TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

BENTO XVI, ANTES JOSEPH RATZINGER

 

 

Prof. Josep-Ignasi Saranyana

 

Por amabilidade do Autor, sacerdote catalão, Professor de «História da Teologia» na Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra (Espanha) e Director da revista «Anuario de Historia de la Iglesia» da mesma Universidade, temos o gosto de publicar um extracto adaptado da conferência que pronunciou em Palma de Mallorca, em 20-XI-05, integrada nos «Diálogos Almudi» (www.almudi.org). É fácil de ver que algumas referências correspondem à data da conferência.

 

 

É bom, nestes tempos em que inauguramos um pontificado, dirigir o olhar para a trajectória do Santo Padre antes da sua eleição e contemplar com verdadeiro espanto como a Divina Providência preparou o Santo Padre, durante muitos anos, para a missão que tinha de ocupar a partir do ano de 2005. Nesta preparação, há pormenores que realmente surpreendem.

 

Dividi a vida do Papa numa série de capítulos que vou rever rapidamente, porque são já do vosso conhecimento, embora talvez não tenham tido oportunidade de os contemplar em conjunto, isto é, de um modo orgânico.

Recordemos, em primeiro lugar, que a sua ordenação sacerdotal foi no mês de Junho de 1951. Pouco depois, foi destinado a uma tarefa paroquial em Munich, na Igreja do Precioso Sangue de Cristo (Heilig Blut), onde esteve de Setembro de 1951 a Setembro de 1952. Este trabalho marcou-o muito. Ali ocupou-se da pastoral da juventude, encarregado de dar umas conferências aos jovens, como umas aulas de formação religiosa, que Ratzinger preparava com cuidado e que depois deram origem a uma imediata publicação (em 1958), com o título «Os novos pagãos e a Igreja». Estas conferências revelam a preocupação que o futuro Papa sentia, no tempo imediato ao pós-guerra da Guerra Mundial, pela formação da gente jovem. Tenha-se em consideração que a Alemanha tinha passado pela duríssima etapa do nazismo, entre 1933 e o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. A jovem geração, que de alguma forma tinha sobrevivido à Guerra Mundial, tinha recebido muito pouca formação cristã, embora estivessem baptizados quer os católicos quer também os luteranos. Ratzinger advertiu naquela altura, quando ainda era um recém ordenado, que o objectivo pastoral prioritário era ministrar aos jovens uns fundamentos intelectuais católicos que lhes permitissem depois desenvolver, de uma forma harmoniosa, a sua vida cristã. Terminado este período tão curto de vida paroquial, Ratzinger começou a sua longa etapa académica.

A etapa académica do Papa decorre entre os anos 1952 e 1977. São vinte e cinco anos densos, que ele recorda com alegria e saudade. Primeiro, teve de fazer a sua tese doutoral. Depois, veio a sua tese de candidatura à docência, que é um passo académico que a Universidade alemã exige. Ganhou uma primeira cátedra no seminário diocesano de Frisinga, uma cátedra de nível médio, ainda não universitário. Em 1959 conseguiu já a primeira cátedra universitária (de Teologia fundamental) na Universidade de Bona. A esta seguir-se-iam outras três cátedras, todas de Teologia dogmática: Münster em Westfalia, Tubinga e Ratisbona. Estes vinte e cinco anos têm um momento de auge, de 1962 a 1965, em que Ratzinger interveio no Concílio Vaticano II, primeiro como perito pessoal do cardeal Joseph Frings (Colónia) e depois, a partir de 1963, como perito teólogo do Concílio.

Terminada a carreira académica em 1977, começou a etapa de pastor da Igreja. Em 1977, surpreendentemente, Paulo VI designou-o arcebispo de Munich. Poucas semanas depois, foi criado cardeal. Em Munich esteve uns quatro anos, ao fim dos quais João Paulo II o chamou para Roma, em 15 de Outubro de 1981. É bom recordar que os grandes governantes, e João Paulo II era-o, têm uma rara intuição para descobrir os bons colaboradores. (Os governantes, gente de pouco nível, procuram em geral escolher colaboradores que valham menos do que eles, para que não lhes façam sombra. Os grandes governantes costumam escolher colaboradores que valham tanto ou mais do que eles).

