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«QUEM  VIRÁ  A  SER  ESTE  MENINO?»

 

Hugo de Azevedo

 

Esta era a pergunta dos parentes e vizinhos de Zacarias, quando Isabel deu à luz o Precursor. Esta, a pergunta que fazem a si mesmos os pais de qualquer criança quando a contemplam no berço. Um misto de sonho e temor. Virá a ser um notável deste mundo? Um santo? Um herói? Ou virá a cair em tantas armadilhas que há na vida, desgraçando-se e desgraçando outros?... Que talentos lhe dará o Senhor, que gostos serão os seus, que personalidade desenvolverá, que oportunidades lhe serão dadas, que caminhos trilhará, que serviços prestará aos outros?...

Só sabem que será diferente de qualquer outra pessoa, e que, se não viesse ao mundo, o mundo seria menos rico de humanidade. E preparam-se para o amparar na aventura da existência, arrostando o que for preciso para ajudá-lo a ser feliz.

Aquelas são as perguntas que ninguém pode fazer perante os destroços de um feto abortado, ou diante dos embriões congelados, que não contam senão como algarismos de uma percentagem qualquer. Como se o mundo tivesse perdido apenas «uma quantidade» de gente, aliviando os outros de encargos e cuidados... Milhões de cérebros, de corações, de focos de energia... para o lixo!

Num consultório, a médica tentava animar uma mulher a deixar vir à luz o filho que levava no seio. A pobre mãe não se convencia com nenhum argumento. – «Olhe que pode vir a ser o salvador do país!», lembrou-se a médica de acrescentar. E, para seu espanto, viu brilhar os olhos daquela mulher. Tinha-a convencido!

É curioso como funcionam em segredo os sentimentos! «Porque não abortar? Se esta vida não presta para nada!...» O aborto representa o cúmulo do pessimismo; e nasce sempre de uma tristeza profunda, de uma visão depressiva de tudo e de todos. Mas a só ideia de que «isto» pode mudar, de que o mundo pode ser melhor, de que o país é capaz de rejuvenescer e tornar-se um campo de alegria, de honestidade, de solidariedade, bastou para fazer rebentar numa alma triste o amor à vida. Sim, vale a pena viver para colaborar nessa revolução! E trazer ao país homens e mulheres capazes de «salvá-lo»!

Este é, no fundo, o grande problema: a falta de esperança. Só ouvimos falar de mortes, ódios e desgraças. Caem sobre nós todos os dias as mais variadas e horríveis ameaças, escritores cínicos, poetas devassos, cantores ordinários, pensadores labirínticos, políticos confusos... A escola não educa, a administração corrompe-se, a família desfaz-se... Esfumam-se na comunicação social os mil sinais positivos que brotam por toda a parte... Neste ambiente de imagem tenebrosa, que mal tem «botar fora» os filhos?

Por isso, antes de perguntar «que será deste menino?», já a mulher infeliz se sente no «direito» de lhe negar a existência. Mas, no fundo, nunca mais deixará de perguntar a si mesma: - «Quem viria a ser aquele meu filho? Serão os filhos das outras que salvarão o país?»

Ninguém desanime, porém, porque «um Filho nos foi dado; um Menino nasceu para nós», um Menino que, no meio de muitas dificuldades, Maria deixou vir ao mundo. Tudo recomeçou – e para muito melhor – no Natal. Por mais escuro que seja o nosso mundo, houve Alguém que teve esperança em nós, que nos fez ver quanto valemos, e que nos enche de esperança a alma e de amor à vida. 

 


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