todo o povo chorava», naturalmente, ao tomar consciência bem clara de que tinha quebrantado a Lei, merecendo os castigos nela cominados. De qualquer modo, a contrição não devia impedir a alegria, antes pelo contrário, pois era a ocasião asada para uma solene renovação da aliança (cf. capítulo 10).

 

Salmo Responsorial      Sl 18 B (19), 8.9.10.15 (R. Jo 6, 63c)    

 

Monição: Associemo-nos ao louvor da Lei de Deus, que é «a sabedoria dos simples», repetindo o refrão que corresponde à 2ª parte do salmo 18.

 

Refrão:         As vossas palavras, Senhor,

                      são espírito e vida.

 

A lei do Senhor é perfeita,

ela reconforta a alma;

as ordens do Senhor são firmes,

dão sabedoria aos simples.

 

Os preceitos do Senhor são rectos

e alegram o coração;

Os mandamentos do Senhor são claros

e iluminam os olhos.

 

O temor do Senhor é puro

e permanece eternamente;

os juízos do Senhor são verdadeiros,

todos eles são rectos.

 

Aceitai as palavras da minha boca

e os pensamentos do meu coração

estejam na vossa presença:

Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor.

 

Segunda Leitura *

 

Monição: São Paulo, para mostrar como na Igreja não pode rivalidades nem divisões, esboça a visão da Igreja como o Corpo de Cristo; na diversidade de funções de cada membro, todos têm de concorrer para a unidade da Igreja e o bem comum.

 

Nota de rodapé

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: 1 Coríntios 12, 12-30;    forma breve: 1 Coríntios 12, 12-14.27

Irmãos: 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. 14De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos.

 [15Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 16E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 17Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? 18Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. 19Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? 20Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. 21O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». 22Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; 23os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: 24os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, 25para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. 26Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele.]

27Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte.

[28Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. 29Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? 30Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?]

 

«Assim como o corpo...» A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: «Vós sois Corpo de Cristo» (v. 27). Já está aqui latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios. No entanto, ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo (com artigo); apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – «corpo» (sem artigo!) – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27).

13 «E a todos nos foi dado beber um único Espírito». Os exegetas, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam que pode haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois que então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-61).

27 «Seus membros, cada um por sua parte». A Vulgata diz: «membros uns dos outros», devido a uma confusão de palavras gregas: «melos» (membro) por «meros» (parte).

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 4, 18

 

Monição: Vamos escutar a pregação de Jesus em Nazaré, que S. Lucas apresenta como programática de todo o Evangelho. A Liturgia de hoje introduz a leitura com o esplêndido prólogo da obra, mostrando o valor e a seriedade da Boa Nova, digna de toda a credibilidade.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação-2, F. da Silva, NRMS 50-51

 

O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,

a proclamar aos cativos a redenção.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

1Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, 2como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, 3também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, 4para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.

14Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. 16Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. 17Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: 18«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos 19e a proclamar o ano da graça do Senhor». 20Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

 

A leitura faz preceder o início da pregação de Jesus (4, 14) do célebre prólogo do III Evangelho (1, 1-4) da autoria de Lucas, que se mostra como um historiador sério e um bom cultor da língua grega de cunho clássico.

1 «Muitos». Referência à grande diversidade de escritores, em que se devem incluir os escritos inspirados: um primitivo Evangelho de Mateus e o Evangelho de S. Marcos, fontes que utilizou abundantemente. Sobre outros escritos prévios nada de certo sabemos, mas a crítica interna dos Evangelhos faz-nos entrever nos Sinópticos a preexistência de pequenos fragmentos que deixaram rastos na falta de conexão entre muitas perícopes e no agrupamento artificial de vários episódios sobre um mesmo tema. É natural que tais documentos parciais e provisórios se tenham perdido, ao aparecerem os Evangelhos.

«Factos que se realizaram entre nós». O Evangelho transmite-nos factos realmente acontecidos e muito próximos, daquela mesma época, por isso diz: «entre nós».

2 «Como no-los transmitiram...». S. Lucas não é um discípulo directo de Cristo, mas conhece com verdade os acontecimentos que vai referir através de testemunhas do máximo valor, por um lado, «testemunhas oculares» e, por outro, «ministros da palavra», isto é, do Evangelho; os mesmos que tinham a missão de pregar tinham sido antes testemunhas oculares. Entre as testemunhas oculares, como fonte de informação de Lucas, devem-se pôr os Apóstolos e, com toda a probabilidade, a SSª Virgem, as Santas Mulheres, os «irmãos de Jesus» e outras pessoas que conviveram com Ele.