Parece que o conhecimento mútuo se aprofundou durante a primeira visita pastoral que o Papa João Paulo II fez à Alemanha em 1980, por motivo do centenário de Santo Alberto Magno. Ali tiveram uma série de conversas. O actual Bento XVI não sabe polaco, pelo que a língua de comunicação deve ter sido o alemão, que João Paulo II falava bem, e dá a impressão de que, desde desse momento, o Papa ficou com a ideia de levar para o posto chave da Igreja aquele arcebispo jovem que estava em Munich. Efectivamente, Ratzinger integrou-se como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 25 de Novembro de 1981, quando João Paulo II estava convalescente ainda do grave atentado que tinha sofrido em Maio desse mesmo ano. Em Roma esteve até ao ano de 2005, quando começou a sua etapa como Pontífice.

Recapitulando: um só ano de trabalho pastoral como sacerdote no terreno, vigário de uma paróquia, dedicado à pastoral juvenil; vinte e cinco anos dedicado à vida académica como professor universitário do mais alto nível, muito preocupado com a formação dos seus estudantes (durante este tempo, quatro longas temporadas no Concílio); quatro anos e meio como arcebispo de Munich; vinte e cinco anos como Prefeito de um Dicastério romano; e, desde Abril passado, uns meses de Romano Pontífice.

 

Que conclusões podemos tirar deste itinerário?

Primeira conclusão: um sacerdote piedoso. O Papa tinha fama já na sua época professoral de teólogo piedoso. Peço-lhes que considerem as minhas palavras muito longe de qualquer adulação. Contarei um episódio, que convém interpretar no seu verdadeiro contexto, isto é, sem extrapolações indevidas, para não tirar consequências improcedentes. Uma vez, nos anos setenta, perguntei a uma colega alemã, boa historiadora da teologia: «Que tal é o cardeal Ratzinger?» Eu ainda não o tinha conhecido pessoalmente. Recordo que a colega me disse: «Oh, o Professor Ratzinger é um teólogo piedoso, prega todos os domingos». Eis uma nota precisa que situa correctamente a figura do teólogo Ratzinger. Era uma forma de assinalar a sua implicação na vida sacerdotal.

Muitos professores alemães, embora fossem sacerdotes, estavam naquela época metidos por completo na actividade académica, com pouco interesse por determinadas práticas de piedade; talvez com pouco interesse por pregar aos domingos e noutras ocasiões. Nesse contexto, Ratzinger passava por ser uma pessoa de forte vida espiritual. É o que estamos a notar agora, quando já é Bento XVI. Alguns pormenores da sua vida privada transcenderam no Verão passado, quando descansou umas semanas em Vale de Aosta. Soubemos que o Santo Padre se levantava cedo; que rezava demoradamente diante do Santíssimo Sacramento e que celebrava a Missa antes de começar a trabalhar; e que depois trabalhava toda a manhã até à hora do almoço.

Uma vida de piedade e de trabalho não se improvisam, sobretudo quando se atinge já uma relativa maturidade. Digo-o para que se veja a importância de um jovem sacerdote adquirir hábitos de rezar, antepondo-os às actividades de tipo intelectual. João Paulo II deve ter notado, além da sua valia intelectual, a sua vida de piedade, porque o anterior Papa também era muito rezador. Conta-se, efectivamente, que numa ocasião voava de helicóptero, numa viagem pelo Brasil onde estava em visita pastoral. Parece que em Roma tinha ocorrido algo relevante e que o tinham comunicado a uma alta personagem da Cúria romana que também viajava nesse mesmo helicóptero, um meio que, segundo me disseram, é incómodo e faz enjoar muitíssimo. Essa alta personalidade fez várias tentativas para se aproximar de João Paulo II para lhe dar a notícia, enquanto João Paulo II estava metido na leitura do Breviário, sem levantar a cabeça. Parece que essa personagem se inquietou um pouco e que finalmente interrompeu o Papa. Então João Paulo II respondeu-lhe simplesmente: «Convém esperar que o Papa termine as suas rezas». Bem, creio que João Paulo II e Ratzinger eram ambos da mesma «escola», embora com temperamentos diferentes. Isto constitui agora uma grande garantia para o mundo católico; é um bom aval que a cabeça, o Vigário de Cristo, não somente tenha a graça própria do seu cargo, mas que essa graça a torne compatível com uma acrisolada piedade adquirida desde a adolescência.

