DOCUMENTAÇÃO

PATRIARCA DE LISBOA


MARIA, A NOVA EVA


Na sua homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, na Sé Patriarcal, em 8-XII-03, D. José Policarpo explica como Deus continua a contar com a mulher como cooperadora privilegiada na obra da salvação da humanidade, em união com a Virgem Maria.


1. Nesta festa litúrgica da Conceição Imaculada da Virgem Maria, somos chamados a meditar no mistério da redenção como drama da humanidade. Criados à imagem de Deus, para partilharem, como filhos, a intimidade do próprio Deus, o homem e a mulher afastam-se desse ideal, atraídos pela miragem de modelos de felicidade mais fácil e mais imediata. E ao meditarmos sobre o drama da redenção, contemplamos o papel da mulher nesse drama, afirmando a primazia que nele ocupa, aquela qualidade de matriz da vida, com que a define o texto da criação. O pecado dos nossos primeiros pais, sendo a primeira expressão do drama humano, constitui a grande humilhação da mulher. Por isso ela ficará, para sempre, no centro do drama humano, para o sofrer e para o resolver.

Na narração do Génesis, o primeiro homem, para se desculpar junto de Deus, faz a acusação que milhões de homens, durante milhões de anos, farão para justificar o drama humano: foi a mulher. «E o Senhor Deus perguntou à mulher: que fizeste?». Deus reconhece, assim, que esteve nela a principal responsabilidade da culpa, certamente porque usou mal a indiscutível capacidade que tem de ajudar o homem a discernir. Porque ela é a matriz da vida, a solução humana só pode brotar da mulher, da sua descendência, do fruto do seu ventre. E Deus disse à serpente: «Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». Desde aquele momento perfila-se no horizonte outra mulher, a nova Eva, a quem gerações proclamarão bem-aventurada, bendita entre todas as mulheres, porque é bendito o fruto do seu ventre. A essa outra mulher Deus disse, através do seu mensageiro: «Avé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo… Não temas Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho…».

O facto de a mulher ser a matriz da vida, está no centro do drama humano e da sua solução, porque os protagonistas desse drama são todos os homens e mulheres descendentes de Adão e Eva e redimidos em Jesus Cristo; todos são a descendência destas duas mulheres, o fruto do seu ventre. O drama humano não foi anulado, mas pode ser vivido na esperança. É que devido a Maria e ao bendito fruto do seu ventre, volta a ser verdade para a amaldiçoada descendência de Eva, que Deus os escolheu, antes da criação do mundo, para serem santos e irrepreensíveis, em caridade, na intimidade de Deus, que os predestinou, desde sempre, para serem seus filhos adoptivos. Como descendência de Eva, todos sofremos o drama do pecado; como descendência de Maria, recuperamos a predestinação divina que faz de todos nós seus filhos, no Filho de Deus e de Maria, Ele o fruto bendito do seu ventre.


2. A redenção não anula o drama, antes é ela mesma um drama, uma luta entre o pecado e a graça, na esperança da vitória final da vida. E nessa luta dramática a vitória não acontece pela destruição da humanidade, mas pela redenção da humanidade. Sempre que Deus teve a tentação de destruir a humanidade e começar tudo de novo, desistiu dessa tentação, como na história de Noé, pois ela não cabia no seu desígnio eterno. Não se trata de destruir o homem pecador e criar um outro homem isento de pecado. O pecado tinha de ser vencido no coração do homem. Mas para que isso fosse possível para toda a humanidade, Deus teve de criar uma criatura isenta de pecado, verdadeiro início da humanidade renovada. E a fraqueza de Eva não fez Deus esquecer-se da força da mulher e essa nova criação começa exactamente pela mulher, a Nova Eva, concebida sem pecado, cheia de graça, digna de Deus se enamorar dela. O anúncio da vitória da descendência da mulher, fez com que o drama da humanidade e o drama da redenção fossem o mesmo drama, numa mesma história centrada na descendência da mulher, Jesus Cristo.


3. Unificado o drama humano na unidade de uma única história de salvação, Eva e a sua descendência, Maria e a sua descendência, são protagonistas desse único drama. Ao demónio foi dito: «a descendência da mulher te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». E ambas sofrerão esta agressão do inimigo, uma como consequência da própria culpa, outra como princípio de redenção. A Eva foi anunciado: «darás à luz os teus filhos na dor». O sofrimento atingirá a mulher naquilo que é o seu dom, a maternidade. Está aqui dito que, ao longo dos séculos, o sofrimento de todas as mães constitui o cerne do drama humano. A Maria foi dito: «Uma espada de dor te trespassará o coração». Aqui está anunciado o sofrimento assumido e amado, de todas as mães, de todas as mulheres, que continuam a merecer na sua dor oferecida a redenção da humanidade.

Mas é em Jesus, descendente de Eva e de Maria, que se fará sentir, mais dramaticamente essa mordedura no calcanhar. Condenado à morte, o seu sofrimento torna-se sacrifício oferecido, e o que parecia, aparentemente, uma vitória do maligno, transforma-se no triunfo da vida e da redenção. E aos pés da Cruz, com o coração trespassado de dor, a Nova Eva é protagonista principal da resolução do drama humano: ela é co-redentora. Só no calvário e na grandeza de amor do sacrifício do Filho de Maria, se percebe como é bendito o fruto do seu ventre.


4. A partir daquele momento o drama humano torna-se um caminho de graça e de triunfo da vida; o pecado foi vencido no coração do homem e Maria revela-se como o trono da graça. Recuperando a nossa vocação de filhos de Deus em Jesus Cristo, somos a nova descendência de Eva, recriados em Cristo, no coração virginal e maternal de Nossa Senhora. Também nós somos, em Cristo, o fruto bendito do seu ventre, o resultado maravilhoso da fecundidade do seu sofrimento e do seu amor. O último capítulo deste drama estamos a vivê-lo; é o longo percurso da Igreja, na abundância da sua fecundidade sacramental, para nos renovar o coração, vencer em nós o pecado e nos tornarmos dignos da intimidade com Deus. Para que Maria fosse uma digna morada para o Verbo encarnado, Deus criou-a imaculada, isentando-a de toda a mancha. É hoje a nossa vez de vivermos o drama da salvação, abrindo o nosso coração à acção do Espírito, que vencerá nele o pecado para, também nós, sermos morada de Deus.


JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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