3 «Também eu resolvi… escrevê-las». Isto em nada contradiz a acção de Deus ao inspirar S. Lucas, uma vez que Ele pode influir na inteligência e na vontade do homem, mesmo sem que este dê conta desse influxo. «Por ordem» (temos no original grego kathexês, que a tradução litúrgica omitiu, talvez uma errata a corrigir). Embora o seu Evangelho não seja primariamente uma biografia sistemática – uma crónica – com todos os dados possíveis sobre a vida de Jesus, também não se limita a um mero ensinamento doutrinal sobre a mensagem de Jesus. S. Lucas pretende transmitir-nos esta mensagem dentro dum vasto quadro histórico de acontecimentos, mas sem a preocupação duma minúcia cronológica maior do que aquela que as suas fontes lhe forneciam. Há, porém, o cuidado de uma certa ordem lógica.

3-4 «Depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens». S. Lucas não é um, mero «evangelista» que se preocupe só com transmitir uma mensagem, ele tem uma preocupação cuidadosa de tudo investigar desde o início e com um fim muito concreto, a saber, que o leitor possa «ter um conhecimento seguro do que lhe foi ensinado». É sabido que Lucas tem uma visão teológica própria; é um teólogo da história, com mentalidade de historiador; de modo nenhum um criador de estórias. O pregador do Evangelho avança de mãos dadas com o historiador e o apologista.

«Ilustre Teófilo». O adjectivo faz supor que se trata de um cristão de elevada condição a pessoa a quem Lucas dedica os seus dois livros. O título de «ilustre» ou «excelentíssi­mo» usava-se para a nobreza romana e para pessoas com altos cargos na administração do Estado.

4, 14 É aqui que começa S. Lucas a narrar o ministério de Jesus com a pregação na Galileia. «Com a força do Espírito», o mesmo é dizer que com a força e poder divino que estavam em Jesus, dada a sua natureza divina. Há em S. Lucas, uma constante referência ao Espírito Santo, que é um «leitmotiv» desta obra e de Actos. Com efeito, estamos nos tempos messiânicos, e Jesus é o Messias e, como tal, portador do «Espírito do Senhor» (v. 18).

16-21 «Foi então a Nazaré». Não se sabe se S. Lucas, nesta passagem, narra a mesma visita à sua terra natal contada pelos outros evangelistas (cf. Mt 13, 54-58; Mc 6, 1-6), ou se outra, ou se funde duas visitas num único relato. De qualquer modo, ao apresentá-la logo no início da vida pública, não teve em vista uma simples ordem cronológica, mas sim uma ordem lógica, melhor dito, teológica, com o intuito de começar por fazer ver que Jesus é o Messias, aqui o «Pregoeiro (mebasser) de boas notícias (besorá, evangelho), sobre quem repousa o Espírito Santo, segundo o oráculo de Isaías (Is 61, 1-2). «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura» (v. 21) equivale a dizer «Eu sou esse pregoeiro de boas notícias aos pobres».  J. Dupont diz que, com este relato inicial, Lucas pretende, logo de entrada, sugerir a resposta a três questões fundamentais: quem é Jesus, qual a sua missão, e a quem se destina esta sua missão.

18 «O Espírito… me ungiu». A unção no A. T. era para pessoas que tinham uma missão especial dada por Deus: o rei (1 Sam 9, 16; 2 Sam 5, 1-13), o sacerdote (Ex 29, 7; 40, 15), o profeta (para este, pode ser em sentido simbólico: Is 61, 1; Ez 16, 9), sendo o messias davídico o ungido por excelência. A Teologia explicita o símbolo da unção recebida por Jesus no momento da Incarnação: designa em especial a chamada «união hipostática», em que a natureza humana é assumida pela Pessoa do Verbo. Note-se que de Jesus não se diz, como dos Santos, que recebeu graças e dons do Espírito Santo, mas diz-se que foi ungido, para indicar a plenitude de graça recebida com a união hipostática, de cuja plenitude todos nós recebemos (cf. Jo 1, 16).