 

Segundo ponto: um teólogo e pastor dialogante. Bento XVI é um bom intelectual; acrescentaria que é um intelectual de primeira água, de alto nível. A sua qualidade intelectual manifestou-se desde a primeira hora e tem sido cultivada ininterruptamente. A sua tese doutoral, redigida aos vinte e quatro anos, foi um excelente trabalho patrístico sobre Santo Agostinho, indicado pelo seu grande mestre Clemens Gottlieb Söhngen, seu amigo e protector, catedrático de Teologia fundamental na Universidade de Munich, a quem Ratzinger sempre guardou um enorme agradecimento. A sua tese obteve a máxima classificação desde o primeiro momento. Como é sabido, a sua tese de candidatura à docência – segunda tese doutoral que se tem de fazer na Alemanha para obter uma cátedra – teve um percalço considerável. Por fim, foi aprovada e publicou-se. Agora é um livro clássico sobre São Boaventura e a teologia do século XIII. Como já terão ouvido, Bento XVI atribui muito significado ao facto de que essa segunda tese tropeçasse com tantas dificuldades, até ao ponto de lhe ser devolvida e salvar-se por milagre à última hora, com umas alterações notáveis. Concede a este facto uma importância capital na sua formação, porque o ensinou a sofrer e o preparou para compreender a posição do outro.

Convém que nos detenhamos um pouco neste episódio. Os seus dotes de investigador estavam provados. Os seus superiores do seminário diocesano de Frisinga sabiam-no. O seu protector, o professor Söhngen, estava disposto a fazê-lo catedrático da Universidade. Ratzinger era brilhante, bom conhecedor das línguas clássicas e do latim, familiarizado com a melhor tradição da Igreja… Contudo, quando chegou a hora da verdade, a sua tese de candidatura não foi «entendida» por um dos dois examinadores, o Prof. Michael Schmaus, que então era a autoridade indiscutível no mundo académico católico alemão. Ratzinger considerou sempre que essa incompreensão o ensinou a ser sempre muito cuidadoso na interpretação das opiniões teológicas dos outros. A partir desse momento compreendeu que, se com tão boa vontade era mal interpretado por Schmaus, ele também não tinha o direito de interpretar a opinião teológica de outro sem antes ter tentado falar com ele e colocar-se na sua própria situação. Onde vimos expressa recentemente esta atitude? Vimo-la nessa longa conversa, que durou uma tarde inteira e boa parte da noite, que acaba de manter com Hans Küng, que conhece desde 1957, com quem não comunga em muitíssimos pontos doutrinais, como podem imaginar. Contudo, os dois estiveram à vontade em Castelgandolfo no passado mês de Agosto, numa longa vigília que inicialmente estava prevista terminasse antes do jantar e que continuou até muito tarde. Hans Küng saiu da entrevista encantado, mesmo que não se tenha resolvido – pelo menos não transpirou nada a tal respeito – nenhuma diferença de fundo. De que terão falado? Falaram, segundo parece, do interesse de Küng em encontrar uma ética mundial. Como o Papa também está interessado nesta questão, encontraram um tema de conversa… Terão recordado também, suponho, os seus anos de juventude, quando os dois eram colegas na mesma Universidade, e de tantas coisas mais.