«Os pobres», aparecem explicitados pelo paralelismo da segunda parte do v. 18: «os cativos, os cegos, os oprimidos». Trata-se duma noção desenhada na pregação dos profetas (cf. Sam 2, 3), fortemente espiritualizada – a dos anawim – que é retomada por Jesus (cf. Mt 5, 3; 18, 9-14). Jesus não se dirige a uma determinada classe ou condição social, mas sobretudo àqueles que têm uma determinada atitude religiosa de indigência, humildade e abertura perante Deus, própria de quem confia na sua misericórdia, e não nos méritos ou recursos pessoais. Com efeito, o sentido desta passagem não se esgota na preocupação de Jesus pelos «pobres», que são os «presos», os «cegos», os «oprimidos», no sentido de miséria física, pois Jesus, podendo fazê-lo, não curou todos os doentes, nem resolveu todos os problemas de miséria. Jesus e a sua Igreja (cf. Lumen Gentium, n.° 8) preocupam-se pelos necessitados, mas a sua missão não se reduz à beneficência e promoção humana, nem sequer se pode centrar nela; o seu objectivo é a redenção da miséria do pecado, causa de todos os males, é a libertação da escravidão do demónio e da morte eterna.

19 «Um ano favorável». Alusão clara ao ano jubilar judaico de 50 em 50 anos (Lv 25, 8-10), em que ficavam libertos os homens e as terras que por necessidade tinham sido vendidos. Esta libertação material era uma espécie de utopia – não está suficientemente documentada a sua prática na história de Israel – que simboliza e prefigura a libertação espiritual e redenção trazida pelo Messias.

 

Sugestões para a homilia

 

·          Escutar com atenção a palavra de Deus como dirigida a cada um de nós.

·          Deixar-se interpelar por ela, confiando em que ela me aponta o caminho de felicidade.

·          Conversão de vida, tomando decisões e atitudes concretas de resposta e compromisso.

 

Talvez ainda não tenhamos dado conta de como são importantes as celebrações da Palavra de Deus – referindo-me sobretudo à Liturgia – e mesmo de como é fundamental escutar a Palavra, deixar-se interpelar por ela e responder com a Vida.

Ora, é este o momento asado. A liturgia deste domingo dá um relevo especial à Palavra de Deus, a partir de duas celebrações distintas, uma do Antigo e outra do Novo Testamento, esta com intervenção directa do próprio Jesus Cristo.

 

A 1.ª leitura deste domingo apresenta-nos a proclamação solene da Lei de Deus feita em Jerusalém, após o regresso do Povo de Israel que estivera cativo em Babilónia. Era na praça, cheia de homens e mulheres. Todos atentos. «Esdras, o escriba, estava de pé, num estado de madeira feito de propósito. Estando assim, em plano superior a todo o povo, Esdras abriu o livro à vista de todos e, quando o abriu, todos se levantaram. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus. Todo o povo ergueu as mãos e respondeu: «Amen, amen!» E, prostrados de rosto por terra, adoraram o Senhor. Os levitas iam lendo, de maneira perceptível, e explicavam o sentido de modo que todos entendiam a leitura.» E depressa vêm as lágrimas, de comoção e arrependimento, porque a vida tinha sido tão ao contrário daquelas normas santas e justas, através das quais Deus queria conduzir o Seu Povo, rumo à felicidade…

E, por fim, a alegria do reencontro com Deus, a festa: «Não vos aflijais, nem choreis! Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus! Ide comer carne gorda e tomar bebidas doces, e reparti com aqueles que não têm nada preparado... Não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza!»

Estão aqui resumidas as disposições necessárias para ouvir a Palavra de Deus: respeito, atenção, confrontação da própria vida com o texto sagrado, arrependimento dos pecados e a alegria por se ter descoberto, mais um vez, a vontade de Deus, deste Deus que se alegra por nos ver convertidos e determinados em segui-Lo.

 

Mas não basta escutar a Palavra, mesmo numa atitude exterior de respeito e confirmação: é preciso deixar-se interpelar por ela.

Quantas vezes ouço o texto sagrado, e até compreendendo claramente as palavras e o seu sentido, mas… fico na mesma: tudo aquilo passou, como água deslizando sobre tecido impermeável.

Falta-me, desde logo, a atitude inicial de interesse, a convicção de que, o que ouço, se dirige a mim, mexe com as minhas posições, solicita a minha aceitação interior, exige uma resposta pronta e clara da minha parte.

Eu sei que esta atitude perante a Palavra de Deus exige uma renovação de mentalidades e o rejeitar de posições duma religiosidade, chamemos-lhe tradicional, em que importava pouco escutar a Deus; melhor era falar com Ele, mesmo que fosse uma fala mecânica vazia de sentido…

Quantas vezes o proclamador da Palavra se confronta com «ouvintes» – serão mesmo ouvintes? – que olham para ele, enquanto vão murmurando e desfiando as contas dum rosário…

Mas, mesmo com atenção exterior, quantos não se sentem atingidos pela Palavra, interpelados por ela, comprometidos com ela? Aquilo está a ser proclamado, mas… não é com eles…

 

No Evangelho de hoje, outra celebração da Palavra, esta na sinagoga de Nazaré. Jesus abre o livro de Isaías e lê a passagem referente à Sua missão: «O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Ele me ungiu. Enviou-Me a anunciar a Boa Nova aos pobres».