 

Terceiro ponto: um eclesiástico com experiência de governo. Os vinte e cinco anos que passou em Roma deram-lhe uma grande experiência de governo na Cúria e um grande conhecimento dos problemas da Igreja universal. É certo que os assuntos importantes decide-os sempre, em última instância, a Secretaria de Estado com o Santo Padre; contudo, por ofício correspondem muitos assuntos à Congregação para a Doutrina da Fé e está previsto, além disso, que se peça o voto desta Congregação em muitos temas que directamente competem a outros Dicastérios. Mais ainda, as questões mais delicadas da Igreja não podem ser despachadas se antes não as viu o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Por exemplo, não se pode nomear um bispo sem que o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tenha estudado o expediente; não se pode tramitar a secularização de um sacerdote se antes não deu o seu parecer o Prefeito dessa Congregação; nenhum Dicastério pode publicar um documento doutrinal sem antes ter passado pelo despacho dessa mesma Congregação; não se pode alterar a legislação sobre assuntos especialmente delicados, se previamente não foram informados pela dita Congregação. Pode dizer-se que por esse Dicastério circula tudo ou quase tudo. O Prefeito para a Doutrina da Fé é sempre uma pessoa especialmente informada. Bento XVI tem, por isso, uma visão muito ampla da Igreja, embora não tivesse, na altura de ser eleito, a «visão política» do Secretário de Estado.

O que acabo de dizer vale para o dia a dia do governo; para os expedientes de trâmite ordinário e extraordinário. Vale também para os debates doutrinais. O Prefeito para a Doutrina da Fé, com efeito, está situado numa atalaia excepcional para tomar o pulso ao curso das ideias em todo o orbe católico, e não só nele. Neste plano, a sua vantagem sobre qualquer outro eclesiástico ao serviço da Santa Sé é notória. Pois bem, João Paulo II publicou muitíssimos documentos doutrinais, embora nem todos do mesmo grau. Qualquer leitor que compare entre si textos de João Paulo II descobrirá que não há um estilo homogéneo. Isto é normal em qualquer governante que tenha muitos compromissos públicos. Há textos com um estilo mais pessoal, de aproximação circular ao núcleo das questões (como alguns dizem) e outros documentos lineares, quase cartesianos. Muitos temos a impressão de que os documentos mais lineares foram preparados por alguns dos seus mais íntimos colaboradores, ainda que, como é lógico, por iniciativa papal e publicados depois com o visto bom do Santo Padre. Quem pode ter sido o colaborador discreto do Romano Pontífice recém falecido, em assunto de uma grande envergadura doutrinal?

Bento XVI acaba de fazer uma afirmação que nos surpreendeu a todos. À pergunta se vai escrever muito, respondeu: «Já se escreveu demasiado e tudo o que tinha de ser escrito já foi escrito. Agora é preciso levar à prática». Para um bom entendedor, que sabe ler entrelinhas, a mensagem está clara. Alguns dos documentos mais densos de João Paulo II estão já sugeridos e, às vezes, mesmo desenvolvidos na tese doutoral, na tese de candidatura à docência e nos documentos que Ratzinger escreveu para o Concílio Vaticano II. Nestes dias tive que redigir um trabalho comparando as obras teológicas do teólogo Ratzinger com alguns documentos do pontificado de João Paulo II, e pareceu-me descobrir que muitas das preocupações de João Paulo II respondem a temas que o professor Ratzinger tinha desenvolvido na sua primeira época, como teólogo muito jovem, inclusive antes de ganhar a sua primeira cátedra universitária, quer dizer, nos anos que decorreram entre 1951 e 1959.

 

Ao encerrar esta panorâmica das virtudes espirituais e sacerdotais de Bento XVI, posso fazer a seguinte pergunta: que procuravam os eleitores do conclave quando procederam à eleição? Procuravam provavelmente um sacerdote piedoso, um bom intelectual, uma pessoa com experiência de governo da Igreja universal e um íntimo colaborador de João Paulo II. Quem reunia esse perfil? A resposta parece bastante óbvia.

Por isso, quando a imprensa especulava sobre quem podia ser, alguns sorriam, porque não havia senão um candidato claro ou, quando muito, mais um ou dois, que ficaram rapidamente para trás. É evidente que o único homem que podia ser era ele. Não se cumpriu o aforismo romano de que «quem entra Papa sai cardeal»; neste caso entrou no conclave um cardeal que se temia, inclusivamente ele próprio, que podia ser eleito e que não o desejava. É evidente que a sorte estava lançada de antemão.

O seu pontificado será curto, pela lei natural da vida, mas será brilhante.

 


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