Jesus não lê para os outros: Ele assume a Palavra, deixa-se interpelar plenamente por ela: «Cumpriu-se hoje mesmo em Mim este passo da Escritura que acabais de ouvir».

Não é São Lucas, o evangelista, que aproxima as duas figuras: o misterioso personagem de Isaías e a pessoa de Jesus; é o próprio Senhor que a lê, na primeira pessoa.

É Ele que está aí, a proclamar a salvação aos pobres, aos pequenos, aos humildes. N'Ele, a Palavra Incarnada, torna-se eficácia Salvadora.

Em Mim, a Palavra escutada, e devidamente acolhida, terá que provar também uma atitude que me leve ao encontro dos meus irmãos, comprometido na salvação deles…

Se assim não for… Torno estéril a Palavra que é para Mim…

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs: Oremos a Deus Pai todo-poderoso,

para que a Palavra revelada e o trabalho de cada dia se tornem,

para todos os homens, fonte de salvação,

e peçamos (ou: e cantemos), confiadamente:

 

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Senhor, nós temos confiança em Vós.

Ou: Senhor, vinde em nosso auxílio.

 

1.   Pela Igreja católica e por todas as comunidades separadas,

para que tenham verdadeiro desejo da unidade

e respeitem as riquezas espirituais umas das outras,

oremos ao Senhor.

 

2.  Pela nossa Pátria e por todas as nações,

para que progridam na paz e na justiça,

em liberdade, respeito mútuo e concórdia,

oremos ao Senhor.

 

3.  Por aqueles que anunciam o Evangelho,

para que o Espírito os ensine a falar como Jesus,

ao explicar a Palavra na sinagoga de Nazaré,

oremos ao Senhor.

 

4.   Por todos os que sofrem e desanimam,

para que Deus venha em sua ajuda

e os confirme na esperança e na alegria,

oremos ao Senhor.

 

5.   Por todos nós aqui reunidos no Senhor,

para que hoje se cumpra também em nós

a passagem da Escritura que escutámos,

oremos ao Senhor.

 

Concedei, Senhor, à vossa Igreja a graça de saber anunciar, com fidelidade,

a Boa Nova que o vosso Filho Jesus Cristo proclamou na sinagoga de Nazaré.

Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Amor de Deus Repousa em Mim, M. Luis, NCT 388

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, e santificai os nossos dons, a fim de que se tornem para nós fonte de salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 201

 

Monição da Comunhão

 

Jesus veio proclamar a Boa Nova aos pobres, mas não se fica em palavras. Ele mesmo se torna o alimento dos fracos, o Pão dos anjos feito o Pão dos homens na Eucaristia: «Oh maravilha! O escravo, / O humilde, o pobrezinho, / Come o Corpo do Senhor, / Faz dele o pão do caminho».

 

Cântico da Comunhão: Cantemos um Salmo de Glória, Az. Oliveira, NRMS 84

Salmo 33, 6

Antífona da comunhão: Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados, o vosso rosto não será confundido.

 

Ou

Jo 8, 12

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor. Quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.

 

Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, nós Vos pedimos que, tendo sido vivificados pela vossa graça, nos alegremos sempre nestes dons sagrados. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Vimos como em Nazaré «estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga». Assim as pessoas que lidam connosco têm os olhos postos em nós, à espera do testemunho de vida de quem se alimentou da Palavra e do Corpo do Senhor. É a hora de começar a viver a Missa ao longo de toda a semana.

 

Cântico final: Somos Testemunhas, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

feira, 22-I: Oitavário: Vitória sobre o pai da divisão.

Heb. 9, 15. 24-28 / Mc. 3, 22-30

Mas ninguém pode entrar em casa de um homem forte e saquear os bens que lhe pertencem, sem primeiro o amarrar.

Jesus enfrentou o demónio quando foi tentado no deserto. «Jesus venceu o Diabo: ‘amarrou o homem forte para lhe tirar os despojos’ (cf. Ev.). A vitória de Jesus sobre o tentador antecipa a vitória da paixão» (CIC, 539).

A morte redentora de Cristo destruiu o pecado: «Mas foi agora… que Ele se manifestou… para destruir o pecado pelo seu sacrifício» (Leit.). A unidade dos cristãos será alcançada se conseguirmos vencer os factores de divisão, que separam de Cristo: o demónio, os pecados.

 

feira, 23-I: Oitavário: A vontade de Deus, fonte de união.

Heb. 10, 1-10 / Mc. 3, 31-35

Quem fizer a vontade de Deus é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

Jesus revela a existência de uma nova família, que tem como fonte de união entre os seus membros o cumprimento da vontade de Deus (cf. Ev.).

Assim o fez também Cristo, o Primogénito entre muitos irmãos: «Eis-me aqui: eu vim para fazer a tua vontade» (Leit.). Contribuiremos para a unidade se nos esforçarmos por fazer sempre aquilo que agrada a Deus: o cumprimento dos nossos deveres de cada dia, a luta contra o egoísmo que nos faz pensar mais em nós e nos nossos comodismos…

 

feira, 24-I: Oitavário: A Missa e a unidade.

Heb. 10, 11-18 / Mc. 4, 1-20

Não entendeis esta parábola?... O que o semeador semeia é a palavra.

Na Sagrada Escritura não recebemos uma palavra humana mas aquilo que na realidade é: a Palavra de Deus. Procuremos ouvi-la e meditá-la com regularidade, para que não caia nos três primeiros terrenos da parábola (cf. Ev.).

Embora os sacerdotes da Antiga Aliança oferecessem inúmeros sacrifícios, não puderam destruir os pecados. E Cristo destruiu os pecados com um só sacrifício (cf. Leit.). Teremos frutos mais abundantes na unidade dos cristãos se unirmos todas as nossas acções ao sacrifício da Missa.

 

feira, 25-I: Conversão de S. Paulo: A unidade e a conversão.

Act. 22, 3-16 / Mc. 16, 15-18

Que hei-de fazer, Senhor? E o Senhor respondeu-me: Levanta-te, vai a Damasco e lá te dirão tudo o que foi determinado.

Quando ia a caminho de Damasco, Saulo encontra Jesus, e a sua vida muda completamente. A graça de Deus condu-lo à conversão e rapidamente pergunta: «Que hei-de fazer Senhor?» (Leit.). Para conseguirmos a unidade dos cristãos é indispensável a conversão pessoal. Esta conversão consiste em melhorar pequenas coisas: ser mais pontual, trabalhar melhor, cuidar a atenção nas orações, etc.

A conversão será igualmente decisiva para a expansão da Igreja, que alcançará os povos pagãos, segundo o mandato de Cristo: «Ide a todo o mundo e proclamai a Boa Nova a todos os criaturas» (Ev.).

 

feira, 26-I: S. Timóteo e Tito: Comportamento em ambiente agressivo.

2 Tim.1, 1-8 ou Tit. 1, 1-5 (pp) / Lc. 10, 1-9 (aprop.)

Ide, e olhai que vos mando como cordeiros para o meio dos lobos.

Timóteo e Tito foram dois discípulos e colaboradores de S. Paulo. Tiveram a seu cargo as igrejas de Éfeso e Creta.

No cumprimento das suas missões encontraram este cenário profetizado por Cristo: «como cordeiros no meio de lobos» (Ev.). De facto já tinham aparecido muitos falsos profetas e começavam a despontar doutrinas erróneas. S. Paulo escreve-lhes cartas pessoais, recomendando-lhes como cuidar dos pastores e fiéis. Cada um de nós sente a agressividade do ambiente (no meio de lobos). Mantenhamo-nos firmes na fé, com a ajuda de Deus.

 

Sábado, 27-I: Como vivemos a nossa fé?

Heb. 11, 1-2. 8-19 / Mc. 4, 35-41

(Jesus) disse-lhes: Por que estais assim assustados? Como é que não tendes fé?

Jesus entristece-se por causa da pouca fé dos seus discípulos (cf. Ev.).

Pelo contrário, a Epístola aos Hebreus louva a fé de Abraão, que obedeceu ao chamamento de Deus, foi viver para um território estrangeiro, ofereceu o filho para ser imolado, etc. (cf. Leit.). A fé é «a garantia dos bens que se esperam, e a prova de que existem as coisas que não se vêem» (Leit.). Procuremos guardar a fé e viver de acordo com ela; esforcemo-nos por dar um bom testemunho e propagá-la (cf. CIC, 1816).

 

 

 

 

 

 

Celebração:             Geraldo Morujão

Homilia:                            Abel Figueiral (adaptação da rádio por GM)

Nota Exegética:           Geraldo Morujão

Homilias Feriais:          Nuno Romão

Sugestão Musical:    Duarte Nuno Rocha

 


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